| REPORTAGENS |
| OS PRAZERES DO TERCEIRO UÍSQUE JORNAL DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA/SP – 20/10/1973 |
| Não propriamente uma casa de samba. Muito menos um sambão. Também mão chega a ser um templozinho da fossa. Nada disso. Há, é verdade, uma certa dose de saudosismo. 'Talvez um pouquinho de melancolia. Mas. para a noite, isso cai muito bem, especialmente nestes tempos de nostalgia, nesta hora, em que a juventude contestadora já começa a. ser uma. instituição. Uma, instituição que merece ser contestada. Isso tudo vai a. propósito da casa que Geraldo Cunha inaugurou na, rua Santo António. Não no ponto mais quente. Pelo contrário. Ela fica ali bem no comecinho, onde há o elan melancólico, aquele aspecto de nostalgia, que anda. fazendo falta na noite de São Paulo. E o próprio Geraldo fala da nova casa noturna. Uma sucessora talvez do seu conhecido e saudoso Bar Bossinha. Mas uma. casa que vem com tudo novo.. Especialmente; um nome bastante original - e que tem história - o III Whisky. Nome Às nove da, noite, o. III Whisky ainda tinha poucos freqüentadores (o quente começa um pouco mais tarde". contou depois o porteiro). Nem Geraldo Cunha estava lá. É que sua noite é dividida. Meia hora em cada. Lugar. Andando na rua. Major •Quedinho, de um extremo a outro, ele se apresenta em sua. casa e no restaurante Paddock. Só lá pelas nove e trinta é que ele apareceria. A substituta na gerência, quase sempre a gerente efetiva, era Rose, sua mulher. E foi ela quem começou contando: •— Todo mundo achou o nome engraçado. Mas ele tem sua história. Não sei se você conhece o compositor Martinelli. Ele é muito nosso amigo e compôs uma música linda que se chama “Depois do Terceiro Whisky", E o Geraldo gosta muito de cantá-la. Vai até gravar a música. Quando decidimos comprar esta casa e precisamos batizá-la, ele nem teve dúvida. Chamou o Martinelli e deu a notícia: a casa se chamaria III Whisky. Eu particularmente gosto muito do nome. É original bonito. A essa altura, no piano, Tony começava mais uma noitada no III Whisky. E começava com “Manhatan”, uma música americana, que parecia violentar as estruturas da Rua Santo Antônio. - Não é nada disso. Aqui, a gente dá inteira preferência à música brasileira. Ela é tocada por todo o pessoal que se apresenta, a começar pelo próprio Geraldo, que tem uma carreira dentro do samba e da bossa nova. Mas há necessidade de se quebrar a rigidez do negócio. Quase sempre são os freqüentadores que pedem uma outra música internacional. E por isso o Tony aí está para tocar piano. O III Whisky não é um sambão. Nada tem a ver com isso. É apenas uma casa tranqüila, onde se pode bater papo, ouvir boa música, tomar um drink. Fazer a noite, enfim. |
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| Corre-corre Eram 21h35: hora de Geraldo Cunha ocupar o pequeno espaço reservado aos músicos e mostrar sua voz, o som de seu violão. Depois disso, nova corrida pela Rua Major Quedinho, e mais uma apresentação no Paddock. Às 10h55, outra corrida e nova entrada em sua casa. E assim até de manhã: meia hora lá, meia hora cá. -Tem que ser assim. Enquanto estou no Paddock, o resto do pessoal vai dando conta do recado por aqui. Além do Tony, o pianista que mostra música internacional, temos o Antônio Carlos, um violonista, que também se apresenta no Paddock e a Sônia Rocha, que é acompanhada por seu trio: Douglas, na bateria; Monjardim, no contra-baixo; e Will, no piano. Cada um tem meia hora para se apresentar. Geraldo Cunha, além de contratado em diversas boates e restaurantes de São Paulo, já foi proprietário de outras duas casas noturnas: o Barbossinha e a Casaforte. |
| -É verdade, o Bar Bossinha inclusive marcou época em São Paulo na fase boa da bossa nova. Muita gente ainda se lembra dele com saudade. A Casaforte fez também muito sucesso. Depois que a vendi, passei a trabalhar apenas como contratado. E assim poderia ficar. Financeiramente é até mais compensador. Quando você investe em uma nova casa, nunca sabe dos resultados. Isso não acontece quando você é contratado. Mas preferi partir para uma terceira experiência. Abri o III Whisky. Horários Geraldo Cunha continua falando de sua nova casa: -Abrimos às nove da noite. Por enquanto, já que estamos com uma semana de funcionamento. É possível que mais tarde a gente passe a abrir mais cedo. Horário de funcionamento é imprevisível. Há dias em que a casa está cheia às cinco da manhã. O pessoal das outras casas, principalmente os artistas, e vem para cá. É a hora em que o III Whisky fica mais gostoso. Fechamos apenas aos domingos. O Tony é o primeiro a entrar, apresentando-se a partir das 9h35. às 10h20 é a vez da Sônia Rocha e Trio. Às 10h55 eu volto e, em seguida, às 11h25, vem o Antonio Carlos. Daí por diante, vamos nos revezando até a saída do último freguês. O III Whisky fia na Rua Santo Antônio 573, e tem preços bastante razoáveis. As bebidas nacionais custam entre 10 e 13 cruzeiros. O uísque estrangeiro, entre 15 e 22. E serve diversas qualidades de tira gosto. Nesse aspecto, Rose Cunha adverte: - Olha, eu acho que servir amendoim já era. Só tenho aqui, no III Whisky, porque muita gente pede. Mas estou procurando uma boa cozinheira, e vamos servir bastante coisa gostosa. Mais para a frente, eu e o Geraldo queremos ver se passamos a servir jantar também. Por enquanto a casa ainda é muito nova. |