Brasília, quarta-feira,
13 de setembro de 2000

Educação
Lições de cidadania e ética

Especialistas defendem o ensino de direitos humanos nos colégios do país para formar cidadãos mais conscientes de seu papel social 

Da Redação 

A escola já deixou de ser simplesmente um local destinado à formação de profissionais para o mercado de trabalho. Além de estudar português, matemática e história, os alunos precisam aprender valores e conceitos que os tornem cidadãos prontos para viver em sociedade. O ensino de direitos humanos, ética e cidadania é visto como uma boa proposta para atingir essa meta. ‘‘Vamos formar pessoas capazes de trabalhar pelo bem comum’’, afirma Neide Nogueira, assessora da Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação, que participou do seminário O Ensino em Direitos Humanos, realizado esta semana na Câmara dos Deputados. Assim como ela, os especialistas, estudantes, professores e parlamentares reunidos no encontro esperam, dessa maneira, reverter o constante crescimento da violência, fome, miséria e maus-tratos que ocorre no país e no mundo.

No Distrito Federal algumas experiências nesse sentido estão sendo realizadas com sucesso em algumas escolas de ensino médio, fundamental e profissionalizante. A escola Granja das Oliveiras, do Recanto das Emas, é um exemplo disso. Há dois anos é desenvolvido no colégio o projeto O Caráter Conta, que incentiva os alunos a cultivarem seis valores básicos: sinceridade, responsabilidade, respeito, senso de justiça, cidadania e zelo. O método foi desenvolvido pela Organização Não-Governamental (ONG) Companheiros da América e apresenta resultados rápidos.

‘‘Em apenas três meses acabamos com o roubo de objetos, diminuímos as brigas nos recreios e melhoramos a interação das crianças com os funcionários da escola’’, enumera Gilvaci Rodrigues, que implementou o projeto quando era diretora da escola. Além disso, os estudantes passaram a realizar trabalhos voluntários junto a creches e asilos. ‘‘Não basta aprender valores. É preciso exercê-los’’, afirma Gilvaci. 

No Gama, a escola profissionalizante do Senai também adotou o método O Caráter Conta há algumas semanas. Desde então, os alunos têm realizado dinâmicas sobre cada valor nas oficinas de que participam. ‘‘Detectamos alguns problemas sérios de drogas, falta de estrutura familiar e ausência de valores’’, conta a professora de artes Márian de Oliveira. ‘‘Agora compreendemos o porquê das faltas e baixo rendimento.’’ 

Em um dos exercícios de grupo, os alunos devem colar numa caixa uma gravura que represente o maior problema de suas vidas. Quando participou da dinâmica, o aprendiz de eletricista, Amilton Chaves, de 18 anos, recortou uma família vivendo em baixo de uma ponte. ‘‘Colei a gravura porque na minha casa não falta comida e mesmo assim meus irmãos xingam a minha mãe’’, reclama, revoltado com o comportamento dos irmãos. Ele mesmo não era muito próximo à família. Somente agora, depois de aprender o valor do zelo, passou a se dedicar à mãe. ‘‘Hoje, a beijo e abraço sempre que posso’’.

Já os alunos da oficina de Mecânica de Suporte aprenderam a respeitar o próximo. Antes das dinâmicas, eles brincavam de melar os colegas com óleo para se divertir. Hoje, pararam com a sujeira. ‘‘Não podemos sujar a roupa de ninguém porque não somos nós quem vamos lavar’’, revela com simplicidade Daniel André, de 16 anos. Segundo Gilvaci, tal conscientização é o primeiro passo para a formação de um cidadão esclarecido.

Outra maneira de ensinar Direitos Humanos é dentro de uma disciplina, como na Escola das Nações, no Lago Sul. Lá, os alunos têm aulas de ética da 5ªà 8ªséries. Fazem parte do currículo a aquisição de valores, estudos sobre as grandes religiões, violações dos direitos humanos e serviços à comunidade. ‘‘Tentamos mostrar para esses adolescentes que ninguém é melhor que ninguém, independente da raça, credo, cor ou condição social’’, resume o professor de Ética, Daniel Vaillecourt. Se cada um fizer sua parte, acreditam os professores das três escolas, conseguiremos transformar o mundo.

Os professores estão convencidos também de que essa mudança deve começar logo. Apesar de a Declaração Universal dos Direitos Humanos ter mais de 50 anos, apenas uma parte da população tem consciência dos direitos que ela garante. O desrespeito é tanto, que nesse mesmo período já aconteceram mais de 300 guerras em todo o mundo. Anualmente, milhares de crianças continuam morrendo de fome e as nações ricas, ao invés de se empenharem para resolver o problema, investem mais de U$ 125 bilhões em armamentos.

‘‘As leis existem, mas não são cumpridas’’, lamenta o presidente da Comissão de Educação da Câmara, Marcos Rolim (PT-RS). Justamente por isso, o ensino em direitos humanos não se preocupa em fazer os alunos decorarem artigos, direitos e deveres. Pretende-se, ao invés disso, criar uma nova geração cidadãos apaixonados pela vida e pela justiça.

 

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