E agora eu cogitava sobre a m�e do Ba. Em como ela reagiria se soubesse que seu filho estava prestes a se tornar um assassino. Sorvi o �ltimo gole da minha Cubanita, antes de perguntar: "E a sua m�e, Ba, o que diria sobre isso?". "Cala a boca", ele vociferou irritad�ssimo, como se eu cometesse uma heresia, "N�o fale na minha m�e numa hora como esta!". Talvez sob o efeito do �lcool e sem dormir h� muito mais de vinte e quatro horas, eu j� n�o percebesse a real gravidade do que iria ocorrer, qui�� at� mesmo desejasse antecipar o crime a fim de irmos logo para nossas casas repousar o sono dos justos. E mais que isso: eu n�o conseguia discernir a realidade t�ctil e iminente das imagens ternas, semi-santificadas, que se opunham ao fato pela simples men��o ou lembran�a. Obviamente, nos instantes que precedem a um crime calculado, a �ltima coisa que qualquer assassino desejaria lembrar, seria a figura da pr�pria m�e. "Vou mijar", eu disse, passando a sacola aos cuidados dele e saindo de pernas bambas por entre as mesas, pessoas e cadeiras soltas de qualquer conjunto l�gico. Desci cinco degraus, espalmando as m�os contra as paredes de um pequeno corredor a desembocar num abafado sal�o subterr�neo, iluminado apenas por fr�geis l�mpadas vermelhas. Por instantes parei bem ali, onde casais se beijavam loucamente, longe da indiscri��o cobi�osa dos b�bados, das conversas tolas e das censuras dos transeuntes a espiar de passagem pela cal�ada mais difamada da regi�o. Andei de um lado para outro procurando o banheiro at� que finalmente vi a porta com o desenho da cartolinha e entrei, custando a me readaptar ao tom radiante das l�mpadas brancas. Urinei com f�ria no bojo cer�mico do mict�rio, por onde escorriam dois fios permanentes de �gua que eu tentava dispersar da rota. Depois cuspi, tentando acert�-los de vez. Sorri feito um tolo. Depois fui lavar o rosto e me assustei com ele no espelho modesto, suspenso sobre a pia. Eu estava escurecido, meio queimado, vincos mais claros saltavam nos cantos dos olhos. Tinha o cabelo oleoso, grudado ao cr�nio. Por um instante tive pavor, julgando ver um outro refletido em meu lugar. S� ent�o recordei os efeitos do mar, do morma�o, da exaust�o e da completa aus�ncia do meu infal�vel e t�o bem-vindo banho di�rio. Conformei-me. Logo tudo estaria consumado e eu acordaria como sempre fui. Fiz um bochecho. Sequei o rosto com um papel higi�nico �spero. Sai lentamente at� me acostumar outra vez ao ambiente escarlate, repleto de silhuetas unidas, siamesas. Subi os degraus com imensa letargia, como se emergisse de um inferno a outro. Vi o Ba taciturno, com a sacola nas pernas, dois copos de Cubanita renovados, as rodelas de salame velho flutuado no azeite temperado do prato. Manolo Paraguaio indo de um lado para outro, h�bil, esquivando-se dos fregueses embriagados, os dentes brancos, o cabelo t�o ondulado quanto o mar, a camisa de manga suada nos sovacos. Acima dele, preso ao teto, giravam pregui�osas as p�s do ventilador moribundo. As pessoas rindo, contando anedotas, mentiras, os copos tilintando, um liquidificador zunindo feito vespeiro ebuliente, vozes pedindo mais e mais Cubanita. E outra vez me senti ausente do corpo. Algu�m que n�o era eu caminhava na dire��o do Ba. Recostei-me ao balc�o olhando para o meu amigo absorto ou concentrado em sua mais honrada miss�o - decerto ele n�o podia me salvar, nem ao menos suspeitava o que ocorria. Esforcei-me para manter a consci�ncia, respirei fundo, senti-me s�, completamente desamparado entre tantos, ergui lentamente o olhar e l� estava ele bem atr�s do balc�o me fitando, roupa negra, pele morena, cabelos curtos, gravata branca, magro, orelhas salientes, m�os metidas nos bolsos da cal�a, n�o disse nada, apenas me saudava com um sorrisinho maroto a crispar o canto dos l�bios, eu sabia quem era sem jamais t�-lo conhecido. "Estou b�bado", eu disse. |
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