As primeiras coisas
cap�tulo 4
O sil�ncio
No elevador que subia, abra�ada ao fich�rio e ao C�digo Civil, Bruna se olhava no espelho. Decidira que n�o mais ignoraria suas olheiras ou a palidez do rosto. Decidira ser mais forte que o abatimento moral que se insinuava, vencer, ao menos em dignidade, j� que n�o o podia fazer em sa�de. Sempre com os olhos no espelho passou a m�o pelos cabelos compridos, colocou uma mecha para tr�s da orelha e sorriu.

Pensou, enquanto sa�a do aparelho e abria a porta do apartamento, que herdara de sua m�e essa facilidade para sorrir.

Ela estava na sala, vendo TV e lixando as unhas. Bruna aproximou-se e beijou-a largamente na testa enquanto a m�e dizia:

- Oi, Bruna.

Olhando-a ternamente, Bruna disse:

- Muito obrigada.

A m�e, levemente surpresa, pousou as m�os no colo e perguntou com uma ruga de estranheza na testa:

- Por qu�?

Bruna sorriu e tomou o rumo do quarto, pensando como se n�o tivesse interrompido o curso das id�ias anteriores: se bem que ela utiliza essa facilidade para esp�reos fins demag�gicos, hip�critas, falsos e tudo o mais que julga dever fazer parte do arsenal de uma mulher.

Ela abriu sua janela e sorveu o ar profundamente. Como era frio, o quarto, aquele apartamento todo! Abra�ou-se, encostou-se num dos lados da janela e reclinou a cabe�a fechando os olhos, aquecendo-se ao sol. Acariciando os bra�os com as m�os concluiu em voz alta:

- Eu apenas sorrio � e sorriu largamente.

Tirou o pesado casaco jogando-o sobre a cama, desabotoou o cardigan com calma e o despiu, correndo a vestir uma blusa de flanela grossa no lugar. Tirou tamb�m a cal�a jeans e vestiu uma velha cal�a de pijama, colocou uma toca de l� na cabe�a e cal�ou pantufas de carneiro. Antes de guardar a roupa que usara agachou-se ao lado do
aparelho de som e ficou um longo tempo olhando a enorme pilha de CDs dispostos no rack ao lado. Custava a decidir-se por um deles.

- Por hoje chega de R�quiem � foi a �nica coisa que decidiu.

Descansou o rosto na m�o e provavelmente ficasse assim, olhando a lombada dos discos por muito mais tempo, n�o fosse a empregada aparecer na porta para avisar que o almo�o estava pronto.

Bruna levantou-se dando de ombros e foi arrastando as pantufas no carpete at� a cozinha, s� parando no lavabo para lavar as m�os com o mesmo cuidado que fazia tudo o mais.

- Minha m�e j� comeu? perguntou sentando-se � frente do prato que fumegava.

- J�. A senhora demorou um pouco para chegar hoje � respondeu a empregada de costas, espremendo laranjas numa suqueira sobre a pia.

Bruna olhou para a cadeira vaga � sua frente e sorriu para uma imagin�ria pessoa que a estivesse ocupando. Ent�o, tomando o garfo e a faca, mas sem desviar os olhos da tal companhia imagin�ria, disse-lhe baixinho:

- Ah, n�o se preocupe. Eu me sinto maravilhosamente bem hoje, maravilhosamente!

- Qu� que foi? perguntou a empregada.

- Esse seu gnochi � fenomenal, Rosa, voc� sempre se supera. Pode-se dizer, como um professor sempre fala, que voc� atingiu a excel�ncia!

Rosa riu orgulhosa e voltou ao seu suco. Um elogio � coisa que geralmente se apreende, a despeito de as palavras n�o serem l� muito compreens�veis.
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