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Dia Mundial da Bengala Branca

Em terra de quem vê... o cego é...

Imagine por segundos que a luz faltava e que não tinha lanternas, nem velas em sua casa. Certamente, ficava em pânico, pois deslocar-se tornar-se-ia bastante penoso. Agora imagine que essa não era uma situação temporária e que, por uma razão qualquer, deixava de poder ver, ficava cego...

No mês em que se comemora o "Dia Mundial da Bengala Branca", O GRÉS quis conhecer um pouco da vida e das dificuldades que enfrentam as pessoas cegas. Conversou com a professora Virgolina Carpentier, que lecciona alemão na Escola Secundária de Silves e que perdeu a visão aos seis anos de idade.

No passado dia 15 de Outubro, todos pudemos ver nos noticiários televisivos o Ministro da Solidariedade Social, Ferro Rodrigues, a tentar comprar um bilhete no metro de Lisboa, com os olhos vendados.
A ideia partiu de uma associação de cegos portuguesa e tinha como objectivo alertar as instituições governamentais, autárquicas e as empresas para as dificuldades que os cegos enfrentam diariamente. Mas esta iniciativa, levada a efeito no "Dia Mundial da Bengala Branca", revela apenas um dos aspectos que normalmente mais afecta a vida de quem não vê: as deslocações.
Há muito mais, como nos relatou Virgolina Carpentier, professora de alemão na Escola Secundária de Silves. �As coisas mais simples, para nós tornam--se uma complicação�, diz. É o caso de uma simples ida ao supermercado. Os artigos estão sempre a mudar de posição e é preciso recorrer a alguém que possa indicar este ou aquele produto, ou então, optar por ir a uma mercearia das mais tradicionais e esperar que quem atende seja simpático e seleccione todos os produtos pedidos. É claro, que se paga mais caro. Cozinhar é outra das grandes dificuldades que enfrenta uma pessoa cega. Por exemplo: verificar se um assado no forno está ou não pronto é praticamente impossível. Isto para já não falar da combinação das peças de vestuário e do tempo necessário para realizar qualquer tarefa. �Hoje, as pessoas queixam-se de falta de tempo�, afirma Virgolina Carpentier,�mas eu levo uma eternidade para fazer qualquer coisa, levo o dobro do tempo!�

Ligada ao ensino há muitos anos, esta professora de alemão também se referiu às dificuldades que enfrentam os cegos nas escolas. �Antigamente, qualquer cego era deslocado para uma instituição própria, para estudar e isso fazia com que as pessoas ficassem muito isoladas�, conta. Mas a partir dos anos 60, as escolas normais começaram a receber os invisuais, o que trouxe muitos benefícios à sua integração social e ao seu desenvolvimento enquanto pessoas, mas prejudicou-os noutras áreas. �Em termos de aprendizagem perdeu-se muito, pois nessas escolas tinham material próprio e estavam longe dos pais, o que fomentava a disciplina�, confirma Virgolina Carpentier. A escola actual não está preparada para desenvolver a memorização, a grande arma dos cegos e os equipamentos que possuem também não são os melhores. Aliás, Virgolina Carpentier queixa-se de forma ainda mais vincada da falta de técnicos especializados para darem assistência sempre que há avarias em computadores e outros equipamentos e sugere ao Ministério da Educação a criação de um grupo de apoio que possa actuar rapidamente nestas circunstâncias.

Mas a escola está longe de ser o único problema, nem sequer é o maior. Quando finalmente acaba a escolaridade, o que fazem os cegos? Onde trabalham? �A memória e a vontade de superar as dificuldades fazem dos cegos pessoas que rendem muito�, assegura a professora da Escola Secundária de Silves, mas também refere que �é preciso criar cargos nas instituições do Estado para pessoas cegas, como por exemplo nas secretarias ou no atendimento telefónico�. Os apoios do Estado não são muitos e só recentemente é que surgiram. Virgolina Carpentier mostrou-nos um aparelho portátil que utiliza para poder guardar informação sobre os seus alunos, sobre as aulas que vai dar e que foi comprado com financiamento total do Estado. �Candidatei-me às Ajudas Técnicas e, pela primeira vez na minha vida, recebi um subsídio�, diz.
Este aparelho custa a módica quantia de 1500 contos. Quais são os cegos, em Portugal, que o podem comprar, se não forem ajudados? Entretanto, na Alemanha, por exemplo, os invisuais recebem o seu ordenado e um subsídio para poderem fazer face a uma série de despesas que têm.

Tudo isto nos faz pensar que a ONU, ao criar o "Dia Mundial da Bengala Branca" não estava apenas a tentar alertar a opinião pública para os problemas de locomoção dos cegos.

Sandra Moreira

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