As primeiras coisas
cap�tulo 7
Sinais de vida
Um velho com o macac�o da zeladoria do Mackenzie andava muito devagar. Everton, de �culos protetores e guarda-p�, dentro do novo laborat�rio de hidr�ulica, observava enquanto o homem levava uma eternidade para passar do lado de fora da janela. N�o atentava mais ao que o professor falava e nem percebia os colegas ao seu redor.

Era um homem muito magro e ressequido, bastante encurvado e visivelmente banguela, mas Everton olhava como se ele carregasse, no seu andar s�frego, alguma resposta importante que ele precisava
decifrar. Que c�digos aquele velho encerrava na sua caminhada? Que estranha cadeia de s�mbolos o magnetizava daquele jeito?

Ele tentava descobrir voluptuosamente, escavando dentro de si a tradu��o do que o que estava ali fora tentava dizer. Por fim entendeu: velhice. Ali, no meio da universidade transbordante de vida, de forma abrupta a velhice o esbofeteava.

Repetiu a palavra em pensamento: velhice. E cismava at� que notou que sua perturba��o �ntima n�o passara despercebida do colega ao lado. Tentou disfar�ar, sorriu, passou a m�o pelos cabelos e tentou voltar a prestar aten��o no professor, mas a palavra velhice n�o demorou a capturar suas id�ias de novo.

Como um raio uma lembran�a lhe fustigou a mente. Eram as palavras da B�blia: "Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos em que dir�s: n�o tenho neles prazer; antes que escure�am o sol e a luz, e a lua e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva", etc.

Essa lembran�a assim, de repente, t�o intacta, o surpreendeu, porque veio de muito longe, da inf�ncia, quando o av� o levava � igreja adventista e passava horas a lhe contar hist�rias da B�blia e delas
extrair li��es de moral.

Sorriu ao lembrar do av�. Homem ponderado, justo. Sorriu ao lembrar dos nomes dos estranhos personagens que povoavam aquelas ex�ticas hist�rias. Elas serviram para ele de primeira fantasia, ciceronearam os primeiros v�os de sua imagina��o. Gide�o, Sans�o, Jonas, Daniel. Um venceu uma multid�o com apenas trezentos homens; outro jogado num po�o com le�es; outro arrancou com as m�os as enormes portas de uma cidade. Fatos memor�veis, em nome de Deus.

Lembrou-se do pr�prio av�, muito velho, a lhe repetir aquelas palavras "lembra-te do teu Criador..." Um dia o ouviu murmurar que para ele havia chegado os tais dias, nos quais n�o se via prazer.

O que mais causou estranheza a Everton, no entanto, ao recordar-se de todo o mundo e o tempo que seu av� representava e que estivera por tanto tempo ignorado, guardado, foi o recordar-se da incr�vel for�a que tinha, e a esperan�a que o movia, de reencontrar a esposa, a av� a quem Everton nem chegara a conhecer. De encontrar tamb�m a filha e os netos no glorioso dia da volta de Jesus. Quando falava nisso os olhos j� meio ba�os brilhavam e ele abra�ava o neto muito forte, dizendo com paix�o:

- Everton, faz for�a pra estar l�! Voc� tem que estar l�, naquele dia! E fa�a sua m�e estar l� tamb�m, ela pode voltar, eu sei!

Afastava o neto e olhando-o por entre l�grimas perguntava sempre a mesma coisa:

- Voc� vai querer ver o v� de volta, n�o vai?

Everton sentia a press�o daquele abra�o na nuca.

A aula acabou. Ele vagou pelos corredores do Mackenzie por alguns instantes e deixou-se cair sentado sobre uma mureta onde o sol da manh� batia. Seu cenho franzido e o olhar perdido lhe conferiam um ar desvairado. Acabou por pousar os olhos na palma da m�o e enquanto examinava minuciosamente suas linhas pensava em velhice, morte, solid�o e afins.

Quando se deu conta do papel�o que estava fazendo, olhou em volta a ver se algu�m o observava. Ningu�m. Empertigou-se e saiu andando outra vez. Perguntava-se o que havia lhe acontecido e n�o esperava resposta, que sabia que n�o havia.
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