LANCINANTE AGONIA
(Trecho em que Ana, ap�s ter sido violada � conduzida a um prost�bulo...)
  Seguiram pelo sal�o caminhando lado a lado, envoltas pelas flamas tristes e coloridas das copas luminosas - flores noturnas quentes, fumegantes, recendentes a querosene e ironia.
   No trajeto, uma goteira tinia com amea�adora insist�ncia sobre um prato de lou�a. Desviaram. Circundaram a mesa descomposta em que duas mulheres e um homem bebiam cerveja, mordiscavam pernas de galinha e sussurravam entre risos de deboche ou mal�cia.
   Lentamente Ana voltou o rosto para o prato que ficara a relativa dist�ncia, h�brido e inerte naquele palmo de ch�o. Ela ainda podia ouvir - ou supor que ouvia - os estalidos m�rbidos, cortantes e ininterruptos dos pingos contra o bojo do utens�lio.
�� A imagem daquele cad�ver franzino de aveludada em azul voltou a aflorar diante de seus olhos, era sutil e et�reo como um espectro a brotar da terra. As m�os delgadas - alvas como as de um santo em cera - ainda estavam cruzadas sobre o peito magro e, pouco abaixo floresciam tristes c�rculos irregulares: as rosas endurecidas e frias de sua trag�dia.
    "Uma escopeta � o c�o, mocinha... O c�o! ", ouviu dizer a voz �spera do brutamontes. Por um momento imaginou que pudesse estar ali.
   E ent�o viu pela primeira vez a figura grave de Lau Nostro e ouviu aquela voz repetir algo que j� dissera, mas ela n�o assimilara, n�o apreendera, n�o distinguira porque as vozes dos homens eram todas iguais - s�sias, g�meas id�nticas, ecos da mesma boca - desde aquele momento em que um gemido estrangulado e monstruoso, de algo que entendia por homem, invadira-lhe os ouvidos sem permiss�o, ou sequer um mero consentimento silencioso que pudesse significar um singelo, sim - ainda velado.
   De  forma que quando a voz de Lau Nostro sobrep�s-se ao burburinho c�mplice dos casais em conluio, ela ouviu n�o aquele, mas um outro dem�nio e agora os aparentava sem discernir.
   "E ent�o, menina?", ele repetiu elevando o tom, mas s� colheu um olhar vazio, distante.
   Myrta que a conduzia com uma ternura de aluguel, sacudiu-a discretamente.
   "Ei, � com voc�", disse-lhe entre os l�bios encarnados, emoldurados pelo batom al�m dos limites.
   E outra vez ela n�o respondeu. Baixou o olhar, os bra�os estendidos ao longo do corpo juvenil pareciam indicar a ru�na dos p�s descal�os.
   Lau Nostro fez um sinal de cabe�a e Myrta tornou a conduzi-la. Enveredaram sem pressa por um corredor umbroso, com portas iguais em ambos os lados. Murm�rios, breves risos e interjei��es escapavam de algumas alcovas...
As N�pcias de Juli�o
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