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Uma âncora na memória de Silves

Museu da Cortiça

Silves foi, desde meados do século XIX, um dos principais centros produtores e exportadores de cortiça do pais. Nas décadas de 20 e 30 chegaram a existir cerca de 60 fábricas que empregavam, directa ou indirectamente, mais de 1000 operários, quando a população total da cidade rondava os 7000 habitantes. Gregório Mascarenhas, português, Arturo Barris, catalão e Henry Avern, inglês, associaram-se no final do século passado para fundarem a Avern, Sons & Barris, uma das mais prósperas fábricas de transformacão de cortiça de Silves. Em 1894, a "Fabrica do lnglês" iniciava a sua laboração. Hoje, o seu espólio pode ser visitado no Museu da Cortiça.

Se Gregório Mascarenhas ou o Sr. Sadler entrassem hoje nas suas antigas oficinas da "Fábrica do lnglês", onde centenas de operários se ocupavam na transformação da cortiça "virgem" em rolhas dos mais diversos formatos e tamanhos e em pranchas de cortiça que eram exportadas para todo o mundo, ficariam espantados com a nova dimensão que ganhou este espaço, onde desde o passado mês de Outubro funciona o Museu da Cortiça.

Este espaço impressiona imediatamente pela simplicidade e pela escolha dos materiais usados: tudo é amplo, luminoso e cheio de espaço. A entrada, uma moderna e confortável sala de audiovisuais, permite que os visitantes acompanhem um filme de cerca de oito minutos sobre o processo de transformação da cortiça, produzido por uma equipa que trabalha para a estação de televisão SIC. Mas o director do Museu, Manuel Ramos revela que, em breve, poderiam ser visionadas outras duas películas, muito antigas e que estão a ser recuperadas pela Cinemateca Nacional, que estabeleceu um protocolo de cooperação com o Museu (ver caixa). Depois, inicia-se um percurso por diversas salas. Os visitantes acompanham o processo de evolução da indústria corticeira e, simultaneamente, da cidade, que foi crescendo e se transformou, em grande medida devido a esta actividade (basta recordarmos que a indústria corticeira silvense chegou a deter cerca de 40% da produção nacional do sector). Por entre máquinas e utensílios, podem conhecer-se as figuras mais importantes ligadas à história da "Fábrica do lnglês", bem como às palavras caracteristicas desta actividade. Fica-se a saber como se fabricavam as rolhas: a cortiça tinha primeiro que ser limpa e "cozida" para ficar mais macia e livre de impurezas; depois era cortada em "rabanadas" ("tiras" de cortiça) e dessas eram feitos "quadros" (pequenos cubos), que tomavam a seguir o formato de rolhas. Tudo isto em perfeito estado de conservação, e as máquinas trabalham, graças a dois antigos operários, o Sr. Horácio e o Sr. Diamantino, os responsáveis pela recuperação, manutenção e limpeza; até a velha máquina, que punha toda a linha de produção a trabalhar, funciona.

Quase todos os objectos expostos neste Museu pertenciam ao espolio da antiga "Fábrica do lnglês" (outras foram oferecidas por outras empresas e por muitos particulares). Na verdade, a ideia de criar este espaço nasceu com a necessidade de dar um destino a esse vasto conjunto de peças de carácter documental e tecnológico que foram encontradas nas instalações pelos actuais proprietários, aquando da compra do recinto. "O nosso administrador, José António Silva, costuma dizer que queria inicialmente fazer uma churrasqueira, mas que quando lhe disseram que a Fábrica estava à venda, os seus horizontes abriram-se, porque uma churrasqueira era uma ideia muito pequena para um espaço como este", conta Manuel Ramos. Surgiu, assim, a necessidade de dar um sentido e uma utilidade maior a um empreendimento com características essencialmente comerciais, virado para o turismo e para a animação, mas que tivesse como "pivot" um local de interesse histórico. Manuel Ramos afirma mesmo, que o "Museu é uma âncora da memória da população" e que num momento em que a indústria corticeira parece ganhar nova força e importância no panorama industrial português é indispensável recuperar estas memórias, aproveitando muito daquilo a que chama "o património humano de Silves", ou seja, todas aquelas pessoas que ainda são vivas e que tiveram actividades profissionais ligadas à Cortiça.

Quando a Fábrica do Inglês, S. A. tomou a decisão de levar adiante este projecto, a Associação de Defesa do Património Histórico de Silves foi contactada e através de Manuel Ramos pediu-se a colaboração do Professor Jorge Custódio, perito em Museologia e Defesa do Património Industrial, para a elaboração de um projecto de construção de um espaço com caracteristicas museológicas.

As obras do Parque da Fábrica do Inglês decorreram ao mesmo tempo que decorreu a construção do Museu. "Nós estávamos a fazer a construção e readaptação do espaço e ao mesmo tempo estávamos a "criar" o recheio do Museu", revela Manuel Ramos e acrescenta: "Quando se faz um Museu temos que ter uma linguagem museográfica, temos que ensinar, temos que dizer, criar painéis. E mesmo que uma intervenção fosse o mais minimalista possível - que era essa a nossa intenção, tinha que haver transformações. O nosso trabalho espalhou-se por outras zonas da Fábrica, porque este Museu é entendido como um Museu aberto, que se alarga ao espaço do Parque, porque havia máquinas de rara beleza noutros sítios, havia espaços a decorar e não fazia sentido estar a fazê-lo com outros elementos que não fossem ligados às antigas funcionalidades dos espaços" Assim, de Abril de 1998 a Julho de 1999, ou seja, até à inauguracão do complexo da Fábrica, a equipa de trabalho composta pelos já referidos antigos operários, pelo professor Jorge Custódio e pelo Manuel Ramos, procedeu aos trabalhos de recuperacão e investigação, a e1aboração do Catálogo do Museu que, segundo nos disse este último, era "ponto de honra" estar terminado na data de inauguração. Também colaborou na elaboração do guião do espectáculo multimédia. Depois, de Julho a Outubro de 1999 fizeram-se as obras, já apenas nas insta1ações do Museu e colocaram--se aí todas as peças que fazem parte da actual exposição.

No entanto, o Director do Museu acha que ainda lhe faltam algumas coisas, nomeadamente no que diz respeito ao sector do Arquivo e do Centro de Documentação.

"Queremos constituir uma pequena Biblioteca de temática corticeira e local, onde as pessoas possam consultar livremente estes livros e a pouco e pouco, logo que haja possibilidades, ir disponibilizando o nosso material arquivístico", afirma. Mas para que estes sonhos se tornem realidade ainda vai levar algum tempo, pois para isso é necessário, segundo Manuel Ramos, material que permita digitalizar ou microfilmar documentos e pessoal que possa restaurar e classificar o arquivo, o que ainda não existe. Por agora, ficam no ar estas ideias e a vontade de estabelecer projectos de colaboração com as escolas do concelho e com outros museus, nomeadamente ligados à Cortiça, como é o caso dos museus da Moita, Seixal, Portalegre e Santa Maria de Lamas. E fica também uma certeza: a este espaço museológico, um dos poucos do nosso concelho, foram cerca de 200 pessoas por dia, o que perfaz cerca de 2600 pessoas só no primeiro mês da sua existência.

Sandra Moreira

Cinemateca Nacional recupera filmes com o apoio do Museu da Corti�a

A Cinemateca Nacional, em resultado de um protocolo estabelecido com a Fábrica do lnglês e com o Museu da Cortiça, está a recuperar dois importantes filmes sobre o processo de transformação deste produto, que depois poderão ser vistos por todos os visitantes deste espaço museológico. Os custos da recuperação serão suportados pelas duas entidades, a Cinemateca e a Fábrica do lnglês, S.A.

Desta forma, recupera-se um património audiovisual de grande relevância, não só a nível concelhio, como a nível nacional. Existem raros testemunhos cinematográficos que mostrem como decorria todo o processo de recolha e transformação da cortiça no período áureo da sua produção e exportação, ou seja, desde o início até meados do século xx.

Para além disso, se não se tivesse estabelecido este protocolo, os ditos filmes corriam o sério risco de permanecerem no esquecimento e de se deteriorarem (o que, aliás, já estava a acontecer). Assim, brevemente poderá ver mais duas importantíssimas obras documentais no auditório do Museu da Cortiça, na Fábrica do Inglês.

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