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Pulp
pode ser a banda que
você está procurando
>>Douglas Dickel
Pulp pode ser o
antídoto que você está procurando. Se você está
cansado de conhecer bandas chatas vendidas como a nova salvação
do rock, Pulp pode ser o antídoto. Se você anda ouvindo
muitos zunidos de guitarra e quer um som mais limpo, Pulp pode ser
o antídoto. 
O Pulp existe
desde 1978 e tem como vocalista e líder o figuraça Jarvis Cocker
- nome legal de se pronunciar com sotaque inglês. Jarvis se inspira
em Bowie no jeito de cantar e de se mexer no palco. Mas também
faz graves cavernosos inspirados em Leonard Cohen e viaja para tons mais agudos
e angustiantes como Roger Waters, ex-Pink Floyd. Ou seja, um vocalista
multiuso. E ainda por cima faz letras sensíveis que criticam e refletem
sobre relacionamentos, comportamentos e aspectos da vida. Sempre em poesias
dissertativas, que não complicam a comunicação.
As composições
do Pulp são empolgantes, provocam vontade sair cantando e dançando
e correndo por aí. Mas se você quiser pode ficar deitado numa
rede na beira do mar e ouvir Pulp que tudo se encaixa. Ou ainda pode
se sentir cantando e dançando e correndo ou numa rede na beira do mar
sem sair do seu quarto, em casa.
O
disco mais elogiado é Different class (1995), que contém
Common people. Outro aconselhado é This is hardcore (1998),
que tudo de sempre e ainda algumas músicas mais viajantes e sombrias.
Apesar de 24 músicos já terem integrado o Pulp, hoje
a formação é Jarvis Cocker (voz e teclado), Russel Senior
(guitarra), Candida Doyle (teclado), Steve Mackey (baixo), Mark Webber (guitarra
e teclado) e Nick Banks (bateria).
Para entender
a polpa
>>Ramon Antoniazzi
Se uma banda passa mais
de uma década no ostracismo total, o que se pode esperar? Alguma coisa?
Sucesso? Se nos cinco primeiros anos não dá certo, parece que
nunca mais vai dar. Essa é a regra. A exceção, Pulp.
Jarvis
Coker (vocalista/letrista/líder) e sua turma passaram quase 15 anos
na geladeira até que o Pulp fosse reconhecido. Depois de quatro
discos a banda lança His'n'hers em 1994, seu primeiro álbum
de sucesso. O disco traz a balada Babies e a alegrinha Do you remember
first time, músicas que fizeram a crítica e o público
abrir os olhos para a banda. Os dotes de Jarvis como cantor e letrista começaram
a ser notados.
Com o som da banda mais
conciso e com as qualidades de crooner de Jarvis ainda mais aprimoradas, o
Pulp lança Different class, disco aguardado ansiosamente
pela crítica e recebido de braços abertos pelo público.
Não deu outra, o CD vende muito e o Pulp finalmente é
consagrado como uma grande banda. Mas não é por menos, o álbum
é essencial. Consolidando a trinca new wave, disco e glam, a
banda cria um estilo de som único, inovador. Com um clima festinha,
Different class arrebata milhares de fãs por todo o mundo e
entra nas listas dos melhores discos da década passada. Disco 2000
discorre sobre conflitos de classe, Pencil skirt sobre relacionamentos
e Common people se torna hino da geração 90.
Depois disso veio This
is hardcore, disco sombrio, nada a ver com o anterior que primava por
arranjos felizes, mas nem por isso foi pior recebido. The fear, TV
movie e a faixa título fizeram bastante sucesso. This is hardcore
foi um novo caminho para o Pulp e a sua definitiva estaca no mainstream.
A partir de Different
class o Pulp já fazia shows memoráveis. Hoje, sem
sombra de dúvida, são os melhores em cima do palco. Grande parte
de sua popularidade vem de suas performances ao vivo.
O
que também ajuda bastante na publicidade da banda são as esquisitices
do vocalista. Espécie de Caetano Veloso inglês, ele dá
opinião sobre tudo. Seu rostinho é popular e periodicamente
está em revistas e semanários. Já é símbolo
sexual na Inglaterra. Com letras criativas, ora falando sobre os anseios adolescentes,
ora metendo pau na classe média britânica, Jarvis, além
de tudo, se tornou um grande ídolo e o maior representante da lira
irônica e sarcástica dos letristas ingleses.
Quando sairá o
próximo disco do Pulp não se sabe, eles sempre estão
em estúdio. Se não são seus álbuns, a banda
está gravando músicas para trilhas sonoras. Mile
end foi gravada para o filme Trainspotting e está, junto
de Perfect day de Lou Reed, entre os melhores momentos do
álbum. Gravaram também a não menos perfeita Like
a friend para o filme Grandes
Esperanças. We are the boys está em Velvet
Goldmine, produção de Michael Stipe (R.E.M.)
que conta a história de David Bowie e do glam.
Pulp não
emplacou no Brasil, você sabe o que emplaca aqui, mas lá fora
é banda de lotar estádio. É unanimidade na Inglaterra.
Poucas bandas têm o prestígio e respeito que eles têm.
Sua mistura musical é marca do novo século, é o resumo
da melhor parte de tudo, é a polpa da fruta. Das melhores frutas.
Isto que é
hardcore, meu filho
Faixa
a faixa
>>Douglas
Dickel
The
fear
Quem conhece o Pulp festivo estranha o início sombrio desse
disco de 1997. Mas logo o preconceito é dizimado pelo êxtase
da música perfeita. Poucas bandas conseguem criar melodias tão
eficientes e polpudas como o Pulp. No final, um coro feminino confere
uma apoteose que precede guitarras com timbres radioheadianos. A letra fala
sobre a própria letra e se auto-indica para momentos de solidão,
medo, tristeza e quando tudo dá errado. Nota 10
Dishes
Jarvis faz a voz de crooner. No refrão a sequência de
notas de guitarra e do tipo que não saem da mente auditiva por uma
semana. Depois de duas estrofes, entra um solinho de piano com a mesmo riff
de guitarra por trás, o que ajuda no processo de grudamento da melodia.
A letra chama para a felicidade possível e real. "Eu nunca vou
tocar as estrelas porque elas estão no céu/E a Terra é
onde nós estamos/Você não está feliza apenas por
estar vivo?"
Nota 8
Party
hard
Quase disco music, lembra Jump they say (Bowie em Black tie
white noise). A voz tenta imitar o papai David. O arranjos é de
um rock pendendo para o techno, com timbres cortantes de guitarra (tipo Discothèque,
do U2), mas nunca o Pulp deixa de soar rock pop. A letra fala sobre
namoros difíceis. "A diversão pode algumas vezes ser dura
quando o que você ama é o que deixa você para baixo".
Nota 6
Help
the aged
Começa como musiquinha de final de noite de bar. Mas na hora de entrar
o refrão, o guitarrista Russel puxa um kh...kh...kh... tipo Creep
(Radiohead em Pablo honey). E entra uma melodia chorosa que
culmina num coro ultramelódico de falsetes. Teclados climáticos
reforçam a grandiloqüência do refrão, contrastando
com o início barzinho, que se repete nas três últimas
palavras de Jarvis na música. "Ajude os velhos, pois um dia eles
foram como você/Beberam, fumaram cigarros e cheiraram cola (...) Ajude
os velhos, pois um dia você estará velho também".
Nota 6
This
is hardcore
Os primeiros momentos já entregam que as sombras da primeira faixa
voltaram. É a música que Jarvis alterna todos os tipos de vocais
que sabe fazer. Começa com um meio metálico, tipo Richard Aschcroft
(The Verve). Depois vem um falsete, que logo muda para um agudo sem
falsete. Trent Reznor, do Nine Inch Nails, é evocado antes do
refrão. No próprio, as guitarras formam uma tempestade de melodia
com a voz. Isto é hardcore, e não outras coisas sem graça.
Até o fim da música, Jarvis faz mais não sei quantos
tipos de voz, sem perder a linha, claro. Um trompete estilo Miles Davis
é o que não precisava estar nessa obra-prima. Na letra, o homem
pede para a mulher fazer um filme com ele, falar no microfone, pois ele quer
uma noite infernal e hardcore.
Nota 10
TV
movie
O solinho de piano desta música é o refrão. Ele é
perfeito para mostrar a bebês que ainda não saíram da
barriga da mamãe ou que já estão fora e gostariam de
dormir bem e felizes. E o mais legal é que ele não repete. Não
tem como enjoar. "Sem você minha vida se transformou (...) num
filme feito para a televisão: diálogo ruim, ação,
ruim, nada interessante/Muito longo, sem história e sem sexo".
Nota 8
A
little soul
"Eu gostaria de lhe mostrar um pouco de alma". Mais uma música
com refrão delicioso, cuja melodia é do estilo da do piano da
faixa anterior. Dá para sonhar com "Look like me...".
Nota 8
I'm
a man
Os primeiros toques da guitarra podem enganar que está começando
uma música do Placebo. Não sei se foi de propósito,
sem querer ou se o tipo de riff é mais comum do que se imagina. O refrão
cantando de forma aguda lembra a melhor e mais empolgante música do
Pulp, Like a friend, que só é encontrada na trilha
sonora de Grandes Esperanças. Aquela que toca quando Finn (Ethan
Hawke) pinta sua paixão (Gwyneth Paltrow) nua. Efeitos surround
(aqueles em que o som passa de uma caixa para a outra) estão presentes
neste disco do Pulp.
Nota 7
Seductive
Barry
Essa é música para quartos de motel kitsch. A letra fala
em fazer um filme com uma atriz pornô e se apaixonar por ela, não
querer mais acordar do sonho, se for um sonho. A música começa
com vozes femininas sussurradas e o ritmo das vozes - masculina grave e feminina
uma oitava acima - do refrão é hipnótico. Eu não
gosto do efeito. Acho enjoativa feito Henry Lee, que Nick Cave
canta com PJ Harvey em Murder ballads.
Nota 4
Sylvia
Mais uma com a fórmula falas cantadas + música de bar + refrão
êxtase. Isso quer dizer que você não vai encontrar muita
diversidade de estilo nos álbuns do Pulp, o que pode ser um
trunfo ou um ponto-fraco, depende do gosto do ouvinte. Sylvia é
a música mais pop de This is hardcore. Letra: o cara encontra
uma mulher que se parece com a Sylvia e ele fica lembrando-se dela. "A
beleza era o único crime dela".
Nota 7
Glory
days
É filha de Common people, tem quase a mesma melodia da música
mais festejadas do Pulp. Certamente foi composta para ser uma continuação.
O ritmo é dançante e a melodia parece estar sempre progredindo.
"Eu fiz experiências com substâncias, mas todas elas me deixaram
doente".
Nota 9
The
day after the revolution
A última faixa é bowieana das boas. "A revolução
começa e termina com você".Mas o ponto alto é o seguinte:
O teclado começa a tocar no primeiro segundo, junto com a música.
Tudo pára aos 4min52s, só que o teclado fica soando o mesmo
acorde. Aos 9min52s Jarvis diz "Bye bye" e o teclado fica soando
o mesmo acorde. Aos 14min58s o teclado pára de soar o mesmo acorde
e o disco acaba.
Nota 8
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