A PROV�NCIA DE P�
����������� (Trecho de inicial do Romance - As autoridades locais v�o averiguar um crime ins�lito nos arrabaldes da prov�ncia.)
  De algum lugar, jorrava uma �pera com fortes ind�cios de Caruso, embora, certamente, ningu�m pudesse afirmar ser ele ou uma das imita��es que agora surgiam �s dezenas, sulcadas nos pesados bolach�es negros de selos centrais cada vez mais belos e trabalhados em motivos ora dourados, ora prateados, mas sempre impressos sobre o mesmo pl�cido fundo azul-marinho.
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� medida que os homens se aproximavam da casa - t�o pobre e ruinosa quanto as demais -, podiam ouvir a obra com maior intensidade e nitidez, chegando a repetir mentalmente alguns de seus trechos mais marcantes.
  Vinham a p�, lado a lado, silenciosos, caminhando atrav�s do vilarejo distante, calcando a poeira, os pedriscos, a tortuosidade arenosa da rua em suas mais inconfessas expectativas sobre a ocorr�ncia, que, geralmente, nunca era t�o grave quanto a vers�o denunciada.
   Pelo sim, pelo n�o, Paisana telegrafara � Comarca ainda na madrugada solicitando a presen�a duma autoridade de maior patente nas desoladas paragens de Formigas, dando pelo meio da manh�, com este que agora ofega ao seu ombro de m�o no peito - espremendo alguma dor -, carregando sobre as pernas mais de cento e vinte quilos duma corpul�ncia bovina, enclausurada no enorme terno surrado de tantas dilig�ncias e, qui��, sutilmente equilibrada, pelo espesso bigode negro.
   � Sob escaldante sol das onze horas, chegaram ao cercado da moradia, onde as pessoas, aos grupelhos, confabulavam sobre o horror do ocorrido. Crian�as curiosas e zombeteiras, desligavam-se das m�es novamente prenhes, correndo febris pelo quintal devastado, grudando-se �s janelas prec�rias, mascando frutinhas silvestres - cuspindo os caro�os nos primos ou irm�os -, urinando nas �rvores cascudas e tornando a correr em c�rculos, batendo asas feito aves fren�ticas, pulando como macaquinhos atoleimados, cacarejando ao particular modo das ariscas galinhas-do-mato.
   A �pera tornou-se clara e demasiadamente melanc�lica. Adentraram. O delegado tirou o bra�o do gramofone para o lado e tomou o disco nas m�os, apreciando seu peso e dimens�es. Leu o selo, sorriu; sacudiu-o no ar distraidamente, abanando-se com ele enquanto olhava o todo ao redor. Ent�o, voltou-se novamente para a geringon�a e a encheu de corda, recolocando o bolach�o negro no lugar de origem: assistindo-o girar velozmente, atribuindo ao selo n�o mais a imponente forma anterior e sim a ex�tica qualidade dum aro dourado, como um daqueles pires chineses que vira certo dia em casa do senhor Intendente. Deixou o bra�o suspenso no aparador, admirando os caprichosos rococ�s entalhados no enorme funil met�lico, tocou por tr�s vezes a agulha pontiaguda com o polegar gorducho, fazendo-se pensativo.
   Enfim, foi at� a janela, correndo a desbotada cortina de chita, tapando o mundo l� fora, revestindo o ambiente da solene aura privada que toda investiga��o oficial devia ter. O cabo ainda fu�ava numas quinquilharias adjacentes a pretexto de provas quando foi guindado pelo outro j� a caminho do quarto, rumaram ouvindo o prato do gramofone chiar, esvaziando a corda, como a vida que se esvai a cada volta dos ponteiros.
   - Pombas, que este buscava mesmo todo o prazer do mundo! - alardeou o delegado ao ver o corpo do homem estourado sobre o leito de casal.
   Era um c�modo simples, composto por mobili�rio decr�pito, arruinado n�o s� do descuido cotidiano mas, sobretudo, pela destemida e voraz a��o dos cupins de segunda m�o, adquiridos concomitante �s tralhas � v�spera do casamento mais ins�pido, inodoro e incolor de que at� hoje se tem not�cia naqueles rinc�es agrestes, esquecidos inclusive pelo tempo, que ali ainda n�o corre nem caminha, mas escorre pastoso, lento e pregui�oso, tocado apenas pelas c�lidas lufadas de uma brisa agonizante, impontual, mas imut�vel: eternamente sonolenta.
   �Em p�, circunspectos, olhando o cad�ver de ventre lacerado, permaneceram os homens da lei, simulando um insuspeito desd�m profissional, como se no simpl�rio e quase imaculado canteiro de cravos e rosas sem que se encontravam - pois assim um dia impingira ao local o senil vig�rio de bochechas rubras - fosse absolutamente trivial que algu�m surgisse morto com um roj�o de tr�s bombas metido na bunda. Contudo, delegado e cabo portavam-se conforme concebiam ser academicamente aceit�vel, tentando decerto, recorrer � mem�ria ou mesmo a um discreto soslaio cruzado, buscando as rea��es m�tuas.
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