| As primeiras coisas cap�tulo 2 |
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| Eu vivo! | |||||||||||||||||||
| Para qualquer um amante de livros, a biblioteca do Mackenzie � um lugar mais do que apenas lindo: � m�stico, um lugar com alma. Bruna n�o se cansa de admir�-la. Precisa interromper a leitura de tempos em tempos para olhar ao redor com �xtase. Lembra-se da por��o de comerciais para TV que j� foram gravados ali dentro e sente um orgulho de n�o-propriet�ria, orgulho de peda�o integrante da personalidade daquelas paredes, de cada prateleira de madeira. � um grande caixote de grandes tijolos � vista. Um dos lados � tomado por uma enorme janela, de alto a baixo. Os outros tr�s lados t�m tr�s andares de plataformas de madeira em formato de "u", onde, sobre um carpete marrom com cara de t�o antigo quanto o pr�dio, ficam pequenas estantes de madeira de lei, abarrotadas de livros. A grande janela faz com que a atmosfera interna seja preenchida de uma claridade que Bruna classifica como gorda, saud�vel e s�bia. As plataformas s�o ligadas por velhas escadas de madeira que rangem suavemente ao serem pisadas. O t�rreo, com piso tamb�m de madeira, tem um balc�o de onde os funcion�rios atendem �s retiradas e devolu��es de volumes e cinco compridas e pesadas mesas. Atr�s delas, grossas colunas que sustentam as plataformas, cercadas de velhas cadeiras e, encostadas �s paredes, mais estantes, recheadas de dicion�rios e enciclop�dias. Bruna n�o pode ficar triste ali. No CD player com fones de ouvido ela escuta, arrebatada, o R�quiem de Brahms; � frente, sobre a mesa, um romance que est� adorando e tudo isso naquele edif�cio sagrado para o qual ela corre a todo intervalo que aparece na faculdade de Direito, o pr�dio justamente ao lado. Ela passeia seus olhos pelas palavras impressas com quase afeto, sem pressa, parando de vez em quando para fazer, com um l�pis e em caligrafia cuidadosa e levemente inclinada, algum tipo de anota��o ao lado de um par�grafo que lhe chamou a aten��o. N�o se importa que o livro n�o seja seu, escreve sem cerim�nia e por vezes abre seu caderno e copia trechos inteiros, comentando-os em seguida. O R�quiem segue. Um bar�tono canta uma melodia linda linda e ela sorve as palavras que j� conhece de cor, embaralhando-as com as que est� lendo. Pensa que � desses momentos de �xtase que sua vida deveria ser feita. Pensa que vai fazer de tudo para multiplic�-los. A� chega a melancolia e ela pensa que tem de fazer isso, j� que seus dias provavelmente n�o se multipliquem tanto assim. Bruna recosta-se na cadeira, levanta os olhos � �ltima plataforma e espanta a melancolia com um sorriso. Est� ciente de que agora, ali, ela est� vivendo e nada pode tirar-lhe isso. Ela vive, porque est� ali, no lugar que ama, escuta uma m�sica sublime, l� um livro fora do comum. Ela vive e isso j� valeu a pena. |
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