As primeiras coisas
cap�tulo 5
No escuro
Everton esperava, um tanto nervoso, sentando no sof� da sala. Mudava os canais da TV sem achar nada que prestasse e a todo instante lan�ava olhares ou para a janela ou para o rel�gio.

Enfim, a irm� chegou. Ouviu o ronco do Fusca e o barulho no port�o e pulou do sof�, correndo a abrir-lhe a porta.

- Como voc� demorou hoje! Disse-lhe assim que ela desceu do carro. Ela o olhou com olhos cansados e disse em tom de lamento:

- O tr�nsito. Est� um inferno por causa da chuva da tarde.

Ia fechar a porta do carro quando estancou o movimento para perguntar ao irm�o:

- Voc� quer sair?

- Ser� que d� pra voc� ficar com ela um instante? Pensei em dar um pulo na quadra, faz quatro meses que eu n�o apare�o l�...

Nas retic�ncias escondia outras tantas palavras tamb�m: estou enferrujado, estafado, de repente percebi que n�o respiro mais sen�o em fun��o da m�e e que o anulamento da minha pr�pria vida n�o est� tendo efeito nenhum no quadro de sa�de dela; eu morro em vida e isso
n�o devolve a vida da m�e, ao contr�rio, parece que ela escoa cada vez mais r�pido.

No movimento de cabe�a que a irm� fez tamb�m estavam escondidas palavras: eu estou t�o cansada, esse neg�cio de sustentar a casa e a tua faculdade vai acabar fazendo com que eu tamb�m v� parar numa cama. E uma por��o de outras coisas, mas aos seus olhos darem com os do irm�o a compaix�o foi maior. Jogou-lhe a chave, dizendo:

- Vai l�, eremita. Sai da caverna!

Ele puxou a mochila que aguardava ao lado do sof�, beijou a irm� e entrou no carro.

- Como est�? ela perguntou acenando pra dentro de casa com um meneio de cabe�a.

- Na mesma. Liguei a televis�o pra ela, est� vendo a novela. Daqui a pouco a dona Vit�ria vem aplicar a inje��o, o algod�o est� naquele saquinho, do lado do iodo e do �lcool...

Ela o interrompeu com um aceno, j� sabia de tudo, que ele fosse em paz.

Everton dirigiu at� a quadra de futebol so�aite onde os amigos do col�gio se encontravam sempre. Estranhou encontr�-la apagada, mas parou o carro mesmo assim e desceu com a mochila nas costas. Junto ao port�o de ferro havia uma campainha, que ele tocou encostando o rosto �s grades do port�o. N�o dava pra acreditar que ningu�m apareceria justamente naquele dia, em que ele tinha sido assaltado em sua casa por uma pungente ang�stia por ver gente, de suar e de rir, de fazer alguma coisa, enfim. O zelador da quadra apareceu sorridente.

- � rapaz. Voc� faz um temp�o que n�o aparece, hein? Se quebrou, �?

- N�o, seu Valdemar. N�o � todo mundo que nasceu playboy e pode aparecer sempre, n�?

O velho riu virando a chave no port�o, resmungando qualquer coisa que Everton n�o entendeu.

- Ser� que ningu�m vai aparecer hoje, seu Valdemar? perguntou entrando sem esconder a ansiedade.

- Ah, voc�s n�o combinaram nada?

Everton fez que n�o com a cabe�a.

- Xi, rapaz, � capaz de n�o vir ningu�m mesmo, sabe? Eles t�o aparecendo mais de quinta e sexta-feira.

Ap�s cismar, Everton optou por esperar um pouco. Talvez s� estivessem atrasados, por conta da chuva.

Caminhou at� a quadra escura, deixou a mochila deslizar do ombro e pousar no banco de madeira que havia atr�s da grade que demarcava a quadra e sentou-se.

Ali, no escuro, jogado contra a parede por seus pensamentos, descobriu que a vida de enfermeiro que levava e a constante vigil�ncia, o constante receio de uma reca�da nos �ltimos tempos, e tamb�m aquele alerta constante para n�o deixar isso ser conhecido de ningu�m na faculdade n�o lhe haviam deixado sequer pensar na sua condi��o solit�ria. Foi como se a solid�o de muitos meses rompesse a represa e invadisse seu cora��o de repente, como uma manada de b�falos em estouro. Car�ncia de abra�os, car�ncia de aten��o, car�ncia de uma m�o macia em seus cabelos, aplacando-lhe a dor, fazendo-o dividi-la, tudo aquilo lhe acometeu naquele instante.

Descobriu-se s�. Era uma dor nova no painel das suas dores cotidianas. Nova e lancinante.

Fez for�a para n�o chorar, tentou desviar o pensamento, fixar no que tinha que fazer no dia seguinte, tentou correr de algo onipresente, pois levava o algo dentro de si, e era um v�cuo. Tudo em v�o, claro, estava sozinho, queria uma namorada e um amigo e a melancolia
violenta que se produziu no seu interior acabaria por vir�-lo do avesso n�o fossem os holofotes da quadra de acenderem de repente com o habitual estrondo.

Jogou e cansou, depois conversou e riu longamente com os velhos amigos.

O dia havia sido salvo e ele foi grato por aqueles bons momentos. Mas a verdade � que o estrago estava feito e dirigindo para casa ele lembrou que n�o apenas a m�e estava em estado miser�vel, mas tamb�m ele padecia grandemente � do esp�rito. N�o havia qualquer luz no fim
do t�nel, a �nica coisa que o libertaria seria a morte da m�e (sua cura j� n�o podia mais esperar), mas isso seria uma falsa solu��o para o seu drama, j� que a� ver-se-ia irremediavelmente destitu�do da companhia da pessoa que mais amava no mundo. Seria um tipo de solid�o perp�tua, cruel condena��o e s� o cogitar a morte da m�e como solu��o lhe enchia de asco de si mesmo.

Quando se est� no escuro, o escuro parece mais escuro e sem jeito.
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