REPORTAGENS
III WHISKY, FORTE CANDIDATO À NOVA CASA DA CANJA
JORNAL GAZETA MERCANTIL – 26/10/1973
“Depois do  terceiro uísque
Tristeza lhe esqueceu
Depois do Terceiro uísque
O mundo é todo meu
Depois do terceiro uísque
Eu não sou mais eu
Pois aparece um outro
Muito melhor do que eu”.
Home
A música a que pertencem estes versos nunca figurou em parada de sucessos. Mas nem por isso é menos conhecida. Nos últimos anos, transformou-se numa espécie de hino da noite paulistana, popularizada pelo Jogral de Luiz Carlos Paraná e de lá levada a outras casas de samba que vieram em seu rastro. (Uma correção: o samba não é, como muitos pensam, de Paulo Vanzolini. Seus autores, melhores que eles mesmos, são Martinelli e Tuto).

Esse samba de tantas e heróicas tradições, dá nome à nova casa da rua Santo António, que o ostenta na fachada numa versão nobiliárquica: III Whisky em letras douradas. O bar vem dar nova extensão à rua Santo António, hoje consagrada como centro da nova boemia paulistana. Fica no 573, quase esquina com Martinho Prado, a uma esticada de menos de dois quarteirões da Catedral do Samba, Telecoteco na Paróquia, Igrejinha, Sambalanço, de um lado, e do Ferro's, de outro.

Sua linha é jograliana, mas sem fanatismo. O seresteiro é Geraldo Cunha, tocando o seu perfeito violão. Informal como sempre, Geraldo, canta em coro com freqüentadores e faz o acompanhamento de pessoas amigas que se encaminham ao microfone. De vez em quando, aparece Ozinete, com seus frevos inesquecíveis, e acontecem surpresas como a bossa de uma jovem esguia que gosta de cantar sambas antigos. Quando avança a madrugada, Geraldo faz duetos com a mulher, que, na hora do movimento, prefere controlar o caixa. Ela é a "patroa" oficial do estabelecimento.

Will, Douglas e Monjardim formam um trio moderno, tocando musica nacional, mas sem se sentirem constrangidos a ceder à influencia do jazz. Tony, o pianista solitário, toca (e canta) foxes, blues e canções românticas de entendimento universal.

Nenhuma casa seria completa sem uma cantora oficial e o lugar, no III Whisky, é preenchido com distinção e louvor por Sônia Rocha, vinda da peça "Hair". Os que a têm ouvido esperam que não esteja fazendo apenas uma experiência e que fique definitivamente no ramo.

Quem faz as honras da casa é o predestinado alagoano José Júlio de Araújo, conhecido no século como Cachimbo. Chamado o "rei da noite", "almirante da madrugada", o "homem que não tem na alma um só cabelo branco", Cachimbo já foi, em São Paulo, relações públicas da Casa Tobias, Fina Flor do Samba e Curtição. No III Whisky, ao seu tradicional papel de aproximar as pessoas, arranjar lugar, bater papo, cantar e dançar com freqüentadores (mais comumente do sexo feminino) aliou outro: é o representante da "junta", um grupo de homens de negócios que divide com Geraldo Cunha a propriedade da casa".

Ex-cabo do Exercito, Cachimbo leva suas novas funções de porta-voz da junta muito a sério, mas não a ponto de negar-se a uma esticada quando se aproxima o fim do expediente (ali pelas cinco da matina).

Essa turma, junto com o maitre Cornélio, Zezinho, barman, Ney, garçom e Hélio, porteiro, está fazendo o III Whisky pegar depressa. Sem esquecer que, mesmo depois do terceiro, o uísque continua honesto e os preços razoáveis.

Ainda não aconteceu (não deu tempo), mas o III Whisky tem tudo para se transformar na nova "casa da canja" de São Paulo, como já o foram o Jogral e a Casa de Tobias. Amigos de Cachimbo e Geraldo Cunha são Martinho da Vila, Chico Buarque, Paulinho da Viola, entre outros, que quando baixarem por aqui, certamente não resistirão à tentação de dar uma chegada na Santo António, 573, para o quarto uísque.
Hosted by www.Geocities.ws

1