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Estudo sobre Característica na Poesia II III. Nível Fônico A poesia sempre teve valorizados seus aspectos sonoros. Suas associações com a música são antigas. As redes de tensão dos poemas de Rimbaud ou Baudelaire, por exemplo, têm sido insistentemente ligadas a forças parecidas com as da música; mas, no poema moderno não é a musicalidade que está em jogo. Segundo Oswaldino Marques: "com a "Arte Poética" de Verlaine, a poesia abdicava de suas prerrogativas de arte literária. Como reação a esse gesto "suicida", os modernistas passaram a uma poesia " rigorosamente construída com os valores intrínsecos da sua matéria-prima - a palavra. O problema se invertia - De la parole avant toute chose, / Et tout le reste est musique . . . poderiam parodiar". A reação aludida nada mais é do que uma crítica que privilegia os efeitos sonoros de outra ordem, objetivando chamar a atenção sobre o próprio código utilizado. Salientam-se as possibilidades expressivas dos elementos sonoros presentes no signo verbal. Som e sentido vinculam-se indissoluvelmente, numa interação contínua e motivada, responsável por uma série de efeitos sonoros peculiares aos poemas modernos. São eles resultantes de processos tais como a paronomásia, o neologismo, a repetição a fragmentação, o erro intencional, etc. A Paronomásia
ou :
Chamando a atenção sobre as possibilidades significativas de seu material fônico, a linguagem do poema realiza associações insólitas, como em:
A organização sonora do texto presentífica a metamorfose à medida que as palavras vão se transformando a partir de analogias inusitadas. Segundo Décio Pignatari, a paronomásia, regida pelo princípio de similaridade, estaria na gênese da descoberta de Roman Jakobson sobre a semelhança forma! dos fonemas. Estabelecendo a similaridade sintática ou a semelhança entre o significante e o significado, a paronomásia rompe o discurso, criando uma sintaxe não-linear, uma "sintaxe analógico-topológica", explica Pignatari. E acrescenta: "Segue-se, ou assim me parece, que ao nível verbal seria a paronomásia ou paramorfismo e não a metáfora, a responsável pela caracterização do eixo paradigmático". Por sua capacidade de gerar correspondências espaciais a similaridade sonora (paronomásia) torna-se o fundamento principal da sintaxe icônica subjacente na poesia, ou "a ponte do verbal para o icônico" na opinião abalizada de Pignatari. O Neologismo e Criações Vocabulares
Na busca da expressão fônica adequada à imagem sonora do bonde, o poeta realmente "cria". Pode-se pensar, inclusive, na ausência possível de qualquer objeto designado, como propriedade importante do neologismo poético criado a partir de necessidades de sonorização expressiva; como acontece no verso de Cassiano Ricardo:
que pode ser lido como uma sucessão abstrata de assonâncias e aliterações, sem nenhuma relação com um referente. Hugo Friedrich associa este tipo de construção, por analogia, à musical atonal onde: " La dissonancia entre significado absurdo Y fuerza sonora absoluta es ya definitiva". A poética de Mário de Andrade é um exemplo riquíssimo do trabalho com neologismos. Alguns vocábulos, colhidos de sua Poesia Completa, permitem verificar como Mário explorou este recurso:
A Repetição
O apoio rítmico em " ágil " vai fazer com que a linguagem do poema estatua-se como uma entidade de assinalada autonomia. Confere-se à palavra poética uma função mais fonética de imagem válida principalmente por sua concretude verbal. Em termos de adequação à atmosfera criada pelas imagens do poema, a repetição funciona como um dos recursos mais expressivos. É o que se observa nos versos de "Trem de Ferro":
ou ainda em "Berimbau".
Nestes versos o poeta busca elementos do código sonoro para reforçar o código verbal de que se utiliza, efetuando uma operação intersemiótica. A Fragmentação Pode ocorrer que uma palavra seja fragmentada para que um tipo especial de rima se efetue, como no exemplo:
ou em:
Pode ocorrer também, que a sílaba remetida ao verso seguinte forme efeitos fônicos especiais; como em:
ou em:
Observe-se que, no último caso, a sílaba mo, é remetida ao verso seguinte para ressaltar a aliteração do m. O Erro Intencional
ou em:
Percebe-se que o escritor se volta para a inerência lingüística imediata - a palavra ou a construção da frase, .motivado por uma vontade de ser original. Saliente-se a consciência de que a palavra poética deve ser a anotação direta e circunstancial, deve apanhar a fala popular em estado bruto como nos poemas abaixo:
A preocupação com o elemento fônico da palavra dá-se em termos de procurar fazer com que ela se torne o registro verbal da poesia que existe nos fatos. Busca-se uma língua natural onde o erro é criativo. Justamente neste sentido, o modernismo brasileiro tentou refundir a língua literária na instituição do erro intencional: insubmissão à língua gramaticalizada e codificada. A palavra passou a "signo de discordância com a arte, de crítica dos emblemas da cultura intelectual e de oposição à sociedade" como afirma Benedito Nunes. A Rima Examine-se um exemplo:
O poema não é sistematicamente rimada, nem metrificado e foge a uma pontuação convencional. Caracteriza-se, portanto, como um texto transgressor, tanta em relação ao código lingüístico, quanto em relação à linguagem poética convencional. Observe-se que as rimas que ocorrem no texto são intencionalmente críticas. Além de servirem de sustentação fônica, reforçando o caráter reiterativo do texto, estas rimas adquirem um significado especial. Vale dizer: sua ocorrência é motivada por uma crítica ao próprio uso convencional da rima.
IV. Nível Visual Código verbal e espacialidade se completam quando a linguagem poética é enriquecida por meio dos recursos tipográficos, do aproveitamento do espaço em preto e do espaço em branco e pela própria disposição dos caracteres sobre a folha de papel. O texto passa a mostrar uma fisionomia própria. Neste sentido, o poeta moderno passa a ser o configurador de mensagens, porque ele vai explorar as virtualidades dos elementos visuais presentes no signo verbal. Como configurador de mensagens, a partir da tomada de consciência da espacialidade do poema, o poeta posiciona-se diante da visualidade, pouco ou quase nada explorada na poética convencional. Percebe-se que a visualidade marca inegavelmente a poesia moderna; aquela poesia em que o poeta utiliza-se de recursos tipográficos, do geometrismo, da figuração, da montagem, da fragmentação, da repetição, da pontuação, etc. Recursos tipográficos Ex.:
Ex.:
No primeiro exemplo, o poeta tira partido das virtualidades significativas dos parênteses, das reticências e do hífen. Casos semelhantes ocorrem na exploração das maiúsculas. No segundo exemplo, utilizando-se de tipos cada vez menores, o poeta tenta ilustrar graficamente a carga semântica dos versos. Geometrismo É o que ocorre num poema de Manuel Bandeira: Azulejo
(Manuel Bandeira)
Observe-se que o processo é desenvolvido posteriormente no Concretismo e na Poesia Praxis, respectivarnente, servindo para marcar forte tendência da produção poética brasileira durante muitos anos. Figuração Danças III Filha, tu sabes . . . que hei de fazer! Nós todos somos assim. Eu sou assim. Tu és assim. Dançam os pronomes pessoais. Nunca em minuetes! Nunca em furlanas!
ELES
Não paro.
Gatunos!
Judeus! Quebras formidáveis! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . (Mário de Andrade) Observe-se que o encadeamento das unidades lingüísticas "figura" a própria dança da quadrilha. Trata-se de um processo visualizador que aproveita concretamente a palavra poética e o espaço em que o poema se constrói. A palavra ganha significação na área do figurativo ao imitar o movimento das danças, rompendo com a lógica discursiva. Montagem Haroldo de Campos vê no poeta um "diagramador da linguagem" porque este tira especial partido, no campo onde a função poética é dominante, "das virtualidades dos constituintes icônicos presentes nas estruturas sintáticas e morfológicas da linguagem." Em certos casos de montagem percebe-se que a disposição das palavras no espaço da página vai ilustrar a carga semântica dos sintagmas. Temos assim a montagem como ilustração, recurso que privilegia o aspecto visual, como no exemplo: " Noite sideral.
Só estrelas Sóis orbitais. Luas que são uma fortuna
Outra forma de montagem é a justaposição ou aglutinação dos elementos lingüísticos. Este tipo de montagem propicia uma percepção da dimensão material das palavras, associando-se à apreensão do jogo dos significados. Veja-se alguns exemplos de Jeremias sem chorar: (s (r ) elva - Cassiano Ricardo (p. 50) Fragmentação Por exemplo:
Nestes casos, o espaço interno do poema torna-se significante, adquirindo carga semântica específica, reforçando ou ainda materializando a carga semântica dos versos. Cassiano Ricardo utiliza-se deste recurso não só a nível das expressões, mas também fragmentando palavras e até sílabas. Exemplos : "no outro lado da esfera ".
"dando-lhe um ritmo extracorporal?"
Percebe-se nitidamente que o significante visualmente ilustra o significado. Repetição Observe-se: "E a multidão sacode, no ar,
NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃONÃONÃONÃONÃONÃO NÃO NÃONÃONÃO NÃO NÃO Cada um com um " não" na mão
Caso marcante de repetição por motivação visual, o poema revela a opção pela visualização do nível material da palavra NÃO, compactamente repetida. O impacto visual corresponderia ao significado. Em sua leitura destes versos, Mário Chamie vai mais longe, vendo o til como punhos no ar, na iconização do plebiscito. A repetição de uma palavra ou expressão cria verdadeiras manchas visuais no poema, instaurando uma outra ordem de significação - a icônica - pertinente a um outro código diferente do verbal. Neste caso, ocorre saturação do verbal no icônico.
Visualmente tem-se o movimento rotativo das palavras repetidas que funcionam num sentido gráfico. Os elementos repetidos presentificam o círculo vicioso, a partir de um ritmo acionado pelo processo icônico. Pontuação Inspiração São Paulo! comoção de minha vida ...
Evidentemente o perfil gráfico do poema é enriquecido pela pontuação funcional. Imprimindo uma dinâmica visual inusitada ao poema, a pontuação auxilia na caracterização dos elementos multiformes que compõem o complexo fenômeno que é a cidade de São Paulo. O mesmo ocorre no poema "Evocação do Recife ", que não apresenta uma pontuação sistemática Pelo contrário, foge ao convencional. Neste sentido, a noção da novidade na pontuação, do estranhamento, vem quebrar o uso rotineiro da língua. Observe-se um fragmento do citado poema: Rua da União . . . Como eram os nomes das ruas da minha infância Rua do Sol (tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal) Atrás de casa ficava a Rua da Saudade . . .
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora . . .
- Capibaribe
De modo geral, como recusa das regras e convenções estratificadas, a pontuação funcional, praticada pelos modernistas e pelos poetas que vieram depois deles, revela-se capaz de sugerir múltiplas conotações e de expressar a visão sintetizadora daqueles que desejam "ver com olhos livres".
V. Considerações Finais Nos casos estudados, percebe-se que, de uma maneira ou de outra, quer se privilegie esta ou aquela técnica expressiva, os elementos semânticos acabam sendo enfatizados. O caráter ambíguo da linguagem poética é ressaltado em decorrência de uma consciência de linguagem que visa criar a tensão semântica ou uma semantização de outra ordem, apoiada na relação inter-códigos. Trata-se de uma poesia que não se comporta em suas dimensões convencionais. Enquanto anti-discursiva e anti-retórica, esta poesia reflete a desarticulação da sintaxe, na busca de uma linguagem poética adequada a um novo tempo. Neste sentido, a linguagem modernista beneficiou-se não só da assimilação dos princípios estéticos da vanguarda européia, como também da divulgação dos gêneros poéticos orientais; do desenvolvimento do estilo telegráfico na publicidade e na imprensa; e do cinema, com seu dinamismo de imagens simultâneas. A libertação, que o verso livre corporificou, veio marcar toda a produção poética posterior. Muitos dos processos e técnicas, apenas ensaiados pelos modernistas, desenvolveram-se posteriormente. Tendo o modernismo efetuado um redimensionamento na literatura brasileira, de modo a substituir o artificial e o superado pelo autêntico e atual, suas projeções ainda se fazem sentir na poesia contemporânea e até nas letras das canções populares.
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