Posi��o contra os MaKBeTh
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A dimens�o tr�gica do afrontamento pol�tico numa trag�dia shakespeariana.
� familiar e extensa a galeria dos personagens reais que, a qualquer um, emergem � lembran�a, ao percorrer-se a taxionomia das patologias psicossociais, que o paradigma sint�tico nos permite formular. Marcante, tamb�m, pela cumulatividade, em diferentes graus e aspectos, desses desvios b�sicos na forma��o da personalidade. Mas, antes de deixar-nos mergulhar na realidade cl�nica da sua pr�pria identifica��o, ser� necess�rio, ainda, completar o arcabou�o te�rico, que assegura, ao improvisado auto-analista dessa aplica��o paradigm�tica, o caduceu do conceito, capaz de clarific�-la nos tr�s n�veis de sua abrang�ncia, que vai aqui designado como o "S�ndrome de MaKBeTh" Nota 5.A psican�lise tradicional compreende, que o indiv�duo necessita liberar suas tens�es e desejos profundos, construindo-se como uma personalidade equilibrada no adequado manejo das suas rela��es familiares; e que, na aus�ncia dessa capacidade de realiza��o do Eu-ato, os processos regressivos da personalidade tendem a manifestar-se no campo som�tico das enfermidades de fundo neur�tico - do Eu-Todo arcaico. Assim, tamb�m, a sociopsican�lise visualiza, no plano pol�tico, uma �rea de id�ntica relev�ncia para a constru��o da personalidade; afirma, tamb�m, que a frustra��o-repress�o do Eu-pol�tico, a sua vez, repercute regressivamente sobre o quadro das rela��es ps�quicas - do Eu-ato, sendo "que en este nivel rige el esquema de la desigualdad y la autoridad, el de la relaci�n tradicional hijos-padres." [MENDEL, 1973, vol. 1:17 e vol.2:9]. Al�m disso, a sociopsican�lise prev� a possibilidade, ainda mais dr�stica, de uma regress�o de car�ter secund�rio e mais radical nas suas conseq��ncias, quando a frustra��o-repress�o do potencial de desenvolvimento inerente ao Eu-pol�tico, n�o encontrando ambiente prop�cio � sua compensa��o na deriva��es do psiquismo, impacta somaticamente na pr�pria esfera do biol�gico.
A sociopsican�lise de MENDEL focaliza o fen�meno psicossocial corriqueiro, em que o imagin�rio popular projeta, na figura do governante, o papel do grande pai, como uma decorr�ncia l�gica da oculta��o das rela��es pol�ticas entre as classes, no seio das institui��es e da pr�pria sociedade. A regress�o do n�vel do pol�tico ao plano do ps�quico, opera-se, portanto, como uma substitui��o das tens�es emancipat�rias da cidadania - com suas demandas de liberdade, igualdade e fraternidade - pelas rela��es que integram os processos mais elementares da conforma��o da personalidade - onde prevalecem as rela��es de depend�ncia, desigualdade e autoridade.
�, sobretudo, relevante � investiga��o te�rica e indispens�vel � praxiologia cl�nica na sociopsican�lise, que se identifiquem os mecanismos - tempo e ao modo - que est�o associados � manifesta��o e superposi��o das psicopatologias, nas regress�es do Eu-pol�tico aos n�veis do ps�quico e da matriz biol�gica das coletividades sociais. � nossa pretens�o afirmar, que o modelo paradigm�tico da epistemologia de s�ntese oferece um caminho para essa compreens�o.
Para trilhar esse caminho do entendimento, ser� necess�rio lan�armos m�os de um �ltimo conceito - a id�ia de um s�ndrome - que permitir� traduzir para a esfera das manifesta��es praxiol�gicas - perif�ricas ao n�cleo s�gnico do psiquismo - o risco de frustra��o das respectivas fun��es s�gnicas. Ao mesmo tempo, esse conceito dever� abrir espa�o para a elabora��o das rela��es de sentido, que conformam a realidade e determinam a cristaliza��o dos conte�dos regressivos da experi�ncia, como os d�fices das fun��es estruturantes que designam as patologias psicossociais.
Na psican�lise tradicional, as praxiologias regressivas ganharam relevo e se cristalizaram na figura��o t�pica dos "complexos", cuja explicita��o e conseq��ncia � central nas formula��es te�ricas da psicologia freudiana ou jungiana. Na sociopsican�lise, propomos que a praxiologia correspondente seja articulada pelo conceito do "s�ndrome". Neste caso, os processos regressivos [prim�rio e secund�rio] podem compreendem deriva��es cumulativas, em esferas diferenciadas da personalidade [do psiquismo e da pr�pria base biol�gica] e integram, portanto, uma sintomatologia mais estruturada e funcionalmente articulada [at� mesmo como configura��es m�ltiplas de "complexos"].
Avaliando, dessarte, o papel que o "Complexo de �dipo" desempenhou, na forma��o te�rica da psican�lise freudiana - como na estrutura dorsal da sua constru��o e consolida��o paradigm�tica, at� mesmo pelas suas implica��es cl�nicas; tenho, por seguro, que essa mesma fun��o, o "S�ndrome de MaKBeTh" est� destinado a cumprir no desenvolvimento da sociopsican�lise, � luz do paradigma sint�tico e das suas implica��es pol�ticas e sociais.
A trag�dia individual, como trajet�ria de �dipo, encontra na trag�dia pol�tica, como trajet�ria do casal macbethiano, o seu mais t�pico correspondente. Como �dipo, o casal macbethiano comete um ato de lesa majestade; diferentemente de �dipo, em plena consci�ncia do alcance dos seus atos. O parric�dio inconsciente traduz-se, no ato criminoso origin�rio de MACBETH, em regic�dio premeditado.
Enquanto o drama de �dipo se resume no justar contas com a sua pr�pria consci�ncia; a saga do casal macbethiano os conduz, na vol�pia dos pr�prios atos, por regress�es m�ltiplas do n�vel do pol�tico, e pela sua cristaliza��o cumulativa nas patologias b�sicas da personalidade, a uma deriva��o tr�gica de conseq��ncias, que abrem, no espa�o dram�tico trabalhado pelo g�nio de SHAKESPEARE, todo o espectro da sua manifesta��o.
Na seq��ncia deste texto, haveremos de explicitar como, nos seus tr�s ATOS, se encenam as tr�s "regress�es" sucessivas do pol�tico, que caracterizam as praxiologias patol�gicas do regic�dio, fratric�dio e suic�dio. E suas implica��es, ao n�vel da consci�ncia coletiva, suscitam, tamb�m, uma reflex�o sobre os conceitos correlatos do epistemic�dio, malthusianismo e ecoc�dio, que emergem nas entrelinhas da grande trag�dia. O drama vivido pelos personagens de SHAKESPEARE conforma, em sua express�o pr�pria e acabada, aquilo que passaremos a designar como o "S�NDROME DE MaKBeTh": o grande ARQU�TIPO DA CORRUP��O DO PODER.
PRIMEIRO ATO A RACIONALIZA��O PATOL�GICA DO DESEJO: REGIC�DIO-FILIC�DIO [A] DESCRI��O SUM�RIA: uma regress�o do n�vel do pol�tico. MACBETH, general do Rei DUNCAN, de volta de uma campanha vitoriosa contra os inimigos do trono, em companhia de seu "irm�o-de-armas" BANQUO, � afrontado pelas BRUXAS, que vaticinam sua ascens�o ao trono. Entusiasmado, MACBETH envia correspond�ncia � sua esposa LADY MACBETH, relatando o fato.
LADY MACBETH atualiza o desejo secreto, origin�rio da ambi��o em MACBETH: concebe friamente - e exige de MACBETH - o assassinato de DUNCAN. O plano � surpreend�-lo, quando estiver hospedado no castelo de MACBETH, para onde o Rei se dirige, com a finalidade de honr�-lo com prebendas, por seu desempenho na guerra.
MACBETH vacila na execu��o do plano execr�vel, mas LADY MACBETH � implac�vel e lhe imp�e a escolha entre ela mesmo e o assassinato pol�tico que, afinal, ser� perpetrado por MACBETH.
Na seq��ncia dos acontecimentos, LADY MACBETH prepara a cena, tendo colocado a dormir os sentinelas do rei com um son�fero, alcan�a a MACBETH o punhal assassino. Depois de tudo consumado, auxilia MACBETH a livrar-se dos vest�gios de sangue do seu ato nefando.
Finalmente, ao alvorecer daquela noite de horrores, tendo j� sido descoberto o crime no pal�cio, MACBETH adianta-se a todos os s�ditos estarrecidos e, numa c�nica manifesta��o de indigna��o, joga sobre os sentinelas - ainda b�bados pelos efeitos do sopor�fero - toda a culpa pelo acontecido. E vinga neles, ao fio da sua pr�pria espada, a morte do soberano. Num golpe de poder arbitr�rio, elimina as testemunhas passivas do seu pr�prio ultraje e afasta de si mesmo a cobran�a dos s�ditos presentes, tornados inermes, pelo terror da viol�ncia.
Depois, o casal no condom�nio do poder, haver� de desencadear, seletivamente, a repress�o sobre a cidadania indignada. Isso que � simbolizado pela persegui��o de MACDUFF - um outro general leal ao soberano, que foge para o ex�lio - e pelo assassinato de sua esposa e filho. Quando, ent�o, se cumpre-se a profecia: MACBETH � rei!
[B] AN�LISE: [B1] Primeiro movimento: a tenta��o esquizofr�nica de MACBETH MACBETH, que, aparentemente goza das suas faculdades - no pleno desenvolvimento da personalidade, de um bem sucedido senhor da guerra - � defrontado, repentinamente, pela expectativa de uma ambi��o, que a ambig�idade da profecia, na sauda��o das BRUXAS, lhe descortina: a conquista do REINO...Diante da promessa: "Tu ser�s rei..." - instaura-se em MACBETH uma patologia da ambig�idade, que desequilibra sua percep��o da realidade e lhe abre a guarda da sua personalidade pr�pria. Diante do vatic�nio, que lhe aproxima o objeto do desejo - de forma t�o abrupta e fatal, como aparentemente irreal... o RACIOC�NIO - que haveria de pesar as v�rias e leg�timas formas de realiz�-lo - falece em MACBETH. E assim a capacidade de articular os sentimentos e os interesses que, eventualmente, poderiam conduzi-lo ao poder pelo caminho da GL�RIA.
Na TENS�O-IDEAL dessa frustra��o, a impot�ncia em visualizar o caminho � frente - na ultrapassagem da meta-realiza��o que lhe fora proposta - alimenta a fantasia esquiz�ide da agress�o. MACBETH projeta-se todo na realidade da sua pr�pria ambi��o, que lhe sabe acess�vel pela trai��o - ao alcance do seu punhal - bastando para isso RITUALIZAR o ato decapitado da pr�pria consci�ncia, na justificativa do destino fatal.
MACBETH, em caminho de uma clara "regress�o no n�vel do pol�tico", que lhe sugere a satisfa��o perversa da ambi��o pelo regic�dio, n�o ousa, entretanto, entregar-se por si pr�prio aos des�gnios da sua fantasia esquiz�ide... pelo que haver� de cristaliz�-la na patologia estrutural de um del�rio esquizofr�nico. Isso que, mais adiante, haver� de se manifestar, numa saga de crimes e alucina��es.
[B2] Segundo movimento: o refor�o paran�ico de LADY MACBETH A psicopatologia social constr�i-se numa complementariedade de atos e processos, que podem envolver m�ltiplo atores sociais, e por isso mesmo designam o conceito pr�prio de um S�NDROME. � nesse sentido, que a trag�dia focaliza o destino do casal macbethiano. Fria e eficaz, LADY MACBETH manipula com habilidade a fantasia esquiz�ide de MACBETH, refor�ando-a, numa regress�o � ambig�idade de uma patologia anterior - essa mesma que se revela na fragilidade de car�ter do general do Rei: suas fixa��es paran�ides.Numa terr�vel carta que lhe envia, LADY MACBETH emula a fantasia narcisista de quem j� alimenta o projeto de um fasc�nora, e lhe confronta o sentimento de depend�ncia, amea�ando abandon�-lo, caso n�o venha a cometer o regic�dio. Consuma-se, assim, o PRIMEIRO ATO, desta fisiografia da corrup��o do poder, que nos legou o g�nio de SHAKESPEARE.
A DRAMATURGIA DO AMOR, que caracteriza a uni�o bem sucedida de almas g�meas, no processo gerativo da natureza humana, desfigura-se na AMBI��O PELO PODER, numa REGRESS�O de ambig�idades irresolvidas, que arma a m�o assassina de MACBETH e o leva a violar o princ�pio da lealdade pol�tica [na sua express�o mais radical, como dever de hospitalidade]. A racionaliza��o patol�gica do desejo cumpre o seu destino fat�dico e compromete, definitivamente, a trajet�ria dos seus personagens na engrenagem tr�gica da transgress�o moral e da puni��o exemplar.
[B3] Terceiro movimento: a proje��o depressiva do tirano. A personalidade amb�gua de MACBETH, vestiu-se do seu pr�prio cinismo; mas n�o lhe consegue impedir a repercuss�o culposa. Resolve-a, pela proje��o desse sentimento depressivo, em acusa��o a terceiros - aos subalternos: os sentinelas, a quem LADY MACBETH havia embebedado - sobre os quais descarrega a f�ria do seu ressentimento, eliminando-os brutalmente, ainda estupefatos e tontos pelo vinho, sem lhes dar tempo � contesta��o. A representa��o � clara: o parric�dio-regic�dio [ou, mesmo, o tiranic�dio como alguns o queiram], como o pecado original de uma nova ordem, projeta, como seq�ela a repress�o aos que vem de baixo [e, imaginariamente, amea�am de igual destino ao soberano auto-imposto] Nota 6. O filic�dio, que lhe segue, constitui-se uma conseq��ncia previs�vel - alimentada pelo ressentimento culposo e pelo ci�me narcisista do casal macbethiano. Na trag�dia shakespeariana, expressa-se pela persegui��o aos amigos do rei e seus familiares - atinge a MACDUFF, que foge para o ex�lio, mas ter� sua esposa e filho assassinados, por determina��o dos tiranos.Surpreende-se aqui a express�o figurada da viol�ncia de escal�o, que atinge o pr�ximo-imediatamente-abaixo numa escala hier�rquica - como o assassinato uraniano dos pr�prios filhos [� uma alus�o da trag�dia � opress�o dos s�ditos pelo governante, � repress�o da cidadania pelo poder de Estado].
E assim, haveria de percorrer, o casal tenebroso, o caminho dessa complementariedade patol�gica do parric�dio-filic�dio, como um desvio do fluxo de uma energia destinada, originariamente - pelo vatic�nio das bruxas - � satisfa��o da vontade que se constitui na apropria��o leg�tima do poder.
O assassinato do pai-governante, no entanto - deslegitima o ato do desejo , que passa a ser experienciado culposamente num processo regressivo, no qual se bloqueia, tamb�m, a libera��o de energia positiva necess�ria ao reconhecimento dos filhos-cidad�os. Para o tirano auto-imposto, os filhos da cidadania ser�o sempre imperfeitos, indignos da sucess�o... E sobre eles - como representa��es de um afrontamento poss�vel � pr�pria tirania - se desencadeia, secundariamente, a f�ria do ressentimento, acumulado pela personalidade depressiva, no recalque culposo de sua agress�o ao pai arquetipal.
SEGUNDO ATO BANALIZA��O DA VIOL�NCIA - FRATRIC�DIO [A] DESCRI��O SUM�RIA: uma regress�o do n�vel ps�quico BANQUO, o fiel companheiro de armas de MACBETH, foi a �nica testemunha do primeiro encontro com a BRUXAS e, assim tamb�m, dos motivos, que a sua trucul�ncia poderia originar, para o assassinato DUNCAN. E de BANQUO, por sua vez, foi dito, naquela mesma ocasi�o, pelas BRUXAS - e na presen�a de MACBETH - que seria menor, e no entanto maior do MACBETH, nem t�o feliz e no entanto muito mais feliz, e que n�o chegaria a tornar-se Rei, mas que engendraria monarcas.Foi o bastante para que o tirano, tramasse a sua morte e de seu filho. MACBETH sentiu-se amea�ado - de igual para igual - pelo testemunho de BANQUO ao vatic�nio das bruxas e pela sua consci�ncia - calcada na profecia - do enfrentamento moral e pol�tico, que o distanciaria do usurpador.
MACBETH, ent�o, mais uma vez prepara a cena do crime, pelo expediente da trai��o. Oferece uma festa, na qual BANQUO � o principal convidado... e manda execut�-lo e a seu filho, por dois mercen�rios, no caminho, antes que cheguem ao Pal�cio. [BANQUO � morto, mas, at� porque o ato criminoso nunca haver� de prevalecer sobre a estirpe dos justos, o destino imp�s que o seu filho lograsse escapar � sanha dos assassinos, fugindo para a Inglaterra onde se come�a a articular a resist�ncia � tirania.] Depois disso, no banquete preparado para BANQUO, onde se re�nem o lordes do Conselho de Estado, MACBETH ser� perseguido por alucina��es, visualizando a figura do amigo morto, ocupando o seu pr�prio lugar � mesa. De viva voz - e numa clara manifesta��o de dem�ncia - MACBETH mant�m com o espectro do morto um di�logo que revela o seu envolvimento no crime. � quando se abre a oportunidade para o exerc�cio supletivo do poder pela esposa-c�mplice-competitiva.
[B] AN�LISE: arrog�ncia e trucul�ncia no exerc�cio do poder. Na express�o do segundo vatic�nio das BRUXAS - que seria BANQUO e n�o MACBETH, que daria origem a uma estirpe de reis - o g�nio de SHAKESPEARE caracterizou, de um lado, a esterilidade do casal macbethiano - como um estigma do respectivo "s�ndrome"; e de outro, o processo da regress�o secund�ria, que os conduz � banaliza��o da viol�ncia - isso que, caracteriza a saga dos seus crimes, como um estado psicopatol�gico avan�ado de regress�o desde o n�vel do pol�tico.O fratric�dio, simbolizado no assassinato de BANQUO, � a representa��o dessa patologia. Trata-se, aqui, da tipifica��o de um comportamento regressivo - na esfera psicofamiliar - que se manifesta pelo assassinato de membros do mesmo cl�, cuja diferen�a - mesmo a mais irrelevante e prec�ria - se torna intoler�vel � personalidade psic�tica. No seu limite, como manifesta��o no plano da consci�ncia coletiva e em escala massiva, contempla-se, aqui, o conceito do genoc�dio, como assassinato dos membros da mesma esp�cie, que diferem por ra�a, cor, etnia, g�nero, religi�o, enfim, por quaisquer discrimes reais ou imagin�rios, que os tornem alvos do auto-amor desenfreado de uma personalidade narcisista, e/ou do ressentimento culposo de uma personalidade depressiva.
De fato, o narcisismo de MACBETH, n�o lhe permite tolerar esse fato, muito simples, de olhar-se no espelho m�gico da profecia, e ali defrontar-se com seu leal amigo BANQUO, como o progenitor de uma dinastia. O "Complexo de Branca de Neve" Nota 7, que faz do rei, naquele conto de fadas, um pai d�bil e fracassado - e da madrasta uma rainha assassina - assoma os dom�nios da pol�tica mundana e reproduz-se, exemplarmente, na dramaturgia de MACBETH.
O vatic�nio das bruxas exp�e o condom�nio de poder do casal-Estado, � emerg�ncia e for�a dos filhos de BANQUO. MACBETH - como o pai d�bil de Branca de Neve - projeta em BANQUO toda sua frustra��o e despeito - isso mesmo, que haver� de revelar a sua fragilidade de car�ter, como o amigo desleal - a figura arquet�pica de um traidor entre iguais. E LADY MACBETH, sua "esposa infernal", encena uma representa��o da BRUXA-MADRASTA do conto de fadas.
Consumado ent�o o segundo ato - pelo assassinato de BANQUO - o TIRANO-D�BIL torna-se v�tima de alucina��es culposas. Visualizar� o amigo morto ocupando o seu assento nas reuni�es do Conselho de Estado, e sobre ele projetar� a culpa e o ressentimento pelo seu fracasso na gest�o do Reino. Demonstrar� nisso, a extrema fragilidade de sua personalidade e os efeitos do processo regressivo neste plano, como desestrutura��o do pr�prio equil�brio ps�quico. Isso que, de alguma forma, lhe faz escorregar o poder de entre os dedos e revela, por detr�s do grotesco e do truculento - como recusa � alteridade de BANQUO - a face oculta da fixa��o autista, que destila arrog�ncia e auto-sufici�ncia, sintomas claros de incompet�ncia governativa.
O controle do Conselho de Estado, flui, ent�o, �s habilidades "diplom�ticas" de LADY MACBETH e, nesse epis�dio, o g�nio de SHAKESPEARE revela, com sutileza, a emerg�ncia de um novo tipo de agress�o, disruptiva, agora, do pr�prio conluio criminoso. � quando LADY MACBETH, ferinamente, desfaz sobre a dem�ncia de MACBETH, perante os lordes do Conselho de Estado. � o come�o do fim, que ser� antecipado pela separa��o do casal-Estado, e vir� por obra de MACDUFF, e dos filhos de BANQUO e DUNCAN.
TERCEIRO ATO AUTOPUNI��O DA CONSCI�NCIA FRUSTRADA: SUIC�DIO. [A] DESCRI��O SUM�RIA: uma regress�o do n�vel biol�gico. O Estado entra em decad�ncia. Desfalece o condom�nio do poder. LADY MACBETH, v�tima de enfermidade mental, gradativamente aliena-se do exerc�cio do poder e da pr�pria realidade. Ao final comete suic�dio. MACBETH descansa sobre uma terceira profecia das Bruxas: que n�o ser� derrotado por filho de mulher e nem enquanto a floresta de Birmam n�o subir a colina de Dunsinane e marchar contra ele.Nesse meio tempo, os exclu�dos do Reino planejam e desencadeiam a revolu��o para tomada do poder. Comandados por MACDUFF, que � nascido do ventre de uma mulher morta; e disfar�ados com os ramos das �rvores da floresta de Birmam, os revolucion�rios chegam ao castelo de MACBETH.
Expondo-se, temerariamente, porque se acreditava invenc�vel, MACBETH parte para o enfrentamento pessoal da rebeli�o, onde mata ao filho do nobre SIWARD, que comandou a invas�o; e, depois de conhecer, na identidade de seu oponente, o despojamento da sua invencibilidade, arrisca o pr�prio destino no confronto armado, e nele � morto por MACDUFF. O crime � castigado e a ordem � reconstru�da.
[B] AN�LISE: auto-sufici�ncia e morte. O assassinato primordial de DUNCAN, cobra do casal macbethiano suas derradeiras regress�es. De um lado, a enfermidade mental, gradativamente, aliena a percep��o da realidade em LADY MACBETH, fixando ritualisticamente a sua aten��o numa imagin�ria impureza, que lhe teria manchado o corpo. O g�nio de SHAKESPEARE reconstitui, aqui, a regress�o dessa personagem ao momento arcaico da evolu��o da sua personalidade; assim, sob a forma de uma doen�a autista, LADY MACBETH somatiza o crime, numa reconstru��o alienada do seu Eu-Todo.� o primeiro momento do ep�logo, que SHAKESPEARE conduz como uma saga de auto-destrui��o. ELA, a feiticeira da ambi��o alheia, termina pondo um fim, pelas pr�prias m�os, ao sofrimento do corpo, indelevelmente manchado pelo crime primordial. ELE, o fantoche da pr�pria ambi��o manipulada, havendo um tempo passado, e confiante na terceira profecia das bruxas, repousa o fim dos seus dias, na decadente autoconfian�a, que se expressa na ilus�o da sua invencibilidade.
"N�o haver� filho de mulher que o derrote", disseram-lhe as BRUXAS... "e nem isso acontecer� antes que a floresta alcance ao seu castelo!" Genialidade de SHAKESPEARE, ou mera coincid�ncia, o fato � que o destino do tirano revela e cumpre, em todos os seus detalhes, uma terceira e definitiva regress�o do pol�tico, agora ao n�vel da pr�pria matriz biol�gica [e, por que n�o, ecol�gica] da exist�ncia humana.
Onde a Justi�a humana n�o socorre os degredados do poder, uma outra JUSTI�A, que n�o � gera��o da pr�pria humanidade; mas que � t�o consent�nea ao seu destino, como a imortalidade da PH�NIX, que renasce das cinzas da sua mat�ria sem vida - e t�o exuberante como a for�a da natureza que alimenta a vida de uma floresta - haver� de cumprir os seus des�gnios!
MACBETH, o contra-her�i dessa trag�dia, refugia-se inutilmente em seu castelo, contra a revolta da pr�pria vida, cuja destrui��o promoveu no seu entorno; pelo que, se vai submetendo inconscientemente, no isolamento da sua condi��o, ao corte dos la�os do poder e do destino, que haver� de exaurir a sua for�a.
A revolu��o, que se estrutura na Inglaterra, representa, na intui��o genial da SHAKESPEARE, uma desforra da natureza contra quem a violentou. MACDUFF, que assume o comando, � filho retirado �s entranhas de uma mulher morta; e a revolu��o, cujas tropas assomam �s muralhas do castelo de MACBETH, veste a camuflagem dos ramos cortados � floresta, que, certamente, o dom�nio ilusion�rio de MACBETH procura manter afastada do seu castelo.
HUMANIDADE, que se renova desde a pr�pria morte da sua natureza, e NATUREZA que se rebela contra a repress�o da sua FOR�A, unem seus esfor�os contra o aleij�o moral desse pequeno d�spota... que nem sequer percebe os sinais da sua condena��o.
O del�rio terminal de MACBETH, cuja for�a ainda lhe permite cobrar a vida de um filho a SIWARD, o vencedor de Dunsinane, antecipa, pelo g�nio de SHAKESPEARE, a encena��o de um drama muito contempor�neo. Julgando-se indestrut�vel, o protagonista da grande trag�dia da corrup��o do poder, no derradeiro est�gio do seu comportamento regressivo, investe contra a NATUREZA que invade o seu castelo. � a figura��o prof�tica do ecoc�dio, o crime da destrui��o do seu meio-ambiente pelo ser humano.
Mas, ao fim dessa derradeira invectiva, reduzido apenas � impunidade que ainda lhe sustenta a vida, haveria o tirano de conhecer o seu destino e desencadear, pela sua recusa de a ele render-se, a provoca��o t�cita da pr�pria morte. � o que se configura no seu enfrentamento com MACDUFF, que lhe revelou n�o ter nascido das entranhas de uma mulher viva, tornando-se, por isso mesmo, capaz de oferecer-lhe em combate o Ju�zo e o Castigo.
A ord�lia guerreira de MACBETH, que ent�o joga contra MACDUFF o desafio das maldi��es, que deixou conduzir o seu pr�prio destino, decide pela vit�ria da VIDA, que assim renasce das energias liberadas pela MORTE.
Notas:
5. A grafia utilizada neste texto para MaKBeTh [com M, K, B e Th mai�sculos] releva a inten��o diferenciar-se o ARQU�TIPO da intera��o social, que expressa na grande trag�dia, vis a vis da mera denomina��o do personagem liter�rio de William Shakespeare, cuja grafia nos chega como MACBETH. Expressa, tamb�m, a etimologia arcana do conceito elaborado pelo dramaturgo esoterista, que o comp�e com as 4 letras do alfabeto hebraico: Mem, Kaph, Beth e Thau - as quais designam o sentido do pr�prio texto, respectivamente: a MORTE como o destino (Arcano 13), a FOR�A como instrumento de poder (Arcano 11), a AMBIG�IDADE como condi��o da vida (Arcano 2) e o MUNDO como s�ntese da Grande Obra (ARCANO 22), em que "Uruboros" - a serpente eg�pcia - resta dominada e abocanha a sua pr�pria cauda. (Retorna ao texto) 6. Para uma abordagem deste tema espec�fico, remeto o leitor � discuss�o do Cap�tulo 5 de "Democracia Plebiscit�ria", onde concluo: "� dif�cil aceitar como justificativa para a condena��o dos tiranos � morte a condi��o de um novo come�o. Robespierre, que sustentava o direito de n�o se julgar o rei, e sim mat�-lo, para que a P�tria possa viver (apud Aydos 1992, p. 53) sucumbiu � l�gica do pr�prio argumento e foi guilhotinado para que a Conven��o pudesse governar. Pelo �ngulo de sua conseq��ncia, esse argumento condiciona o governo da cidadania � morte dos seus inimigos p�blicos, not�rios e incontest�veis. � significativo que, com Robespierre e o tiranic�dio, positivado como direito da cidadania, se instaure, em tempos modernos o terror das execu��es burocr�ticas, do que os assassinatos de S�crates e Cristo, e os Tribunais da Inquisi��o, foram pren�ncio e advert�ncia. A experi�ncia dos povos tem demonstrado que o terror n�o sustenta a democracia, ao mesmo tempo que a institucionaliza��o da democracia n�o prescinde da contribui��o dos seus pr�prios inimigos. (...) Se o reg�c�dio (como parric�dio) � a rea��o impulsiva da condena��o de um tirano (filicida), ambos estes comprotamentos s�o regress�es do n�vel do pol�tico, que deveria presidir as rela��es de autoridade numa sociedade sadia. Rotinizar essa patologia abriria espa�o para uma regress�o de segundo grau: a instaura��o do terror no seio da cidadania (fratric�dio). (...) Para al�m do direito de resist�ncia, que justifica o estado de beliger�ncia contra os opressores da cidadania, e nisso esgota o campo de legitima��o da excepcionalidade, o tiranic�dio � o primeiro ato de uma nova ordem - da cidadania vitoriosa. N�o h� de ser legitimada como funda��o, a manifesta��o direta da sobernia, que n�o puder ser rotinizada como pr�tica de decis�o plebiscit�ria. H� nisso que ser consistente e radical - como, efetivamente o foi a Conven��o do Terror com Robespierre. Ou se introduz crit�rio de elei��o para condenar � morte os inimigos da democracia e da humanidade (aceitando o risco de cometer injusti�as e a certeza de sistematicamente absolver os poderosos e os vencedores), ou se abst�m de assim legitimar o tiranic�dio... " [AYDOS, 1995: 50/51] (Retorna ao texto) 7. Aqui j� se antecipa o ep�logo de Macbeth, eis que:"os pais que, como a rainha, atualizam seus ci�mes ed�picos paternos quase destroem seus filhos e certamente se destroem". BETELHEIM, Bruno: A psican�lise dos contos de fadas. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978: 254. (Retorna ao texto)
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