Capítulo 17 – Cordão da vida
– Severus?
Harry franziu o cenho ao notar que o quarto onde ele e Severus estavam abrigados, na ala de Defesa Contra as Artes das Trevas, estava vazio. Provavelmente Severus estava a caminho do quarto, depois da última aula. Harry pôs seus livros na cadeira e foi até as masmorras.
Não encontrou com Severus no caminho e entrou na sala de aula: ela também estava vazia. Talvez ele estivesse fazendo alguma poção no laboratório privado. Harry foi até lá e também encontrou o local sem Severus. Aproveitou para olhar também a sala de estoques, com resultado idêntico. Começou a ficar curioso, e entrou nos aposentos. Hagrid o cumprimentou, ainda trabalhando no quarto do bebê, e disse não ter visto Severus. O rapaz Gryffindor começou a ficar alarmado.
Harry foi, então, à sala dos professores, e perguntou à Profª Sinistra se ela o tinha visto, e a resposta foi negativa. O rapaz já tentava controlar a sensação de pânico, e subiu as escadas, esbarrando em Hermione, que voltava da biblioteca.
– Harry, o que foi?
– 'Mione, você viu Severus? Não consigo achá-lo.
– Calma, Harry, você está tremendo. Olhe, eu não vi, mas não precisa se preocupar. Ele tem que estar em algum lugar.
– Vou ver se ele está com Madame Pomfrey.
– Quer que eu vá com você?
– Não precisa, mas se o vir, diga que estou procurando por ele.
A visita a Madame Pomfrey foi igualmente infrutífera. Harry já não conseguia mais esconder o pânico que o acometia. Havia tantas possibilidades de que algo de ruim tivesse acontecido a Severus... Ele resolveu ir falar com o diretor imediatamente. Dumbledore se assustou com o estado do rapaz:
– Harry, meu rapaz, o que aconteceu?
– Não consigo achar Severus em lugar nenhum, diretor. Já procurei em todos os lugares imagináveis.
– Calma, Harry.
– Mas onde ele foi parar? Aquele espião falou alguma coisa? Eles ainda estão tentando seqüestrar Severus? Ou será que houve algo errado com o bebê?
– Harry, você precisa ficar calmo. Severus está seguro, e muito bem de saúde. Veja você mesmo. – Levou Harry à janela. – Lá está ele.
E estava mesmo. Lá embaixo, na beira do lago.
– Não sabia que era possível olhar o lago daqui.
Dumbledore apenas sorriu, encolhendo os ombros.
– Está começando a ventar. Leve um casaco.
O dia morria e o vento deixava o ar ainda mais frio quando Harry correu pelo gramado até Severus, que estava sentado no chão de frente para o lago, olhando as ondinhas formadas pelo vento batendo contra as pedras, uma mão sobre o ventre inchado. Harry notou que seu marido parecia absorto, concentrado, e não tinha percebido que ele se aproximava.
– Meu amor. – Harry abraçou-o subitamente e, por um instante, Severus sobressaltou-se. – Você sumiu. Pensei o pior.
– Desculpe. – A voz era baixa. – Não tive intenção de assustá-lo.
– E você está gelado. – Pegou o casaco. – Aqui. Vista isso.
Harry ajudou Severus a vestir o casaco, que era pesado, e deixou-o entronchadinho, aninhando-se a seu lado.
– Confortável?
– Sim, obrigado.
– Você não costuma vir para cá.
– Precisava pensar. – Ele não olhou para Harry.
– Posso ajudar?
– Não tenho certeza. Estou experimentando sensações novas.
– Falou com Madame Pomfrey? Talvez ela deva dar uma olhada em você.
– Não, não é com o bebê. É *sobre* o bebê.
– Gostaria de explicar?
– Harry, eu estou com um bebê crescendo dentro de mim. Até o momento, eu estive tão preocupado com meu pai, com o Lord das Trevas, com você e com o nosso casamento, que não me dei conta deste fato tão óbvio. Então Hagrid começou a construindo um quarto novo, e vai precisar de todos aqueles móveis, e uma pequena pessoa vai habitar aquele quarto, Harry. Uma pessoa que vai ficar na nossa vida para sempre. E ela está dentro de mim. Aqui – ele acariciou o ventre – e agora. Eu... me dei conta disso.
Harry colocou sua mão sobre a de Severus e suspirou:
– Às vezes eu também fico assim, abismado.
– Ele chutou hoje – explicou Severus, meio pálido. – Até então, a minha barriga parecia apenas crescer, mas agora eu senti que tem algo dentro dela. Algo vivo, entende?
Harry ficou embevecido:
– Ele chutou? O bebê chutou? Será que vai chutar de novo? E como foi? Doeu?
– Não, claro que não doeu. Foi uma sensação... agradável. E me deixou assombrado.
– Severus, é o nosso filho. – Harry não conseguia parar de ficar maravilhado. – Nosso.
– Vai precisar de nós dia e noite. Totalmente indefeso. Vai nos acordar de noite e nos infernizar a vida até que nós satisfaçamos todas as suas necessidades. Nossa vida não vai mais ser a mesma.
– Vai valer a pena, você vai ver.
– E tudo isso está acontecendo dentro de mim. Pomfrey também disse que há uma chance que eu possa... – ele se emocionou – amamentar.
– Verdade? – Harry não pôde evitar olhar o peito de seu marido. – Olhando assim, não parece. E você quer fazer isso?
– Eu acho que sim. A perspectiva me agrada.
– Acho simplesmente fantástico, Severus. Qualquer coisa que eu puder ajudar, por favor, me diga.
– Primeiro é preciso preparar o mamilo. Eu estou seguindo as instruções de Pomfrey.
– Sev, isso é tão maravilhoso: você vai poder alimentar nosso bebê usando só o seu corpo!... Eu... nossa, eu...
Harry não conseguiu completar a frase, os olhos verdes muito arregalados e brilhantes. Severus sorriu:
– Eu sei. Eu também me sinto assim.
– Mal posso esperar para conhecê-lo. Por que não podemos saber o sexo com antecedência?
– Porque não somos Muggles – respondeu Severus, erguendo a sobrancelha em reprovação. – Além do mais, é desnecessário. Será um menino.
– Como pode dizer isso assim, de maneira tão definitiva?
– Os Snape raramente produzem meninas, a exemplo dos Weasley.
– Ah, que pena. Eu ia gostar de ter uma menininha. Mas um menino também é ótimo.
– Se quiser mesmo ter uma menina, prepare-se para engravidar você mesmo. Sua herança Muggle – os Evans – parece ser forte em produzir meninas. Veja Lily e sua tia. Os Snape não têm filhas há mais de 13 gerações.
– Pois que venha um menino, então. – Harry estava enlevado. – Vamos ser uma família, Sev.
– Por favor, não me chame de Sev.
– Você vai ser um bom pai, eu tenho certeza. Já tem experiência com crianças. Vou precisar de ajuda para educar o menino.
– Como pode ter certeza de que serei um bom pai? Eu não tive exatamente um modelo dos melhores.
– Por isso mesmo. Você sabe o que não deve ser feito, e jamais deixará nosso filho passar pelo que você passou. Vai dar tudo certo.
– Você é mesmo um verdadeiro Gryffindor otimista.
– E você é um Slytherin perfeito, sempre esperando o pior.
– Assim não me decepciono.
– Vamos entrar? Está escuro, e o jantar já começou.
– Acho que você tem razão. – O estômago de Severus roncou alto.
– Está com fome?
– Eu estou sempre com fome. – Harry deu um risinho. – Mas há outros imperativos atuando além desse: essa bexiga eternamente cheia, a temperatura que começa a baixar, e a pilha de provas para corrigir.
– Eu o ajudo a se levantar. – Com carinho, Harry puxou seu marido para cima. – Querido, não acha que está na hora de arrumar um substituto?
– Semana que vem. Uma ex-aluna se dispôs a me substituir. Talvez você a conheça, uma Ravenclaw chamada Penélope Clearwater.
– Sei quem é. Ela namorou Percy Weasley.
– Oh, sim, a ovelha negra dos Weasley.
– Pensei que o Bill fosse a ovelha negra.
– Não para Molly, posso garantir. Percy é o filho pródigo, mas eles não sabem se ele vai voltar para o seio da família um dia.
– Ele me destratou no quinto ano – lembrou Harry, tristonho. – Não soube mais dele.
– Ao menos ele não entrou nas fileiras do Lord das Trevas. – Severus passou a mão novamente na barriga. – Alguém está ficando com fome, também.
– Ele chutou de novo? Chutou?
– Ele está ativo.
– Posso... posso ver?
– Harry, é seu filho. Claro que pode.
Harry colocou a mão na barriga de Severus e notou o movimento. Seus olhos se arregalaram de repente e ele olhou para Severus, cujos olhos pretos também brilhavam.
– Eu amo você, Sev. – Harry esticou-se para beijá-lo.
– Eu também – Severus suspirou, contente. – E não me chame de Sev.
Eles entraram no Grande Salão de braços dados, sem perceber os olhares de um grupo de Slytherins na sua direção. Todos os movimentos eram avidamente acompanhados por Draco Malfoy e seu bando, e se olhares pudessem matar, Harry Potter estaria gelado, esticado no chão.
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O jantar estava no final quando eles entraram e receberam um convite de Hagrid para ver o andamento da reforma no quarto do bebê. O meio-gigante estava satisfeito, porque a obra estava quase no fim e ele iria começar a fazer os móveis em breve. Os três desceram juntos para as masmorras ao final da refeição.
Harry achou estranho ver um pequeno esquilo cinzento correndo pelas escadas das masmorras, àquela hora da noite. Se não se cuidasse, o bichinho seria presa fácil para algum predador noturno. Mas o animalzinho parecia correr rápido, então talvez ele sobrevivesse.
Eles deveriam ter suspeitado quando viram a porta para os aposentos aberta. Lá dentro, não viram nada de errado. Mas o quarto do bebê estava em ruínas. Havia marcas de queimaduras mágicas e sujeira espalhada por todo o quartinho. Tudo que podia ser quebrado estava reduzido a cacos. Mais dramático ainda, na parede havia uma inscrição em vermelho: "Sem filho bastardo".
Hagrid parecia devastado ao olhar em volta:
– Nossa... Quem poderia ter feito uma coisa dessas?
Severus estava pálido:
– Obviamente alguém que não está muito entusiasmado com a chegada do bebê.
– Isso foi recente – disse Hagrid. – Eu só saí daqui para o jantar.
– Sim, ainda há vestígios de magia no ar.
Nesse momento, o Prof. Dumbledore chegou à cena, apressado, parecendo surpreso de vê-los ali, provocando as mesmas reações em Severus, Harry e Hagrid. Dumbledore vinha com Tibby, a elfa doméstica.
– Pelo visto, chegamos tarde demais.
– O senhor sabia sobre isso? – Harry estava espantado.
– Acabei de ser avisado pelo nosso agente – Todos olharam Tibby, desconfiados, e a elfa arregalou os olhos. Dumbledore tranqüilizou todos. – Não, garanto que Tibby nada sabia sobre esse incidente de vandalismo. O responsável foi Draco Malfoy.
Severus fechou os olhos, e Harry cerrou os punhos, tentando controlar a raiva.
– Não é exatamente uma surpresa – disse o Mestre de Poções. – Mas ele nunca ameaçou diretamente o bebê.
– Maldito, babaca – rosnou Harry. – Ele vai ver só.
– Não, Harry – impediu Dumbledore. – Se você o confrontar, estará expondo o nosso agente. Esse ataque foi secreto. Se você culpar Malfoy, estará alertando o inimigo.
Harry não gostou, mas não resistiu. O bebê chutou a barriga de Severus, que segurou o local com a mão:
– Hagrid, acha que pode salvar alguma coisa?
– Bom, fizeram muito estrago. – O meio-gigante olhou em volta, num misto de desolação e revolta. – Vai demorar, mas acho que se pode dar um jeito.
A elfa estrilou, excitada:
– Tibby conserta! Tibby pode deixar tudo novo!
Harry se impressionou:
– Pode mesmo consertar, Tibby?
– Sim, Mestre Harry Potter, senhor! Tibby arruma lindo quartinho do bebê!
Dumbledore sorriu diante da admiração de Harry:
– Nunca subestime o poder de um elfo doméstico, Harry. Quando se trata de deixar a casa em ordem, eles são imbatíveis.
– Tibby vai proteger lindo bebê Snape-Potter!
Com as extensas orelhas empinadas de tanta concentração, a diminuta elfa pôs-se a remover detritos e destroços, consertando alguns objetos quebrados e até restaurando os locais queimados magicamente. Harry sorriu, maravilhado, enquanto o quarto de seu filho era reconstituído e tomou o braço de Severus, com uma sensação de bem-estar.
– Muito bom! – exclamou Hagrid, entusiasmado, ao final. – Agora é só escolher a cor da pintura. Já sabem que cor vão querer as paredes?
– Já discutimos isso e preferimos um azul, porque é uma cor neutra. – anunciou Harry.
– Mas... – Dumbledore pareceu confuso. – Azul não é uma cor para meninos? Pensei que neutro fosse algo como verde ou amarelo.
– Verde é Slytherin, e amarelo é Gryffindor – explicou Severus. – Acredite: depois das discussões que tivemos, nada como um azul-Ravenclaw, que é muito neutro.
– Além disso – completou Harry –, Severus tem certeza de que é um menino.
– Mesmo? Profético agora, Severus?
– Os Snape não produzem meninas – citou ele, altivo. – Como os Weasley.
– Hum, pensando bem, nem os Potter tampouco. Severus, você pode ter razão em pintar o quarto de azul.
Severus sorriu, triunfante, e Harry cochichou:
– Vou ver você apagar esse sorrisinho se nascer uma menina.
O sorriso de Severus só aumentou.
– Nos seus sonhos, pirralho. Já discutimos isso. O nome deverá ser Seth ou Orion.
– Seboso.
– Peste.
– Babaca.
– Moleque.
Dumbledore sorriu, satisfeito, trocando olhares com Hagrid.
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Capítulo 18 – Perseguidor do som
Harry imediatamente percebeu que Severus ficara perturbado com o ataque, mesmo depois que eles se mudaram de volta para as masmorras. O sono dele tornou-se agitado e sobressaltado, e Harry não sabia como ajudar, pois toda vez que tentativa mencionar o assunto, ganhava uma resposta ríspida típica de Snape.
Então algo aconteceu durante uma aula de Poções para o segundo ano. Severus sentiu uma dor intensa nas pernas e deu aula o dia inteiro sentado na escrivaninha alta. Harry o arrastou, reticente, para ver Madame Pomfrey.
Ele estava simplesmente intratável.
– Eu estou bem! – rosnado.
– Há dias que você vem reclamando de dores nas pernas e nas costas. Deixe Madame Pomfrey olhá-lo.
– E o que ela vai fazer? Não há poção para isso, e além do mais, poderia não ser seguro para o bebê.
– Ela pode receitar repouso para você. Você já devia ter parado de dar aulas.
– Miss Clearwater estará aqui em poucos dias.
– Não era sem tempo. Mas se Poppy recomendar que você tire folga, você vai obedecer a ela.
Obrigado pelo feitiço a obedecer a Harry, Severus rosnou ainda mais alto, rolando os olhos para o teto enquanto era examinado pela enfermeira.
– Fez muito bem em permanecer sentado, Severus – disse Poppy. – Se insistisse em ficar de pé, poderia ter uma queda de pressão e terminar desmaiando, o que seria muito perigoso. Precisa tomar cuidado com a circulação. Se puder, deite-se com as pernas erguidas algumas vezes durante o dia.
– Eu massageio os pés dele à noite, às vezes – Harry disse. – Os tornozelos estão começando a inchar.
– A massagem deve aliviar e muito.
– Ele vai parar de dar aulas em alguns dias, e aí vai poder descansar mais.
– Recomendo que não dê aula amanhã – Severus rolou os olhos para cima ao ver o sorriso triunfante de Harry. – Se voltar a sentir o desconforto, volte aqui.
De repente, Harry anunciou:
– Ele também tem dormido muito mal à noite. Tem tido pesadelos.
Severus o encarou, surpreso e irritado, mas não disse palavra. Pomfrey indagou:
– Isso é verdade, Severus? – A contragosto, ele concordou. – Desde quando isso vem acontecendo?
– Há alguns dias – foi a resposta.
– Desde que houve um ataque ao quarto do bebê – esclareceu Harry.
– Quer me falar a respeito desses pesadelos, Severus?
Ele corou um pouco:
– Não particularmente. São pesadelos comuns. Eu sempre tive pesadelos, você sabe.
– Não desse tipo, aposto. São sobre o bebê?
– Sim – ele parecia constrangido em admitir.
– Deixe-me adivinhar: o bebê fica preso dentro da sua barriga? Você está para dar à luz e ninguém aparece para ajudá-lo? O bebê é defeituoso, ou não é humano? Alguém machuca você e o bebê é prejudicado?
Severus baixou a cabeça e assentiu:
– Sim... Algo parecido. São pesadelos violentos.
– Francamente, eu estaria surpresa se isso não acontecesse. Mas você tem uma boa cabeça em cima de seus ombros, Severus. Confio que não tomará qualquer poção para dormir sem antes falar comigo. E acredite: é comum para as pessoas grávidas terem pesadelos sobre o bebê. Mas você não deve deixar que isso altere seus padrões de sono, porque isso interfere na sua pressão sangüínea. Portanto, se isso não melhorar, volte aqui.
– Hum... Er... – Severus se mexeu, desconfortável, evitando olhar a enfermeira. – Eu também estou sofrendo de um outro desconforto...
– Mesmo? Do que se trata?
– Bem, faz dias que eu não consigo uma ereção. – Ele estava corado, e Harry ficou abismado, pois não tinha idéia. – Eu... tento, mas...
– Fique calmo, Severus. Você não está ficando impotente. Seu sistema está descompensado do ponto de vista hormonal. É comum pessoas grávidas experimentarem flutuações na libido. No começo da gravidez, a libido pode se exacerbar. Mas a partir do sexto mês, a progesterona aumenta e a testosterona cai, o que causa diminuição do desejo sexual. Não preciso explicar a nenhum dos dois que dificilmente um homem que esteja experimentando queda na produção de testosterona consegue manter uma ereção.
– Mas... Não é justo com Harry.
– Tudo bem – tranqüilizou seu marido. – Não precisa fazer nada que você não queira.
– Mas esse é o problema. Eu quero. Mas meu corpo não colabora.
– Mais uma vez eu vou repetir – esclareceu Madame Pomfrey. – Sexo na gravidez é totalmente permitido, desde que não haja desconforto nem para a mamãe nem para o bebê. Emocionalmente, é até desejável. Claro que com oito meses, você não vai poder ser atlético, Severus, mas fique tranqüilo quanto às mudanças do seu corpo. Elas são normais numa gravidez, e a sua está indo otimamente bem.
Harry sorriu, aliviado. Aparentemente, Severus estava se preocupando à toa, como sempre.
– É só que... é frustrante!
Madame Pomfrey sorriu:
– Oh, então só o que eu posso sugerir é... criatividade, Severus. Pense nisso como uma poção que você precisa preparar com alguns ingredientes a menos. Você não procuraria... alternativas?
A sobrancelha de Severus subiu tão rápido que praticamente pulou. Os olhos de Harry brilharam.
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Embora uma pessoa pacífica e reservada, Miss Clearwater era dinâmica e logo se inteirou de todas as atividades acadêmicas de Severus, substituindo-o integralmente na sala de aula. O Prof. Dumbledore designou a Profª Sinistra para atuar como chefe da casa Slytherin durante a licença de Severus, que logo se viu com muito tempo livre nas mãos.
Naturalmente, ele pensou em aproveitar todo esse tempo livre de maneira construtiva, mas percebeu que isso não era tão fácil com um barrigão de oito meses chegando sempre antes dele. Então ele teve que rever seus conceitos, e dedicar-se a tarefas mais mundanas e menos exigentes, como o quarto do bebê.
Era justamente isso que Severus estava fazendo numa tarde, pouco antes do jantar, quando alguém bateu à porta. Ele grunhiu porque tinha tirado os sapatos (os tornozelos inchados o estavam matando) e caminhou de meias até a porta.
E surpreendeu-se ao ver quem batia. Estreitou os olhos e avisou:
– Harry está em aula. Mesmo se não estivesse, não sei se gostaria de vê-lo.
Lupin olhou para o chão, parecendo constrangido:
– Eu sei, Severus. Trago uma oferta de paz.
– Hum, seria um cavalo de madeira? – A acidez na voz de Severus corroia o ar. – Mas não estamos em Tróia, fica na Turquia.
– Está bem, eu mereço. – O professor de Defesa Contra as Artes das Trevas deu um passo para o lado e mostrou o presente. – Achei que isso seria útil.
– Um berço. – Severus ergueu uma sobrancelha. Parecia um berço antigo e bastante caro, todo trabalhado.
– É um berço que estava em Grimmauld Place. Pertenceu à família Black, pode ver pelo brasão – explicou o lobisomem. – Eu o mandei examinar: ele é cheio de feitiços de proteção para o bebê, ele se autoaquece e também balança sozinho se o bebê começar a chorar. Se Kreacher estiver dizendo a verdade, Sirius dormiu nesse berço e o irmão dele também.
– É um presente significativo. Tenho certeza de que Harry vai ficar emocionado. Não seria melhor você entregar pessoalmente a ele?
– Eu... ah... Severus, eu...
– Você o magoou, Lupin.
– Eu sei, mas... eu só pensava no bem dele. Lamento, Severus, eu realmente lamento...
– Eu entendo – Severus foi sincero. – Mais do que você pode imaginar. – Então ele se deu conta de que estava sendo mal-educado. – Você... gostaria de entrar?
– Você se importa?
– Não. Vamos ver se o berço fica bem no quarto do bebê.
Lupin levitou o berço até o quarto e espantou-se em ver tudo pintado de azul. Notou o armário aberto e as roupinhas que Severus tinha começado a guardar.
– Ouvi dizer que Hagrid fez os móveis. Muito bonito.
– Sim, isso mesmo. A propósito, gostaria de agradecer por ceder os seus aposentos durante a reforma. Poupou-me de subir as escadas, e eu realmente fico grato. No meu estado, qualquer ajuda é bem-vinda.
Lupin reprimiu um sorrisinho:
– Você parece mesmo... muito grávido. Para quando é?
– Quatro semanas, se não houver imprevistos.
– Você parece bem... er...
– Bem enorme, é isso que quer dizer.
– Oh, bem, você está mesmo... grande. – Dessa vez ele não conseguiu conter o riso.
– Inferno – Severus pôs as mãos nas costas, tentando aliviar a pressão. – Queria ver como você se sairia.
– Lobisomens são estéreis, esqueceu?
– Que bênção.
– Severus, com quem você... – Harry estacou de súbito ao ver Lupin no quarto de bebê. – Prof. Lupin?
– Olá, Harry.
– O que está fazendo aqui?
– Ele veio entregar um presente – disse Severus, rapidamente, as costas doendo demais. – Se me derem licença, eu preciso me sentar. Fiquem à vontade para discutirem, fazerem as pazes ou se matarem, o que preferirem. Mas meus pés estão me matando. Com licença.
E saiu para a sala de estar, deixando Harry sozinho com Lupin no quartinho do bebê. O lobisomem estava totalmente sem jeito:
– Eu trouxe esse berço da família Black. Kreacher diz que pertenceu a Sirius e Regulus. Achei que iria gostar.
– Foi do Sirius, é? – Harry olhou para o bercinho de madeira, cheio de filigranas e ornamentos.
– Tenho certeza de que ele gostaria que você o tivesse, Harry.
– Obrigado. Foi muito gentil de sua parte.
– Eu... também esperava que me perdoasse. Agora posso ver que você gosta muito de Severus. Espero que entenda que eu só queria protegê-lo, Harry.
Harry o encarou, os olhos verdes faiscando.
– Você me magoou. Pior do que isso, magoou Severus. Agiu como qualquer um, discriminando Severus. Justo você. Eu achei que você jamais faria uma coisa dessas, achei que o fato de você mesmo ser discriminado iria impedir que você jamais fizesse isso com outra pessoa.
– Desculpe, Harry. Tente apenas entender.
– Eu estou tentando. Juro que estou. Mas Severus já sofreu tanto, e esse tipo de coisa só traz tudo de volta. Assim ele nunca vai superar o que aconteceu.
– Acha que algum dia vai poder me perdoar?
– Se você algum dia deixar de discriminar Severus, pode ser.
– Parece justo. Até lá vou precisar de você para assinar algumas burocracias em relação a Grimmauld Place.
– Burocracias?
– Temos que assinar alguns documentos no Ministério da Magia. A casa é sua, não se esqueça disso. Não vai demorar muito, mas você precisa ir.
– Tudo bem. Quem sabe no final de semana? É dia de visita a Hogsmeade, mesmo. A escola vai estar vazia. Vou avisar o Prof. Dumbledore para deixar alguém protegendo Severus na minha ausência.
Um grito veio da sala de estar:
– Sei me proteger sozinho muito bem, obrigado.
– Nossa – espantou-se Lupin. – Ele continua com a audição de um tuberculoso. Sempre foi assim, desde os tempos da escola.
– Eu ouvi isso!
Harry e Lupin sorriram um para o outro. Aquilo aqueceu o coração de Harry, ao perceber que Lupin efetivamente estava tentando se reaproximar. Ele não queria ficar afastado de uma das pessoas mais íntima de seus pais.