- Voc� sabe com quem est� falando? - indagou o motorista da Bras�lia vermelha ao senhor do BMW branco. O outro, sem descer de seu ve�culo, usou um tom apaziguador: - Calma, cavalheiro, vamos resolver isso com bom senso. - Bom senso, coisa nenhuma! Voc� n�o sabe dirigir essa banheira e agora fica a�, dando uma de bonzinho. - Amigo, o sinal estava verde e eu vinha na preferencial. O que o senhor quer que eu diga? - Voc� sabe com quem est� falando? - insistiu o condutor da Bras�lia vermelha, levando as m�os � cintura e erguendo o queixo. - N�o se trata de com quem estou falando, mas, sim, de que tivemos um acidente e devemos que resolver isso de forma civilizada - disse o homem do BMW, chegando o rosto um pouco mais para perto da janela. - Voc�s barbeiros s�o todos iguais, quando percebem com quem est�o falando querem se fazer de inocentes. O neg�cio � o seguinte: ou paga, ou te arrebento de pancada! Escolha! - Pagar o qu�? O seu ve�culo entrou na porta traseira do meu, o sinal verde para mim, estou na preferencial... N�o tenho que pagar nada! - Olha a�, chefia, eu j� te perguntei e vou indagar de novo, porque voc� parece surdo: sabe com quem est� falando? As pessoas come�aram a se aproximar, a formar grupinhos e apontar um e outro, comentando como se dera o choque. Por entre um dos aglomerados, surge um senhor grisalho; � o jornaleiro da esquina que presenciara a colis�o. Ele diz ao homem da Bras�lia vermelha: - Eu assisti tudo, vi quando voc� cruzou o sinal vermelho. � melhor fazer um acordo ou n�o vai ter dinheiro para pagar o estrago que fez no importado. - Quem � voc� velhinho, parente ou cupincha desse a�? Al�m do mais, voc� sabe com quem est� falando? - Eu n�o sei. S� sei que vi voc� avan�ar o sinaleiro e bater neste carro aqui, �! - � melhor voltar l� pra sua banquinha e n�o se meter na encrenca, caso contr�rio, tamb�m vai saber com quem est� falando! Um bilheteiro gritou por entre a multid�o: - O jornaleiro est� certo, eu tamb�m vi voc� passar no sinal vermelho. - Sil�ncio a� seu an�ozinho de jardim ou vai sobrar tamb�m pra voc�! - gritou o motorista exaltado. - Senhores, vamos com calma - pediu o motorista educado - Isso n�o foi nada, n�o houve v�timas, apenas danos materiais e conversando a gente se entende. - Ent�o vamos nos entender j�, maestro. Voc� me deve tr�s mil! - Tr�s mil... Ora cavalheiro, o senhor cruzou o sinal, abalroou o meu ve�culo e eu ainda lhe devo tr�s mil... Desculpe, mas o seu autom�vel todo n�o vale tr�s mil. - Ah, � ofensa? Vai partir pra ofensa, gar�om? Ent�o acho que a gente est� chegando naquele ponto em que voc� deve saber com quem est� falando? - Ele n�o ofendeu, n�o - protestou o jornaleiro -, seu carro n�o vale nem a metade disso. No m�ximo, mil e seiscentos. De tanque cheio, claro! O bilheteiro, ferido por ter sido chamado de "an�ozinho de jardim", completou a an�lise do outro: - E de toca-fitas, estepe e �leo novo. - Voc�s est�o � com pena dele porque � mais fraco e novato de volante. Acho que nem Carteira de Motorista ele tem. No meio da confus�o, desponta um guarda de tr�nsito, abrindo caminho entre os curiosos: - Calma pessoal. O que foi que aconteceu aqui? - Foi o trapezista que meteu a porta dessa barca no meu p�ra-choque, seu guarda! - afirmou o da Bras�lia vermelha. -� E o senhor, o que me diz? - indagou o policial ao outro. - Eu vinha aqui na preferencial, onde ainda estou, este senhor cruzou o sinal vermelho e colidiu comigo. Felizmente n�o houve v�timas. - Documentos dos dois! - solicitou. O motorista do BMW entregou e o guarda leu, o outro ficou fu�ando no bolso: - Esqueci, esqueci em cima da geladeira, amigo. Infelizmente, mas posso ir pegar - disse, tentando sorrir descontra�do. - Na verdade, acho que ele nem tem Habilita��o. Do jeito que furou o sinaleiro... - argumentou o homem do importado. - Cala a boca a�, marinheiro de lagoa. Seu guarda, esse cara n�o sabe com quem est� falando! O policial entregou os documentos ao motorista abalroado e disse ao outro: - Quem tem que saber com quem est� falando � o senhor, cidad�o: o amigo aqui � doutor Delegado! |
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