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Uma obra-prima em duas partes
Songs From An American Movie Vol. One: Learning How To Smile
Songs From An American Movie Vol. Two: Good Time For A Bad Attitude
Everclear

>> André Takeda



Art Alexakis, o exorcista

Todo artista é também um exorcista. Um auto-exorcista, na verdade. É seu próprio padre que sob a cruz da arte tenta expulsar seus demônios. Preste atenção. Às vezes é possível sentir a dor do artista ao ouvir uma música, ao ler um livro, ao assistir a um filme, ao ver um quadro. E se por acaso você sorrir, chorar, enfim, se emocionar e ter vontade de ouvir de novo, de ler de novo, de assistir de novo, de ver de novo, é porque está diante de uma obra-prima.

Art Alexakis é um artista. É um auto-exorcista que escolhe o rock'n'roll para colocar seus demônios para fora. Traumatizado por ter sido abandonado pelo pai quando criança, escreveu amargas canções sobre amor e, principalmente família, nos três primeiros discos de sua banda Everclear. Em 1997, chegou perto da perfeição ao juntar sua amargura com um punk rock de personalidade no álbum So much for the afterglow. Ali, você pode ouvir pelo menos duas pérolas: "eu acho que a lua-de-mel terminou" na faixa-título, e "papai me deu meu nome e depois foi embora" em Father of mine. Mas muita coisa aconteceu na vida de Art Alexakis desde então. Sua filha Annabela nasceu, viu seu próprio casamento desmoronar, ficou mais famoso do que poderia imaginar. Foram tantos demônios que um disco apenas não foi suficiente. E no ano passado o Everclear lançou dois álbuns no intervalo de cinco meses. Separados, Songs From An American Movie Vol. One: Learning How To Smile e Songs From An American Movie Vol. Two: Good Time For A Bad Attitude são excelentes. Juntos, formam uma verdadeira obra-prima. É a autobiografia de Art Alexakis, magistralmente composta por Greg Eklund e Craig Montoya (bateria e baixo, respectivamente).


Aprendendo a sorrir

No primeiro disco, o Everclear deixa de lado o peso e mostra que entende de pop. Mas aqui o pop é usado para celebrar a tristeza, a saudade, a angústia, a dor. A primeira música, na verdade quase uma vinheta, é Song from an american movie Pt. One. O clima é íntimo: sons de grilos, violões e bandolins. E, com uma linda melodia, Art Alexakis diz "a única coisa que sempre fez sentido na minha vida é o som da minha filhinha rindo". E, claro, as risadas de Annabela Alexakis encerra a música e, surpresa, o que ouvimos é uma guitarra wah-wah e loops de bateria. É um Everclear funkeado, em uma de suas melhores músicas. Here we go again começa com balanço, e explode em um refrão perfeito e repleto de saudades de "assistir filmes pornôs naquele quarto feliz com você, dormir em um colchão no canto do quarto e comer comida chinesa gordurosa". Parece engraçado? Leia de novo, agora imaginando que você tem quase 40 anos e já não está mais ao lado da ex-mulher que ralou todas ao seu lado. Here we go again com seu clima dançante não consegue esconder um Art Alexakis com saudades de sua juventude. Saudades que se tornam explícitas no quase hip-hop AM Radio. Hip-hop? Sim, um hip-hop com pegada roqueira. Aqui, o tema é a adolescência pobre do vocalista nos anos 70 e do início de sua paixão pela música. "Eu gosto de pop e eu gosto de soul, eu gosto de rock, mas eu nunca gostei de disco", ele revela no final da canção, dando dicas para entender a próxima faixa. Afinal, o irlandês Van Morrison é um daqueles exemplos perfeitos de pop, soul e rock. E é dele Brown eyed girl, outra canção sobre saudade. O único pecado é o arranjo grandioso para o clássico de Van Morrison. Mas o deslize é logo compensado pelos excelentes vocais de Art Alexakis, que canta como se estivesse com saudades do tempo em que andava de carro com o som no volume máximo.

Mas logo a saudade já não tem mais espaço em Songs from an american movie Vol. One: Learning how to smile. Brown eyed girl e seu pop ensolarado termina e o que temos é a épica Learning how to smile. Em um crescendo repleto de guitarras e cordas, ouvimos as angústias e desilusões de um casal que está em constante fuga, como se isso pudesse trazer alguma certeza do encontro com a felicidade. Art Alexakis arranca toda esperança de sua alma e canta uma das frase mais bonitas do disco: "eu posso lidar com o inferno do dia-a-dia, quando você sorri e toca meu rosto faz com que tudo vá embora". Este pedacinho de felicidade continua na única canção cuja letra não é de Art Alexakis. The honeymoon song é um country rock escrito e cantado por Greg Eklund. Entre bandolins, ele diz "você sabe que eu te amo, e eu sei que você também me ama, mas a diversão daquele dia não começou até nós sairmos de lua-de-mel". Antes que se possa esboçar um sorriso, Art Alexakis volta aos vocais e tudo está literalmente acabado. I know it's over é, óbvio, uma canção sobre separação. "Eu espero encontrar as palavras para dizer educadamente foda-se, agora que tudo acabou", ele fala antes de começar outro country rock. Thrift store chair cronologicamente representa os meses anteriores de I know it's over. Com uma belíssima melodia, fala sobre brigas, discussões, desentendimentos. É quando o casal sabe que está "a caminho de um tempo ruim".

O tempo ruim chega. E a saudade volta. Agora, o clima épico aparece novamente para falar de lembranças em Otis Redding. É estranho ouvir uma banda que sempre soou como Ramones citando um dos maiores cantores do soul. Mas o Everclear é assim. É capaz de fazer cover de Van Morrison, falar de Otis Redding, soar funk e tocar guitarras distorcidas sem perder a personalidade. E a saudade agora é amarga: "você se lembra de quando nós tínhamos fome, você se lembra de quando nós sentíamos frio, você se lembra de quando éramos felizes de um jeito que ninguém de fora poderia entender". É Art Alexakis prestando contas com seu passado. Será que ser um rock star é ser feliz? Nem sempre. Na próxima canção, Unemployed boyfriend, ele canta na primeira pessoa de um jovem oferecendo tudo o que tem a uma mulher. E tudo que ele tem é seu amor, prometendo que "você pode ficar comigo, eu sempre vou deixar você vencer, eu nunca vou ser como os outros caras".

Então, chegamos à drobradinha final do disco. Duas canções sobre o mesmo tema. Duas canções de cortar o coração. Duas canções sobre paternidade. Wonderful é uma balada poderosa, daquelas que grudam na cabeça e fazem que se aperte a tecla repeat do aparelho de som. Art Alexakis canta de forma emocionada sobre sua própria infância. É o ponto-de-vista de uma criança que não consegue mais presenciar o final do casamento de seus pais. A letra é uma pequena preciosidade, cujo ponto alto é o verso "eu apenas não consigo entender como você consegue sorrir com todas as lágrimas em seus olhos e dizer para mim que tudo está maravilhoso agora". Não, não há como enganar uma criança. E o que ouvimos são cicatrizes expostas. Cicatrizes que Annabella Alexakis nunca terá. É para ela a canção que encerra Songs from an american movie Vol. One: Learning how to smile. Annabella's Song é uma canção de ninar, com direito a orquestra e a um emocionante arranjo vocal. Aqui, o líder do Everclear pede desculpas pelos dias que está longe por causa das turnês e mostra sua tristeza por não acompanhar o crescimento da filha. Mas ele termina dizendo "Anna, você nunca está sozinha".

Pronto. O Everclear já aprendeu a sorrir. Agora é uma boa hora para uma má atitude.

Feliz apenas em estar vivo

Cinco meses depois de mostrar sua versatilidade musical, o Everclear lança Songs from an american movie Vol. Two: Good time for a bad attitude. Ao contrário do que a banda declarou, o álbum não é uma volta às raízes. É, sim, menos pop que o disco anterior, mas o peso já não é mais o mesmo de So much for the afterglow. Aqui, temos o outro lado da moeda. Se o disco pop fala sobre saudade, este fala sobre mágoa. A angústia agora é substituída pela ironia. E a desilusão se transforma em esperança.

O álbum abre com uma sequência arrasa-quarteirão. São quatro canções com muita guitarra, baixo lá na frente, vocais enterrados e peso. When it all goes wrong again é Art Alexakis renascendo no meio de tanta confusão. A tempestade parece ter passado e agora ele está mais forte: "eu estarei no topo do mundo quando tudo der errado novamente". Ele já não tem mais medo da vida. Em Slide ele está prestes a entrar em um furacão novamente. Mas e daí? "Eu sou elástico, eu lido facilmente com a perda", canta. A má atitude surge em Babytalk. Enquanto as guitarras ficam mais barulhentas, ouvimos frases como "eu odeio quando você fala como um bebê quando está com sua namorada". É uma anti-love song, uma música de quem já não se deixa enganar com os mimos do início de um relacionamento. O quarto petardo é o punk rock "Rock Star", com sua letra repleta de ironias:"eu quero ser um rock star, ser como aqueles caras na MTV, eu apenas quero ser um rock star , eu quero que aquelas garotas do Real World fantasiem sobre mim".

Mas rock stars também envelhecem. E o Everclear baixa a velocidade em Short blonde hair. Art Alexakis assume que está ficando velho e careca, mas e daí? "Tudo o que eu sempre quis foi tocar guitarra em uma banda de rock'n'roll", ele diz com um sorriso no rosto. Já Misery whip começa com uma levada country no violão até explodir em guitarras pesadas e um refrão que fala de sexo como escapismo: "eu preciso que você me faça me sentir como se eu fosse seu garoto de programa, eu me sinto completo quando me sinto doente por dentro". Esta doença é comprovada na próxima música. Out of my death utiliza uma melodia extremamente pop para que Art Alexakis assuma que "talvez precise procurar ajudar profissional". E o mais irônico é que parece que ele está cantando com um sorriso no rosto. Agora que ele já sabe o que está acontecendo, tudo poderá ficar melhor.

No entanto, o remédio não está apenas dentro de um consultório. É a paixão que leva embora os problemas. Parece até bruxaria. Não é à toa que a única balada de Songs from an american movie Vol. Two: Good time for a bad attitude se chama The good witch of the north. Com versos como "meu amor é a única coisa boa nestes dias" e "e eu juro que vou casar com você um dia" mostram a esperança surgindo em Art Alexakis. O casamento já não é algo a ser esquecido.

Bom, Art Alexakis pode pensar novamente em casamento. Mas ainda guarda muitas mágoas de sua ex-esposa. Em All fucked up e Overwhelming ele destila toda sua raiva. A primeira é um hardcore que afirma "se o resto da minha vida for assim, então eu prefiro morrer". E a segunda é mais um daqueles rockões épicos que o Everclear agora está mestre em criar. Com uma bela melodia, Art Alexakis diz que cansou de ser o "saco de pancadas". Aqui está um dos melhores versos do álbum: "você diz que me ama para sempre, depois cospe em mim". Cruel, mas lindo.

E, então, chegamos a Song from an american movie Pt. 2. A canção é a versão completa e elétrica de Song from an american movie Pt. 1. Agora, não é apenas uma vinheta. É power pop de primeira qualidade. Uma canção perfeita, bonita, alegre, para cima. É um dia de sol em forma de música. E a letra é 100% esperança. Esperança de encontrar um novo amor, esperança de ver sua filha crescer, esperança de viver. E é assim, com esperança e cantando "algumas vezes eu me sinto feliz apenas por estar vivo", que Art Alexakis termina seu exorcismo.

Esqueça o que os filmes de terror nos mostram. Às vezes uma sessão de exorcismo pode não ser assustadora. Em Songs from an american movie Vol. One: Learning how to smile e Songs from an american movie Vol. Two: Good time for a bad attitude, por exemplo, há apenas a alegria de estar ouvido uma obra-prima do rock.

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