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Estroft
Num Fim de Tarde de Outono...

 

 

É fim de tarde de uma segunda-feira de março, a brisa fria do outono me deixa mais nervoso ainda. Estou parado, petrificado, no meio de um parque no bairro em que vivo. Minhas mãos estão tremendo, meu suor está frio e parece que meu coração vai se despedaçar no meu peito. Mal consigo respirar, é como se tivesse corrido meio mundo até chegar aqui. Nem consigo pensar direito, não sei nem como começar a falar.

O parque está deserto, parece que as pessoas que andam pela rua nem notam que esse parque existe ou que o sol está se pondo do outro lado e que os pássaros estão brincando no vento... Acho que o grande drama do namoro volta a minha vida. Sou um adolescente, as coisas deviam, simplesmente acontecer, mas tenho que ficar nervoso pra dizer umas palavras...  Me falta coragem pra muita coisa, até pra falar o que sinto.

Lá vem ela, no meio da multidão de pessoas, os cabelos balançando ao vento... Parece que está andando em câmera lenta... Não tenho coragem de olhar para seus olhos pretos, eles me transportam para outro lugar, eu perderia a minha coragem se olhasse. Eu queria ser mais corajoso.

– Oi – disse ela com uma expressão pesada.

– Oi – respondi inseguro.

O silêncio, o lago calmo que se forma entre duas pessoas. As palavras desapareceram. Meus olhos pesavam, só conseguia olhar o chão, o nervosismo era muito grande, até que o silêncio foi quebrado.

– Você está estranho. – Ela olhou pra mim, talvez esperando que eu levantasse a cabeça e começasse a falar. Continuei em silêncio, meu coração estava disparado, consegui levantar a cabeça, mas desviei o olhar. Ainda não tinha palavras.

– Se você não vai falar nada – disse séria –, então eu vou. Eu já sei o que está acontecendo...

Meu coração parecia que ia explodir no meu peito. Virei rápido para poder olhar o rosto dela, foi tão rápido, mesmo assim pude ver a tristeza naquele belo rosto.

– Você vai fazer de novo, não é? – Ela continuou a falar, provavelmente olhando pra mim. Não tive coragem de encará-la. De repente, não sabia se devia falar ou ficar calado, ela devia saber o que sinto. Finalmente as palavras chegaram a minha boca.

– Esfriou de repente, não foi? – E infelizmente, não foram as melhores palavras que pude achar. Tomei coragem, ela me encarava, triste, uma vontade de chorar veio, mas tive que engolir na hora.

– Me desculpa... – Acho que agora consegui dizer alguma coisa que fizesse sentido.

– Eu já sabia.

– Não dá pra continuar...

– Por que você disse?

– Era o que eu sentia naquela hora...

– E já parou de sentir?

– Eu... Eu não sei...

– Por que – gaguejou – tá mentindo pra mim?– A voz dela estava triste, a frase saiu engasgada, vi seus olhos se encherem de lágrimas. Não consegui responder, só penso no lixo que sou. Ela vai me odiar pra sempre.

– Me desculpa... – Ela não vai me desculpar, eu sei disso. – Eu devia ter ficado calado, era melhor do que ter te enganado por todo esse tempo. Acabei machucando nós dois.

Mais uma vez um silêncio, dessa vez quebrado pelo som dos soluços do choro dela.

– Às vezes, você é muito frio... – Disse enquanto enxugava as lágrimas com a manga do casaco. – Eu é que sou muito burra, eu te forcei a dizer aquilo, eu é que devia ter ficado calada. Eu achei que você já podia responder. Eu não devia ter acreditado... Como é que você agüenta repetir tanto uma mentira? Você não tem um pingo de sentimento?

– Me desculpa...

– Que merda! Aprendeu a pedir desculpa ontem? Vai ficar repetindo isso pra sempre? Não! Dessa vez não dá! – Ela estava furiosa.

Eu não gosto de machucar as pessoas, mas eu sempre acabo fazendo isso. Acho que vou morrer, meu coração vai explodir. Bem que eu merecia morrer depois de tudo o que eu fiz... Os olhos dela ficaram tão vermelhos, o rosto dela também... O silêncio voltou. Não consigo suportar esse vazio, essa falta de palavras, não consigo nem ouvir o barulho dos carros, o mundo deve ser só esse espaço em que nós dois estamos.

– Eu sabia – ela voltou a falar – que isso ia acabar acontecendo. O seu jeito é estranho, você não sabe como tratar uma garota... Quando acaba o prazo de validade você joga fora não é? – Ela tinha parado de chorar, seus olhos e rosto continuavam avermelhados. – Lembra quando a gente era menor e só ficava brincando por aí, sem ligar pra nada? Eu sempre te batia e você nunca fazia nada... Eu era muito chata e você era legal... Bons tempos. Já tava na hora de eu levar uma surra... Talvez eu merecesse...

Meu coração apertou, eu devo ter abandonado muitas qualidades com o tempo. Acabei perdendo muita coisa, perdi uma lição importante por chegar atrasado na aula da vida, e agora estou vivendo as conseqüências.

– Eu não bato em garotas...

– Que bom – ela soltou um risinho –, pelo menos isso... Mas eu esperava que você dissesse outra coisa. – Ela fez cara de quem ia chorar. – Eu tenho que engolir o choro... – Essa pausa me deixou mais triste por ser quem eu sou. – Eu me apaixonei por você, achei que pudesse mudar esse seu jeito infantil de “nunca amar ninguém”. Você – disse gaguejando – vai agüentar viver com isso?

Uma pergunta difícil.

– Eu não sei...

As luzes dos postes começaram a acender, o céu já estava deixando de ser azul claro para dar lugar à escuridão da noite. Eu queria ir embora, desaparecer daquele lugar e parar de falar. Já acabou, o que ela quer? Eu nem sei mais o que dizer...

– Eu – parei pra pensar antes de continuar – me ferrei muito acreditando nessa de amor... Eu já contei essa história... Você sabe que eu não me sinto feliz por estar fazendo isso. Eu não estou me divertindo terminando o nosso namoro. Eu errei em ter esfriado meu coração, ter fechado tudo dentro de mim... Eu erro em abandonar o que pode ser bom pra mim...

– E eu quis te ajudar... Eu queria que você reaprendesse o que é o amor... Eu te amei sabia? Eu ainda te amo...

– Eu também... – Meu coração parecia estar voltando ao normal, mas uma tristeza muito grande me cercava, eu comecei a sentir frio – Eu também te amei...

Ela voltou a chorar, tentava fazer parar, mas continuava chorando.

– Você não merece essas lágrimas – ela escondeu o rosto com os braços.

– Que resposta pra alguém que ama...

– Cala a boca, seu frio! Seu bosta! Você não entende disso, se fecha na droga do seu mundinho e morre na merda de um quarto vazio! Imbecil! Idiota! Idiota! Idiota!

Não faço idéia se tinha alguém prestando atenção nisso, os gritos me golpearam o peito, meu coração acelerou, sinto vontade de chorar tudo o que eu venho segurando há muito tempo, mas eu não posso...

– Até quando? – Ela continuava tentando conter o choro.

– O que? – Juro que não entendi, minha cabeça, meu coração, parecia que meu corpo inteiro ia explodir.

– Até quando você vai ficar sem saber? – A voz estava mais calma – Até quando você vai ficar segurando seu coração? Quantas mais você vai fazer sofrer? Pra quantas você vai dizer que ama, sem no mínimo sentir isso?

Um bombardeio de perguntas difíceis.

– Ainda não sei...

– Sabe? Qualquer um é menos complexo do que você. Eu te adoro, eu te amava, ainda devo amar, mas isso passa. É melhor acreditar que você é como uma gripe, foi só um problema temporário... Cara, você precisa de alguém que te ajude...

– Eu sei...

– Sabe, mas foge da ajuda. Foge de quem gosta de você... – Os olhos dela se encheram de lágrimas mais uma vez.

– É...

– Eu não vou começar a chorar de novo. Eu só quero sair daqui e nunca mais precisar olhar pra sua cara. Por favor, finge que eu nunca cruzei o seu caminho, que eu nunca passei na sua vida...

Eu não tinha mais o que falar, nem conseguia ficar em pé. Sentei no banco e olhei pro céu escuro. Olhei pra frente e a vi indo embora pelo mesmo caminho que chegou. Ela olhou pra mim com o rosto vermelho de tanto chorar e com os olhos ainda cheios de lágrimas, virou e saiu pelo portão, fez sinal para um ônibus e subiu, ela me olhou pelo vidro, o ônibus saiu, mas ela continuou olhando, até desaparecer. Ela queria ficar longe de mim... Pegou qualquer ônibus... Em casa, sozinho e com o coração apertado, pensei na minha situação e então finalmente pude chorar.

Fim

 

Rond

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