Capítulo 21 – Segure-se

 

O problema no transporte via chave de portal era a sensação no umbigo. No caso de uma pessoa grávida, essa sensação obviamente não só era ampliada como também transmitida à criança (que se localizava justamente nessa área). Portanto, Severus experimentava uma forte cólica quando viu o mundo se formar à sua volta, num ambiente conhecido.

 

Mansão Malfoy.

 

– Ora, ora. – Um risinho sarcástico e uma voz conhecida o saudaram. – Severus, velho amigo.

 

– Lucius – Severus se ergueu com dificuldade, segurando a barriga e olhando em volta, dando de cara com o Lord das Trevas em pessoa e sua mascote Nagini. – Milord!

 

Com dificuldade, ele se pôs de joelhos em frente a Voldemort e inclinou-se para beijar-lhe a bainha de suas vestes. Com seu corpo grávido, era um ato de extrema dificuldade, e ele demorou muito tempo para fazê-lo. Lucius e Draco Malfoy observavam tudo com olhares divertidos. Nagini sibilou discretamente. Ninguém se ofereceu para ajudá-lo.

 

– Tsk, tsk, Severus, meu servo – Voldemort caminhou em redor dele, que mantinha a cabeça baixa e olhos postados no chão. – A que ponto chegamos?

 

– Milord, eu agradeço o resgate – ele tentou dizer. – Eu era um prisioneiro. Estou sob o efeito de um encantame...

 

– Sei, sei, sei tudo o que você disse ao jovem Malfoy – foi interrompido. – Seu falecido pai, que não deixa saudade, fez-me o favor de totalmente inutilizar você para meu uso. Agora Potter o possui, graças àquele maldito feitiço Sangüinis Vinculum. Todos esses anos cultivando você, e ele estraga tudo! Lucius já o tinha comprado de seu pai quando você engravidou, mas aquele infeliz deixou Dumbledore se meter no negócio!

 

– Lucius... tinha me comprado? Então ele era o...

 

– Sim, sim, ele era o comprador de que seu pai falou. Você ia ser o presente do aniversário de Draco. O menino vai fazer 17 anos, e Lucius quer que você seja seu escravo sexual, já que você é tão experiente. Aliás, ainda vai ser o presente de Draco. Eu soube que o rapaz fez questão de colocar correntes novas na masmorra para que você fique bem protegido na sua nova casa, se seu irritante marido tentar resgatá-lo. Bom, mas primeiro precisamos cuidar desse inconveniente do herdeiro de Potter. Ele vai ser útil para mim.

 

Severus empalideceu. Voldemort queria o bebê!

 

– Durante anos eu secretamente cultivei esse seu lado prostituído, Severus. Usei Lucius para isso. Ou você pensa que Lucius realmente se importava com você? Não, eu o ordenei esses anos todos que mantivesse o controle sobre você. – Severus começou a tremer, e um gosto ruim se formava em sua boca. – Mas aí seu pai estúpido deixou Dumbledore tirá-lo do meu controle! É claro que depois disso eu tive que mandar Lucius dar uma lição nele. Por isso ele vai ter você de presente. Ele é seu dono desde Hogwarts mesmo.

 

– D-Desde Hog-Hogwarts? – Os tremores se intensificaram, as dores também. – Como assim?

 

– Ele era um de seus clientes mais assíduos, e recompensava seu pai ricamente por sessões "especiais" com cordas e chicotes. Assim você veio até mim espontaneamente. E eu mantive você sob minha guarda, eu fiz você acreditar que eu era o único a se importar com você. Mas esse seu casamento... Isso estragou tudo! Você deveria ser capaz de me entregar Harry Potter num piscar de olhos, e agora ao invés disso você está sob o poder dele! Mas se me entregar o herdeiro de meu inimigo, Severus, eu o deixarei em paz com seu dono de direito. Os Malfoy têm cuidado de você durante tanto tempo, nada mais justo que você ir morar com eles.

 

O estômago de Severus se revirava cada vez mais. Toda a sua vida, tudo que ele pensava, tinha sido manipulado. Traído.

 

Draco Malfoy o encarava, um sorriso ganancioso nos olhos:

 

– Mal posso esperar para tê-lo, minha prostituta pessoal... – Ele se aproximou de Severus, que ainda estava ajoelhado, e acariciou-lhe os cabelos. – Não precisa ter medo. Há muito tempo espero por isso. Quero saborear o momento em que vou comê-lo todo, como meu pai disse que fazia. Você poderá viver nas masmorras, e não vai mais precisar sair de lá. Nunca mais. Tenho um lugarzinho especial para você. Será só meu, e de ninguém mais.

 

Severus sentiu a dor em seu abdômen se intensificar e a realidade escapar por seus dedos. Era óbvio que Draco não estava raciocinando corretamente, e provavelmente o Lord das Trevas também. Ele viu os olhos intensos de Nagini brilhando para ele.

 

Como ele poderia escapar? Como poderia salvar seu filho?

 

Como ele precisava de Harry...

 

– Você não me tem mais serventia, Severus – Voldemort fez um gesto com as mãos. – Draco pode tê-lo agora. Isso, claro, se Lucius concordar em abrir mão de sua trepada mais constante... Ele pode ficar com saudade de sua puta preferida.

 

Severus fechou os olhos, humilhado. Era o que ele era, afinal. Uma coisa, só isso. Uma coisa que todos usavam, que passava de mão em mão. Todos usavam seu corpo, sem se importar com ele, porque coisas não importavam. Todos faziam isso, não faziam?

 

Não, ele rebelou-se de repente. Harry não fazia isso. Harry se importava com ele. Harry cuidava dele. Harry viria salvá-lo. Um calor aqueceu-lhe a alma ao se dar conta de que aquilo era verdade.

 

Ele abriu os olhos para encarar Voldemort. O homem-cobra tinha os olhos vermelhos fixos nele. Ele pensou em Harry.

 

– Eu sei o que está pensando, Severus – Voldemort lhe interrompeu os pensamentos. – O garoto Potter não virá salvá-lo. Ele não sabe onde você está e não se importa. Se ele se importasse, não o teria deixado a cargo de um elfo doméstico e de uma mulher patética. Draco não teve a menor dificuldade em buscá-lo. Potter não se importa com você. Está se enganando à toa, meu caro. Você é o que é: apenas uma prostituta, e nunca vai deixar de ser isso.

 

Duas grossas lágrimas rolaram pelas faces de Severus sem que ele percebesse. Ele tinha pensado que tudo aquilo terminara, que tudo tinha ficado para trás. Tinha pensado que nunca mais seria humilhado, que alguém o respeitaria. Mas não. Tinha sido um engano. Ele nunca ficaria livre daquilo. Nunca. Era sua marca, seu pecado, sua sujeira constante.

 

– Agora venha comigo, que eu vou livrá-lo desse incômodo bebê em sua barriga. Ninguém quer uma puta grávida, não é mesmo?

 

Severus tentou se erguer e ficar longe dele:

 

– Não!... Não chegue perto de mim.

 

Voldemort fechou a cara de réptil e tornou-se ainda mais repugnante.

 

– Severus, você não quer resistir a mim. Sabe que é inútil. Agora pare com isso.

 

– Não... – Severus nem sabia o que estava fazendo, de tão perturbado. Só sabia que não podia deixar o Lord das Trevas perto de seu bebê. – Não, por favor...

 

– Severus – Lucius chegou perto dele, escandalizado. – Pense no que está fazendo. Não vai querer irritar o nosso Lord.

 

– Não!... – Ele tentou se afastar dele também, mas Lucius o segurou. – Não!

 

– Deixe de frescura, sua puta! – Lucius o empurrou para junto do Lord. – Você vai ficar livre dessa semente nojenta!

 

– Meu bebê! Não!....

 

Mas tudo parecia perdido. Seguro por Lucius, Severus tentou inutilmente resistir, mas Voldemort avançava contra ele, e trazia um sorriso assassino nas feições reptilianas que não deixava dúvidas sobre suas intenções.

 

Severus sentiu o coração afundar, ao perceber que naquele momento, não havia saída para ele nem para seu bebê.

 

 

 

Capítulo 22 - Então

 

Com os olhos cheios de lágrimas e terror, Severus viu Voldemort aproximando-se dele, Lucius o segurando. Antes que Voldemort tocasse Severus, porém, alarmes soaram, um cheiro de magia no ar. Eles olharam em volta, Nagini se ergueu em posição de sobreaviso e Lucius alertou:

 

– As proteções!... – Ele jogou Severus para o lado, e o grávido caiu sentado no chão de maneira muito desajeitada. – Alguém está tentando invadir a propriedade. A passagem de emergência!

 

Enfurecido, Voldemort rosnou em Parseltongue e passou a varinha ao redor de Severus. Furioso, ele cuspiu:

 

– Um feitiço localizador! Maldito Dumbledore! – Ele se virou. – Nagini! Vamos precisar de reforços!

 

Mal ele dissera isso, vários estalidos se ouviram no salão, e quase uma dezena de pessoas Aparataram no local. Severus ouviu gritos descoordenados, alguns até em Parseltongue. Lucius deu um guincho deselegante assim que um feitiço o atingiu e o levou ao chão. Draco foi impedido de chegar à porta por Bill Weasley. Lupin imobilizou Lucius, Severus notou, enquanto procurava Harry desesperadamente entre os recém-chegados. Ele também não conseguia ver Nagini em lugar nenhum. Contudo, sua atenção foi desviada quando ele foi erguido à força.

 

– De pé, puta! – grunhiu Voldemort, agarrando-o pelo braço. – Não pense que vai escapar de mim!

 

– Tire as mãos dele, Voldemort!

 

Harry.

 

Severus arregalou os olhos e sentiu seu coração bater mais forte ao ver o garoto de varinha em riste, os olhos verdes brilhando cheios de determinação. O feitiço lançado por Sevinus Snape fazia o Mestre de Poções querer pular em Harry, agarrar-se a ele, sentir seu toque. Ele se debatia nos braços de Voldemort, ansioso.

 

– Que tocante! – riu-se Voldemort. – O pirralho veio atrás da puta...! Mas talvez tenha sido tudo em vão, eu receio. Porque eu não vou abrir mão dele. Lamento, guri. Você vai morrer.

 

Ele empurrou Severus para trás, e o homem grávido mais uma vez caiu no chão, uma sensação horrível no baixo ventre. Mas no segundo seguinte, a sensação se intensificou, e ele percebeu que uma chave de portal tinha sido novamente acionada.

 

Ele mal gritou:

 

– Harry!....

 

Sua voz ainda ecoava no ar quando ele sumiu em pleno ar, os gritos de Harry se misturando à chegada de Death Eaters.

 

O mundo se recompôs à sua volta num lugar escuro, úmido e frio, que Severus reconheceu mesmo à meia-luz: as masmorras da Mansão Malfoy. Ao menos, um dos cubículos. As paredes de pedra pareciam ainda mais ameaçadoras com uma única tocha, e ele notou que havia um cobertorzinho fino no chão sujo. Talvez aquela fosse sua cela, a tal que Draco mencionara antes.

 

Ele se ergueu, uma dor em sua barriga, e apreciou o fato de estar sozinho. Ao menos não estava longe de Harry. Caminhou até a porta de madeira e constatou, sem surpresa, que estava trancada. Bateu nela, gritando. Ninguém atendeu.

 

Severus suspirou, tentando ignorar a dor no ventre e tentou avaliar as possibilidades. Sem varinha, sem chance de sair daquele lugar, ele só poderia esperar ser resgatado, ou – na pior das hipóteses – a volta de Voldemort, no caso de Harry ser derrotado. Mas Severus confiava que o Sangüinis Vinculum o deixaria saber se alguma coisa acontecesse a Harry.

 

Ele tentou controlar-se. Tudo daria certo se ele mantivesse a cabeça no lugar. Ele só tinha que ignorar tudo que Voldemort dissera sobre as manipulações, as mentiras. Não valia a pena pensar naquilo agora.

 

Severus estremeceu, e um arrepio percorreu seu corpo. De repente, ele começou a sentir frio, e tentou esquentar os braços. Então a porta se abriu, de repente, gentilmente.

 

A tocha se apagou e ele mergulhou no escuro total. Um ar gélido penetrou o cubículo onde ele estava. O frio triplicou, e Severus sentiu como se estivesse mergulhando em água gelada.

 

Não havia um ruído no cubículo da masmorra, mas em sua cabeça, havia um grande burburinho de sons do passado.

 

"Sua puta!... Você me deixou mal com meu cliente!..."

 

"Seu pai exigiu um bom dinheiro pela sua bundinha virgem, e eu quero o que paguei, sem choro nem escândalo, entendeu, sua putinha?"

 

"Ela é uma vadia, um veado e puta que dá para qualquer um por dinheiro...."

 

"Não pense por um minuto que você poderá ser algo diferente do que você sempre foi e sempre será..."

 

"Potter não se importa com você. Se ele se importasse, não o teria deixado a cargo de um elfo doméstico e de uma mulher patética..."

 

Severus cambaleou para trás, estarrecido. Uma mão esquelética, putrefata, apareceu na porta, e ele soube o que estava para entrar.

 

Um Dementor.

 

A criatura deslizou em sua direção, e Severus tentou se afastar dele, tremendo de frio, as vozes aumentando em sua mente. Então isso era o ataque de um Dementor.

 

Era a pior coisa que já vira. Pois era a soma das piores coisas que se lembrava, todas juntas num único pacote.

 

Um Patrono... Ele precisava produzir um Patrono... Mas como, se não tinha varinha?

 

Ele se lembrou do conselho de Harry: "Pense em algo feliz..."

 

Mas não havia felicidade nele. Ele só se lembrava das humilhações, dos desgostos, das mágoas, das desgraças, dos sofrimentos. Ele iria morrer nas mãos daquela criatura, seu filho não-nascido ia morrer também...

 

A mão esquelética avançou para ele, estendida. As costas de Severus encontraram a parede e ele se deixou escorregar, sem forças.

 

Harry, me perdoe...

 

Merlin, eu vou morrer.

 

As vozes em sua cabeça gritaram ainda mais alto, e ele fechou os olhos, batendo o queixo de frio. Um frio que gelava toda sua alma. O rosto de Harry sorrindo de repente dançou em sua mente, e foi como uma lufada de vento de verão.

 

O rosto de seu filho sorrindo também apareceu-lhe na sua mente, e Severus sorriu debilmente. Aquilo o intrigou.

 

Ele se lembrou que Harry foi o primeiro a lhe proporcionar prazer sexual.

 

Ele o fez sentir-se amado. Desejado. Digno de ser amado.

 

De repente, a tocha voltou a ser acesa. Sentindo a claridade e o calor, Severus abriu os olhos.

 

O Dementor tinha desaparecido.

 

A porta estava aberta.

 

Sem entender direito o que tinha acontecido ali, Severus respirou fundo, sentindo a temperatura de seu corpo elevar-se gradualmente, e tentou erguer-se. Foi cambaleando até a porta, mas não conseguiu sair.

 

Nagini tinha surgido à porta.

 

Severus parou, hesitante. A cobra não parecia em posição de ataque, mas ela o encarava intensamente. Cuidadosamente, ele deu um passo. O animal imediatamente reagiu, sibilando, contrariado, e pondo-se no caminho de Severus.

 

Voldemort mandara a cobra vigiá-lo.

 

Os dois ficaram ainda num impasse, frente a frente. Não que Severus pensasse seriamente em tentar ser mais rápido ou mais ágil do que o réptil, mas ele tentava desesperadamente uma saída, pois as dores de seu corpo aumentavam.

 

Ele logo não conseguiu mais ficar em pé. A cobra o observou sentar-se no chão com dificuldade, esticando a língua nervosa no ar. Ele ofegou, sentindo as forças mais uma vez fugindo de seu corpo.

 

Então ouviu passos no corredor. Nagini ouviu também, e sibilou ameaçadoramente para esperar o invasor.

 

Que sibilou de volta.

 

O coração de Severus se iluminou ao ouvir aquilo:

 

– Harry! Aqui!

 

A voz veio do corredor:

 

– Severus? Você está bem?

 

– Harry! Cuidado! Nagini...

 

Nagini se enrodilhava próxima a Severus, rapidamente ficando em posição de ataque. Ela sibilava, furiosa. Harry finalmente apareceu, varinha erguida, sibilando de volta. Os dois trocaram um diálogo furioso em Parseltongue, um que Severus imaginou ser intenso, porque a veia no pescoço de Harry estava saltada como ele vira poucas vezes.

 

A dor se intensificava em Severus, que começou a ter engulhos. Ele abstraiu o embate da cobra com seu marido, dando-se conta de uma coisa.

 

O bebê estava para nascer.

 

– Harry... – Ele tentou dizer, o quarto todo rodando em sua cabeça. – O bebê...

 

E não conseguiu dizer mais nada, a escuridão se fechando em sua cabeça como se a cobrisse com um manto pesado.

 

 

 

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