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Quinze dias em Londres,
de André Takeda


uma história para ser lida ao som de "9th Floor" da banda gaúcha Superphones [www.superphones.com.br]


Este é o meu último dia em Londres e, pelo que posso ver da janela do apartamento, o tão famoso fog londrino resolveu aparecer. Termino de colocar minhas roupas na mochila, acendo um cigarro, caminho até a janela, vejo um táxi preto com o logotipo da Virgin passar, e digo:

- É, parece que os dias de sol se foram.

- Ou talvez tu tenha colocado o sol dentro de tua mochila- ouço sua voz vindo lá da cozinha junto com o cheiro do café brasileiro que trouxe comigo.

- Posso desfazer a mochila, se tu quiser- eu falo sem tirar os olhos do asfalto molhado, esperando por uma resposta positiva.

Mas não há resposta.

Ela apenas caminha em silêncio em minha direção e me oferece uma xícara de café.

- Toma,- ela diz- tá frio lá fora, este café vai te deixar quentinho até a estação de metrô.

- Tu não tá entendendo…- começo a falar, mas ela me interrompe.

- Quem não tá entendendo é tu. Foi maravilhoso tu ter vindo, não imagina como fiquei feliz por isso. Nunca alguém mostrou tanto amor por mim, mas já te disse que aqui não há lugar pra dois.

- Então meu visto de permanência acabou, né?

Ela sorri. Em câmera lenta, vejo uma lágrima caindo sobre sua bochecha rosada.

- Acabou,- ela sentencia.

- Quinze dias e mais nada- eu murmuro.

- Mais nada- ela concorda e encerra o assunto.

Termino de beber meu café em silêncio. Começo a pensar que talvez ela esteja certa. Quem sabe não é assim, sentindo-se estrangeira de país em país, que ela um dia irá se dar conta que possui um lar? Quem sabe não é assim, começando relacionamentos que nunca irão continuar, que ela um dia irá perceber que não está sozinha? Quem sabe não é assim, insistindo para que eu vá embora, que ela um dia irá poder me amar? Então, deixo a xícara de café sobre a mesa da cozinha e, já com as mochilas nas costas, abro a porta do apartamento. Sem despedidas, desço de escada os nove andares. Quando finalmente sinto em meu rosto o fog londrino, tenho a impressão de que o meu mundo já não existe mais. Mas foda-se. É sempre assim: para que um mundo possa ser construído, outro tem que ser destruído. Ela merece, penso, e logo depois coloco um sorriso no rosto e caminho até a Victoria Station.

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