Capítulo 11 – O lado sul do céu
Para uma cerimônia apressada e íntima, até que o casamento de Harry e Severus terminou sendo razoavelmente concorrido. Todo o corpo docente de Hogwarts estava presente, e, pelas expressões embaraçadas, Harry deduziu que a reunião de professores mencionada por Dumbledore tinha sido a esse respeito. Hagrid estava até corado, de tão envergonhado.
Apenas dois alunos tinham obtido permissão para assistir ao casamento. Um desses alunos era Hermione Granger, que servira como responsável pelas alianças. Com a confusão da manhã, a moça sabiamente presumira que Harry não pudera ir a Hogsmeade, então se encarregara de arrumar as alianças para o casal. Harry ficou emocionado com a amiga, e terminou pedindo-lhe um outro favor, que ela correu a atender.
O outro aluno era Colin Creevey. Armado com sua imbatível máquina fotográfica, ele documentou toda a cerimônia. Severus ignorou todos os pedidos para um sorriso e só atendeu aos chamados para posar para fotos porque foi Harry quem os fez.
Especialmente vestido de prateado com detalhes púrpuras de luas e planetas, Dumbledore também usou um chapéu pontudo combinando com seu traje. Harry usara vestes verdes que rivalizavam com seus olhos, e Severus vestia um terno cinza com vestes bruxas azul-petróleo, uma combinação que surpreendeu muitos dos presentes – que, aliás, também estavam em seus melhores trajes. Hagrid até cheirava a loção pós-barba.
Dumbledore oficiou a cerimônia, com a ajuda do Prof. Flitwick, que lançou uma série de feitiços de proteção, fertilidade e fartura sobre os noivos. Harry parecia muito feliz, e mesmo os mais revoltados com o casamento não podiam negar que o rapaz estava totalmente apaixonado. Era um contraste com a carranca de Severus.
Ao fim da cerimônia, todos passaram para o Grande Salão, que estava ricamente decorado com fitas e flores brancas e douradas. Dumbledore cedeu seu lugar no centro da mesa dos professores para os noivos, que foram saudados com uma chuva de pétalas de rosas brancas e uma salva de palmas.
O banquete também foi especial e, ao invés de sobremesa, os elfos carregaram para o salão um bolo de casamento de três metros de altura e cinco andares, que foi consumido com champanhe para todos – exceto os alunos de primeiro e segundo anos. Colin bateu a tradicional foto dos noivos cortando o bolo e depois comendo o primeiro pedaço, um alimentando o outro.
Após o bolo, fez-se uma fila de cumprimentos. Em alguns dos rostos, havia genuíno sentimento de congratular os noivos, mas em outros não se escondia a malícia. Os Slytherins, que compareceram em bloco, nem disfarçavam que só faziam aquilo por puro protocolo. Draco Malfoy, se pudesse, esganaria Potter com as mãos nuas. Ele observava Snape com atenção, e a expressão abatida do Mestre de Poções parecia intrigar o filho de Lucius Malfoy.
Os cumprimentos se encaminhavam para o final quando um tumulto se verificou no portão principal: era um batalhão de repórteres de diversos jornais e revistas bruxas que queriam cobrir o casamento. Dumbledore proibiu a entrada deles, mas prometeu uma nota oficial para breve. Talvez por isso ele tenha puxado Harry e Severus para um lado, cochichando:
– Aconselho-os a saírem agora. Preparei uma chave de portal para que passem o fim de semana na cabana de Severus, como uma lua-de-mel improvisada. Aproveitem.
Harry adorou a idéia, e arrastou Severus consigo para os dois irem o mais depressa possível de volta ao seu primeiro ninho de amor. Assim que chegou à cabana onde fora tão feliz no verão, o rapaz sentiu o coração se aquecer.
– Adoro esse lugar, Severus. Podemos nos mudar para cá depois que eu me formar?
– Se você quiser. É um lugar seguro.
– Tenho tantas lembranças daqui... – ele abraçou Severus, suspirando. – E agora vamos fazer outras lembranças, não vamos? Oh, Severus, eu estou tão feliz.
O Mestre de Poções não respondeu. Embora feliz por estar com Harry, seu coração estava pesado, pensando nas conseqüências e implicações. Harry beijou-o rapidamente:
– Espere aqui. Quero fazer uma surpresa.
– Harry, você não precisa... – foi levado para o sofá.
– É só ficar aí bonitinho que eu volto logo.
O rapaz deixou Severus no sofá e entrou no quarto, onde se demorou por vários minutos. Severus aproveitou o tempo para fazer um breve inventário dos últimos acontecimentos: em menos de 24 horas, ele tinha sido revelado como estando em estado gestacional, tinha se casado, tinha se livrado definitivamente de seu pai, mas estava preso a Harry pelo resto de sua vida graças a um vínculo de sangue. Bom, se ele tinha que ser escravo de alguém, Harry não era a sua pior alternativa.
O mencionado rapaz (seu marido, lembrou-se) saiu do quarto vestindo um roupão:
– Pode vir agora.
Severus arregalou os olhos ao ver o que Harry tinha feito em seu espartano quarto de dormir: havia dezenas de velas acesas, todas pequenas e aromáticas, dando ao ambiente um leve aroma de baunilha e sândalo. O rapaz também transfigurara grandes faixas de voile de algodão nos postes da cama e compusera o leito com lençóis de cetim, dando uma decoração exótica ao quarto.
– Você fez isso sozinho?
– Tive uma ajudazinha de Hermione e Dobby – Harry começou a tirar as roupas de seu marido. – Venha, fique à vontade.
Severus foi colocado na cama com carinho e suas roupas foram gentilmente retiradas. Harry também tirou o roupão e revelou estar nu, subindo na cama com um sorriso:
– Você teve um dia estressante, e eu pretendo lhe dar uma massagem completa com óleos aromáticos para relaxar seu corpo. Se você também quiser sexo, melhor ainda, mas o importante é você relaxar.
– Mas Harry... É nossa lua-de-mel. Eu devo satisfazer você.
– Você tem a vida inteira para me satisfazer, e eu para satisfazer você. Mas agora você deve estar muito desgastado, e a massagem pode ajudá-lo. Agora deite-se de bruços e apenas relaxe.
Severus obedeceu, e Harry sentou-se sobre o traseiro de seu marido, montando-o para ter melhor acesso. Com carinho, ele pôs-se a massagear os músculos tensos de Severus, espalhando óleo de lavanda e camomila, traçando as cicatrizes nas costas, ombros e nuca. Severus sentiu as mãos firmes e calejadas de um jogador de Quidditch que costumava agarrar e manter preso um Snitch alado. Mas ele jamais imaginou que até mesmo seus músculos glúteos pudessem acumular tanta tensão. Ele riu quando Harry não resistiu e deu pequenas mordidinhas em seu traseiro, aliviando-o ainda mais.
O Mestre de Poções jamais tinha sentido coisa semelhante. A sensação de relaxamento espalhava-se por seu corpo à medida que Harry usava suas mãos, ocasionalmente também depositando beijos fugazes na pele aromatizada. Ele sentia o gesto de Harry atuando em seus músculos e também em suas emoções: havia uma grande demonstração de carinho e respeito por seu corpo e por sua pessoa, algo que Severus não se lembrava de ter recebido antes em toda a sua vida com tamanha reverência e sinceridade. Ele recebera promessas de respeito tanto de Voldemort quanto de Dumbledore, mas ambos as traíram, por ação ou omissão.
Mas Harry sempre o tratara como um igual, como se ele fosse uma pessoa digna, mesmo que ele fosse um pouco mais do que um escravo do rapaz. Severus estava irremediavelmente apaixonado, algo que pensava ter sentido antes, mas que não se comparava ao que sentia naquele momento.
A resposta física a tanto carinho tornou-se evidente quando Severus se virou para ser massageado na parte da frente. Harry sorriu para a bela ereção que o saudou:
– Puxa, Severus... Que impressionante. Quer que eu dê um jeito nisso para você? Ficarei feliz em ajudar você com esse seu... problema.
Relaxado, Severus soltou um meio sorriso.
– Você também está com um problema semelhante, pelo que posso ver.
– Mas hoje você é o chefe, e eu estou aqui para servi-lo, meu amor. Diga-me o que você quer.
Severus era grato a Harry por seu carinho e atenção, mas aquilo era inadequado. Ele podia sentir o feitiço do vínculo atuando:
– Harry, isso é impróprio. Sou eu quem serve você.
– Hoje, não. Se precisar, eu darei uma ordem direta, e aí você vai ser obrigado a me obedecer, não vai?
– Sim. Há alguns limites dentro dos quais eu posso atuar, mas em geral eu tenho que obedecê-lo.
– Pois bem, eu lhe ordeno que me diga qual é o seu desejo sexual e o que você deseja que eu lhe faça.
Severus sentiu a força integral do feitiço diante de uma ordem direta e adotou uma postura submissa – fazendo Harry lembrar-se de um cachorro vira-lata esperando uma punição, apenas por ter dito o desejo de seu coração:
– Eu quero sentir seus lábios em mim ao mesmo tempo em que lhe dou prazer oral.
Os olhos de Harry brilharam de lascívia como duas pedrinhas de jade:
– Seu desejo é uma ordem, meu marido.
Ele se movimentou languidamente, posicionando-se sobre a ereção de Severus, primeiro lambendo-lhe toda a extensão, depois firmando-a com uma das mãos, para com a outra massagear as duas delicadas esferas mais abaixo. O gemido de Severus fez Harry se rebolar e foi recompensado com os lábios talentosos de Severus em seu próprio membro ereto. A sensação agradável se espalhou por todos os seus nervos, eletrizando-os.
Não havia pressa, apenas desejo incontido, e os dois não demoraram a explodir em êxtase. Sentindo grande parte da tensão do dia esvair-se, Severus logo se deixou levar por um sono pesado, com Harry aninhado em seus braços.
Acordou desperto e refeito, os olhos verdes de Harry sorrindo-lhe mais que os lábios – lábios esses que, aliás, não demoraram a procurar-lhe o abdômen, e depois descer direto para o meio de suas pernas. Severus não tinha certeza se conseguiria uma ereção tão cedo, mas as carícias de Harry logo o deixaram pronto para uma nova rodada.
E Harry sabia muito bem o que queria.
Colocou-se de bruços e olhou por cima dos ombros para seu amado, oferecendo-se com um sorriso maroto, sem dizer palavra. O desejo cresceu no homem mais velho, mas ele hesitou, por força do hábito. Não estava acostumado a estar no time dos que ficavam por cima, e isso estava muito arraigado dentro de si. Harry percebeu sua hesitação e beijou-o apaixonadamente, murmurando enquanto o acariciava cheio de carinho:
– Severus... por favor...
Não houve como resistir dessa vez, e Severus procurou não pensar duas vezes ao pegar o lubrificante e preparar seu jovem esposo. Harry respondia aos seus carinhos, demonstrando impaciência para senti-lo logo dentro de si.
Quando Severus posicionou-se na entrada de Harry, o rapaz moveu-se para receber seu marido. Vagarosamente, Severus afundou-se em Harry, sentindo o corpo dele a recebê-lo com carinho, respeito e aceitação. Fechando os olhos, ele deixou as sensações invadi-lo por alguns minutos.
O calor convidativo de Harry o fez morder o lábio inferior e movimentar-se para frente com um suspiro, agora as sensações se acumulando em seu corpo. A abertura estreita de Harry pressionava seu membro de maneira tão deliciosa que Severus não tinha a menor pressa em continuar a se movimentar, e quase se surpreendeu quando seus quadris começaram a fazê-lo, quase que por vontade própria.
Por algum tempo, ele conseguiu manter o ritmo lânguido e lento, mas a impetuosidade de seu jovem marido de 17 logo o obrigou a acelerar o passo. Os ruídos que Harry produzia convenceram-no de que rápido também era bom, e ele agarrou-lhe os quadris, mudando o ângulo de entrada para provocar novos ruídos, que o enlouqueciam. Ele queria dar o máximo de prazer a Harry, e alcançou-lhe a ereção, bombeando no mesmo ritmo de suas estocadas. Fora de si, Harry gritava de prazer, sons que também levavam Severus aos descontrole.
O jovem arqueou para trás, gritando o nome de Severus e esguichando em sua mão. Severus sentiu os músculos tensos do rapaz espasmando de prazer e sentiu seu próprio clímax muito próximo. Puxou Harry para si e soltou um grito desarticulado, explodindo mais uma vez.
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Capítulo 12 – E você e eu
Beijos suaves devolveram-lhe os sentidos, e Harry distribuía dezenas deles por todo o seu peito. Ao vê-lo olhando-o com emoção nos olhos negros, o rapaz sorriu e estalou-lhe um beijo nos lábios:
– Como eu te amo, Sev.
– Por favor, não me chame assim.
– Tá, não chamo – um tom divertido. – Você me ama também?
– Não sei – ele suspirou. – Não faço idéia do que seja amor. Mas sei que nunca senti antes o que sinto por você. É algo muito poderoso. Às vezes... assusta.
– Não precisa ter medo – Harry puxou-o para junto de si, com um suspiro satisfeito. – Amar é muito bom.
– Harry, você é tão novo. Não gostaria de aproveitar mais a juventude, conhecer pessoas, ter aventuras?
– O que está dizendo?
– Tem uma coisa que me preocupa. Você é jovem demais para se prender a alguém tão mais velho que você. Deveria estar se apaixonando por uma pessoa diferente a cada semana, divertindo-se com os amigos, sem preocupações na vida. Quer passar a vida toda com um único amante, e ainda por cima um...? – ele se interrompeu, cabisbaixo. – Você merece coisa melhor.
– Eu não quero mais ninguém porque você me satisfaz em todos os sentidos, Severus. Só tem uma coisa que me preocupa.
– Só uma? – Severus deu um sorriso irônico. – Você é mesmo um otimista Gryffindor.
– Eu não conheço direito o feitiço que seu pai colocou em você. Fico desconfortável em pensar que você é obrigado a me obedecer sempre, por toda a sua vida.
– Não é bem assim. Há ocasiões em que poderei até me recusar a cumprir uma ordem direta, por exemplo.
– Mesmo? Como assim?
– Mesmo que você me ordene, eu não serei capaz de fazer ou permitir que alguém o machuque. O contrário também se aplica, para minha autopreservação.
– Então você não precisa ser... tão submisso.
– Se precisar, eu ainda posso chamá-lo de pirralho insolente – sorriso irônico.
– Nunca pensei que fosse ficar tão feliz ouvindo você dizer isso – Harry sorriu. – Você também sente quando estou longe, lê meus pensamentos e coisas assim?
– Sua proximidade me traz – ele fechou os olhos com uma expressão de satisfação – contentamento. Diz-se também que esse feitiço proporciona um limitado grau de consciência do vinculado.
– Como assim?
– Em tese, eu seria capaz de perceber se você está passando por algum desconforto ou emoção forte, mesmo à distância.
– Legal! Será que eu também posso ter um vínculo desses? Talvez o Prof. Dumbledore saiba como fazer esse feitiço.
– Harry, do que está falando?
– Ora, não é justo eu ter todo esse poder sobre você. Se eu tiver o feitiço também, então as coisas ficam mais equilibradas. Sem contar que vou adorar esse lance de sentir você à distância. Será que vamos ler os pensamentos um do outro?
Severus não compartilhou o entusiasmo:
– Harry, esse feitiço beira as Artes das Trevas por ter fortes componentes da Maldição Imperius nele. É um vínculo de sangue, é como se mexesse na sua própria alma. Isso é muito sério.
– Mas não é justo. Torna a nossa relação desigual!
– A intenção do feitiço é justamente essa. E da mesma forma como dois errados não fazem um certo, o fato de você se submeter ao mesmo feitiço não vai tornar nossa relação mais equilibrada – O rapaz ainda estava rebelde, mas não falou nada. – Olhe, esse feitiço é tão antigo e obscuro que pouco se sabe sobre ele com certeza, só de lendas. Por que não pesquisamos mais sobre ele antes de agirmos?
– Boa idéia. Agora, que acha de jantarmos?
Severus não tinha idéia de que estava com fome até acompanhar Harry até a cozinha e verificar que já havia várias refeições prontas, cortesia dos elfos domésticos de Hogwarts. Os dois compartilhavam um delicioso pudim Yorkshire quando Harry perguntou:
– Você pode me explicar uma coisa? Como toda essa confusão começou, afinal? Como exatamente você engravidou?
– Você não vai gostar de saber. A culpa é de seu amigo Longbottom.
– Neville? O que ele tem a ver com isso?
– Ele cometeu uma asneira tão grande em sua poção que reuniu os ingredientes necessários a uma antiga e esquecida poção de fertilidade. Estes ingredientes, combinados com alguns da Poção de Clareamento que você fazia, ajudaram a criar as condições para a gravidez. Quando você tocou em mim, o efeito se completou.
– Então... foi meu toque que o engravidou? Não precisaríamos ter feito sexo?
– Não, isso não é verdade. É preciso sexo, e foi precisamente por esse motivo que essa poção ficou esquecida por tantos séculos: ninguém sabia se era a poção ou o sexo que fazia as mulheres engravidarem. Eu só engravidei porque carregava células suas na ocasião. O curioso é que essa poção em particular jamais tinha sido usada antes para a concepção masculina.
– E tem diferença?
Severus o encarou como se estivesse ensinando Poções Básicas a aluno particularmente obtuso:
– Se não tivesse, eu não teria engravidado. É claro que tem diferenças. A maior delas foi a criação de um útero temporário. Lembra-se de eu ter ficado desacordado quase 24 horas? Era meu corpo se rearranjando.
– Como você descobriu tudo isso?
Mais um olhar reservado a estudantes pouco brilhantes, arqueando um sobrolho:
– Eu sou um Mestre de Poções. Além do mais, Madame Pomfrey confirmou a evolução do útero em meu organismo. Contudo, ela não conseguiu confirmar qualquer outra ligação desse útero que seja capaz de proporcionar a saída do bebê. Não há alternativa senão uma cesariana.
– Severus, isso parece perigoso.
– Muggles têm feito isso desde a Roma Antiga – daí o nome cesariana, originário de Júlio César em pessoa. Minha confiança em Pomfrey certamente inclui a performance dessa cirurgia. De qualquer modo, ela prometeu consultar St. Mungo's sobre o procedimento.
– E aquilo que você falou no verão sobre a gravidez de um bruxo? Quero dizer, os riscos e tudo mais.
– Harry, é tudo verdade. Os riscos são bem altos. Não há garantias.
O rapaz adquiriu um tom sério e prometeu:
– Vamos tomar todos os cuidados, meu amor. Se precisar, iremos pessoalmente até St. Mungo's tratar de você e do bebê.
– Está tudo bem – tranqüilizou. – A gravidez corre muito bem, segundo Pomfrey.
– E você está feliz? Com o bebê, quero dizer.
– Eu... ainda não me acostumei à idéia.
– Como assim, não se acostumou? Eu só soube ontem, e você já sabia bem antes. Não estou entendendo.
– Deve pôr-se no meu lugar. Uma gravidez era única coisa que faria meu pai ter poder sobre mim de novo. Se eu engravidasse, ele poderia fazer de mim seu escravo pessoal de novo, usar-me como... fonte de renda. Durante 20 anos, eu vivi aterrorizado com essa perspectiva. Quando ela se concretizou, de maneira tão inesperada, eu entrei em pânico. Não pensei na gravidez em si. Tudo no que eu pensei é que meu pai agora podia cumprir o que sempre prometeu. E ele fez exatamente isso: você o ouviu dizer que já tinha recebido uma oferta e tinha combinado me vender.
– Mas isso acabou. O Prof. Dumbledore o enfrentou, cobriu a tal oferta e agora ele não pode fazer mais nada contra você. Nunca mais.
– E é precisamente essa a idéia à qual ainda não me acostumei. Confesso ter dedicado poucos pensamentos ao bebê e ao futuro.
– Mas você o quer, certo? Nosso bebê?
– Harry – a expressão de Severus suavizou-se –, eu não me importo de correr riscos. E nas poucas horas que pensei sobre o bebê, eu me dei conta de que nunca esperei ter um filho, muito menos engravidar. Por isso, por favor, me perdoe se não pareço tão entusiasmado. É que estou apavorado.
– Está tudo bem, meu amor. Você vai ter tempo de sobra para se acostumar com a idéia. Tem sugestão de nome?
Severus deu de ombros:
– Famílias de sangue puro gostam de dar a seus filhos nomes latinos, ou de reis e imperadores – romanos, de preferência.
– Como Severus?
– James também é nome de um rei.
– Você se incomodaria se o nome do bebê fosse James?
– Esse é o nome do avô dele – Severus evitou olhar Harry. – Compreensível que queira homenagear seu pai dando o nome de seu primeiro filho.
– Severus, é seu filho também. Quero sua opinião sincera. Se você acha que não pode conviver com o fato de seu filho ter o nome de seu antigo inimigo... Olhe, não tem problema. Só me dê alternativas de nomes.
– Preciso pensar sobre o assunto. Embora não haja praticamente chance de ser uma menina, saiba que não faço objeções a que tenha o nome de Lily.
– E o nome de sua mãe? Eu nem sei qual é.
– Augusta. – O olhar de Severus se suavizou. – Eu não me lembro muito dela.
– Augusta também é um nome distinto. Vamos começar a fazer uma lista, aos poucos.
– Como quiser, Harry – ele se ergueu. – Agora eu vou lavar os pratos.
– Nada disso – Harry o deteve. – Foi decretado que hoje é Dia de Severus, e no seu dia você não faz nada. Além do mais, ficar em pé não lhe faz bem. Madame Pomfrey foi bem clara. Portanto, pode ficar sentadinho aí, bem bonitinho.
– Está bem – Severus assentiu. – Mas precisamos falar de um outro assunto. Um que temos evitado até o momento, mas logo precisaremos tratar dele.
Parecia coisa combinada, porque nesse exato momento, o tal assunto se pronunciou diretamente nos dois, sem margem de procrastinação.
A cicatriz de Harry ardeu intensamente, fazendo-o sibilar de dor, e o braço de Severus começou a doer, levando-o a segurá-lo. Voldemort parecia indócil.
Severus se ergueu:
– Ele está me chamando.
– Ele já sabe do que aconteceu – disse Harry. – Quer explicações.
– Preciso ir – ele se virou. – Não me espere acordado.
– Não! Você não vai.
– Harry, minha situação já é precária agora. Se eu não for, ele jamais vai se convencer de que eu não o traí.
– Ele provavelmente já sabe de tudo, e é óbvio que vai exigir que você me entregue a ele. Vai puni-lo quando não fizer isso, vai puni-lo por termos nos casado, vai colocar você e o bebê em perigo. Não vou deixar isso acontecer. Você não vai.
– Isso só vai piorar as coisas. Na próxima vez...
– Não está entendendo? Não vai haver uma próxima vez. Tudo isso que aconteceu o deixou muito exposto. Não sei nem se Voldemort já não sabe que você é um espião.
– Não sabemos disso com certeza. Por isso precisa me deixar ir.
– Não! – Harry parecia irredutível. – Se eu não deixar, você não poderá ir, não é?
– É verdade – Severus parecia contrariado. – Se me der uma ordem direta, eu não poderei desobedecer dessa vez.
– E como está conseguindo me contestar?
– É minha percepção que minhas atividades ajudam a mantê-lo em segurança.
– Bom, pelo menos essa noite você não vai. O maldito não respeita nem nossas núpcias?
A despeito de si mesmo, Severus deu um sorrisinho:
– Então não quer que eu vá por puro despeito, é isso?
– Voldemort devia ter pensando duas vezes – Harry de repente se deu conta. – Desculpe, usei o nome dele.
– Não há problema. A dor parece ter diminuído. Aparentemente, isso pode indicar que minha ligação com ele diminuiu. Não é difícil entender o motivo pelo qual isso teria acontecido.
– O feitiço de seu pai?
– Precisamente. Minha ligação com você é mais forte.
– Adorei – Harry olhou para cima e falou com o teto. – Essa eu ganhei de você, Voldie monstrão!
Severus teve que sorrir ante a espontaneidade de seu marido, que terminara de lavar a louça com um sorriso triunfal.
– E agora, Sev? O que gostaria de fazer?
Harry viu o olhar de Severus mudar diante dessa pergunta. Era uma coisa inconsciente, notou. Mais uma vez, ele esperava ser repreendido ou até espancado pelo simples fato de dizer em voz alta seus desejos. O rapaz notou que rapidamente estava aprendendo a ler seu marido. Pena que ele estivesse lendo tanta falta de amor-próprio.
– Severus – Harry pegou as duas mãos entre as suas. – Jamais tenha medo de me dizer o que você quer. Sempre vou ouvi-lo, eu sempre quero ouvi-lo, entendeu?
Os olhos de Severus encararam o rosto de Harry atentamente, e o rapaz sentiu o coração doer ao perceber o quanto seu marido havia sido traído e enganado na vida. Com o tempo, pensou Harry, talvez aquilo pudesse mudar.
– Eu gostaria – ele baixou a voz e os olhos – de apenas dormir, se você não se importa.
– Claro que não. Você deve estar cansado, depois de um dia tão cheio. Se preferir dormir sozinho, acho que a minha cama ainda está no quartinho.
– Não! – Severus pegou no braço dele por impulso. – Não, eu gostaria de ficar com você. Por favor.
– Está bem – Harry beijou-lhe as mãos. – Então, de volta ao leito nupcial.
Eles passaram a noite toda abraçados, o contato parecendo confortar tanto um quanto o outro. Anos mais tarde, Severus ia se lembrar daqueles dias como sendo aqueles em que mais se sentiu vulnerável em toda a sua vida – e também os dias em que se sentiu mais cuidado, graças a Harry. Sem o jovem mago a seu lado, ele certamente não teria sobrevivido incólume a todas essas turbulências.
Harry tinha planos de deixar Severus dormir até bem tarde, mas pouco depois do amanhecer ele notou estar sozinho na cama. Alarmado, saiu a procurar o marido e foi encontrá-lo de joelhos no banheiro, a pele ligeiramente esverdeada. Ele se assustou e correu para ele:
– Meu Deus, Sev, o que foi? O que você tem?
– Enjôo matinal – foi a resposta em tom ácido. – Tenho uma poção para isso.
– E o que eu posso fazer?
– Pare de me chamar de Sev e me traga a maldita poção.
Harry obedeceu, decidindo que, se ele estava conseguindo xingar, então ele não estava tão ruim assim.