Aproveitando a presen�a de todos ao redor deste meu sofrido cad�ver - que s� eu sei, ainda se comunica, a bem do doutor "Incompetente" Fausto afirmar que n�o - lan�o fora toda a verdade - e j� n�o sei se agora vai pela boca, pelos olhos ou pelo buraco de baixo - acerca de quem foi realmente frei Lup�rcio dos Vinhais e de como se apossou de Francisco Proven�a, �rf�o da mendiga Anacleta e de um certo marinheiro holand�s de nome impronunci�vel no ramo latino dos muitos idiomas mundanos nos l�bios de bastardos curiosos e alertas, espiando com olhos miscigenados seus poss�veis pais famintos, beberr�es e suarentos ora atracando, ora zarpando dos portos mais rec�nditos, semeados de armaz�ns, esperan�a e desolo, nos quais sempre haver� uma jovem cr�dula ou uma rameira descuidada das regras a labutar m�s integral e mesmo depois, j� de pan�a cheia e pernas inchadas e dores na coluna e enj�os sem aviso e o diabo que as carregue - abaixando o valor do cach� na medida em que inflam ou nauseiam -, visto que - na melhor das hip�teses - n�o se sustenta pai entrevado ou genetriz caolha com indol�ncia ou nove-horas de mulher prenhe; pois acreditem senhoras e cavalheiros que ora espreitam condo�dos esta minha carca�a inerte: n�o sei ainda, �s portas dos c�us ou do inferno se m�e Anacleta estaria enquadrada em tal categoria ou na das que mo�oilas insontes que concebem em cada marujo o pr�prio capit�o do navio sen�o o armador em pessoa, embriagado e inadvertido a chapinhar sem rumo ou sem culpa nas po�as d��gua dos paralelep�pedos adjacentes ao cais. S� posso afirmar que houve uma chuva, dessas de ver�o; ent�o eu vim ao mundo e a ouvi cantar uma moda de roda que j� n�o lembro - nem me importa - e pouco al�m desse tempo, suspensa em meu imagin�rio, paira a remota cena de sua m�o espalmada e seus olhos lacrimosos mirando os passantes no met�dico vaiv�m das pupilas amarelas, nossas sombras esqu�lidas e mutantes esparramadas numa escadaria que mais tarde t�o bem conheci - aquela que ainda ontem vi em sonho, a preceder o frontisp�cio do Santa Marcelina: nossas sombras ainda jaziam l� muito ap�s todos estes anos, marcas t�nues, por�m presentes como inscri��es rupestres de um tempo impreciso -, degrau ap�s degrau: o calv�rio diuturno no qual as freirinhas nos observavam silenciosas l� de suas clausuras que ainda hoje emergem t�midas do telhado � direita da nave, apesar das muitas reformas. E foi justamente daquelas janelas estreitas de ligeira semelhan�a a pequenas urnas funer�rias que em certa manh� aos primeiros sinais da aurora, surgiu o olhar de uma novi�a an�nima que talvez imaginasse ainda estar dormindo ao ver a mendiga de sempre estirada por sobre os degraus, peito para cima, bra�os abertos - como que crucificada - e o beb� aos prantos ao p� da escadaria. Cena que me contaram por infinitas vezes, conforme lhes relato esta �nica e derradeira, n�o a fim de que se apiedem de mim, mas para obter a extrema-un��o de cada um, j� que na impr�pria qualidade de confessor embusteiro, conhe�o os pecados de todos. ... |
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N�o soube o que aquele homenzarr�o - quase imune ao avan�o da idade - desejava dele ap�s todos esses anos de uma discreta dist�ncia alerta, marcada t�o-somente por encontros fortuitos no balc�o da mercearia ou na cal�ada do barbeiro; talvez pretendesse arrancar - agora que a carne era fl�cida - seu pomo de Ad�o com as unhas previamente estercadas no que ainda restava do canteiro Pifarino, cumprindo assim, qui��, sua �nica e verdadeira miss�o nessa vida de mostrengo contratado para tal fim; sentindo-se no correr das d�cadas, ainda mais in�til do que de fato era por n�o dar cabo da tarefa. Os olhos de Abelardo Firistino, n�o miraram os de Antenor Mendanas - embora este h� muito os soubesse d�spares em cor, �ngulo e movimento -, limitaram-se, isso sim, a varrer mansamente as sombras informes de um assoalho invis�vel. "Se veio me matar, fa�a-o logo, poupe-me algumas horas", disse Antenor Mendanas, quebrando a absurda impessoalidade do encontro naquele seu c�modo abafado e in�spito. Abelardo Firistino n�o respondeu. Meneou a cabe�a apenas. Depois se imobilizou, fazendo com que cada segundo ganhasse as medonhas dimens�es da eternidade - o tempo imemorial de suas pr�prias almas est�reis. "Mate-me!", repetiu o setuagen�rio num suspiro morno. Ent�o, ainda sem olh�-lo, o homem corpulento fez sumir a m�o lenta no bolso profundo da cal�a e Antenor Mendas julgou que n�o usaria as unhas de a�o opaco, sen�o a pr�pria l�mina luzente de um antigo canivete muito bem conservado para a hora, ao qual por incont�veis noites de espera amaciara entre os dedos grandes e nodosos moldando-lhe a empunhadura, buscando-lhe a intimidade como a um corpo de mulher que aos poucos cede seus segredos, virtudes e caprichos. A m�o de Abelardo Firistino come�ou a emergir pesada, volumosa - polegada a polegada - e o imensur�vel estupor daquele instante, fizera-se ainda maior que a vida - abarcando o mundo, sobra�ando o universo -, trazendo, enfim, � tona o enigma guardado por quarenta longos anos e que, al�m dele, apenas a finada dona Sangina Santanas P�faro conhecia bem, entendendo-o como leg�timo, atalhando que tivesse paci�ncia, visto ser o mundo um carrossel, "E o que se h� de fazer, filha, se meteram teu esp�rito em carnes contr�rias?", puxando-lhe a cabe�a enorme sobre o colo fr�gil, encaracolando-lhe o cabelo hirto, falando-lhe sobre a tenaz esperan�a que a tudo vence e suplanta, rogando-lhe que mantivesse, portanto, f�, paci�ncia, tratando-lhe a mimosas papas e mingaus acanelados - dignos das delgadas pucelas pr�-casamenteiras -, incutindo-lhe a nobre virtude do sil�ncio e da falsa resigna��o at� que, num s�bito vacilo do passado, sua m�o dormente e incontrol�vel sa�sse do bolso e expusesse, enfim, a Antenor Mendanas, n�o uma, mas duas: duas laranjas. E das grandes. ... |
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