Esquina da Literatura

br.geocities.com/esquinadaliteratura

Início > Escolas Literárias > Modernismo >
Parte I | Parte II


Estudo sobre Característica na Poesia II
texto do trabalho Modernismo

III. Nível Fônico

A poesia sempre teve valorizados seus aspectos sonoros. Suas associações com a música são antigas. As redes de tensão dos poemas de Rimbaud ou Baudelaire, por exemplo, têm sido insistentemente ligadas a forças parecidas com as da música; mas, no poema moderno não é a musicalidade que está em jogo. Segundo Oswaldino Marques: "com a "Arte Poética" de Verlaine, a poesia abdicava de suas prerrogativas de arte literária. Como reação a esse gesto "suicida", os modernistas passaram a uma poesia " rigorosamente construída com os valores intrínsecos da sua matéria-prima - a palavra. O problema se invertia - De la parole avant toute chose, / Et tout le reste est musique . . . poderiam parodiar". A reação aludida nada mais é do que uma crítica que privilegia os efeitos sonoros de outra ordem, objetivando chamar a atenção sobre o próprio código utilizado. Salientam-se as possibilidades expressivas dos elementos sonoros presentes no signo verbal. Som e sentido vinculam-se indissoluvelmente, numa interação contínua e motivada, responsável por uma série de efeitos sonoros peculiares aos poemas modernos. São eles resultantes de processos tais como a paronomásia, o neologismo, a repetição a fragmentação, o erro intencional, etc.

A Paronomásia
Nas paronomásias, assim como nas ilustrações sonoras, a similitude fonológica passa a ser sentida como um parentesco semântico. ~ o que ocorre, por exemplo, nos versos.

o astronauta

Marav'ilha,

Marajó, ilha.

Onde mais bonito poema

marajoara?

(Cassiano Ricardo)

ou :

"Um tigre em 4 dimensões
tigradas, gradativas."

(Cassiano Ricardo)

Chamando a atenção sobre as possibilidades significativas de seu material fônico, a linguagem do poema realiza associações insólitas, como em:

"O préstito passando.
Bandos de clarins em cavalos fogosos.
Utiaritis aritis assoprando cornetas sagradas.
Fanfarras fanfarrans

fenferrens

finfirrins ...

Forrobodó de cúia!"

(Mário de Andrade)

A organização sonora do texto presentífica a metamorfose à medida que as palavras vão se transformando a partir de analogias inusitadas.

Segundo Décio Pignatari, a paronomásia, regida pelo princípio de similaridade, estaria na gênese da descoberta de Roman Jakobson sobre a semelhança forma! dos fonemas. Estabelecendo a similaridade sintática ou a semelhança entre o significante e o significado, a paronomásia rompe o discurso, criando uma sintaxe não-linear, uma "sintaxe analógico-topológica", explica Pignatari. E acrescenta: "Segue-se, ou assim me parece, que ao nível verbal seria a paronomásia ou paramorfismo e não a metáfora, a responsável pela caracterização do eixo paradigmático". Por sua capacidade de gerar correspondências espaciais a similaridade sonora (paronomásia) torna-se o fundamento principal da sintaxe icônica subjacente na poesia, ou "a ponte do verbal para o icônico" na opinião abalizada de Pignatari.

O Neologismo e Criações Vocabulares
Nos neologismos ou nas criações vocabulares, por motivação fônica, o poeta busca novas possibilidades de verbatização, para além das áreas lexicais espotadas. Como no exemplo:

"O transatlântico mesclado

Dlendlena e esguicha luz"

(Oswald de Andrade)

Na busca da expressão fônica adequada à imagem sonora do bonde, o poeta realmente "cria".

Pode-se pensar, inclusive, na ausência possível de qualquer objeto designado, como propriedade importante do neologismo poético criado a partir de necessidades de sonorização expressiva; como acontece no verso de Cassiano Ricardo:

"belobélico pteroid volans"

que pode ser lido como uma sucessão abstrata de assonâncias e aliterações, sem nenhuma relação com um referente. Hugo Friedrich associa este tipo de construção, por analogia, à musical atonal onde: " La dissonancia entre significado absurdo Y fuerza sonora absoluta es ya definitiva".

A poética de Mário de Andrade é um exemplo riquíssimo do trabalho com neologismos. Alguns vocábulos, colhidos de sua Poesia Completa, permitem verificar como Mário explorou este recurso:

- Maçonariamente, os aplaudires, champanhações (p. 33)
- Tintinabulem tintinas (p. 218)
- A cibalização cristã (p. 222)
- veaiver, núvoas, caqueiral (p. 226)

A Repetição
A repetição funciona como elemento rítmico. Quando fonicamente motivada, reforça a fixação da mensagem dispensando o elemento lógico-persuasivo do discurso convencional. Neste caso, o nível estrutural espelha um verdadeiro tecido que projeta na camada sonora a repetição enquanto tônica estilística do poema, como se observa nos versos drummondianos:

" até na ponta da asa
de seu nariz fino e frágil.
de sua alma fina e frágil,
de sua certeza frágil,
frágil, frágil, frágil, frágil
mas que por frágil é agil,
e na sua mala-sorte
se rirá ele da morte"

(Carlos Drummond de Andrade)

O apoio rítmico em " ágil " vai fazer com que a linguagem do poema estatua-se como uma entidade de assinalada autonomia. Confere-se à palavra poética uma função mais fonética de imagem válida principalmente por sua concretude verbal.

Em termos de adequação à atmosfera criada pelas imagens do poema, a repetição funciona como um dos recursos mais expressivos. É o que se observa nos versos de "Trem de Ferro":

" Café com pão
Café com pão
Café com pão"

(Manuel Bandeira)

ou ainda em "Berimbau".

" Chamo o saci :- si si si si!
- Ui ui ui ui ui!. uiva a iara"

(Manuel Bandeira)

Nestes versos o poeta busca elementos do código sonoro para reforçar o código verbal de que se utiliza, efetuando uma operação intersemiótica.

A Fragmentação
Quando ocorre fragmentação por motivação sonora, os detalhes salientados vão instituir novos significados que somente poderiam ser suscitados pela valorização do material fônico em si.

Pode ocorrer que uma palavra seja fragmentada para que um tipo especial de rima se efetue, como no exemplo:

Boa filha, boa irmã e
Boa esposa. Ó anjos, dai-
lhe a gentileza da mãe,
A inteligência do pai.

(Manuel Bandeira)

ou em:

"Igual ao

da au

la de geo

grafia eu/

menino"

(Cassiano Ricardo)

Pode ocorrer também, que a sílaba remetida ao verso seguinte forme efeitos fônicos especiais; como em:

" Pensa-se que

Aga Kan morreu
de um cân
cer de ouro".

(Cassiano Ricardo)

ou em:

" Sai do seu bojo co
mo
de uma máquina"

(Cassiano Ricardo)

Observe-se que, no último caso, a sílaba mo, é remetida ao verso seguinte para ressaltar a aliteração do m.

O Erro Intencional
Tomando a linguagem como o campo onde a insatisfação se opera por si mesma, o poeta moderno contesta-a ou procura reavaliá-la. A pesquisa da linguagem revela-se a categoria básica da criatividade nesta poesia que se toma como próprio referente. Neste sentido, metabolismos essencialmente críticos geram novas estruturas lingüísticas, como ocorre nos versos de Mário de Andrade:

"Ai, gentes! eu parto! não sei pra onde vou!"

(Mário de Andrade)

ou em:

"Berenguendes berloques ouropeis de Oropa

/ consagrada

(Mário de Andrade)

Percebe-se que o escritor se volta para a inerência lingüística imediata - a palavra ou a construção da frase, .motivado por uma vontade de ser original. Saliente-se a consciência de que a palavra poética deve ser a anotação direta e circunstancial, deve apanhar a fala popular em estado bruto como nos poemas abaixo:

"vício na fala

Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior dizer pió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhados

(Oswald de Andrade)

o violeiro
Vi a saída da lua
Tive um gosto singulá
Em frente da casa tua
São vortas que o mundo dá"

(Oswald de Andrade)

A preocupação com o elemento fônico da palavra dá-se em termos de procurar fazer com que ela se torne o registro verbal da poesia que existe nos fatos. Busca-se uma língua natural onde o erro é criativo. Justamente neste sentido, o modernismo brasileiro tentou refundir a língua literária na instituição do erro intencional: insubmissão à língua gramaticalizada e codificada. A palavra passou a "signo de discordância com a arte, de crítica dos emblemas da cultura intelectual e de oposição à sociedade" como afirma Benedito Nunes.

A Rima
Pode-se falar de uma "redescoberta" da rima no poema moderno. Esta postura revela uma preocupação com a estruturação do poema enquanto um totalidade em funcionamento Neste sentido, quando o poeta moderno, que não é "obrigado" a empregar a rima, utiliza-se deste recurso, pode-se ver nesta postura uma intencionalidade significativa.

Examine-se um exemplo:

Belo Belo

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Ouero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

(Manuel Bandeira)

O poema não é sistematicamente rimada, nem metrificado e foge a uma pontuação convencional. Caracteriza-se, portanto, como um texto transgressor, tanta em relação ao código lingüístico, quanto em relação à linguagem poética convencional.

Observe-se que as rimas que ocorrem no texto são intencionalmente críticas. Além de servirem de sustentação fônica, reforçando o caráter reiterativo do texto, estas rimas adquirem um significado especial. Vale dizer: sua ocorrência é motivada por uma crítica ao próprio uso convencional da rima.

 

IV. Nível Visual

Código verbal e espacialidade se completam quando a linguagem poética é enriquecida por meio dos recursos tipográficos, do aproveitamento do espaço em preto e do espaço em branco e pela própria disposição dos caracteres sobre a folha de papel. O texto passa a mostrar uma fisionomia própria. Neste sentido, o poeta moderno passa a ser o configurador de mensagens, porque ele vai explorar as virtualidades dos elementos visuais presentes no signo verbal. Como configurador de mensagens, a partir da tomada de consciência da espacialidade do poema, o poeta posiciona-se diante da visualidade, pouco ou quase nada explorada na poética convencional.

Percebe-se que a visualidade marca inegavelmente a poesia moderna; aquela poesia em que o poeta utiliza-se de recursos tipográficos, do geometrismo, da figuração, da montagem, da fragmentação, da repetição, da pontuação, etc.

Recursos tipográficos
A própria utilização não convencional dos caracteres tipográficos transforma-se matéria de proposição plástica. Neste caso, enfatiza-se um elemento do código lingüístico que normalmente era esquecido. Este "estranhamento" parte de uma concepção não-verbal do recurso visual como elemento estrutural da nova linguagem poética. Observe-se alguns exemplos:

Ex.:

" Meu desejo e pensamento

(. . . numa indiferença enorme . . . )

Ronda sob as seringueiras

(. . . numa indiferença enorme . . . )

Num amor-de-amigo enorme . . . "

(Mário de Andrade)

Ex.:

" Procurar, mas em vão
O irmão do irmão do Irmão do irmão
e, um atrás do outro,
o irmão sempre adiado".

(Cassiano Ricardo)

No primeiro exemplo, o poeta tira partido das virtualidades significativas dos parênteses, das reticências e do hífen. Casos semelhantes ocorrem na exploração das maiúsculas.

No segundo exemplo, utilizando-se de tipos cada vez menores, o poeta tenta ilustrar graficamente a carga semântica dos versos.

Geometrismo
Oriundo da postura crítica de uma sintaxe anti-discursiva que visa consolidar o poder de objetivação da linguagem poética, surge o geometrismo. Vinculada às artes plásticas, esta técnica permite o aproveitamento do espaço concreto onde a palavra se dimensiona visualmente. O encadeamento geométrico das unidades lingüísticas no branco da página vai formar o poema como se fosse um painel.

É o que ocorre num poema de Manuel Bandeira:

Azulejo

alarido

alvorada

 

ferro

serro

 

peito

flauta

 

nésperas

anêmona

 

noite

noivado

(Manuel Bandeira)

 

Observe-se que o processo é desenvolvido posteriormente no Concretismo e na Poesia Praxis, respectivarnente, servindo para marcar forte tendência da produção poética brasileira durante muitos anos.

Figuração
Decorrente da necessidade de aproveitamento das virtualidades do espaço do poema, assim como o geometrismo, a figuração extropola o signo verbal. Neste caso, existe uma atitude crítica implícita, uma desconfiança com relação às possibilidades significativas do signo verbal. O trabalho, caracteristicamente formal, serve para reforçar o sentido da mensagem, como no exemplo:

Danças

III

Filha, tu sabes . . . que hei de fazer!

Nós todos somos assim.

Eu sou assim.

Tu és assim.

Dançam os pronomes pessoais.

Nunca em minuetes! Nunca em furlanas!

EU

ELE TU

NÓS

ELES

VÓS ...

Não paro.

Não paras.

Sucedem quadrilhas . . .

Gatunos!

Assassinos!

Ciganos!

Judeus!

Quebras formidáveis!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

(Mário de Andrade)

Observe-se que o encadeamento das unidades lingüísticas "figura" a própria dança da quadrilha. Trata-se de um processo visualizador que aproveita concretamente a palavra poética e o espaço em que o poema se constrói. A palavra ganha significação na área do figurativo ao imitar o movimento das danças, rompendo com a lógica discursiva.

Montagem
A montagem, tentando concretizar a linguagem poética através de uma acentuada atmosfera de síntese, pode operar uma topografia da significação. Seu valor plástico cria um espaço de crítica dentro da série literária.

Haroldo de Campos vê no poeta um "diagramador da linguagem" porque este tira especial partido, no campo onde a função poética é dominante, "das virtualidades dos constituintes icônicos presentes nas estruturas sintáticas e morfológicas da linguagem."

Em certos casos de montagem percebe-se que a disposição das palavras no espaço da página vai ilustrar a carga semântica dos sintagmas. Temos assim a montagem como ilustração, recurso que privilegia o aspecto visual, como no exemplo:

" Noite sideral.

Só luz.

Só estrelas Sóis orbitais.

Luas que são uma fortuna

jogada no ar".

(Cassiano Ricardo)

Outra forma de montagem é a justaposição ou aglutinação dos elementos lingüísticos. Este tipo de montagem propicia uma percepção da dimensão material das palavras, associando-se à apreensão do jogo dos significados. Veja-se alguns exemplos de Jeremias sem chorar:

(s (r ) elva - Cassiano Ricardo (p. 50)
na entre - es (p) fera - Cassiano Ricardo (p. 44)
ode (a) ocidental - Cassiano Ricardo (p. 21 )
sob sua (m) ira - Cassiano Ricardo (p. 27)

Fragmentação
Correspondendo a uma crise da linguagem, a fragmentação seria a forma possível de expressão do universo fraturado em que o poeta vive. Necessidades internas do poema, em termos espaciais, podem fazer com que os elementos lingüísticos apareçam de forma fragmentada.

Por exemplo:

" Desencontro de asa ,
entre nós"

(Cassiano Ricardo)

"Serro Verde Serro azul

As duas fazendas de meu pai "

(Carlos Drummond de Andrade)

Nestes casos, o espaço interno do poema torna-se significante, adquirindo carga semântica específica, reforçando ou ainda materializando a carga semântica dos versos.

Cassiano Ricardo utiliza-se deste recurso não só a nível das expressões, mas também fragmentando palavras e até sílabas.

Exemplos :

"no outro lado da esfera ".

(Cassiano Ricardo)

"dando-lhe um ritmo extracorporal?"

(Cassiano Ricardo)

Percebe-se nitidamente que o significante visualmente ilustra o significado.

Repetição
A repetição revela a consciência da impossibilidade de expressão do código verbal. À medida que ocupa um lugar no espaço do poema, a palavra reiterada torna-se portadora de informação nova.

Observe-se:

"E a multidão sacode, no ar,

os punhos)

NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO

NÃONÃONÃONÃONÃONÃO

NÃO NÃONÃONÃO NÃO NÃO

Cada um com um " não" na mão

(cortada).

(Cassiano Ricardo)

Caso marcante de repetição por motivação visual, o poema revela a opção pela visualização do nível material da palavra NÃO, compactamente repetida. O impacto visual corresponderia ao significado. Em sua leitura destes versos, Mário Chamie vai mais longe, vendo o til como punhos no ar, na iconização do plebiscito.

A repetição de uma palavra ou expressão cria verdadeiras manchas visuais no poema, instaurando uma outra ordem de significação - a icônica - pertinente a um outro código diferente do verbal. Neste caso, ocorre saturação do verbal no icônico.

Rotação

a esfera

em torno de si mesma

me ensina a espera

a espera me ensina

a esperança

a esperança me ensina

uma nova espera a nova

espera me ensina

de novo a esperança na esfera

. . . . . . . . . . . . . . . . . . .

(Cassiano Ricardo)

Visualmente tem-se o movimento rotativo das palavras repetidas que funcionam num sentido gráfico. Os elementos repetidos presentificam o círculo vicioso, a partir de um ritmo acionado pelo processo icônico.

Pontuação
A fuga da pontuação convencional e a conseqüente opção pelo uso funcional e assistemático dos sinais de pontuação, muitas vezes se integra num processo visualizador. Um exemplo permite verificar a prevalência do elemento visual no poema:

Inspiração

São Paulo! comoção de minha vida ...
Os meus amores são flores feitas de original. . .
Arlequinal! . . . Traje de losangos . . . Cinza e ouro . . .
Luz e bruma . . . Forno e inverno morno
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes . . .
Perfumes de Paris ... Aryz!
Bofetadas líricas no Trianon . . . Algodoal! . . .
São Paulo! comoção de minha vida
Galicismo a berrar nos desertos da América!

(Mário de Andrade)

Evidentemente o perfil gráfico do poema é enriquecido pela pontuação funcional. Imprimindo uma dinâmica visual inusitada ao poema, a pontuação auxilia na caracterização dos elementos multiformes que compõem o complexo fenômeno que é a cidade de São Paulo. O mesmo ocorre no poema "Evocação do Recife ", que não apresenta uma pontuação sistemática Pelo contrário, foge ao convencional. Neste sentido, a noção da novidade na pontuação, do estranhamento, vem quebrar o uso rotineiro da língua.

Observe-se um fragmento do citado poema:

Rua da União . . .

Como eram os nomes das ruas da minha infância

Rua do Sol

(tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)

Atrás de casa ficava a Rua da Saudade . . .

. . .onde se ia fumar escondido

Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora . . .

. . . onde se ia pescar escondido Capiberibe

- Capibaribe

(Manuel Bandeira)

De modo geral, como recusa das regras e convenções estratificadas, a pontuação funcional, praticada pelos modernistas e pelos poetas que vieram depois deles, revela-se capaz de sugerir múltiplas conotações e de expressar a visão sintetizadora daqueles que desejam "ver com olhos livres".

 

V. Considerações Finais

Nos casos estudados, percebe-se que, de uma maneira ou de outra, quer se privilegie esta ou aquela técnica expressiva, os elementos semânticos acabam sendo enfatizados. O caráter ambíguo da linguagem poética é ressaltado em decorrência de uma consciência de linguagem que visa criar a tensão semântica ou uma semantização de outra ordem, apoiada na relação inter-códigos. Trata-se de uma poesia que não se comporta em suas dimensões convencionais. Enquanto anti-discursiva e anti-retórica, esta poesia reflete a desarticulação da sintaxe, na busca de uma linguagem poética adequada a um novo tempo. Neste sentido, a linguagem modernista beneficiou-se não só da assimilação dos princípios estéticos da vanguarda européia, como também da divulgação dos gêneros poéticos orientais; do desenvolvimento do estilo telegráfico na publicidade e na imprensa; e do cinema, com seu dinamismo de imagens simultâneas.

A libertação, que o verso livre corporificou, veio marcar toda a produção poética posterior. Muitos dos processos e técnicas, apenas ensaiados pelos modernistas, desenvolveram-se posteriormente. Tendo o modernismo efetuado um redimensionamento na literatura brasileira, de modo a substituir o artificial e o superado pelo autêntico e atual, suas projeções ainda se fazem sentir na poesia contemporânea e até nas letras das canções populares.

 

Fonte:
BERNARDI, Rosse Marye; COSTA, Marta Morais da; FARIA, João Roberto Gomes de; GUIMARÃES, Denise Azevedo Duarte; WEINHARDT, Marilene. Estudo sobre o modernismo. Ed. 1. Curitiba. Edições Criar. 1982.

Parte I

Topo


Início | Autores | Escolas Literárias
1998-2007 Esquina da Literatura - InfoEsquina

 

Hosted by www.Geocities.ws

1