"Desculpe, mas a senhora n�o est� me reconhecendo?", indagou a mulher, tentando furar a extensa fila que terminava no caixa, como se o semblante comum que carregava acima do pesco�o n�o fosse o dela, mas o de uma formosura, do tipo Cindy Crawford. "N�o, n�o estou reconhecendo!", disse a funcion�ria do banco, j� estendendo a m�o e apanhando os documentos que um suarento office boy lhe oferecia, enquanto lan�ava para a "pantera" um obtuso olhar de, Cai fora dona... O fim da fila � l� atr�s! A mulher inconformada, sentindo-se preterida e talvez humilhada voltou a carga: "Sou uma atriz!", disse, erguendo ligeiramente o queixo. Ningu�m esbo�ou a m�nima rea��o e a fila continuou fluindo desatenta, lerda como tartaruga prenhe. "Sou uma atriz!", repetiu ela elevando um pouco mais o tom da voz e, quase ao mesmo tempo arrematando um nome n�o apenas estranho, mas, absolutamente inc�gnito: "Wandrena Almorfes". O pr�ximo da fila foi atendido. Ela insistiu num tom de entusiasmo televisivo, inclinando o corpo um pouco para frente e olhando de lado como se dos bastidores invis�veis ao v�deo fosse surgir um "monstro sagrado" que arrancasse da plat�ia o del�rio e histeria que s� os grandes �dolos conseguem produzir: "Com voc�s: Waaaaaandreeeena Alllllmoooorrrrrrfeeees!", gritou. Apenas o vigia a olhou recurvada entre a multid�o interessada em pagar contas ou depositar as economias - por um instante julgou que algu�m estivesse passando mal. Depois deu de ombros e retornou ao seu posto. Ent�o ela se voltou a um homem que ocupava o segundo lugar na fila e indagou: "O senhor por acaso assistiu a aquele filme muito lindo e famoso chamado: A tulipa encarnou no deserto?". "N�o!", sintetizou ele sem olh�-la. "Pois eu trabalhei nele. Era a m�e da Arlete - A Tulipa... ", "E �quela pe�a que esteve duas semanas em cartaz e foi um sucesso retumbante: A vasta cabeleira do espig�o, o senhor assistiu?" "N�o!", silvou o homem olhando para a mo�a do caixa a carimbar intermin�veis documentos alheios. "Pois nessa eu era a �thel: a empregada assassina. Um sucesso!". Chegou a vez do homem e ele deu um passo avante, deixando no seu lugar um estudante impaciente que tamb�m n�o tardou a ser inquerido. "Assistiu ao comercial do sab�o em P�, Mimo?". "Que Man�, sab�o?... S� vejo clip na MTV, tia!", respondeu o jovem afastando o chiclete para o canto da boca. "Pena, embora o sab�o fosse uma porcaria eu estava brilhante. Depois ca� em arrependimento, � claro... Imagina o que a imagem inigual�vel de Wandrena Almorfes n�o vendeu de sab�o em p�. E olha que o cach� n�o foi l� essas coisas, n�o, viu?". S� ent�o percebeu que o jovem j� fora atendido e agora falava � uma velhinha surda. "Isso � humilhante, uma atriz consagrada como eu, aqui de p�, implorando por um lugarzinho nesta fila imensa e insens�vel. Tenho hor�rio marcado para o ensaio, n�o posso perder a grava��o de minha pr�xima novela: O sil�ncio de quem n�o fala. A senhora j� me viu nas novelas, n�o?". "Sim, h� muitas favelas, � uma tristeza, minha filha... Uma tristeza!", respondeu a anci�, abanando-se com o cart�o do pec�lio. "Eu sou uma atriz, uma atriz, minha senhora", tentou esclarecer elevando a voz em excesso. "� claro que eu estou feliz...", respondeu a velhinha sorrindo, "...chegou a minha vez, oras.", completou antes de se dirigir ao caixa com seus passos mi�dos. Foi a� que surgiu a id�ia luminosa: representar o trecho de uma pe�a. Todos a reconheceriam, seria atendida na hora e ainda aclamada em p�blico. Nada de Shakespeare ou Moli�re, faria algo f�cil, de efeito, de impacto imediato. Assim, escolheu a cena de um autor amigo, a obra era: C�o perdido paquerando frango assado - in�dita, mas, em sua opini�o, s�bia e contundente. Concentrou-se. Agora era o mendigo que encontra o c�o magro fitando aquele lindo frango dourado a girar, a girar, a girar lentamente numa assadeira de panificadora. Ent�o, compenetrada, disse: "�h c�o vadio, solit�rio e errante como eu: tamb�m tens fome!...". N�o houve jeito. Um telefonema do gerente alertou a pol�cia: "Delegado, h� aqui uma mulher atrapalhando o expediente. Sim, completamente desconhecida... Sei l�, doutor, nunca a vi mais gorda!". |
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