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ENSAIOS |
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(Dois dos ensaios publicados no jornal Gazeta do Povo - PR. Na �poca a proposta era produzir textos que aliassem informa��o, entretenimento e reflex�o.) |
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T�tulo do Ensaio
A ARTE DE ALCUNHAR E APERFEI�OAR (Breve ensaio sobre o ato de criar e subverter) |
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Poderia ser no Brasil, por�m tudo come�ou em N�poles, num espl�ndido ver�o de 1889. �Raffaelo Esposito e sua mulher, foram chamados �s pressas ao Pal�cio Capodimonte, visto que a nobreza local estava em alvoro�o e convocava indistintamente a todos os que possu�ssem algum dom de obra ou de intelecto. Assim, nos insond�veis bastidores do enorme edif�cio, artistas preparavam espet�culos; poetas ensaiavam antigas odes gregas, pintores esbo�avam a carv�o nas telas o prel�dio das paisagens natais ou as fl�cidas opul�ncias de corpos femininos. Das janelas, precipitavam-se toalhas e tapetes, assinalando o m�ximo j�bilo do povo por seus monarcas; enquanto - sob o repique dos sinos -, na penumbra reclusa dos mosteiros, ilustres cardeais buscavam nos arm�rios suas mitras mais belas e solenes. Enfim, a comitiva real chegara para as f�rias de ver�o: "Vida longa ao Grande Rei Umberto I! ", "Salve a Rainha Margherita!" - gritavam alguns alde�es exaltados, junto � uma cavalaria vigilante, precedida pelo enfadonho alarde dos trombeteiros imperiais. Tudo come�ou em N�poles. Mas, perfeitamente, poderia ter sido aqui - reafirmamos agora, cento e tantos anos ap�s o evento, levando em considera��o o an�logo desenrolar dos fatos. Pois bem, estando a Rainha interessada num tipo de prato - j� famoso na regi�o - e que nunca havia experimentado, pediram ao grande especialista Raffaelo que o preparasse. O que nos faz lembrar os momentos de gl�ria daquele nosso cozinheiro nordestino elaborando uma ex�tica "buchada de bode" ao atual Presidente, quando ainda em campanha. Pois l� em N�poles do s�culo passado, Raffaelo Esposito acertou a m�o, dosou a farinha, selecionou ingredientes e apresentou � sua Majestade, v�rios tipos de pizza. Todas douradinhas e muito apetitosas. Olhares convergiram para a enorme mesa posta com pompa, requinte e esmero. O imponente Pal�cio Capodimonte era todo sil�ncio, apreens�o. Sua Alteza foi experimentando um pouquinho de cada uma - ao menos, espera-se de uma Rainha que apenas prove aos bocadinhos e, n�o, ao modo dos vassalos famintos, refestele-se at� a indigest�o. Em dado momento, parou diante de uma em especial: a que ostentava as tr�s cores Nacionais da It�lia. E, talvez, os circunspectos anfitri�es, n�o soubessem responder a si mesmos se aquilo era bom ou n�o: as cores da Na��o, derretidas num disco de massa... Empalideceram. A Rainha sorriu. Eles sorriram. Olharam Raffaelo com ternura.� Ela mordiscou. Mordeu. Abocanhou em definitivo: "Hummm" - murmurou. Mordeu novamente: "Hummm" - fez outra vez.� Algu�m deu um tapinha nas costas de Raffaelo. Outro algu�m passou o bra�o por sobre seus ombros e o ambiente se descontraiu. Serviram vinho. De s�bito, a Rainha lhe indagou: "Como se chama esta del�cia?". O sil�ncio voltou a abarcar o sal�o, os olhares ca�ram outra vez pesados na face do bom pizzaiolo. O Cardeal pigarreou dissimulando e ajeitou o barrete bordado com as santas ins�gnias. Uma duquesa quebrou o colar de p�rolas chinesas. O anfitri�o disse algo ao Rei que n�o o ouviu. Raffaelo Esposito, sorriu - revelando um misto de rever�ncia, timidez e sagacidade -, disse: "Chama-se: Pizza Alla Margherita, minha Rainha!" Ela sorriu novamente, mordiscou mais outro pouquinho. Um Conde aplaudiu, serviram tamb�m uma fatia para o vener�vel Rei Umberto I. Em suma: tudo acabou em pizza! Poderia ser no Brasil, mas, come�ou em N�poles. N�s apenas aperfei�oamos. Demos ao prato e ao fato um irrevers�vel car�ter simb�lico, metaf�rico.� Hoje, produzimos e exibimos ao mundo nossas pr�prias pizzas. Tudo aqui termina em centenas, milhares delas - e, diga-se de passagem, tamb�m com as inconfund�veis cores Nacionais. |
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T�tulo do Ensaio
A ERA DOS M�DULOS DESCART�VEIS (Breve ensaio sobre o pleno saber mi�do) |
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Seu Nestor � barbeiro h� trinta e seis anos. Seu Gastone, atua como sapateiro h� quarenta e um. Ambos conheceram o seu Ygor, que durante quarenta e quatro, foi relojoeiro. Finou em 1994 sobre a bancada de trabalho, ainda com o mon�culo de grau preso ao olho direito. Estirpe de valor. Gente abnegada, infelizmente, cada vez mais rara sobre a face do planeta. Seu Nestor sabe o quanto dura o fio de uma boa navalha e conhece - sem revelar o segredo - um truque para afi�-la como veio da f�brica. Seu Gastone, argumenta envaidecido, que s� de olhar para a qualidade da sola � capaz de dizer quantas marteladas ser�o necess�rias para que o prego tenha encaixe perfeito. Os dois concordam numa coisa: que quando algu�m trazia um velho patac�o de fam�lia para o seu Ygor, ele era capaz at� de fazer as pe�as danificadas e p�r o "tic-tac" a funcionar.� Pasmem, n�o encontrando pe�as, seu Ygor as constru�a. Pois bem, deixando por um momento em paz seu Nestor, seu Gastone e seu Ygor, passemos � realidade quase que absoluta destes nossos dias. Chamo um t�cnico de inform�tica para examinar meu agonizante computador. O rapaz abre o gabinete saca uma placa, joga-a no lixo sem o m�nimo constrangimento e a substitui por outra. Depois liga, digita uns c�digos, fecha o gabinete e afirma: "Melhor que isso n�o fica, doutor. S�o trezentos reais!". Em minha ignor�ncia de usu�rio tupiniquim, indago: "Mas e a outra, aquela que voc� jogou no lixo, n�o d� para arrumar?". Ele me olha com o ar de Bill Gates, sorri, meneia a cabe�a, e, como se eu fosse um perfeito idiota, diz: "Placa n�o se arruma, se substitui.". "Substitui-se", disse eu, revelando uma exacerbada indigna��o ortodoxa pelo emprego do pronome, ap�s a v�rgula - foi o que pude fazer antes de pagar. A verdade � que nesta� era do descart�vel, nosso dia-a-dia foi invadido por t�cnicos de reposi��o. Permitam-me os neologismos: "plaqueiros", "lateiros" e "botoneiros", entre outros, "eiros"." J� n�o se examinam eventuais pequenos problemas, troca-se tudo - como se um simples terminal solto, n�o valesse um mero pingo de solda, mas contaminasse a pe�a inteira, inutilizando-a para sempre. Caso prossiga essa pregui�a profissional - para n�o cogitar falta de conhecimento ou esperteza comercial -, chegar� o dia em que se jogar� ao lixo um motor inteiro, pois a vela de igni��o nem sequer foi olhada. Curioso: quanto mais avan�amos, mais superficiais nos tornamos. Mais negligentes ficamos com as pequenas coisas que auxiliam mover as grandes. J� n�o sabemos - salvo raros mestres do mi�do - com quantos passos subimos a escada de todos os dias. Igualmente n�o supomos que o grafite do velho l�pis sobre a mesa, pode lubrificar a chave que emperra na porta. O chaveiro nos trocar� a fechadura toda e o pagaremos gratos - ou, qui��, dependendo do humor, murmurando pequenas vingan�as ef�meras. Ser� que as solu��es simples perderam o sentido? Ser� que o conhecimento t�cnico - seja l� do que for - � ministrado e assimilado por m�dulos? Trocar uma v�lvula ficou obsoleto. Um transistor tamb�m e at� um circuito integrado. Que v� ent�o ao lixo a evolu��o conquistada passo a passo e a duras penas: troquemos a m�quina inteira. � mais f�cil!� � para isso, afinal, que se investem bilh�es de d�lares em tecnologia. Ningu�m deve saber nada: nem t�cnicos, nem usu�rios. � o avan�o lacrado, estanque, herm�tico. Coisa para se consumir, recomprar. Seu Ygor se foi, dia desses tamb�m v�o Gastone e Nestor. Pena, j� n�o se d� valor ao fio de navalhas nem � meias-solas. Menos ainda, ao saber mi�do que se agrega e assegura a consci�ncia absoluta do of�cio. |
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Sinopses das Obras |
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Cr�nica Di�rio Popular |
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