Brasília,
quarta-feira,
27 de setembro de 2000
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Tema do
Dia
Ensino
fundamental: Um passo atrás
Estudo do MEC
mostra que 23% dos estudantes brasileiros já estão no sistema de
ciclos — que, entre outras coisas, permite ao professor dar mais
atenção ao aluno. Mas, no DF, modelo foi extinto apesar de pais,
professores e alunos o aprovarem
Humberto
Rezende
Da equipe do Correio
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| Alunos de uma escola pública
que havia adotado o sistema de ciclos: elevação da
auto-estima |
Uma pequena revolução
está acontecendo no ensino fundamental de quase todo o país. A
velha forma de organizar os alunos por séries (1ª a 8ª, no
ensino fundamental; e 1ª a 3ª, no médio) parece estar com os
dias contados e vai sendo substituída pelos ciclos de
aprendizagem-sistema que agrupa os alunos em fases variáveis
entre dois e quatro anos. Assim, os professores têm mais tempo
para acompanhar o desenvolvimento das crianças. Nesse modelo,
como o aluno não é reprovado ao final de um ano, o professor
avalia que aspectos do seu aprendizado não foram desenvolvidos
suficientemente e os trabalha no ano seguinte. E ele continua
estudando com colegas de sua idade, com os mesmos interesses e
maturidade, o que no mínimo eleva sua auto-estima.
A constatação que o ensino brasileiro caminha para
essa estrutura foi feita pelo Ministério da Educação (MEC).
Pesquisa divulgada ontem mostra, utilizando dados de 1999, que 23%
dos alunos do ensino fundamental no país estão matriculados em
colégios que adotam os ciclos. E em dois estados, São Paulo e
Espírito Santo, as escolas que aderiram à nova organização já
são maioria.
Para Maria Helena Castro, presidente do Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que realizou
o levantamento, essa é uma boa notícia. Segundo ela, o sistema
de ciclos é mais eficiente, o que já foi comprovado em países
como Inglaterra, França e Alemanha. O diretor do Departamento de
Políticas da Educação Fundamental do MEC, Walter Takemoto, também
considera os dados um sinal positivo. ‘‘Nos ciclos, o
professor tem mais tempo para acompanhar o aluno e não se
preocupa apenas em transmitir o conteúdo daquele ano’’,
aponta.
O Distrito Federal, porém, está fora dessa tendência.
Não porque ainda não adotou o modelo de ciclos. Mas porque o
extinguiu este ano. Em 1997, foi iniciada nas escolas públicas de
Brasília uma experiência chamada Escola Candanga, que adotava o
sistema de ciclos (aqui chamados de fases) e chegou a atingir 23%
dos alunos da rede pública. A proposta foi extinta este ano, por
decisão da secretária de Educação, Eurides Brito.
Mas Eurides, quando tomou essa decisão, não ignorou
apenas as opiniões do MEC. Ela ignorou também a opinião inicial
de professores, diretores e pais de alunos de cinco colégios onde
o modelo da Escola Candanga era aplicado e que manifestaram o
desejo de que o projeto fosse mantido. No máximo, pais,
professores e alunos pediam correção de algumas falhas.
EMPENHO PARA MELHORAR
Pesquisadores da Fundação
Cesgranrio, contratados pela própria Secretaria de Educação
para avaliar o projeto e o sistema educacional público do
Distrito Federal, observaram que, apesar de alguns problemas na
implementação da Escola Candanga, a aceitação da proposta na
cinco escolas estudadas era grande e os colégios se empenhavam em
trabalhá-la cada vez melhor. ‘‘Os professores, diretores e
pais pedem a continuação do projeto’’, afirmaram os
pesquisadores num relatório preliminar.
Foi observado também o comprometimento dos funcionários
das escolas analisadas para o sucesso do programa. ‘‘Por
acharem que a proposta é boa, as escolas se empenham para
trabalhar cada vez melhor o projeto. É grande a aceitação do
que é proposto pela Escola Candanga e de grande parte dos
procedimentos’’, escreveram os pesquisadores. Porém, não
foram além dessas primeiras conclusões porque Eurides não deu
seguimento à pesquisa e determinou que ela fosse suspensa.
Por que essas observações iniciais não foram em
frente? A secretária de Educação diz que preferiu substituir
essa análise por um novo tratamento estatístico dos resultados
de provas de matemática e português aplicadas nos alunos da
rede. Esses testes eram parte da pesquisa encomendada à
Cesgranrio para comparar o rendimento dos alunos dos colégios que
adotavam o modelo de Escola Candanga com o dos alunos das outras
escolas. Eurides afirma que a forma como a Cesgranrio apresentou
os resultados era incompreensível ao público comum. ‘‘Queria
um documento que professores, alunos, todos pudessem
entender’’, diz.
Para Jacy Braga, diretor da Fundação Educacional do
Distrito Federal na época da implementação da Escola Candanga,
a explicação de Eurides não convence. Segundo ele, havia
interesse explícito em dar fim ao projeto. ‘‘Houve motivação
política. Tudo que era do governo Cristovam (Buarque, governador
à época que o programa foi implementado) tinha que ser extinto.
A secretária usou apenas os pontos da pesquisa que interessavam a
ela. Quando viu que os resultados seriam favoráveis ao sistema de
fases, suspendeu a análise qualitativa’’, afirma.
Duas versões em choque
A secretária
de Educação do DF, Eurides Brito, nega que tenha extinto o
programa Escola Candanga apenas por razões políticas. Exaltada,
diz que processará quem acusá-la de manipular a pesquisa
encomendada à Cesgranrio. ‘‘Um estudo qualitativo não
alteraria os resultados da análise quantitativa, que mostrou que
a Escola Candanga não apresentou uma melhora significativa no
sistema de ensino’’, diz.
A secretária se refere aos testes de Português e
Matemática aplicados aos alunos de escolas que adotavam ambos os
sistemas. Afirma ainda que, quando pediu à Cesgranrio um novo
tratamento aos dados quantitativos, ouviu dos coordenadores da
pesquisa que teria que pagar mais por essa nova análise.
‘‘Então suspendi o estudo qualitativo, que seria feito também
em cinco escolas que não adotavam o modelo da Escola
Candanga’’, explica.
Nesse ponto, a versão da secretária se choca com a
de Nilma Fontanive, uma das coordenadoras da pesquisa. Ela diz que
quando o acordo entre a Secretaria de Educação e a Cesgranrio
previa apenas a análise qualitativa da Escola Candanga. ‘‘A
secretária pediu um estudo de caso das escolas que não adotavam
o modelo depois que já tínhamos começado a pesquisar as escolas
que adotavam as fases’’, conta. Eurides nega essa versão.
‘‘Só se for na cabeça dela que o acordo não previa uma análise
das escolas seriadas’’, diz.
Mas no relatório preliminar preparado pela Cesgranrio
onde estão as observações iniciais dos pais, diretores e
professores, e entregue à Secretaria de Educação com data de
julho de 1999, os objetivos da pesquisa estão explicitados e não
fazem nenhuma menção a qualquer análise qualitativa das escolas
seriadas. Quando faz menção a análise qualitativa, a apresentação
do estudo preliminar diz apenas: ‘‘Realizar a avaliação
qualitativa de cinco unidades desenvolvendo o projeto de escola de
ensino fundamental não seriada’’.
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