| As primeiras coisas cap�tulo 3 |
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| Mentiras | ||||||||||||||||||
| Everton desceu do �nibus e subiu a ladeira com pressa. Pulou o port�o um pouco pela pressa, um pouco por pregui�a de o abrir, destrancou a porta da frente e entrou chamando pela m�e: - Cheguei! Tudo bem? Do quarto a mulher respondeu ap�s alguns instantes, fazendo evidente esfor�o para sua voz soar bem disposta: - Tudo bem, querido. Everton largou a mochila sobre o humilde sof� esburacado e voou para o quarto da m�e. O aposento estava riscado pela luz que uma persiana deixava entrar. Ao lado da janela, na cama, recostada numa pilha de travesseiros, uma mulher muito magra e p�lida esfor�ava-se por sorrir. Ele sentou-se na cama, tomou uma de suas m�os e com a m�o livre ajeitou os cabelos desgrenhados dela dizendo carinhosamente: - Desculpa a demora, m�e. Eu resolvi parar um pouco no sol para dar uma descansada e acabei perdendo a no��o do tempo, voc� sabe como � que eu sou... - Que besteira � ela atalhou. N�o s�o nem uma e meia, voc� est� chegando na hora de sempre, Ton. Ele a fitou nos olhos e disse sem demora: - Ah, eu hoje n�o tive a �ltima aula, podia ter chegado pelo menos quarenta minutos antes. Desculpa. - Filho, voc� n�o pode parar de viver por mim, entendeu? ela perguntou com ar grave � E nem precisa, voc� sabe, eu ando me sentindo bem, bem de verdade... - Opa. Assim � que eu gosto de te ver, m�e � ele pensou um pouco, olhando a persiana � sua frente. Depois continuou � Sabe, eu tenho certeza que em um m�s voc� vai estar �tima, m�e! � que eu fico chateado de perder um instante que for dessa recupera��o, quero desfrutar cada passo! Ela sorriu docemente e com a m�o livre acariciou a m�o do filho: - Meu querido. Depois disse, esfor�ando-se para endireitar sua posi��o na cama: - S� que voc� vai ter que fazer seu almo�o hoje. Eu tive... eu tive uma indisposi��o... coisa boba, sabe? E resolvi nem levantar. Depois, estava t�o frio, n�o estava? Voc� se agasalhou direito? - Tudo bem, eu frito um ovo, n�o se preocupe � ele disse e, beijando sua testa, levantou-se. Havia cinco meses que ouvia todo dia a mesma coisa, havia cinco meses eu preparava o pr�prio almo�o. Havia cinco meses que fingia acreditar e fazia o poss�vel para que ela pr�pria acreditasse no seu restabelecimento. Dura vida era essa, de viver mentindo para algu�m a quem nunca precisara mentir. Dura vida era essa, de s� ouvir desse algu�m outras mentiras e de fingir que nelas cria. Esse jogo de enigmas bobos dos quais n�o poderiam abrir m�o, pelo amor imenso que os unia, parecia acentuar a crueldade da situa��o, acentuar o sofrimento. Algu�m disse que a pior sensa��o que o homem pode ter � a de impot�ncia � ver uma situa��o ruim e n�o poder fazer nada para mud�-la. Talvez seja verdade. Everton pensava muito nisso, revoltava-se, debatia-se, irava-se mudamente. Provavelmente a m�e fizesse o mesmo. Como acontecia quase sempre havia pelo menos cinco meses, quando a doen�a de sua m�e tomou aquelas propor��es, Everton cozinhou sem poder reter o choro. N�o se acostumava �quilo, nunca se acostumaria. Revoltava-se, irava-se, mas sempre em sil�ncio, armazenando fel... |
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