As primeiras coisas
cap�tulo 1
De olhos fechados
As �rvores do jardim filtram a luz do sol de meio-dia, projetando sobre o rosto de Everton curiosas sombras, que ele imagina. Seus olhos fechados apontados diretamente para o sol, sua mente entorpecida pelo apraz�vel que lhe toma os sentidos, sua derme como que permeada de uma fina rede de fios hipersens�veis capazes de espalhar o sol a partir da face para todo o corpo, seu brilho, calor, seu arrebatamento, sobretudo.

Ele abre os olhos lentamente. N�o consegue enxergar por alguns instantes, pisca seguidamente at� aquele brilho cegante arrefecer e sumir, ent�o passeia a vista ao redor, a escadaria onde est� mais esparramado que propriamente sentado, os canteiros de flores e plantas dos dois lados; o velho e imponente edif�cio de tijolos � vista, em estilo americano de meados do s�culo passado, atr�s de si; � frente, ao p� da escadaria, o muro; por cima dele enxerga a rua, os carros que nunca param de passar e o supermercado com sua concorrida cal�ada. Por onde desfilam a todo instante, e frisadamente naquele hor�rio, os universit�rios e colegiais do Mackenzie.

Toda aquela gente ali embaixo e t�o perto, e ningu�m o nota ali em cima, na escadaria, entre a vegeta��o abundante do jardim. Ele pensa um pouco divertido que poderia ficar pelado e ningu�m perceberia. A n�o ser que um dos raros guardinhas fardados em ternos azuis resolvesse dar uma caminhada por ali, naquele canto ermo.

Everton gostava daquele lugar por isso, quase ningu�m aparecia ali. Ele se sentia blindado, indevass�vel. Um lugar para fazer a cara e tomar a postura que quisesse, e tudo isso incrustado no cora��o do ambiente onde era obrigado a se vestir, rir e falar da forma como todos falavam. Essa pequenina ironia real�ava o belo do jardim. N�o que ele fosse pessoa sem personalidade, mero camale�o, mas. Mas � que ele era apavorado para n�o chamar muita aten��o. Evitava as conversas em tom confessional, tentava por todas as formas n�o pisar no solo minado do di�logo s�rio e pessoal, onde julgava que seria for�ado a dar a raz�o da dor que julgava estampada em sua face. S� falava mesmo de futebol, programas de televis�o, carros e amenidades do g�nero.
At� ent�o a t�tica dera certo; a escola de Engenharia estava abarrotada de gente que com um fervor quase religioso buscava n�o saber nada da vida de ningu�m e n�o pensar em nada muito s�rio. Nessa maioria ele buscava mergulhar e se perder, camuflar-se, ser invis�vel.

Ele levanta a m�o esquerda com os dedos espa�ados e a posiciona a alguns cent�metros da face, tentando imaginar como seria a sombra pintada. Tem os olhos fechados outra vez, a m�o treme levemente, ele acaba por pous�-la sobre o rosto, a m�o direita acompanha, enterram-se ambas nos cabelos e ele se queda assim por alguns instantes, os cotovelos apoiados nos joelhos.

S�bito, seus olhos encontram os de algu�m, do outro lado da rua. Uma menina de su�ter vermelho e blus�o preto, cheia de livros sob o bra�o, esperando para atravessar a rua bem em frente ao supermercado, o vento bagun�ando os cabelos, deu com a sua presen�a.

Everton se levanta rapidamente, pega a mochila, o estojo da r�gua "T" e sai de sobrecenho franzido, os olhinhos castanhos enterrados no ch�o coberto de folhas, pensando que havia se excedido, ficara muito tempo ali, parado. As aulas haviam sido pesadas essa manh�, mas nada justificava tanto tempo gasto, quarenta minutos. Se ele n�o tivesse nada importante para fazer, v� l�, mas n�o era o caso. Definitivamente n�o era.

Descendo a Rua Dona Veridiana rumo ao metr� ele se lembra da menina que o olhava havia pouco. Se d� conta de que era muito bonita. Tenta ressuscitar seu bom humor, abundante at� t�o pouco tempo, e diz de si para si que se fora devassado em seu santu�rio, pelo menos o fora por uma mulher bonita, o que sempre ameniza as trag�dias.

Mais tarde o amargor voltou. Porque sim, ele vivia uns dias de amargura.
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