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Tudo simplesmente acontece. Não há como fugir, negar, comprar o inevitável. Há, sim, como ignorá-lo, mas o preço geralmente é alto, pois não existe mentira tão perfeita que engane a si mesmo. É
certo, também, que o mundo não é exatamente como a gente
quer, que a sociedade é feita de aparências e que essas aparências
são, quase sempre, 90% do que importa na história. Ou seja,
vivemos em um mundo sustentado pelo irrealizado. Inevitavelmente, tudo acontece porque tem que acontecer e o que é real, irreal, verdadeiro, sonho, fantasia e fuga acaba esbarrando sempre na vontade pessoal de cada ser querer que tudo dê certo. Mas todos erram, por medo, tolice ou gosto. E apesar de todos saberem que errar é humano, ninguém quer assumir que errou, preferindo que a dor o consuma vorazmente num primeiro momento para, num segundo, ficar observando até onde o inevitável consegue chegar sozinho. Os personagens
da pequena obra prima Magnólia são assim. Vivem fugindo
de alguma coisa que os persegue persegue persegue até que, num momento
de sublime percepção, descobrem: estão fugindo de si
mesmos. O filme é uma prisão cinematográfica. Seus Ganhou o Festival de Berlim 2000 e deu a Tom Cruise o Globo de Ouro de ator coadjuvante e uma indicação ao Oscar. Inicia com um sensacional prólogo em que, em off, Tom Cruise explica que as coincidências existem, mas, inevitavelmente, as coisas acontecem porque tem que acontecer. Três pequenas histórias que já valeriam o filme, caso o que se seguisse fosse ruim. Não é. As próximas três horas serão embebidas em lirismo, mágicas e chuva.
Perfilando fracassos, loucuras, fantasmas pessoais, busca pelo amor, por remédios, e rãs, temos um professor machista (Tom Cruise), o pai que o abandonou (Jason Robards), seu enfermeiro (Philip Seymor Hoffman), sua esposa oportunista (Julianne Moore), um veterano apresentador de TV (Philip Baker Hall), sua filha viciada (Melora Waters), um gênio mirim (Jeremy Blackman) e o pai que o explora, um fracassado gênio mirim (William H. Macy) e um policial (John C. Reily). Cada um tem suas histórias que, claro, não são lá muito alegres. Todos eles, assim como nós, erram. E todos eles sofrem, menos pelos erros, mas mais pela falta do dom de perdoar. Magnólia não é um filme sobre pecados, como muitos tacharam. É, ao contrário, um filme sobre perdão, mas o perdão demora a vir e quando vem surge ancorado numa referência bíblica, estampada por alguém numa platéia de um game show que leva ao alto um cartaz: Exodus 8:2. "Aarão estendeu a mão sobre as águas do Egito, e as rãs saíram, cobrindo o Egito". Não
chove à toa. Alias, chove o tempo todo no filme, mas a grande chuva
só vai ocorrer quando o ápice de melancolia de todos os personagens
se encontrar, coincidentemente, na mesma rua: Rua Magnólia. Paul Thomas Anderson diz que o filme é baseado em personagens reais, em pessoas que ficaram presas no passado. Num trecho significante, o filme diz e explica-se: "O passado saldou suas contas conosco, mas nós não o deixamos para trás". Com trilha sonora sublime e melancólica de Aimee Mann, cantora preferida do escritor Nick Hornby, e um final completamente arrebatador, Magnólia é o mais belo filme dos últimos tempos. Tudo simplesmente
acontece, a toda hora. Filmes maravilhosos assim, não. |
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