Capítulo 23 – Coração do amanhecer

 

Maldita cobra. O que seria preciso para convencê-la?

 

– Você matou meu *hfshfhfhsshsch* (amo/mestre/lord/senhor/amor/dono/patrão)!

 

– Eu não tive escolha – repetiu Harry, em Parseltongue. – Eu estava defendendo meu *hifshshish* (cria/filho/rebento/ovo/herdeiro/prole) e meu *harshhisfshoch* (parceiro/cônjuge/consorte/marido/esposo)! Ele ia fazer mal ao meu pequeno!

 

– Você mente, Duas-pernas! Aquele é traidor! Traidor não é fêmea! Não pode carregar pequenos!

 

– Mas ele carrega meu *hifshshish*! Ele é especial. Por isso seu Mestre o queria tanto, mas ele é meu parceiro! Precisa me deixar trazer ajuda. Eu não quero machucar você!

 

Severus parecia ter uma convulsão, mas Harry se deu conta de que ele estava a ponto de vomitar. Harry ficou ainda mais ansioso.

 

– Por favor! – Ele sibilava tanto que já estava se cuspindo todo. – Precisa ajudar meu filho!

 

– Harry – falou Severus, fraco. – O bebê... – Ele não completou a frase: deitou-se no chão, e ficou imóvel.

 

– Severus! Severus! – Harry se descontrolou. – Severus, não!

 

Nagini se voltou para o traidor caído no chão. Ela esticou a língua e sentiu no ar que ele estava doente. E estava mesmo com cria. Duas-pernas não tinha mentido. Ela esticou a língua para Duas-pernas, e sentiu que ele estava desesperado. Eles eram uma família. Nagini notou que nunca tinha sentido isso com o Mestre. Ela se enrodilhou em volta do traidor.

 

– Vá buscar ajuda, Duas-pernas. Eu cuido de seu companheiro.

 

Harry não ficou à vontade em deixar Severus desacordado, sendo cuidado por ninguém menos do que a mascote de Voldemort, o mesmo que quase matara Arthur Weasley há pouco mais de dois anos. Contudo, ele tinha pouca escolha.

 

Como um alucinado, ele saiu correndo pelas masmorras da mansão Malfoy.

 

 

– Droga! – Harry chutou a parede, frustrado. – Quando alguém vai nos dar alguma notícia?

 

– Tenha calma, Harry – disse Lupin. – Ele entrou há pouco tempo.

 

– Ele não acordou até agora – gemeu Harry, torcendo as mãos de nervoso. – Você viu como ele estava pálido?

 

– Harry, vai dar tudo certo. Severus é muito resistente, você sabe.

 

Eles estavam na sala de espera do quarto andar do Hospital St. Mungo's. Estavam lá há menos de uma hora, mas Harry sentia como se tivessem se passado mais de dois meses. Harry não conseguia permanecer sentado mais de trinta segundos sem se levantar, exasperado.

 

– Por que não o deixamos em Hogwarts? Madame Pomfrey tem tudo preparado para ele lá! Aqui os medibruxos não conhecem o caso, não acompanharam a gravidez!

 

– St. Mungo's era mais perto, e o estado de Severus parece inspirar cuidados. Aqui eles têm todos os recursos. Além do mais, Madame Pomfrey está lá dentro com eles, como você bem sabe. Harry, você tem certeza de que não quer que ninguém examine você? Você pode estar em choque, depois de ter enfrentado Voldemort, e tudo mais.

 

– Não preciso de atendimento. Voldemort está morto, Remus – Harry deu de ombros. – Eu estava mais preocupado com Severus do que com ele.

 

De repente, da escada, veio um grito e uma pessoa correndo:

 

– Harry Potter! Harry Potter! – Era um homenzinho magro, com cabelos em desalinho e roupas muito amarrotadas, óculos grossos, nariz muito comprido e orelhas de abano, que chegou ofegante. – Meu nome é Harold Barrell, do Profeta Diário, preciso lhe falar sobre como matou Você-Sabe-Quem...

 

Lupin o interrompeu:

 

– Repórteres não podem subir aqui! Como chegou a esse andar?

 

– A imprensa não pode ser detida! – disse ele, pomposamente. – O público tem o direito de saber e eu, o dever de informar!

 

Harry estava tão irritado que usou Legilimência para descobrir:

 

– Ele furou o bloqueio, Prof. Lupin. Entrou escondido de todos no carrinho de roupa suja!

 

– C-Como sabe?

 

Foi nesse momento que Hagrid chegou:

 

– Eu tomo conta dele, Harry. – A manzorra do meio-gigante ergueu o pequeno homem pelo colarinho e arrastou-o de volta à escada. – Vou lhe ensinar a entrar onde não é chamado!

 

Harold Barrell foi esperneando para fora daquele andar, e Harry viu que outras pessoas chegavam naquele instante: a Profª McGonagall, Molly Weasley com Bill, Ron e Hermione. Atrás dele, porém, o pessoal médico também tinha notícias.

 

– Mr. Potter? – era o healer de nome Dorian. – Posso lhe falar um instante?

 

– Como ele está? – Harry correu até o healer, Lupin atrás dele.

 

– Trago boas notícias e notícias não tão boas. As boas notícias são que conseguimos fazer uma operação nele, e ela foi muito bem-sucedida.

 

– Operação? – Harry ficou pálido.

 

– Cesariana, Mr. Potter. Seu bebê nasceu, saudável e forte.

 

Os demais se aglomeraram perto de Harry, e logo a notícia correu entre eles.

 

– Bebê? Sou pai?

 

– Sim, Mr. Potter – O Healer Dorian, que era relativamente jovem, sorriu. – Um bebê saudável, forte, com um par de pulmões bem fortes, se me permite dizer. Em poucos minutos, ela estará indo para o berçário.

 

– Ela?

 

– Oh, é uma menina de 2,8 kg.

 

Mrs. Weasley parecia estar com lágrimas nos olhos:

 

– Uma menina, Harry!... Parabéns!

 

– E Severus? Como ele está?

 

O rosto jovem do Healer Dorian caiu, e uma expressão sombria tomou conta dele.

 

– Bom, lamento não ter notícias tão boas, Mr. Potter. Ele não acordou até agora e seus sinais vitais se deterioram. Não conseguimos descobrir a causa disso. Ele... não está melhorando.

 

– Como assim, não está melhorando? Ele... Ele está morrendo?

 

O Healer Dorian olhou para o chão e disse, cuidadosamente:

 

– Estamos fazendo tudo por ele. Ainda estamos tentando descobrir a causa dessa condição dele.

 

– Voldemort o capturou, pode ter feito algum feitiço nele, lançado alguma maldição que não vimos na hora. – Harry estalou os dedos. – Nagini também ficou com ele, talvez o tenha envenenado!

 

– Já testamos seu marido para a maior parte de feitiços, encantamentos, pragas, quebrantos e azarações conhecidas. Pudemos descobrir que ele foi atacado por um Dementor, com certeza. Mas ele não o beijou. Detectamos um tipo peculiar de Sangüinis Vinculum usado há pouco tempo, e já o retiramos.

 

– Retiraram? Esse feitiço pode ser retirado?

 

– Na verdade, não, mas tentamos no seu marido e deu certo. Como sabe, não se sabe muito sobre esse feitiço e estamos pesquisando mais a respeito. Contudo, mesmo assim, ele não reagiu. Consultei alguns especialistas na Europa e na Ásia via Floo. Um deles ficou de verificar pessoalmente a condição do Prof. Snape esta noite.

 

– Com licença – O jovem Bill Weasley se adiantou. – Importa-se se eu tentar? Trabalhei quebrando maldições para Gringotts durante alguns anos no Egito.

 

– Então tem experiência? O senhor é...?

 

– Sou Weasley, Bill Weasley – Ele apertou a mão do healer. – Bom, minha experiência é maior em quebrar maldições corporativas, mas lá no Egito eu estive contato com maldições que nós, europeus, mal ouvimos falar. Eu me lembro do Feitiço Istfy, por exemplo.

 

– Acha que pode ajudar?

 

– Se o senhor não se importar, e Harry permitir, eu gostaria muito de ajudar em tudo que puder. Você faz alguma objeção, Harry?

 

– Claro que não, Bill. Obrigado.

 

– A enfermeira vai avisá-lo quando poderá ver sua filha, Mr. Potter. Até lá, faremos tudo que for possível por seu marido. Não perca a esperança.

 

– Posso vê-lo?

 

– Por enquanto ele está na unidade de tratamento intensivo, e visitas não são permitidas. Acredito que se tudo der certo, ainda hoje eu possa autorizar uma visita rápida, mas apenas para o senhor. No momento ele está com uma equipe, retirando leite.

 

– Leite?

 

– Leite materno para sua filha. Seu marido estava preparado para amamentá-la, e estamos bombeando o leite dele para ela. – Virou-se para Bill. – Agora se me acompanhar, Mr. Weasley...

 

Os dois saíram, e Hermione abraçou Harry:

 

– Vai dar tudo certo, Harry, você vai ver.

 

Ron ajudou:

 

– É, cara, Bill é muito bom nisso. Além disso, você agora tem uma filha! Isso é incrível!

 

– Sev vai ficar abismado quando souber – disse Harry, meio aéreo. – Ele disse que os Snape não produzem filhas, e nós nem discutimos nomes de meninas. Ela não tem nome ainda, ele certamente vai querer opinar no nome dela, você sabe como ele é... Ele vai... querer um nome nobre... Tipo, nome de rainha... eu acho... – As lágrimas encheram os olhos verdes e de repente ele não conseguiu segurar o choro. – Oh, Merlin, ele não pode morrer!...

 

Mrs. Weasley o abraçou, e Harry se agarrou a ela aos prantos, ridiculamente grato por ela estar ali. Ele se lembrou que Hermione e Ron também estavam ali, bem como Lupin e a Profª McGonagall. Intelectualmente, ele sabia que todos estavam ali, todos queriam ajudá-lo, mas ele sentia um vazio imenso sem Severus.

 

E ele ainda tinha que pensar em sua filha... Mas ele não conseguia parar de chorar, ou de deter a imensa dor que se alojava em seu peito.

 

– Harry, não pode perder a esperança. Precisa ser forte.

 

– É, cara – reforçou Ron. – Snape é teimoso demais para morrer assim.

 

– E se ele precisar de uma transfusão de sangue, de magia ou de qualquer coisa – assegurou Lupin –, você pode contar conosco.

 

– Obrigado – foi o que Harry conseguiu dizer. – Eu só gostaria de ver Severus. Só um pouco.

 

Mrs. Weasley tentou arrumar o cabelo de Harry, sorrindo:

 

Healer Dorian disse que você poderia fazer isso ainda hoje, querido. Enquanto isso, por que não se senta um pouco? Parece que vamos ter que esperar mais um tempinho.

 

– Por que vocês não vão para casa? – sugeriu Harry. – Eu aviso se tiver alguma notícia.

 

Mas ninguém acatou a sugestão dele. Logo depois, uma enfermeira simpática avisou a Harry que ele poderia ver sua filha no berçário.

 

Todos desceram até o térreo, onde ficava a ala dos bebês, e ficaram de pé junto ao janelão de vidro, olhando uns quase 20 bebês do berçário. A menina estava num bercinho branco bem na frente, enrolada num cobertor rosa, e parecia chorar a plenos pulmões, embora eles não ouvissem nada graças ao janelão. A enfermeira apontou para o bercinho que tinha uma placa "Snape-Potter", e Harry viu que ela tinha uns poucos fios de cabelo escuro, uma boquinha bem aberta, e estava rosadinha de tanto chorar. A enfermeira pegou-a no colo, sem sucesso em evitar o choro.

 

Os adultos pareceram maravilhados com a pequenina, com Awwws e Ohhs pelo vidro, e Harry experimentava emoções controversas. Ele a achava linda, claro, e sentiu o amor de um pai por sua criança, mas seu coração no momento estava constrito de preocupação por Severus. Ele amava sua filha, mas não conseguia parar de pensar em Severus.

 

A bebê chorou tanto que a enfermeira resolveu tentar colocá-la junto do pai. Harry recebeu a pequena em seus braços, e absorveu cada detalhe daquela coisinha viva e pulsante que seu amor por Severus tinha criado. Ela tinha um narizinho comprido, mãozinhas fechadas e dedinhos finos e longos. Ela choramingava um pouco, mas tinha parado (ou se cansado) de berrar a plenos pulmões. Como era muito novinha, não dava para ter certeza sobre a cor dos olhos, mas tudo indicava que eram pretos. Harry a encarou com cuidado, ciente de que ela era parte sua, parte Severus e totalmente ela própria.

 

E ele a amava justamente por isso.

 

Harry ainda estava no berçário, com sua filha nos braços, quando um healer em treinamento chegou correndo, espavorido.

 

– Mr. Potter! Por favor, precisa ir até o quarto andar! É o Prof. Snape!

 

– O que houve?

 

Healer Dorian o chama com urgência! Por favor, senhor, ou pode ser tarde demais!

 

Harry despejou a bebê (que imediatamente voltou a chorar com força total) nos braços de Molly Weasley e voou escadas acima seguindo o residente, o coração querendo sair do peito.

 

 

 

 

Capítulo 24 – Pode acontecer

 

– O que houve?

 

Healer Dorian o encarou, o rosto mais sombrio que Harry já o vira.

 

– O quadro não é nada bom, Mr. Potter. Acho melhor o senhor vê-lo o quanto antes.

 

Harry entrou no quarto sem ter total noção da realidade à sua volta, da presença de Madame Pomfrey, dos dois healers e de Bill. Só o que ele percebia era que havia uma cama ali, e Severus estava nela. Seu coração estava descompassado, ele não se deu conta de se mexer, mas de repente estava do lado da cama.

 

Sentiu algo no peito, uma sensação que nunca experimentara antes. Encarou Severus e seu coração pareceu se apertar ao vê-lo tão absolutamente imóvel, quase sem respirar. Ele estava branco, ainda mais do que o normal, uma textura na pele parecida com cera.

 

– Sev – Harry tinha o peito tão esmagado pela dor que não conseguiu pronunciar o nome todo, num volume que mal alcançou os ouvidos dos healers.

 

Havia movimento atrás de si, mas ele ignorou tudo, ignorou todos. Harry olhou para o rosto impassível, as feições que tão bem conhecia. Alguém colocou uma cadeira atrás dele, mecanicamente ele sentou nela, sem tirar os olhos daquele rosto que ele tanto amava.

 

Ele sequer notou as lágrimas que desciam de seu rosto.

 

– Severus, você precisa acordar. Nós temos uma filha, uma filha linda, e eu quero saber que nome você prefere. Pode ser Augusta, como sua mãe. Você gostaria disso? – Harry pegou a mão inerte e fria e colocou entre as suas. – Severus, por favor, nós precisamos de você. Ela e eu também. Por favor, meu amor, acorde. Sev, me escute. Eu vou chamar você de Sev até você ficar tão irritado que vai acordar só para me mandar parar, não vai, Sev?

 

A movimentação em torno deles se intensificou e Harry ergueu a cabeça para ver Healer Dorian discutindo com Madame Pomfrey, um assistente e Bill:

 

– Mas nós retiramos o feitiço!... Isso não devia estar acontecendo. Como assim, ele está melhor?

 

– Os sinais deles melhoraram – Bill repetiu e Healer Dorian parecia abismado. – De repente. Com a proximidade de Harry, ao que tudo indica.

 

Molly, ainda com a neném no colo, sorriu:

 

– Ele está melhor?

 

Bill se virou, espantado por ver sua mãe, Ron, Hermione e Lupin também dentro do quarto.

 

– Sim, mãe, mas não sabemos por quê. Ele parecia... – Bill se refreou antes de dizer "morto", olhando Harry. – ... er, bem ruim há alguns minutos. Tudo pode ser por causa daquele feitiço. Pensávamos que o feitiço tinha sido retirado, mas parece que não foi bem assim.

 

Healer Dorian ajuntou:

 

– De qualquer modo, deveremos saber mais a qualquer momento. O especialista em diagnóstico está para chegar. Enquanto isso, Mr. Potter, o senhor se importa se fizermos alguns testes também com o senhor?

 

– Eu não quero deixar Severus – reclamou Harry.

 

Madame Pomfrey tranqüilizou-o:

 

– Não precisa. Apenas vire-se para nós, que nós fazemos tudo.

 

Harry obedeceu, e pelo menos quatro varinhas passaram em volta dele e de Severus, os healers anotando muitas coisas. Foi então que mais pessoas chegaram ao quarto.

 

Healer Dorian – falou um dos trainees, parecendo muito nervoso –, o Dr. Huis e seu auxiliar acabaram de chegar.

 

Harry virou-se para ver uma pessoa que parecia ser membro da família Moody. Ele vinha num guarda-pó cinza, mancando de maneira pronunciada, fortemente apoiado numa bengala, dois enormes olhos verdes que encararam todos os que estavam no quarto (e havia muita gente). Tinha cabelos compridos muito louros e muito finos, espalhados feito palha de milho. Havia algo perturbador naqueles olhos, pensou Harry, como se eles pudessem ver além dos objetos – como o olho mágico de Moody.

 

O tal Dr. Huis estava acompanhada por um estranho homem muito magro e muito alto, que parecia uma imitação de uma árvore muito jovem e extremamente comprida. Ele trazia uma maleta surrada e tinha um ar meio aéreo a respeito de si mesmo. Harry lembrou-se de Luna Lovegood, e decidiu que o auxiliar do Dr. Huis o fazia lembrar-se muito de sua amiga.

 

O Healer Dorian correu a recebê-lo:

 

– Dr. Huis, meu nome é Dorian, nós nos falamos na lareira. Gostaria de agradecer muito por vir até St. Mungo's. Fez boa viagem de Timisoara?

 

O homem tinha uma voz grave ao dizer, azedíssimo:

 

– Poupe-me as gentilezas, Dorian. Já estou aqui, agora me deixe tomar conta das coisas. – Virou-se para Severus, olhando-o de cima a baixo. – Ah. Severus Snape em pessoa.

 

– Exatamente – concordou o Healer Dorian. – E este é seu marido, Harry Potter. Ele acaba de derrotar Você-Sabe-Quem.

 

Dr. Huis levou os olhos muito verdes até Harry e olhou-o, de cara fechada, claramente pouco impressionado. Tentando ser gentil, Harry cumprimentou-o:

 

– Obrigado por ajudar, Dr. Huis.

 

Parecendo ignorá-lo totalmente, o especialista continuou a olhar Harry, que num reflexo recorreu à Oclumência. Mas Huis não estava invadindo sua mente, ele pôde perceber. Depois de desconfortáveis segundos em silêncio, o especialista se apoiou na bengala para se virar para Dorian, gesticulando para Harry:

 

– Ele pode ficar. – Virou-se e apontou para Mrs. Weasley. – Ela também. E você, Dorian. Todos os outros saem.

 

– Mas os assistentes...

 

– Sh'rak pode providenciar tudo que é necessário – O compridão olhou para o Healer Dorian e fez um meneio de cabeça, gentil e cortês. Huis virou-se para os demais, apoiado na bengala. – Então? O que ainda estão fazendo aqui? Fora, todos vocês.

 

Um pouco ressentidos com as maneiras bruscas e rudes do tal especialista, eles foram fazendo fila e deixando o quarto, murmurando seu descontentamento. Ron, Lupin, Hermione, Bill, Madame Pomfrey e os dois assistentes deixaram o quarto. Huis pessoalmente mancou até fechar a porta do quarto.

 

– Muito bem, vamos ver se terminamos isso logo. Eu odeio o clima de Londres e pretendo dar o fora daqui o mais rápido possível

 

Healer Dorian se adiantou:

 

– Deixe eu lhe passar os fatos mais pertinentes do caso. Aparentemente, ele sofreu...

 

Huis o interrompeu, seco:

 

– Que espécie de especialista em diagnose eu seria se deixasse você me dizer o que devo olhar? Eu pensei que tivesse deixado minhas condições de trabalho bem claras, Dorian.

 

– Claro, Dr. Huis – O curandeiro parecia vexado. – Lamento a interferência.

 

Harry cada vez menos gostava do homem, que circulou a cama de Severus, mancando com o apoio da bengala, o tal Sh'rak seguindo-o fielmente. A bebê tinha se acalmado e estava dormindo no colo de Molly Weasley, que também olhava o Dr. Huis de maneira reprovadora, como se estivesse louca para dizer a ele algumas verdades sobre como tratar as pessoas com educação.

 

– Não devem julgar Dr. Huis – disse o Healer Dorian em voz baixa. – Ele tem habilidades sociais questionáveis, mas é um excelente diagnosticador. Tem diplomas em medicina bruxa e Muggle, e trabalha no Hospital Municipal de Timisoara, um dos mais conceituados no ramo médico bruxo. Por isso ele usa o título de doutor. E ele é o melhor, acreditem. A medicina romena é muito mais avançada nessa área de maldições familiares do que a asiática, estranhamente.

 

Aquilo pareceu acalmar um pouco mais Harry, mas naquele exato minuto, Huis fechou a cara, irritado, sem desviar os olhos de Severus:

 

– Dorian, seu néscio! Você achou mesmo que se livraria de um Sangüinis Vinculum só com encantamentos? Humpf! – Ele se virou para Sh'rak, sem dizer palavra. O compridão abriu a maleta e tirou um instrumento estranhíssimo, que fez Harry arregalar os olhos. Pareciam duas varetas muito longas superpostas, como uma tesoura. Huis pegou-a, abriu em cima de Severus e o arco formado pelas duas pernas se iluminou, lançando luz no rosto pálido do paciente. – Hum... Gravidez. Interessante. Mas ele andou fazendo coisas que uma pessoa grávida definitivamente não deveria. Ele tentou enfrentar um Dementor sozinho. E depois uma cobra muito grande. Eu diria píton. Ou uma Boa. E tudo isso sem varinha? Ele é muito corajoso ou muito tolo.

 

Harry sentiu a raiva aumentar. Ele decididamente não tinha a menor simpatia por este Dr. Huis. A bebê suspirou, no colo de Molly, que tentou ajeitá-la de maneira mais confortável.

 

O especialista mancou mais um pouco ao redor de Severus, resmungando:

 

– Interessante... Ele já teve muitos Cruciatus, mas nada recentemente. É, foi torturado diversas vezes. Bom, maldições, apenas as de sempre. Vamos ver envenenamento. – Inclinou-se para Severus, como se fosse acariciar-lhe os cabelos. De repente, puxou um fio, arrancando-o sem dó, e Harry se ergueu, em protesto. – Isso deve dar.

 

Passou o cabelo arrancado a Sh'rak, que cuidadosamente colocou-o numa caixinha de vidro. Com um toque da varinha de Huis, a caixinha se encheu de uma névoa esbranquiçada. Durante alguns segundos, a cor oscilou entre o pérola, o acinzentado muito claro e o gelo. Ao final de alguns segundos, quando a bebê já começava a dar sinais de que estava começando a ficar com fome, o magrão abriu a caixinha.

 

Huis olhou para dentro e vaticinou:

 

– Snape no momento está estável. E com certeza ele não foi envenenado. Mas há um veneno em seu corpo. Por isso é que ele está morrendo.

 

– Como assim? – Harry sentiu seu corpo inteiro se retesar de raiva. – Ele não foi envenenado, mas há veneno? Que espécie de diagnóstico é esse?

 

– Calma, garoto – disse o Dr. Huis. – Isso é só a preliminar. Fique aí quietinho.

 

– Não pode dizer alguma coisa que faça sentido?Até agora você só tem espalhado seu mau humor por aí e não ajudou Severus em nada!

 

O bebê começou a se agitar ainda mais, como se pressentisse a tensão no ar. O especialista se virou para ele, a bengala batendo furiosamente no chão enquanto ele ia na direção de Harry:

 

– Sabe, é por isso que eu absolutamente abomino parentes de pacientes! Vai me fazer arrepender por tê-lo deixado aqui, não é, garoto? Saiba que eu só fiz isso porque preciso de você aqui! Se não, você estaria no olho da rua!

 

Molly também se exaltou, tentando acalmar a menininha em seus braços:

 

– Não fale assim com Harry! Ele está nervoso, não está vendo? Até a pequenina está sentindo o nervosismo!

 

– Por que não vai... trocar as fraldas dela ou algo assim, Madame? – sugeriu Huis, sarcástico e irritado, movimentando-se com o tal Sh'rak atrás de si.

 

– Ora, ora, Agamemnon – disse uma voz conhecida da porta. – Vejo que você não conseguiu emendar ainda sua personalidade...

 

Os olhos verdes pousaram no recém-chegado, e Molly sentiu uma onda de alívio ao ver quem tinha acabado de entrar. Harry também.

 

– Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore – recitou Huis, comprimindo os olhos. – Eu deveria saber que você não estaria longe. Parece que tem que saber de tudo que se passa no maldito mundo bruxo! E afaste esse seu monstro do meu paciente.

 

– É muito bom ver você também, Agamemnon – sorriu Dumbledore, entrando com Fawkes empoleirado no ombro. – E talvez goste de saber que o seu paciente compartilha do mesmo esfuziante bom-humor que você.

 

Harry piscou, dando-se conta de que era verdade. Se Severus fosse um médico, provavelmente ele teria o mesmo temperamento de Huis. Os dois tinham grandes probabilidades de virem a ser grandes amigos.

 

A menina ainda sem nome começou a chorar abertamente e Molly disse a Harry:

 

– Eu vou cuidar delazinha e volto já. Não se preocupe.

 

– Não demore – ordenou Huis, áspero. – Volte assim que puder.

 

A matriarca Weasley ficou intrigada, mas também muito aturdida por receber uma ordem tão peremptória, e achou melhor sair da presença daquele homem horrível o quanto antes. Harry aproximou-se de Severus enquanto Dumbledore e Huis ainda discutiam. E de repente algo dentro da maleta do misterioso Sh'rak começou a apitar.

 

Ao mesmo tempo em que o corpo de Severus começou a sacudir todo.

 

– Severus? – Harry se horrorizou. – Severus! Severus, não!

 

Ele soube, em seu coração, que Severus estava morrendo naquele exato instante.

 

 

 

 

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