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O Leitor Não é Bobo!

 

 

Existia uma questão importante quando decidi escrever aqui sobre quadrinhos, de moderar minhas opiniões por eu ser um especialista na área. Vou tentar falar de um momento ruim em uma certa série de quadrinhos que acompanho, um assunto um pouco antigo, por falta de idéias para escrever (na terceira e a crise da falta de assunto chega), mas ao mesmo tempo é atual.

    One Piece é um mangá publicado pela Conrad Editora há um bom tempo, na edição 28, de julho de 2004, aconteceram coisas estranhas. Era a batalha final para que os eventos da “ilha pré-histórica” chegassem ao fim, três personagens foram presos pelo vilão em uma estrutura de cera, que eliminava pequenas partículas do material no ar, o que formava uma névoa que endurecia seus corpos entrando por poros e, inevitavelmente, por estar misturado ao ar entrava nos pulmões (uma das personagens comentou isso). Acabaram virando estátuas de cera, tinham 30 segundos até que seus corações parassem de bater. Alguém devia salvá-los, foi quando um dos protagonistas tira da mochila uma corda e utiliza óleo para fazer com que ela pegue fogo. Passaram a corda pela estrutura de cera e puseram fogo no negócio. Não era fogo, era muito fogo, gigantescas labaredas de fogo lambendo a estrutura de cera e os três personagens, que se livraram da armadilha somente com suas roupas um pouco queimadas...

    Nesse momento a fantasia tinha se transformado em um boneco de cera, ela deixou de existir na hora. Foi decepcionante quando aquilo aconteceu, eu mesmo fiquei me perguntando durante a história como é que eles se livrariam daquilo, não existia uma solução, tudo estava perdido, isso me deixava angustiado. Não que eu quisesse que os personagens morressem, eram os protagonistas, não deviam morrer assim. Mas o autor colocou os personagens numa situação que nem ele sabia como tirar (acho), então colocou uma idéia absurda em prática que só acabaria complicando mais ainda as coisas (imagine cera derretendo no pulmão), mas nem isso aconteceu. Ta bom, durante a história aconteceram diversos fatos que deixava claro que aqueles personagens eram diferentes e qualquer coisa absurda que acontecesse a eles era fato, só ampliava essa idéia de “diferentes”, “anormais”. E eu acreditava nisso. Eu sei que é estranho demais aproximar aquilo de nossa realidade, que certos detalhes eram necessários para a sobrevivência daquele grupo naquele momento, mas tudo se encaixava a realidade deles, até esse ponto...

    Naquele momento eu fiquei certo de uma coisa: eles são invencíveis. O que pode destruir personagens que vencem o fogo, que derretem uma camada de cera quente que cobria o corpo, que não queimam os cabelos no fogo, que tem cortes gigantescos abertos na barriga e anda por aí tranqüilamente? Nada! O máximo que posso esperar são brigas espetaculares, vilões super fortes, heróis arrebentados, o de sempre, eles não vão morrer... E se morrerem vai ser mentira! Se esse fato foi normal, a morte seria anormal.

            Me pergunto, até onde uma história pode ir sem perder a lógica? Até que ponto o leitor não percebe certas coisas? Não sei se todos os que leram pensaram a mesma coisa em One Piece. Mas é estranho quando vemos que um personagem morreu e depois o encontramos em uma nova edição no mês que vem, ou ele é ressuscitado em alguma edição futura porque ele é muito legal. Se essas coisas fizerem parte do universo da história, ótimo, se quer se mostrar um elemento anterior à morte, melhor ainda. Só não vale criar portas que abrem pra dentro abrindo pra fora ou pernas que se mexem pra todos os lados possíveis, sem que essa bagunça toda tenha lógica. No final vai ter sempre alguém olhando e se não gostarem vão reclamar, pode ter certeza.

 

    Rond

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