Capítulo 9 – Nós temos o paraíso
Por mais que Harry tentasse se concentrar no fato de que a ameaça representada por Sevinus estava afastada, ele não podia ignorar a tensão ao chegar às masmorras. Severus o guiou silenciosamente para uma parte escondida na parede de pedra. Harry o seguiu para dentro de uma sala de estar confortável e sóbria, com uma mesa de madeira num canto oposto ao um sofá e duas poltronas em frente à lareira. Então ele percebeu que aqueles eram os aposentos particulares de Severus, aos quais até o momento ele jamais tivera acesso.
Como sua cabana particular, a decoração dos aposentos era simples e espartana. Harry se permitiu rapidamente passar os olhos nas fileiras de livros e no certificado de Maestria em Poções pendurado na parede, antes que Severus atraísse sua atenção:
– Venha comigo, por favor.
Harry o seguiu até o quarto de dormir, outro aposento austero, com uma cama de casal de quatro postes nus. Severus se dirigiu ao closet embutido na parede e de lá tirou uma tigela de pedra, com runas gravadas: um Pensieve, reconheceu Harry, um pouco maior do que aquele que ele vira no gabinete de Dumbledore em seu quarto ano.
Severus levou o objeto até a sala de estar e sentou-se à mesa de madeira, colocando o Pensieve à frente de Harry. Sua voz era baixa e submissa quando finalmente rompeu o silêncio:
– Há muitos anos comprei esse Pensieve com todo o dinheiro que consegui economizar. Nele coloquei essas memórias e nunca mais as vi. Você precisa vê-las. Sei que você tentou vê-las através da Legilimência no verão, mas como elas tinham sido retiradas de minha mente, você não conseguiu. Mas eu me recuso a deixar que você tome uma decisão tão importante quanto o casamento sem ver o que está contido nesse Pensieve.
– Severus, eu não sei o que tem aí, mas não há nada que me faça desistir de você. Nada.
– Não diga isso até ver o Pensieve. Por favor, Harry, escute apenas isso: eu sei que não tenho direito, mas amo você. Agora ainda mais, já que sou obrigado. Quando voltar dessas memórias, não importa o que sinta, acredite nisso.
– Você não vem comigo? Não quer olhar o Pensieve?
Severus empalideceu e abaixou a cabeça:
– Não, eu... não posso. Agora vá, por favor.
Harry obedeceu, apreensivo. Mergulhou no Pensieve, olhando a fumaça prateada ondulando, imaginando que segredo poderia ser tão terrível que Severus não podia sequer encarar...
Sua mente estava à espera de algo tão sombrio que ele até se assustou ao aterrissar em Diagon Alley, num dia de sol e calor, a multidão animada fazendo a rua fervilhar com o movimento. Ele localizou Sevinus e Severus na entrada de Knockturn Alley, ambos com roupas gastas e remendadas. O garoto de 13 anos, mas com tamanho de um de 10, olhava com desejo para os sorvetes de Florean Fortescue, mas foi empurrado com força pelo pai.
– Mais coisas para comprar para a maldita escola! – vociferava Sevinus. – Você só me dá despesa! Vai começar a trabalhar no verão que vem, está ouvindo?
– Sim, pai – disse o garoto entre revoltado e temeroso. Harry podia ver que ele experimentava maus-tratos com regularidade.
Pai e filho entraram mais fundo no beco mais mal-afamado do mundo bruxo, e a freqüência começou a mudar. Tipos sombrios e mal-encarados faziam Harry se encolher, mesmo que ele estivesse apenas vendo uma memória, com a qual sequer podia interagir.
– Aqui eu posso encontrar essas coisas mais barato, de segunda mão – resmungava Sevinus. – Isso se não formos assaltados ou coisa pior.
Talvez fosse esse o caso, pensou Harry, ao observar dois homens mal-encarados olhando com muito interesse para pai e filho. Eles os seguiram pelo beco adentro, e Sevinus entrou numa loja, deixando Severus do lado de fora. O garoto ficou olhando a vitrine, e os dois sujeitos o observaram de longe por uns minutos, depois se aproximaram. Severus olhou para eles. Nesse momento, Sevinus saiu da loja e olhou para os três.
– O que está acontecendo? Quem são vocês?
– Nada, só admirávamos o seu garoto. Um belo rapaz. Tem o quê, uns 11, 12 anos?
Severus fechou a cara:
– Já completei 13 anos.
– E estaria interessado em ganhar algum dinheiro, rapaz?
Ao ouvir falar em dinheiro, Sevinus se adiantou:
– Se querem propor alguma coisa, é comigo que têm que falar. Sou o pai dele.
– Claro, claro. Queremos lhe propor um negócio – O homem sorriu, e ficou ainda mais assustador, pensou Harry. – Um negócio bem vantajoso.
Sevinus olhou para o homem, depois olhou o amigo dele e disse a Severus:
– Vá olhar vitrines enquanto eu converso com o cavalheiro. E não suma por aí!
Severus obedeceu, distraindo-se enquanto o pai conversava com os homens. Harry ficou tentado a ir ouvir a conversa, mas eles entraram numa loja, e o rapaz achou melhor ficar com Severus. Depois de se demorarem dentro da loja, Severus começou a ficar entediado. Mas Sevinus saiu da loja com um dos homens logo depois.
– Quero que você vá com o moço e faça tudo que ele mandar.
– O que vou fazer?
– Você vai trabalhar, garoto – O pai o olhou, feroz. – E não me faça passar vergonha, senão vou enchê-lo de pancada em casa, ouviu?
Sevinus parecia particularmente nervoso, então Severus achou melhor não discutir. Seguiu o homem para dentro da loja, e de lá para um quarto no andar de cima, onde o outro homem estava esperando. Severus olhou o quarto: tinha uma cama e um armário pequeno. Não havia janelas, só um cheiro de mofo.
– Como é seu nome, garoto?
– Severus.
– Tire a roupa e fique de joelhos.
– Como é? – ele não entendeu.
– É surdo? Tire a roupa e fique de joelhos.
– Mas por quê?
Os dois homens riram. O mais alto tirou o casaco, dizendo:
– Quando seu pai (se é que ele mesmo é seu pai) disse que você era virgem, não estava brincando. Valeu a pena ter pagado tanto. Agora tire a roupa e venha para cá. De joelhos.
Os olhos negros do menino se arregalaram quando ele finalmente percebeu o que estava acontecendo. Num impulso, ele correu até a porta, mas ela estava trancada. O altão agarrou-o pelos pulsos, sacudindo-o:
– Eu não quero nada disso! Seu pai exigiu um bom dinheiro pela sua bundinha virgem, e eu quero o que paguei, sem choro nem escândalo, entendeu, sua putinha? – Ele o jogou no chão. – Agora vai tirando a roupa, ou eu mesmo faço isso por você!
O outro tirava as calças, reclamando:
– A gente não devia ter concordado em não bater! Umas porradas e esse garoto afinava na hora.
Severus constatou, horrorizado e enojado, que ele não tinha escapatória. Com o estômago revirado, Harry viu duas grossas lágrimas escorrerem pelo rosto do menino quando ele começou a desabotoar a camisa. Nos olhos negros, ele viu ódio, revolta, traição e humilhação.
As cenas que se seguiram fizeram Harry chorar, o peito constrito, o estômago revoltado. Ele não sabia dizer o que o fez ficar e assistir a tamanho espetáculo de degradação. O que ele mais queria era pegar o garoto no colo, o seu Severus, e fazer aquilo tudo desaparecer, sumir. Harry ouviu os gritos e as súplicas do menino, e os sons marcaram sua alma. Viu o sangue no corpo franzino, o rosto jovem em estado permanente de choque, nojo e dor.
Quando tudo terminou, Harry se sentia exausto e drenado emocionalmente. Ele queria deixar o Pensieve e aninhar-se com Severus um bom tempo, para tentar ajudá-lo a lidar com aquilo.
Só que não tinha acabado. Outras memórias vieram. E outras. E ainda mais. Outros homens, outras humilhações. O horror não parou. Na verdade, ele se prolongou por anos a fio. Harry mal podia acreditar no que estava vendo.
Severus passava as férias trancado no quartinho infame, onde estava por um acordo feito entre seu pai e o dono da loja. O rapaz era escravizado para servir aos clientes do pai, preso sem ver a luz do dia ou da noite. Uma vez por dia, ele tinha permissão para descer até os fundos da loja, onde recebia um jantar miserável como única refeição. Ele tinha que permanecer magro para agradar aos clientes.
Ele tinha também "clientes especiais", homens que pagavam extra pela permissão de usar nele chicotes e amarras, deixando-o tão sangrento e dolorido que às vezes ele passava dois dias para se recuperar. Nenhum deles se incomodava em evitar cicatrizes. Mas sua fama logo cresceu. Em pouco tempo ele ficou conhecido como uma puta exclusiva, que só trabalhava no verão.
No resto do ano, Severus tinha Hogwarts.
A princípio, ele imaginou que na escola ele pudesse esconder dos colegas as atividades que seu pai o forçava a fazer durante o verão. Claro que isso não tinha sido possível. As conseqüências não demoraram a surgir.
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Capítulo 10 – Gigantes sob o sol
Dentro do Pensieve secreto de Severus, Harry viu o menino sair da biblioteca uma noite, pouco antes da hora de recolher, e descer as escadas rumo às masmorras para voltar ao salão comunal de Slytherin. Quando chegou ao andar térreo, foi atacado sem aviso: três rapazes mais velhos o agarraram, e mais dois se juntaram a eles ao arrastarem o garoto para uma sala de aula vazia. Ele se debatia, mas não podia se defender de cinco ao mesmo tempo.
– Me soltem!
– Qual é, Snape? Aposto como você não arma esse escarcéu todo para os seus clientes! Você sabe, aqueles lá em Knockturn Alley!
– É, sua puta! Você dá para todo mundo, e agora a gente também quer essa bunda!
– Segura ele!
Harry se apavorou tanto quanto Severus, que tentou se afastar deles, mas três o imobilizaram e os outros dois riam. O garoto arregalou os olhos, totalmente à mercê de seus captores. Eles começaram a lhe tirar as roupas.
De repente, porém, um deles voou para a parede e caiu no chão, desacordado. Os outros se viraram e deram de cara com um jovem Lucius Malfoy, varinha em riste e olhar feroz nos dois globos cinza. A voz era baixa e perigosa.
– Larguem-no agora, e eu posso deixar que vocês tenham descendência.
– Você não precisa nada disso, Malfoy. Ela é uma vadia, um veado e puta que dá para qualquer um por dinheiro. Vem comer ele também. Não precisamos brigar. Tem para todos.
– Um Malfoy não tem por hábito dividir – retrucou o louro, altivo. – Snape é meu. Já avisei.
– Vai nos enfrentar por causa dessa vagabunda?
– Não. Vou enfrentá-los porque vocês estão invadindo minha propriedade, é por isso. Agora sumam. Último aviso.
Ainda houve um ligeiro impasse, em que os rapazes ficaram indecisos entre enfrentar Lucius ou não. No final, prevaleceu o temor por enfrentar um Malfoy e, a contragosto, eles obedeceram, saindo da sala lançando olhares rancorosos para Lucius e Severus. O garoto mais jovem tinha os olhos cheios de gratidão quando se levantou, ajeitando as roupas:
– Obrigado, Malfoy. Não me esquecerei do que fez.
– Espero mesmo que não se esqueça, Severus, porque vim lhe fazer uma oferta.
– Uma oferta?
– Você não é desprovido de inteligência e deve saber que este tipo de incidente tende a se repetir. Outros podem ter a mesma idéia e tentar fazer o que esses não conseguiram.
Harry viu as faces do jovem Severus corando. Lucius continuou:
– Por isso é que venho lhe oferecer proteção. Ao menos durante o ano letivo. Não ia querer deixá-lo desprovido de sua... fonte de renda durante o verão.
– Por quê?
– Não pense que minha oferta é gratuita. Em troca, eu quero exclusividade. E lhe ofereço proteção.
– Pode... me proteger?
– Contra esse tipo de coisa – assentiu o rapaz mais velho. – Ninguém vai ousar encostar em você e me contrariar se você for meu protegido. Mas para isso, você tem que concordar em ser meu, e meu somente. Aceita? É pegar ou largar.
Severus não precisava pensar muito para perceber que não tinha muita escolha. Aceitou na hora. Ali mesmo, Lucius Malfoy cobrou a contrapartida da proteção. Severus sabia os termos do acordo, mas surpreendeu-se ao ver que algum tipo de cordialidade se desenvolveu entre os dois, pois Lucius podia ser até agradável quando queria. O herdeiro dos Malfoy cumpriu fielmente o trato, mesmo depois de formado. Enquanto Severus foi estudante em Hogwarts, ele recebeu a proteção de Malfoy. E depois que Severus se formou, a ligação entre os dois continuou.
Para tristeza de Harry, ele compreendeu que Severus confundira tudo. Com o tempo, o garoto tão carente de afeição tentou ver no trato com Malfoy algum tipo distorcido de afeto, um simulacro de relação romântica. Só então Harry conseguiu compreender inteiramente a explosão de Severus quando descobriu os preparativos para o casamento de Lucius com Narcissa Black. Aquele era um fato concreto que destruía qualquer ilusão de que Lucius nutria por ele algum sentimento de amor. Mais triste ainda era a constatação de que Lucius tinha sido o único a quem Severus tinha considerado entregar seu coração. Severus não tinha tido qualquer namorado. Ninguém para amar. Ninguém que o amasse. O máximo que ele conhecera tinha sido Lucius. Os outros tinham sido seus clientes.
Harry jamais conseguiu descobrir se seu pai e Sirius conheciam o passado de Severus enquanto estudavam juntos, então ele não tinha certeza se os xingamentos eram apenas por causa de sua opção sexual. Ele poderia tentar perguntar a Remus mais tarde – assim que conseguisse se acalmar por causa da reação do lobisomem.
As cenas de horror chocaram profundamente Harry, que acompanhou no Pensieve o martírio de Severus ano após ano, passando os verões como cativo, repudiado pela sociedade. O rapaz tinha que admirar a resiliência do jovem Slytherin, pacientemente suportando as humilhações até completar a maioridade e sair da casa paterna sem jamais olhar para trás.
Nesse ponto, Harry pôde entender plenamente o apelo de Voldemort ao jovem Severus. Nessas circunstâncias, as promessas de respeito e reconhecimento do Lord das Trevas se tornavam ainda mais atraentes para alguém tratado como dejeto da sociedade. Contudo, Voldemort traíra as promessas feitas a Severus tratando-o do mesmo jeito que todas as outras pessoas. Tinha sido justamente essa traição – mais do que qualquer outro fator – que tinha sido decisivo para convencer o jovem Death Eater a se tornar um espião.
Havia tanto o que pensar. Tanto o que considerar.
Quando saiu do Pensieve, Harry se viu sozinho no quarto de dormir de Severus. Sentia-se pesado, exausto, fisicamente doente, mas estava compelido a procurar seu noivo e tentar aliviar-lhe as dores.
Encontrou-o na saleta de estar, de pé em frente à lareira, observando o fogo crepitante com uma expressão impenetrável. Não se virou quando Harry entrou na sala. O rapaz o abraçou por trás e sentiu que ele estava trêmulo.
– Oh, Severus... Eu lamento tanto...
Severus ficou rígido nos braços de Harry:
– Não é sua culpa. Mas agora eu acho que entende por que não pode se casar com uma pessoa como eu.
– Isso não muda nada. Eu te amo, agora mais do que nunca, sabendo o quanto você sofreu. Mas isso faz tempo, já ficou para trás. Todos esqueceram.
– Harry, ninguém esqueceu nem vai esquecer. Sou uma pessoa marcada, condenada para sempre à execração pública. Este é o costume. Seu amigo Lupin tentou avisá-lo, e ele realmente pensava no seu bem.
– Isso é puro preconceito, e eu não ligo para isso. Olhe, se você quiser falar sobre o que aconteceu, eu estou aqui. Mas não quero mais ouvir você dizendo que não é digno e essas coisas. Você merece ser feliz, Severus, e eu vou fazer o que estiver ao meu alcance para isso.
Severus ia responder, mas foi interrompido pela chegada de uma coruja, uma que Harry conhecia bem. Ela trazia um envelope vermelho, um que Harry também reconheceu – era um Howler.
Pálido, Severus recebeu o envelope e sugeriu:
– Talvez seja melhor você ir agora.
– Um Howler? Eu acho que sei quem mandou, mas...
– Pode ter sido enviado por qualquer pai de alunos de Hogwarts – respondeu Severus, deprimido. – Não é o primeiro que recebo. Eu lhe peço que não assista a isso.
– Eu quero ficar e ver o que eles têm coragem de dizer de você – disse Harry, encolerizado. – Pode abrir.
Severus obedeceu e uma voz feminina, alterada e conhecida, encheu o aposento, com um barulho ensurdecedor:
– SEVERUS SNAPE, QUE DECEPÇÃO! EU SEMPRE PROCUREI TRATÁ-LO COM DISTINÇÃO E CORTESIA, MAS ESSA SUA ATITUDE DE SEDUZIR O POBRE HARRY É REPULSIVA, E PARECE CONFIRMAR TUDO QUE AS PESSOAS PENSAM A SEU RESPEITO! EU ESPERO QUE VOCÊ TENHA TUDO A DECÊNCIA DE ESCLARECER HARRY SOBRE O SEU PASSADO, CASO CONTRÁRIO EU MESMA FAREI ISSO! HARRY É COMO UM FILHO PARA MIM, E EU ESTOU PENSANDO NO BEM DELE! SE ISSO FOR REALMENTE A VONTADE DE HARRY, ENTÃO NÃO VOU DIZER COISA ALGUMA, MAS SE EU DESCOBRIR QUE É UM TIPO DE ARDIL PARA ENGANAR O RAPAZ, VOCÊ VAI SE VER COMIGO PESSOALMENTE, SEVERUS SNAPE!
O Howler explodiu em chamas fazendo Errol, a coruja que o tinha trazido, sair voando dali enquanto o papel se desfazia, virando cinzas, sob os olhos arregalados de Harry. Ele estava decepcionado:
– Mrs. Weasley... Por que ela fez isso? – Ele estalou os dedos. – Ron deve ter escrito para ela, foi assim que ela soube.
– Ela só estava pensando no seu bem, Harry.
– Então ela sabe a respeito de...? Bom, você sabe. Ela sabe?
– Embora isso não seja um assunto que se comente entre as pessoas respeitáveis, Arthur e Molly Weasley conhecem meu passado, bem como Remus Lupin. Sirius Black só soube mais tarde.
– Mas o Ron não sabe. Ele teria me dito. Acredite: ele teria me dito, se soubesse.
– Em geral, os alunos não sabem. Apenas alguns poucos em Slytherin reconhecem o fato.
– Malfoy – rosnou Harry. – Aposto como ele sabe.
– Ele nunca me comentou nada, mas não duvido que Lucius tenha lhe dito. De qualquer forma, não é algo que seja comentado entre famílias respeitáveis.
Harry o pegou pelos ombros e disse, solene:
– Não pense nunca que você não é uma pessoa respeitável, Severus. O que Mrs. Weasley fez me magoou muito.
– Ela fez o que qualquer pessoa de bem faria – insistiu Severus. – E o Howler dela foi muito mais brando dos que os que tenho recebido. Alguns são bem explícitos ao me condenar por minhas depravações ao me casar com alguém tão jovem e famoso. Por isso eu precisava lhe contar tudo. Eu jamais quis manchar sua reputação, Harry. Você é um herói, um símbolo para todo o mundo bruxo. Não deve jamais se associar a um... indivíduo como eu.
– Já disse que não quero mais ouvir isso. Você é meu noivo e eu tenho orgulho de você.
– Só penso em seu bem. E agora tenho que pensar no bem da criança, também.
– Ah, nosso filho, Severus – Harry sorria. – Quanto mais eu penso nisso, mais feliz me sinto. Depois do casamento, quero começar a discutir nomes.
A expressão de Severus mudou de repente e ele disse, submisso:
– Como quiser, Harry.
– Severus? – Harry reparou nele. – Está tudo bem?
– Sim, claro.
– Você fez uma cara estranha. Não tem nada com o bebê, não é?
– Não, não se trata disso – Severus abaixou a cabeça. – É só o efeito do feitiço.
– Feitiço? – Harry ficou confuso. – Que feitiço?
– Sangüinis Vinculum.
Levou alguns segundos até Harry se lembrar de que esse tinha sido o feitiço lançado por Sevinus, um que deixara Dumbledore possesso de raiva e Severus extremamente abalado.
– Eu não conheço esse feitiço. Não sei o que ele faz.
– É um feitiço antigo, que beira as Artes das Trevas. Ele cria um vínculo de uma pessoa em relação a outra, um vínculo vitalício, ligado ao sangue. Antigamente era lançado em esposas de casamentos arranjados para assegurar obediência, fidelidade e lealdade. Muito similar a uma forma branda de Imperius.
– Severus, o que ele fez com você?
– Ele me uniu a você através de nosso filho. Esse vínculo me faz ficar perto de você, obedecê-lo e ser fiel apenas a você por toda a minha vida. Eu pertenço a você.
– Puxa – Harry o encarava, um pouco apreensivo. – Você fala e isso soa maravilhoso, mas o fato de você não ter escolha parece ser... cruel.
– Não tenha dúvidas de que essa foi a intenção de meu pai. Ele quis me tornar seu escravo.
– Escravo? O feitiço faz você me obedecer, mas não é igual a Imperius, é?
– Não é só isso que ele faz. Talvez seja bom pesquisar mais sobre ele. Mas posso sentir que seu toque e sua proximidade... fazem bem.
Harry sorriu e abraçou-se ainda mais a ele:
– Então eu já estava enfeitiçado antes de você. Senti sua falta, senti falta de seu toque na minha pele. Foi ruim ficar sem você. Não quero sentir isso de novo enquanto eu viver.
– Então está disposto a ir adiante com o casamento, apesar de tudo?
– Nada me faria desistir. Eu amo você, Severus.
Eles se beijaram, e nesse contato, Severus pôde sentir a força do feitiço que o dominava. Ele precisava de Harry, queria-o, ansiava por ele. Mas ele tinha que manter a cabeça no lugar.
Pois nem tudo seria um mar de rosas.