As primeiras coisas
cap�tulo 6
O Homem Absorvente
Bruna nadava calmamente, tirando a cabe�a da �gua para respirar a cada quatro bra�adas, atenta �s linhas no fundo da piscina. Passava em revista mentalmente a mat�ria de direito administrativo, cuja prova se aproximava amea�adoramente e ia assim, distra�da, cruzando a
piscina de ponta a ponta abstra�da do tempo.

S� quando sentiu o cansa�o j� dono de suas pernas foi que resolveu parar. Agarrou-se � borda e levantou os pequeninos �culos de nata��o sobre a touca. Olhou sorridente e arfante ao redor at� dar com os olhos de um rapaz em traje de banho, sentado esparramadamente numa
cadeira, com uma toalha sobre os ombros, olhando-a languidamente.

- Que horas s�o, Celso? � ela lhe perguntou.

- Quase nove. Haja f�lego!

Ela riu e deixou-se estar boiando por alguns instantes.

- Sabe � Bruna come�ou a falar ainda com a cabe�a semi submersa, deixando apenas nariz, boca e olhos do lado de fora, for�ando o rapaz a aproximar o tronco para poder ouvir � uma vez eu li um gibi, desses tipo Homem Aranha. Tinha l� um cara que havia sido malvado, mas que tinha tomado jeito, ou pelo menos estava tentando tomar. Bom, isso n�o interessa. O que interessa � que ele (seu nome era � n�o d� risada, hein? � Homem Absorvente) tinha o poder de adquirir as propriedades f�sicas daquilo que tocasse. Ent�o, se punha a m�o numa parede de concreto, seu corpo se tornava duro como concreto e assim por diante. Bom, a hist�ria vai rolando at� ele ter que fugir dos her�is, que n�o entendiam que ele tinha se emendado.
Pra n�o ser pego, ele cai no mar e sai nadando, e como os caras continuam atr�s dele, alguns voando � claro � ent�o o coitado adquire as propriedades da �gua. E se mistura com o mar � concluiu tirando a cabe�a da �gua e olhando sorridente o rapaz, que havia sentado na
borda da piscina, com os p�s para dentro.

- Ei, que hist�ria triste! � ele disse � Quer dizer, ele morreu, n�o � isso? E sem estar fazendo nada de errado...

- Acho que sim. Mas a verdade � que de vez em quando eu tenho vontade de fazer isso, me misturar com a �gua. Me fundir neste mundo, numa piscina, num asfalto, qualquer coisa.

- Se voc� se fundisse com a piscina eu ia ser obrigado a engarrafar a �gua dela toda. Ia guardar na minha casa, dentro do meu quarto. Claro, ia ter que fazer uma reforminha pra caber...

- Seria um jeito de continuar por aqui...

Depois de banhada e vestida, Bruna saiu do vesti�rio com um agrad�vel sensa��o a percorrer-lhe o corpo, carregando a mochila �s costas. Na portaria da academia, Celso a esperava, tamb�m vestido e perfumado. Interrompeu a conversa que entretinha com a mo�a da recep��o e aproximou-se de Bruna com o melhor sorriso que tinha.

- Bruna, essa sexta vai ter Leila Pinheiro no Tom Brasil, voc� viu?

Ela fez que n�o e ele continuou, falando mais perto e mais baixo:

- Eu sei que voc� gosta de bossa nova e quero te levar l�. Bossa nova seguida de cantina italiana, que acha?

Bruna evitou olh�-lo, estava embara�ada. Haviam chegado � porta da academia e ela rodava as chaves do carro na m�o sem dizer palavra.

- T� bom, se cantina italiana n�o te atrai, ent�o restaurante japon�s? Tailand�s? Portugu�s? Alem�o? Baked Potato? Mac Donald's? � a cada op��o al�ava mais as sobrancelhas, sem desmanchar o sorriso � T� legal, desisto, j� estou apelando at� pro Ronald Mac Donald's e
voc� nada!

Ela continuava muda, respirando com dificuldade. Celso fez um gesto de irrita��o:

- Bruna, qual�? O problema � dinheiro, � isso? Eu n�o sou suficientemente rico pra ter sua companhia uma noite? O problema � meu Palio amassado...?

Ela fez uma express�o de esc�ndalo, mas em seguida a substituiu pelo seu terno sorriso e pegou na m�o do rapaz dizendo com veludo:

- N�o � nada disso, Celso. Larga de ser bobo. Voc� sabe que eu n�o teria esses fricotes, mesmo que fosse rica como voc� sup�e. � fez uma pausa olhando nos olhos dele, que a fitava tristemente, depois continuou � Eu n�o posso sair n�o � com voc�; eu n�o posso sair com
ningu�m. Por favor, n�o pergunte porqu�, eu simplesmente n�o posso dizer... Eu queria que fosse diferente.

Um estertor de tristeza passou como um raio pelos olhos dela, retesando os m�sculos da face, mas em seguida ela abriu um sorriso ainda mais largo:

- Se eu pudesse, n�o ia querer ver Leila Pinheiro com outra pessoa. E depois sair pra comer churrasco grego!- ele riu, mas sem abrir m�o da tristeza � Por favor, entenda.

E deu-lhe as costas. O ar frio da noite golpeou-lhe o rosto e a obrigou a levantar a gola do agasalho que vestia enquanto abria o carro. Antes de dar a partida secou com as costas da m�o duas pequenas l�grimas que lhe apareceram nos olhos.

Dirigindo para casa, Bruna pensou em solid�o como havia muito tempo n�o pensava, tentando sorrir a cada esquina, mas n�o conseguindo, sucumbindo, chorando.
pr�ximo cap�tulo
cap�tulo anterior
p�gina inicial do conto
Hosted by www.Geocities.ws

1