Capítulo 15 – Sua não é nenhuma desgraça

 

– Não! – A carranca de Severus era ameaçadora. – Eu me recuso!

 

– Mas Severus – Harry buscava manter sua paciência –, você concordou com isso há três dias. Ele está esperando. Agora vamos.

 

– Pois que espere! Não vou me submeter a essa exposição humilhante diante de toda a escola!

 

– É só uma fotografia, querido. A primeira que aparece sua barriga tão proeminente. Vai ser tão linda!

 

– Eu estou horrível! – O vozeirão começava a tremer. – Minhas roupas não me servem mais! Estou desfigurado!

 

Harry suspirou. Madame Pomfrey tinha alertado para a ocorrência de picos hormonais e conseqüentes flutuações de humor, mas Severus estava indo além dos limites, e o jovem inspirou fundo, vendo os olhos negros se encherem d'água. Com um sorriso terno, ele abraçou o marido, que agora apresentava um discreto calombo no abdômen, e acariciou-lhe as faces:

 

– Você é lindo para mim de qualquer jeito, Sev.

 

– Por favor não me chame de Sev – um discreto biquinho nos lábios.

 

– Severus – ele corrigiu –, Colin está nos esperando no lago, o dia está claro, perfeito para foto, e tudo vai sair ótimo. Vamos?

 

Com palavras doces e carinho, Harry conseguiu arrastar um carrancudo e resistente Severus para uma sessão de fotos bruxas à beira do lago. À distância, vários alunos acompanhavam a cena.

 

Entre eles, no gramado perto do lago, estava um grupo de Slytherins do sétimo ano, nada contentes com o que viam.

 

– Olhem só para eles – O rosto de Draco Malfoy era puro desgosto e despeito. – O casalzinho preferido de Dumbledore!...

 

– Nojento – disse Pansy Parkinson, repuxando os lábios de maneira afetada.

 

– Nossa – olhou Blaise Zabini. – O Prof. Snape parece estar sendo obrigado a estar aqui. Olhem a cara dele.

 

– É, isso não me surpreenderia. Ele tem estado uma fera nos últimos tempos.

 

– Agora que a barriga está aparecendo, Potter o está exibindo como se fosse um troféu.

 

– Eu ouvi dizer – Pansy Parkinson abaixou a voz – que a gravidez veio de uma poção, e que o Prof. Snape foi forçado a tomar. Ele engravidou forçado por Potter!

 

– Potter tem que ter lançado um feitiço sobre ele. O Prof. Snape o odeia!

 

– Depois falam que nós, Slytherins, é que somos traiçoeiros e maus.

 

– A gente devia fazer alguma coisa – falou Zabini. – O Prof. Snape parece que vai ter um troço!

 

– Não se preocupe com isso, Blaise – sorriu Draco, com um ar de quem sabia de um grande segredo. – Vai chegar a hora da desforra em Potter. Isso está sendo providenciado. Tenha paciência.

 

Os outros olharam o sorriso superior de Draco, que não despregava os olhos da sessão de fotos ainda em progresso à beira do lago. Estava na cara que Draco sabia de alguma coisa que não estava dizendo.

 

 

O volume no ventre de Severus começou a crescer notadamente, e logo uma providência precisava ser tomada com relação a roupas. Foi assim, que num sábado frio e ventoso, Harry e Severus deixaram Hogwarts a pé rumo a Hogsmeade. Talvez fosse o clima, talvez fossem os hormônios, talvez fosse a caminhada, mas o fato é que Severus estava particularmente rabugento naquela manhã.

 

– Deveríamos ter ido a Diagon Alley. Madame Malkin daria conta disso em três tempos.

 

– Madame Pomfrey não recomenda uso de Floo nem Aparição no seu estado. A loja Gladrags é muito boa, e lá eles vão ter algo adequado.

 

– Podíamos ter feito o pedido via coruja.

 

– Severus, é melhor você experimentar as roupas na hora. Seu corpo está mudando muito rápido.

 

– Não precisa dizer isso duas vezes – rosnou. – Agora ando com vontade de comer doces.

 

– Podemos passar na Honeydukes depois da Gladrags. Com sorte eles vão ter aquele caramelo de funcho que você gosta.

 

– E então podemos adicionar um molho de pimenta com alcachofra.

 

Harry fez o máximo para disfarçar sua reação. Os gostos culinários de Severus estavam ficando cada vez mais esquisitos a cada dia, e ele tinha que se esforçar para dar seu total apoio a seu marido.

 

Felizmente, a bruxa que os atendeu na Gladrags era do tipo simpático e paciente. Ela atendeu com cortesia a todas as exigências de Severus, que experimentou roupas de grávido com o mau humor triplicado: não havia muitas calças masculinas para gestantes e ele reclamou dos paletós pré-enfeitiçados para acomodar a barriga em expansão. Harry terminou sugerindo tirar as medidas para fazer algumas encomendas. Por fim, eles concordaram em levar duas calças prontas e duas camisas.

 

– Sev, querido, precisa se controlar.

 

– Não me chame de Sev!

 

– Está bem, mas tente ficar mais calmo. Isso não deve fazer bem ao bebê.

 

– Mas eu estou calmo – rosnado. – Hum, podemos passar naquele boticário?

 

– Claro, mas achei que antes você pudesse querer ir a Honeydukes e adocicar seu humor.

 

– Engraçadinho.

 

– É verdade, você vai se sentir muito...

 

Um barulho alto interrompeu Harry, vindo do final da rua. Eram gritos de pessoas e parecia óbvio que algum tipo de confusão se estabelecia rapidamente. Então o rapaz viu umas pessoas encapuzadas, vestidas de negro com máscaras brancas, avançando na direção deles. Harry congelou.

 

Death Eaters.

 

– Lá estão eles!

 

– Peguem os dois! Vivos!

 

Harry pegou a mão de Severus e pôs-se a correr:

 

– Vamos!

 

– Para onde? – O homem grávido tentou se movimentar rapidamente, mas não era fácil. – Eles estão bloqueando o caminho para Hogwarts!

 

– Vamos para a Honeydukes!

 

– O quê? Quer comprar doces agora?

 

– Depois eu explico!

 

Um raio vermelho passou sibilando perto da orelha de Harry e ele ordenou, olhando diretamente nos olhos pertos de Severus:

 

– Quero que você vá até a Honeydukes, e entre no depósito que fica no porão. Lá tem uma passagem secreta para Hogwarts. Quero que entre nessa passagem e me espere lá. Entendeu?

 

– Mas Harry, e você?

 

– Vou tentar atrasá-los! Agora vá!

 

– Tome cuidado.

 

Severus fez como lhe era ordenado, também por força do feitiço, porque ele não queria deixar Harry sozinho. Ele entrou no túnel escuro, estreito e úmido e lá ficou, ofegando, com a mão na barriga. Perdeu a noção de tempo ali, não porque tivesse se passado muito tempo, mas porque sua ligação com Harry estava particularmente afiada. Ele pôde sentir um pico de dor em Harry, e seu coração se apertou.

 

Sem saber direito se tinham se passado dez minutos ou dez horas, Severus sentiu o coração acelerar quando Harry entrou no túnel, com a ponta da varinha acesa:

 

– Sev?

 

– Aqui. – Ele foi até o marido e o abraçou. Forte. Apertado. Só para ter certeza.

 

– Tudo bem?

 

– Estou bem. E você? – Ele viu as vestes de Harry chamuscadas. – Foi atingido!

 

– Só de raspão. Eles fugiram. Dumbledore acionou a Ordem.

 

– Como ele fez isso tão rápido?

 

– O tal espião avisou do ataque.

 

– Isso não foi um ataque – corrigiu Severus, sombrio. – Foi uma tentativa de resgate.

 

– Malfoy.

 

– Exato.

 

– Voldemort deve estar desesperado. Ele mandou Lucius Malfoy em pessoa.

 

– Ele não queria falhas. Procuravam por nós dois.

 

– Vamos voltar a Hogwarts, porque eu quero que Madame Pomfrey examine você o quanto antes. Vamos subir. Shacklebolt vai nos escoltar até a escola, se você puder andar.

 

– Harry, eu estou bem. Tem certeza que está bem?

 

– Sim, e acabo de tomar uma decisão.

 

– Qual?

 

– Compras, daqui para frente, só por coruja.

 

 

 

 

Capítulo 16 – Deixe isso

 

 

O dia não tinha sido especialmente estressante, mas Severus estava com sono e ansioso por chegar a seus aposentos e enrodilhar-lhe com Harry em silêncio. Os aspectos mais tortuosos da gravidez pareciam já ter passado e a última semana tinha sido relativamente tranqüila.

 

Mas tudo indicava que aquela noite não seria nada do planejado. Quando Severus entrou em seus aposentos, ouviu vozes vindo do quarto de dormir. Ele sacou a varinha e invadiu o aposento, disposto a enfrentar os possíveis intrusos.

 

Harry, Hagrid e Dumbledore viraram-se assim que ele entrou, os dois primeiros numa atitude defensiva. O diretor de Hogwarts sorriu para ele, com os olhos muito azuis:

 

– Ah, Severus, enfim.

 

– O que está acontecendo?

 

– Hagrid quer nos ajudar – disse Harry, percebendo o marido nervoso. – Na verdade, ele quer nos dar um presente.

 

– Presente?

 

O meio-gigante enrubesceu:

 

– Não pude dar um presente no casamento, e o Natal está perto, então a hora parece ser apropriada.

 

– Hagrid vai construir o quarto do bebê – sorriu Harry, apontando. – É possível abrir essa parede e fazer um aposento bem pertinho do nosso.

 

– Além da obra, Hagrid se ofereceu para também fazer os móveis para o bebê – esclareceu Dumbledore. – Vou usar um pouco de mágica durante a fase da obra, por causa das camadas mágicas que naturalmente protegem as masmorras.

 

Por uns segundos, Severus ficou chocado, depois ele se acalmou: o bebê não iria dormir no mesmo quarto que ele e Harry, então era óbvio que ele iria precisar de um novo aposento. Ele é que não tinha antecipado isso. Harry parecia animado:

 

– Hagrid quer começar amanhã mesmo, para poder terminar logo. Assim tudo estará pronto e acabado bem antes do bebê chegar. Não é ótimo?

 

– Hum – fez Severus. – Quanto tempo levaria essa empreitada?

 

– Ah, uns 20 dias, talvez um mês – estimou Hagrid. – Depois disso, vocês podem se mudar de volta.

 

– Mudar?

 

– Sim – confirmou Harry. – Não podemos ficar aqui enquanto ele estiver fazendo a obra.

 

– Por que não?

 

– Severus, todo aquele pó e depois os vapores da tinta, não farão bem a você nem ao bebê. Você não poderia ficar aqui mesmo que não estivesse esperando.

 

– Mas... eu não posso sair daqui...! Meu laboratório!... Meus espécimes!...

 

– Calma, o laboratório está seguro, bem longe desses aposentos – tranqüilizou Dumbledore. – E eu já estou providenciando uma solução de alojamento para você e Harry.

 

– Mas não há problema de alojamento – Severus franziu o cenho. – Há aposentos para convidados em Hogwarts. Podemos usar um deles.

 

– A maioria desses aposentos fica nas torres de Ravenclaw e Gryffindor, por causa da magnífica vista – lembrou o diretor. – Harry não quer que você precise subir tantas escadas todos os dias durante um mês.

 

– Suponho que possamos ocupar um dos dormitórios de Slytherin e pedir a alguns alunos que se mudem – sugeriu Severus. – Será por pouco tempo, mesmo.

 

– Não será necessário incomodar sua casa, Severus. Falei com Remus Lupin, e ele está disposto a ceder seus aposentos durante o tempo que for necessário. Como vocês sabem, a sala de Defesa contra as Artes das Trevas fica no andar térreo. Será necessário apenas vencer um lance de escadas para chegar até as masmorras.

 

– Lupin concordou?

 

– Com certeza. Ele deve estar até providenciando a mudança dele para os aposentos em Ravenclaw.

 

Snape absorveu a informação com um toque de curiosidade. Hagrid interrompeu seus pensamentos:

 

– Bom, agora só falta definir os móveis. O que vocês vão querer no quarto? É só dizer que eu faço.

 

Houve breves minutos de indecisão. Harry e Severus se olharam, ambos dando-se conta naquele instante que não faziam a mínima idéia dos móveis de um quarto de criança.

 

– Er... bem – arriscou Harry – Um berço... um armário.... er...

 

– Um chiqueirinho – ajudou Dumbledore.

 

– Um chiqueirinho?! – Severus sentiu o sangue subir. – Está chamando meu filho de quê?

 

Harry tentou explicar:

 

– Não, Severus, esse é o nome trouxa do cercadinho onde o bebê pode ficar sozinho. Olhe, é melhor chamarmos um especialista – ele ergueu a voz. – Tibby!

 

A pequena elfa apareceu, vestindo a sua toalha xadrez.

 

– Chamou, Mestre Harry Potter, senhor?

 

– Tibby, precisamos de sua ajuda. Não sabemos o que colocar no quarto do bebê. De que móveis ele vai precisar?

 

– Mestre Harry Potter – a elfa parecia a ponto de se debulhar em lágrimas – quer conselhos... de Tibby?

 

– Sim, preciso de sua ajuda. Prof. Snape e eu precisamos de você.

 

– Tibby não merece honra – As lágrimas fluíam. – Mestre Harry Potter é tudo que Dobby falou! Tão bom, tão generoso, grande mago...

 

– Tibby, pode nos ajudar? – Harry sentia sua paciência testada. – De quais móveis precisamos?

 

– Bebê precisa de berço regulável. Móbile encantado em cima de berço para se distrair. Cômoda para roupinhas. Baú para lindos brinquedos – Ela ia fazendo uma lista com os dedos. – Cercadinho para brincar. Mamãe do bebê precisa de trocador para fralda. Cadeira para amamentar.

 

– Cadeira?

 

– Cadeira grande, com balanço – explicou a elfa, fazendo movimentos como se tivesse um bebê nos braços. – Assim bebê come e logo depois dorme.

 

Dumbledore indagou ao meio-gigante:

 

– Está anotando isso, Hagrid?

 

– Sim, professor.

 

– Mais alguma coisa, Tibby? – perguntou Harry.

 

– Mestre Harry Potter senhor vai querer também construir pequena banheira para quando bebê for bem novinho – colocar feitiço antiafogamento.

 

– Muito boa idéia, Tibby. Você foi de muita ajuda. Posso chamar você se tiver alguma dúvida?

 

– Claro, Mestre Harry Potter, senhor. Tibby sempre pronta a ajudar Mestre.

 

– Obrigado, Tibby. Pode ir agora – A elfa fez longa reverência e sumiu. – Isso resolve a questão. Nossa, ela sabe mesmo tudo sobre bebês.

 

– Excelente – sorriu Dumbledore. – Agora, Hagrid, é melhor deixarmos Harry e Severus empacotarem suas coisas. Eles têm uma mudança para fazer.

 

Aquela noite foi passada entre resmungos e empacotamento.

 

 

Severus apagou o quadro distraidamente, enquanto os estudantes esvaziavam a sala de aula. De costas, ele não viu um aluno se aproximando:

 

– Prof. Snape?

 

– Mr. Malfoy. – Ele se virou, e com a varinha fechou a porta. – Esperava um contato seu.

 

– Esperava?

 

– Na verdade, tinha esperança de poder lhe agradecer. Aquele dia, em Hogsmeade, foi idéia sua, não foi?

 

– Sim, senhor. Eu vi uma oportunidade e a agarrei.

 

– Calculei. Agradeço o esforço, mas advirto-o que outra chance como essa não se apresentará tão cedo. Meu marido se tornou ainda mais... zeloso a respeito de minha segurança. Ele raramente deixa o meu lado.

 

Os olhos cinza brilharam, um cintilar estranho e cheio de ódio:

 

– Não perca a esperança, senhor. Nosso Lord não vai deixar um servo valioso como o senhor desamparado.

 

– Está sendo extremamente gentil. – Severus o encarou calculadamente. – Por quê?

 

– Ora, o senhor é um dos nossos. Protegemo-nos uns aos outros.

 

– Poupe-me o discurso de Gryffindor, Draco. Ambos somos Slytherins e protegemos apenas nossos próprios interesses. Qual é o seu interesse?

 

A expressão nos olhos do rapaz se tornou dura:

 

– Meu pai disse que nosso Lord me encarregou de evitar que o senhor se perca para o lado de Dumbledore. Essa missão pode garantir minha entrada na elite dos Death Eaters.

 

– Seu sucesso representaria uma dupla vitória. Talvez não seja uma missão totalmente impossível. Eles estavam despreparados para o ataque em Hogsmeade. Eventualmente vão baixar a guarda de novo.

 

– Foi tão perto... – Draco assumiu uma expressão decidida e ligeiramente insana. – Não perca a esperança, senhor. Quando eles menos esperarem, podemos tentar de novo. E aí tudo vai ficar bem. As coisas estarão como deveriam ser.

 

Severus assentiu, disciplinando cuidadosamente as expressões de seu rosto. Internamente, ele começou a analisar com seriedade a possibilidade de o filho de Lucius Malfoy estar sofrendo de um severo desequilíbrio.

 

 

 

 

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