Texto de Refer�ncia n� 2
"Universidade e Totalitarismo"
LEONIDAS RANGEL XAUSA
Docente de Ci�ncia Pol�tica da UFRGS cassado pelo
A-I 5
(Ora��o do paraninfo da turma de 1966 da
Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do R. G. S.)
Meus caros afilhados.
Na cerim�nia de Cola��o de Grau, que � uma
Sess�o Solene de
Congrega��o, se espera, do discurso do Paraninfo, seja �ste, de
certa
forma, uma esp�cie de �ltima aula. Ela �, todavia, uma aula
peculiar;
peduliar, pelas circunst�ncias da cerim�nia, pela natureza do
audit�rio,
pelo tempo que lhe � assinado, pelo estilo que lhe �
caracter�stico, e
peculiar, principalmente, naquilo que exige do Paraninfo em
t�rmos
de uma defini��o, envolvendo interpreta��es, ju�zos de valor,
postu-
ras, de que muitas v�zes tem o dever de se abster quando na sala
de aula. Tal pronunciamento, freq�entemente, guarda estreita
rela-
��o com o objeto e o conte�do da cadeira por �le regida.
Ora, quando a cadeira que �ste Paraninfo
leciona tem o nome
de Pol�tica, vem-lhe � mente o que dizia Sir Ernest Barker,
quando,
no pref�cio de seu �ltimo livro, ap�s quarenta e um anos de
magist�rio
nas Universidades de Oxford e Cambridge, lembrava como ad-
vert�ncia o aforismo de que "qualquer livro s�bre Pol�tica
necessita
cabelos brancos". E tal qualifica��o era a �nica que ele
modesta-
mente reclamava possuir em abund�ncia. Ora, n�o possuindo eu se-
quer esta qualifica��o, sirva-me apenas de excusa o estar
cumprindo
um dever imposto pela benevol�ncia da vossa escolha que, ao repe-
tir o gesto de vossos colegas, bachar�is em jornalismo de 1963,
faz
com que �ste jovem professor, nos seus cinco anos de magist�rio
nesta
Casa, tenha, pela segunda vez, o privil�gio de receber tal
dignidade.
Tenho muitos motivos para receber com emo��o vosso gesto, que
recolho como generosa express�o de est�mulo, distinguindo-me
dentre
tantos Mestres desta Faculdade, mais antigos, mais competentes, e
se-
guramente, mais merecedores.
E pe�o-vos v�nia para, neste momento, fazer
partilhar desta
honra, ainda que simb�licamente, aqu�le por cujas m�os
ingressei
nesta Escola e que nela se jubilou �ste ano, ap�s trinta e cinco
anos
fecundamente dedicados � vida do magist�rio e da pesquisa - o
eminente professor Darcy Azambuja. Ficai certos de que muito mais
do que pudestes ter recebido dos rudimentos imperfeitos da
Ci�ncia
Pol�tica ministrados por seu substituto, vos aproveitar� a
considera-
�ao do exemplo de sabedoria serena e bondade impertub�vel do
pro-
fessor Darcy Azambuja, a quem, neste momento, rendo p�blicameu-
te minha homenagem de gratid�o, de afeto e de respeito.
Mais do que em qualquer outro Instituto da
Universidade, � na
Faculdade de Filosofia, a qual tem como uma das miss�es primei-
ras a forma��o de profess�res, que se p�e como crucial a
problem�-
tica da Educa��o, seus objetivos, encargos e condicionamentos.
A quase totalidade dos graduados desta noite
recebe o diploma
de Licenciado e; ao optar pela carreira do Magist�rio, que a
maioria
j� exerce, o f�z consciente da paradoxal pobreza do seu
reconheci-
mento social. O professor cujo clima normal � o do conv�vio com
os
educandos �, ir�nicamente, um homem s�. S�, em sua busca
interior
da certeza; s�, no momento em que comunica aos alunos o produto
de seu estudo e reflex�o; s�, na responsabilidade individual
pelo que
diz e ensina. As incompreens�es e frustra��es n�o s�o o
acidente em
sua vida; muito ao contr�rio. �le �, sem d�vida,
orgulhosamente
consciente da nobreza da sua miss�o, e tem como grande recompensa
moral o fato de saber-se agente importante no processo de cresci-
mento moral e intelectual da juventude. Fora da� sua
retribui��o �nica,
� a da gratid�o ou do est�mulo de seus alunos; de regra,
expressos
em gestos discretos, despercebidos e fugazes, e apenas
ocasionalmen-
te, em gestos p�blicos de generosidade, como o que tivestes
comigo
- e que servem para amenizar a solid�o da sua independ�ncia.
No entanto, terr�veis s�o os pod�res que
lhes est�o nas m�os a
que a sociedade e a fam�lia entregam, confiadamente, crian�as,
ado-
lescentes, e universit�rios, todos na fase decisiva de suas
vidas, no
per�odo de forma��o em que se vai fixar o perfil b�sico dos
val�res
que os acompanhar�o pelo resto da exist�ncia. Se vos dissesse
apenas
isto, n�o ultrapassaria o que constitui o conhecimento trivial e
vul-
garizado s�bre a responsabilidade do Professor. N�o t�o
evidente,
por�m, � a exist�ncia de uma dimens�o especial no compromisso
de
sua voca��o, e mais ainda, da especial forma de corrup��o
associada
a �ste compromisso.
Caberia indagar, pois, qual a trai��o
particular de que pode ser
r�u o professor? Qual a especificidade da corrup��o da sua
atividade,
em contraste, por exemplo, com a corrup��o no mundo da pol�tica
ou no mundo dos neg�cios? E por que �, esta particular forma de
cor-
rup��o, infinitamente mais tr�gica nas suas conseq��ncias?
- Aqui eu me pcrmito transcrever magistral
p�gina do Profes-
sor Hans Morgenthau, laureado mestre de Ci�ncia Pol�tica da Uni-
versidade de Chicago, quando diz que h� uma enorme diferen�a
n�o
s� de grau, mas de natureza, a distinguir as tenta��es do
Professor,
das tenta��es, por exemplo, do pol�tico e do homem de
neg�cios. "A
corrup��o pr�pria do Professor - diz �le - surge numa esfera
cujo
valor n�o �, nem o Poder, nem a Riqueza, mas a Verdade. O
Profes-
sor � um homem que devotou sua vida a "professar", e o
que �le
jurou professar � a Verdade, como �le a v�. A mentira num
Professor
� uma falta moral que nega a pr�pria ess�ncia de seu
chamamento.
O Poder e a corrup��o andam junlos, como tamb�m a Riqueza e a
corrup��o; a corrup��o pecuni�ria �, d�les, uma esp�cie de
filha
ileg�tima, preformada j� em sua natureza. Todavia, a mentira �
a
pr�pria nega��o da verdade, o inimigo que busca sua morte. Um
professor que mente, n�o � como o pol�tico que subordinou o bem
p�blico ao inter�sse particular, nem como o homem de neg�cios
que
trapaceia. Ele �, antes, como o m�dico que tendo jurado curar,
mu-
tila e mata; ou como o policial, que tendo jurado manter a lei,
ajuda
o criminoso a viol�-la. Ele n�o �, apenas, o corruptor do
c�digo pelo
qual deve viver, mas o seu destruidor. Esta a peculiar enormidade
de
seu crime que distingue seus atos da corrup��o comum do Poder e
da Riqueza".
Bela li��o, de f�cil aplauso, mas de penosa
viv�ncia. Isto por 1-
que, como acrescenta adiante, "um sistema de Educa��o
Superior de
dicado � descoberta e � transmiss�o da Verdade, n�o � uma
coisa �
parte da sociedade que o criou, mant�m e utiliza. O mundo
acad�mi-
co participa dos val�res prevalentes em uma sociedade e est�
exposto
�s press�es sociais para conformar-se a �les". Da�
quando, surgido o
conflito entre �ste compromisso de busca da Verdade e as
press�es
sociais, "maior seja a tend�ncia a sacrificar o Compromisso
moral
gerando uma tens�o, a qual termina, freq�entemente, por um
ac�rdo
e uma concess�o - que mant�m o compromisso moral dentro de li
mites socialinente aceit�veis - isentando, por exemplo, de
investiga
��o, certos tabus da sociedade". E conclui �le: "Na
medida em que
a Verdade � assim limitada e definida, sua busca se reflete de
seu
pr�prio fim e � por isto corrompida. Em ambos os p�los do
spec-
trum vamos encontrar um pequeno grupo que ou � subversivo
da
sociedade por dizcr � sociedade o que ela n�o deseja ouvir, ou
ent�o
� subversivo da Verdade, por dizer � sociedade o que ela deseja
ouvir".
E qual a natureza da Verdade de que cuidamos?
Qual seu modo
pr�prio de tratamento dentro da comunidade acad�mica? Em que
consiste dentro da Universidad& a liberdade de sua express�o?
Final-
mente, o que � mais importante, quais seus piores inimigos?
Certamente n�o temos cm vista aquela esfera
misteriosa que � a
das rela��es do homem com seu Criador, onde a procura da Verdade
�s v�zes "agonizante" - na express�o de Pascal - se
p�e no dom�-
nio da f� religiosa. A verdade de que falamos � a verdade
cient�fica
e filos�fica, que n�o admite o argumento da autoridade, nem �
algo
que se recebe pronto; mas deve constituir uma conquista do
esp�rito
humano jamais completada atrav�s do tempo, numa sucess�o de vi-
t�rias da raz�o s�bre as f�r�as cegas - na natureza, na
sociedade, no
pr�prio homem.
Quanto ao seu modo de tratamento na
Universidade, h� algo
que considero importante dizer porque � freq�entemente objeto de
mal-entendidos danosos.
H� um dever capital do professor, que � a
contrapartida da sua
liberdade - o de n�o permitir que as op��es pol�ticas que como
ci-
dad�o est� obrigado a assumir fora da sala de aula, nela
ingressem
como ve�culo de indoutrina��o ou de prega��o ideol�gica,
quer ou
n�o a servi�o da ideologia oficial do Estado. E isto por qu�? A
resposta
foi dada l�cidamente por Marx Weber - homem profundamente
envolvido na vida pol�tica de seu pa�s e s�bre ela tendo
id�ias
firmes e apaixonadas - nas duas famosas confer�ncias proferidas
em
1918 na Universidade de Munique intituladas "A Pol�tica como
Vo
ca��o" e "A Ci�ncia como Voca��o". E que - diz
�le - "o ethos
da a��o pol�tica � a luta por uma causa", mat�ria de
opini�o, �s
v�zes de f�, frequentemente mesclada de paix�o. Ao contr�rio,
o
ethos da atividade do professor � a conquista da
objetividade ra-
cional; seu dever � o de proporcionar ao estudante as
informa��es
corretas, de fornecer-lhe os instrumentos da an�lise, de
ajud�-lo a
localizar-se em m�todos de pensamento, de clarificar-lhe a reta
colo-
ca��o dos problemas, desenvolvendo-lhe o senso cr�tico e a
indepen-
d�ncia intelectual para que �le, por si pr�prio, possa
livremente al-
can�ar ou realizar suas op��es pessoais.
Por isto, o professor que transforma a c�tedra
em instrumento
de indoutrina��o ou de prega��o ideol�gica ou partid�ria
comete
uma dupla falta: primeiro, porque pratica uma viol�ncia contra a
consci�ncia individual dos alunos, que n�o t�m a obriga��o de
com
partilhar-lhe as opini�es ou cren�as pol�ticas; segundo, porque
abusa
de sua posi��o vantajosa enfrentando um audit�rio com as
poss�veis
vozes discordantes "condenadas a permanecer em
sil�ncio". O pro-
fessor que assim se comporta agir� como profeta ou demagogo,
nunca
como professor; e "o lugar do profeta ou do demagogo n�o �
a pIa-
taforma acad�mica
Por fim, se p�e a pergunta: em que consiste
efetivamente, de
parte do professor, a liberdade acad�mica, a liberdade de
c�tedra,
esta preciosa liberdade de c�tedra, sem a qual n�o h�
Universidade
digna d�ste nome? Minha posi��o pessoal coincide com a de
Sidney
Hook, Mestre de Filosofia da Universidade de Nova lorque, cuja
opini�o reproduzo textualmente: "Por liberdade acad�mica,
entendo
liberdade de pessoas profissionalmente qualificadas inquirir,
desco-
brir, publicar e ensinar a verdade como elas a v�em, no campo de
sua compet�ncia, sem qualquer contr�le ou autoridade exceto o
con-
tr�le ou autoridade dos m�todos racionais pelos quais a verdade
�
estabelecida."
Ingrata tarefa esta de buscar a verdade e
sustent�-la com inte-
gridade, n�o raro, em certas �pocas e lugares, sob o risco da
impo-
pularidade, da difama��o e mesmo da seguran�a e sobreviv�ncia
pes-
soal e familiar.
Esta �ltima condi��o se d�, quando, al�m
das press�es sodiais a
que se f�z refer�ncia, s�o acrescidas as press�es pol�ticas e
ideol�gicas
presentes nos regimes totalit�rios ou meramente autorit�rios.
S�bre
�ste segundo tipo de conflito; muito mais grave, � que desejo
deter
vossa aten��o. Pois sabemos todos que a Educa��o em geral, e a
Universidade em particular, s�o sempre as v�timas primeiras de
todos
os regimes de f�r�a, qualquer que seja o matiz.
A Universidade � o lugar focal, onde, dentro
da sociedade, se
transmite din�micamente a cultura �s novas elites; mas n�o
atrav�s
de um modo que eu diria testament�rio, onde um patrim�nio mec�-
nicamente passa de m�o a outra, intocado. Ao contr�rio, o
patrim�-
nio cultural � algo que por sua pr�pria natureza s�mente se
enriquece
atrav�s de um movimento de cont�nua reflex�o cr�tica pelo qual
�le
se refaz e se fecunda permanentemente. Ora, tal reflex�o cr�tica
�
imposs�vel sem o livre debate acad�mico de pontos de vista,
opini�es
e doutrinas divergentes, e sem o exame de t�das as novas
contribui-
��es intelectuais e das novas realidades que est�o
continuamente a
desafiar o esp�rito acad�mico, no di�logo com as novas
gera��es.
Sem esta atmosfera, a Universidade tende a se fixar num imobilismo
esterilizador. � precisamente esta atmosfera que a torna, quando
digna d�ste nome, incompat�vel com os sistemas, concep��es ou
pr�-
ticas de �ndole totalit�ria.
Aqui se imp�e, portanto, a quest�o: o que �,
afinal, o totali-
tarismo?
Sabeis que categorias como tirania, despotismo,
ditadura, auto-
cracia, e outras aparentadas com o totalitarismo, embora n�o raro
misturadas e confundidas no uso corrente, e podendo mesmo coinci-
dir parcialmente, expressam realidades distintas, cuja
discrimina��o e
refinamento conceitual n�o escapara j� � agudeza do esp�rito
grego.
Mesmo o totalitarismo, como fen�meno moderno, cont�m dimens�es
pol�ticas, econ�micas e psicol�gicas, extremamente complexas,
n�o
suscet�vc�s de uma esquematiza��o crua, sob o risco da
simplifica��o
que leva � distor��o.
Feita a ressalva, pois, de que estamos jogando
com conceitos e
realidades limites, creio podermos adotar a penetrante li��o do
pro-
fessor John Kautski, da Washington University, numa das mais per-
cuciantes an�lises s�bre a mat�ria, ao dizer que �ste algo de
pr�prio
na estrutura, m�todos e estilo do totalitarismo moderno - que
per-
mite abarcar prot�tipos sob outros aspectos t�o opostos, como o
Fas-
cismo e o Stalinismo - isto �, o terror total, a arregimenta��o
total,
a propaganda e a censura totais, constituiriam realidades
intimamente
ligadas ao processo de industrializa��o, podendo desabrochar,
con-
forme o grau, ritmo e circunst�ncias desta, nas duas formas
opostas
que �le denomina, respectivamente, "o Totalitarismo dos
Intelectuais"
de um lado, e de outro, "o Totalitarismo da Aristocracia e
seus aliados"
No primeiro caso, o mod�lo t�pico, embora
n�o o �nico e n�o ne-
cess�r�amente de inspira��o marxista, seria o da Revolu��o
Leninis-
ta, sendo a� a ditadura do Partido ou da Burocracia, o ve�culo
utili-
zado para "introduzir ou acelerar a industrializa��o,
suprimindo,
por�m, ao lado disto, as conseq��ncias pol�ticas que a
acompanharam
hist�ricamente no Ocidente", como a democracia pol�tica, a
seguran-
�a e a liberdade pessoal. E as suprime em nome de um futuro bem-
estar daqueles mesmos que sofrem a supress�o, ou de seus descen-
dentes.
Em tal esquema, as revolu��es sociais s�o
lideradas por "inte-
lectuais fundamente convencidos de que s�o ou a vanguarda do
senti-
mento de uma classe, ou representam os "verdadeiros"
inter�sses de
todos, ou o inevit�vel curso da Hist�ria".
No segundo caso, o do totalitarismo das
aristocracias e seus alia-
dos, isto �, o Fascismo, em suas diferentes manifesta��es, mais
ou
menos hirsutas, n�o seria sen�o o movimento defensivo de
segmentos
possuidores de uma sociedade que, em certa fase do processo de in-
dustrializa��o, sentem-se amea�ados pela realiza��o das
conseq��n-
cias �ltimas da Revolu��o Francesa, a qual, na imagem pl�stica
de
Guido de Ruggcro, est� para a Hist�ria Contempor�nea assim como
um prel�dio para a sinfonia, antecipando-lhe, de forma breve, os
temas que ser�o nela depois desenvolvidos. Nesta linha, a
Revolu��o
Francesa conteria de fato tr�s revolu��es germinativamente: uma
li-
beral, uma democr�tica, uma social, destinadas a se realizarem em
momentos sucessivos na hist�ria. Na oposi��o a �ste
desenvolvimento
� que a descren�a nas t�cnicas liberais de gov�rno recorre ao
autori-
tarismo, a fim de evitar um tipo de avan�o social que parece p�r
em risco os val�res e os inter�sses de muitos.
Ao n�vel psicol�gico, � precisamente a �ste
estado de esp�rito, a
esta s�ndrome social, que Erich Fromm, em seu conhecido estudo,
chamou de "O M�do � Liberdade", express�o das
ang�stias, frustra-
��es e temores de largos estratos da sociedade colocados em
momen-
tos de transi��o hist�rica e que, vendo perdidos seus
par�metros de
refer�ncia tradicionais, se entregam d�cilmente aos regimes de
f�r�a
sacrificando sua esfera de autonomia pessoal � ilus�o de uma
falsa
seguran�a. Nesta alternativa, � fei��o do que ocorre com a
personali-
dade neur�tica, diminui-se a ang�stia, por mecanismos de
evas�o, de
falso ajustamento, sem resolver todavia os problemas reais
subjacen-
tes que continuam sem solu��o, agravados com o risco de
exasperar-
se mais adiante.
Em �ltima an�lise, no l�cido julgamento de
Harold Laski "a his-
t�ria da democracia pol�tica no per�odo decorrido desde a
Revolu��o
Francesa � a hist�ria de sua aceita��o, sob a condi��o de
que as
massas n�o procurem estend�-la at� o plano da vida econ�mica e
social. A f� depositada pelo rico na democracia pol�tica �
estritamen-
te condicionada � suposi��o pr�-estabelecida de que seus
princ�pioi
n�o s�o aplic�veis no dom�nio econ�mico. E � mais do que
evidente
que se aqu�les que vivem de suas propriedades tiverem de escolher
entre a continua��o da sua propriedade e a continua��o da
democra-
cia, optar�o pela primeira."
Tal, esquem�ticamente, a din�mica de
implanta��o dos dois tipos
opostos de regimes totalit�rios.
O Totalitarismo, entretanto, n�o � apenas um
regime. Seu exame
deve ser levado mais longe, para visualiz�-lo enquanto um
movimen-
to ou enquanto um estado de esp�rito, que podem estar presentes
dentro de uma sociedade ou de um gov�rno, mesmo quando ausente
o terror institucionalizado.
Bem n�tida ficou esta distin��o quando, em
1953, inspirados por
Karl Friedrieh, reuniram-se na Universidade de Harvard algumas de-
zenas dos maiores especialistas de v�rios pa�ses nos campos da
Ci�n-
cia Pol�tica, Sociologia, Psicologia Social e Antrdpologia, para
o fa-
moso Simp�sio s�bre Totalitarismo, do qual � fruto o livro
cl�ssico
s�bre o tema, que tem �ste nome. Neste Simp�sio, Hannah Arendt,
que f�ra a autora da melhor obra individual at� ent�o publicada
s�bre a mat�ria, p�s em rel�vo o que em seu entender constitui
um
dos tra�os definidores dos movimentos totalit�rios e do
esp�rito tota-
lit�rio, e que a mim parece tamb�m importante salientar, a
saber: a
sua vis�o conspiratorial do mundo e das coisas.
Esta v�sao, que tende a conceber as coisas
dentro de uma pers-
pectiva de interpreta��o unicausal, "serve para libertar o
pensamento
da experi�ncia e da realidade; esfor�a-se por injetar uma
significa��o
secreta em cada acontecimento e por introduzir a suspeita de uma
se-
creta inten��o por detr�s de qualquer ato pol�tico; o que se
produz �
uma mentalidade onde o real n�o � mais compreendido em seus
pr�-
prios t�rmos, mas autom�ticamente � presumido como significando
uma outra coisa diferente. O mundo da den�ncia e do real se sepa-
ram".
Como resultado inevit�vel surgem sempre os
bodes expiat�rios
da Hist�ria: algum grupo especial de pessoas que deve ser
persegui-
do como respons�vel pela maior parte dos males existentes. Tais
grupos ou pessoas mudam no tempo, e de lugar para lugar. Apenas
o vil�o � diferente. S�o os Judeus, a Ma�onaria, s�o os
Jesu�tas, � o
Kremlin, � Wall Street, enfim, qualquer grupo ou s�mbolo
identificado
como uma "elite onipotente" a cujas maquina��es tudo
� referido.
� precisamente a �ste "estilo peculiar
de pensamento", a esta
peculiar moldura intelectual em que as coisas se p�em, com uma
pe-
culiar ret�rica pol�tica, que Richard Hofstadter, professor de
Hist�ria
Norte-Americana da Universidade de Col�mbia, em obra recente, de-
nominou "o estilo paran�ide em Pol�tica". Tal
express�o toma de em-
pr�stimo o t�rmo cl�nico para expressar, acima de tudo,
"um quadro
mental, um modo de perceber o mundo e de expressar-se a si
pr�prio,
onde est�o presentes as notas do exag�ro ardoroso, da
desconfian�a
sistem�tica, do hiperpassionalismo, da hipersuspei��o e da
hipera-
gressividade. Em ambos os casos s�o comuns os sentimentos de hos-
tilidade e persegui��o com que as coisas do mundo s�o
percebidas,
consistindo a diferen�a vital apenas em que o paran�ico cl�nico
v� a
agress�o dirigida espec�ficamente contra �le e sua pessoa,
enquanto o
porta-voz do estilo paran�ico em pol�tica a percebe como
dirigida con-
tra t�da uma na��o, t�da uma cultura, todo um modo de vida,
cujo
destino afeta n�o apenas a si pr�prio mas a milh�es de outras
pessoas".
Da� "o manique�smo quase supersticioso existente na
fantasia de que
quase todos os problemas podem ser reduzidos, simplesmente, a uma
batalha entre o Bem e o Mal, considerada em t�rmos absolutos e
apo-
cal�pticos".
A preocupa��o central do estilo paran�ide �
a exist�ncia de uma
"imensa cadeia internacional conspirat�ria, mas trabalhando
dentro
de casa, sinistra, ub�qua, poderosa, insidiosa, praeternatural e
efetiva
destinada a perpetrar atos do mais hediondo car�ter, montando uma
maquinaria de influ�ncia gigantesca embora sutil, colocada em
movi-
mento para solapar e destruir um certo modo de vida". Assim
"tudo
� retra�ado c reduzido a um �nico centro de influ�ncia, a uma
�nica
fonte m�, que deve ser eliminada por um ato fatal de vit�ria, O
com-
bate se trava n�o pelos m�todos usuais do j�go pol�tico, mas
atrav�s
de uma cruzada total, pelo esmagamento implac�vel do inimigo e
pela
sua elimina��o definitiva, sen�o do mundo, ao menos do teatro
de
opera��es para onde o paran�ide dirige sua aten��o".
Digno de nota
� o "pedantismo que acompanha tal estilo, e a atra��o
magn�tica que
exerce s�bre os semi-intelectuais", percept�vel, "na
literatura para-
n�ide, no cuidado com a documenta��o necess�ria para
fundamentar
as conclus�es para, atrav�s de cuidadosa acumula��o de fatos,
ou
ao menos daquilo que parece ser fato, extrair a evid�ncia de que
o
inacredit�vel � a �nica coisa em que realmente se deve
acreditar".
"N�o h� lugar para erros".
"Nada fica sem explica��o". Ir�ni-
camente, o que existe n�o � uma falta de fatos; o que h�,
precisamen-
te, � abund�ncia excessiva de fatos, "alguns verific�veis,
outros mani-
pulados e fabricados", para "estar presentes em algum
ponto cr�tico
do recital explicativo dos acontecimentos necess�rio para chegar
�s
mais fant�sticas conclusoes", por via de um "complicado
processo l�-
gico" que opera afinal "o grande salto do ineg�vel para
o inacredit�-
vel".
� claro n�o constituir tal atitude
privil�gio das causas m�s, "em-
bora tenha muito mais afinidades com estas do que com as
boas". O
estilo tem a ver com o modo pelo qual as id�ias s�o abra�adas
ou ad-
vogadas, mais do que com seu conte�do, pois sempre haver� um
n�-
cleo de verdade s�bre o qual �le se ap�ia". Nem
necess�riamente se
liga a esta ou aquela ideologia, sendo not�rias as identidades
entre
as manifesta��es da "direita paran�ide" e da
"esquerda paran�ide",
por que em "ambas � comum uma psicologia fundamentalmente
ma-
niqu��a
O paradoxal final, em tal estilo, � a
"imita��o do inimigo e das
suas t�cnicas". Tais pessoas "professam uma cren�a na
democracia
e na igualdade de direitos; todavia, em seu pr�prio z�lo pela
liberda-
de, curiosamente, assumem muitas das caracter�sticas do inimigo
ima-
ginado. Em condenando a fan�tica ades�o do inimigo a uma ideolo-
gia, manifestam uma aceita��o igualmente acr�tica de uma
ideologia
diferente; em atacando a intoler�ncia do subversivo quanto ao
direito
de discordar, trabalham para eliminar a discord�ncia e a
diversidade
de opini�o"; em "criticando a lealdade do inimigo a uma
organiza��o
piocuram comprovar sua lealdade incondicional � ordem
estabelecida".
At� aqui, o livro do Prof. Hofstadter. E
�stes, apenas, alguns dos
tra�os da psicologia, conspiratorial inerente ao esp�rito e aos
movi-
mentos totalit�rios.
Mas, como se expressa �ste esp�rito na
a��o? O esp�rito totali-
t�rio, quando n�o disp�e do poder pol�tico, se contenta apenas
em
anular influ�ncias, em desacreditar, em difamar, em destruir
reputa-
��es, em fazer aquilo que na tradu��o livre da express�o
ingl�sa se
poderia chamar de "assass�nio moral'.
Quando, por�m, tal mentalidade ascende ao
poder, mesmo sem
n�le predominar necess�riamente, mas podendo afetar suas
decis�es
mesmo nos regimes meramente autorit�rios, ent�o as palavras se
convertem em atos, ent�o o que era antes mera difama��o se
converte
em repress�o e em supress�o, e avulta desproporcionalmente o
com-
bate � conspira�ao, ao chamado "inimigo de fora". A
"�nfase no ini-
migo de fora" � fundamental domo adverte o prof. Kautski,
"pois
o regime passa ent�o a identificar com aqu�le todos os seus
inimigos
reais ou imagin�rios". Assim, exemplifica, "para os
Nazistas os Aliados
eram todos instrumentos do juda�smo internacional e dos
antinazistas
n�o judeus, dentro da Alemanha, instrumentos da mesma conspira-
��o. Para Stalin, t�das as pot�ncias estrangeiras inamistosas
eram
consideradas imperialistas, e t�da a oposi��o interna,
incluindo ve-
lhos bolchevistas, vista como formada de espi�es estrangeiros,
provo-
cadores e sabotadores. Para a maioria dos pa�ses fascistas o
Comu-
cismo Internacional e, ocasionalmente (nos casos da It�lia e
Jap�o),
tamb�m o Imperialismo Ocidental, serviu de inimigo de fora".
� evidente que tais vis�es podem incluir
fragmentos de verdade.
Mas o fato fundamental que importa destacar, como adverte o prof.
Kautski, � que, como conseq��ncia "t�da oposi��o
interna passa a ser
identificada com aqu�le inimigo".
E desde que h� uma ilus�o de unidade interna
completa, apoian-
do o gov�rno e o regime, qualquer um que se oponha ao primeiro
corre o risco de ser identificado como inimigo do segundo, de ser
considerado "por defini��o n�o mais um bom membro da
sociedade
mas, subjetiva ou objetivamente, um agente do inimigo de
fora". O
resultado � "uma atmosfera de crise continuada".
A extens�o do mecanismo de repress�o varia de
lugar para lugar,
podendo ir desde o mero isolamento social at� a verdadeira
destrui��o
f�sica, diferenciando-se apenas em fun��o dos instrumentos de
coer-
��o dispon�veis e aceit�veis, porque, sabidamente, h� um
limite que
n�o pode ser ultrapassado excessivamente em cada sociedade sob
pena de ultrajar certos padr�es culturalmente prevalentes. O
esp�rito,
por�m, � sempre o mesmo.
A partir de um certo momento, assim
identificado o advers�rio
com a conspira��o, n�o � necess�rio que as coisas aconte�am.
Basta
que se conven�a a um grande n�mero de pessoas de que elas devem
estar necess�r�amente acontecendo. Explicados convenientemente
os
objetivos, m�todos, e os tipos de pessoas nela envolvidos, a
partir da�
torna-se indiferente exista ou n�o realmente a conspira��o, ao
menos
no grau e extens�o com que denunciada. Basta se ter fixado, com
su-
ficiente insist�ncia, que � ela que legitima certos atos
praticados por
certas pessoas contra outras. Se o advers�rio parece diminuir em
n�-
mero, refor�am-se lhes as caracter�sticas, amplia-se-lhe a
descri��o,
descobrem-se novos.
A circunst�ncia de que os acusados nada tenham
a ver com a
conspira��o � secund�ria, como secund�ria � a preocupa��o
de inda-
gar o que realmente �les pensam ou fazem. Uma vez que algu�m
seja
marcado, segundo crit�rios totalmente arbitr�rios todos os seus
atos
passam da� para diante a ser interpretados � luz da imagem
pr�via-
mente elaborada, fruto das fabrica��es mentais e da obsess�o
zel�ti-
ca dos seus inquisidores. T�das as a��es s�o convenientemente
dis-
postas para produzir a teoria explicat�ria. Contradit�riamente,
se
uma das express�es de tal estilo � o excesso de fatos, de um
lado, sua
outra face � um despr�zo absoluto pelos fatos. �stes passam a
ser dis-
pens�veis.
� suficiente, afinal, apenas, que algu�m no
Poder atribua a ou-
trem esta bizarra, indefin�vel e imponder�vel coisa, que se
chama
"mentalidade anti-revolucion�ria" -- como na
descri��o que em O
Zero e o Infinito, Arthur Koestler f�z dos expurgos associados
aos
Processos de Moscou na d�cada de trinta.
Completada a descri��o do esp�rito totalit�rio
naquilo que reve-
la de substancial, resta concluir repisando que � �le o inimigo
por ex-
cel�ncia do esp�rito universit�rio.
O verdadeiro intelectual, quando n�o sucumbe
ao dogmatismo
sect�rio, ou quando n�o se domestica ao Poder pela covardia, �
um
ser eternamente abominado e perseguido por todos os tipos de
esp�ri-
to totalit�rio. Sua voca��o torna-se seu estigma; seu �stigma,
sua ex-
ere��o. Seu crime: o da n�o entrega total da liberdade a um
Partido
ou a um Estado dominado pelo esp�rito totalit�rio.
A Universidade � o lugar do homem que procura
a Verdade. O
Autoritarismo Totalit�rio pensa j� possuir a verdade total.
O esp�rito universit�rio
hesita questiona,
objeta, sua atitude
pr�pria � a da reflex�o cr�tica voltada para os necess�rios
discrimes
intelectuais. Exige o sentido das corretas distin��es dos
matizes, das
propor��es, da d�vida sistem�tica.
O esp�rito totalit�rio � pleno de certezas,
s�lidas e inabal�veis;
de id�ias simples e simplificadoras; n�o admite estar errado,
tudo
sabe e tudo explica; � linear, uno, univoco, monoc�rdio,
monol�tico.
Em uma palavra: a Universidade � o domic�lio
pr�prio da ra-
z�o, O Autoritarismo Totalit�rio s� conhece como argumento a
f�r�a.
E se algu�m ainda tiver ilus�es ou d�vidas a
respeito do que
seja mais pr�prio a condi��o do homem; do que � mais valioso;
de
quem pode mais e, a longo prazo, sempre ser� o vitorioso; e qual
o
motivo por que isto � inevit�vel - permito-me dar a ess�ncia da
res-
posta, resumir t�das as raz�es, naquilo que dizia Boris
Pasternak:
"Penso que, se se pudesse deter o animal
que dormita no ho-
mem por meio da amea�a... o mais elevado emblema da humani-
dade seria o domador de circo com seu chicote, e n�o o predicador
e seu sacrif�cio. Mas, justamente, o que no decurso dos s�culos
tem
elevado o homem acima do animal, o que o tem conduzido t�o alto,
n�o � a vara, � a m�sica; a f�r�a irrefut�vel da verdade
desarmada,
a atra��o de seu exemplo".
Meus car�ssimos afilhados e novos colegas.
Ao me despedir, permiti uma palavra �ltima s�bre
vossa miss�o
de graduados e cidad�os, tal como a vejo:
H� alguns dec�nios se desdobra neste pa�s um
processo de trans-
forma��o global das estruturas herdadas da Primeira Rep�blica
visan-
do conduzir a Na��o da sociedade tradicional e colonial �
sociedade
moderna, sincronizando-a com as conquistas da tecnologia e da in-
dustrializa��o, para romper com o conjunto de distor��es e
injusti�as
que marcam um tipo de sociedade, a qual na frase de Jacques Mari-
tain, "segrega a mis�ria como um produto normal de seu
funciona-
mento".
Tendes um desafio neste tipo de sociedade,
quando em todo o
mundo, milh�es de s�res humanos despertam para algo que �
inarre-
d�vel do cora��o do homem - a reivindica��o da pr�pria
dignidade.
No dizer do Jesu�ta Pierre Bigo - "durante mil�nios viveram
mar-
ginalizados, segundo a palavra de Lucr�cio - "humanum paucis
vivit
genus" (a ra�a humana vive para poucos) - forjando um pe-
queno grupo de privilegiados" dentro de um estado de coisas
que,
"para a maioria, n�o � mais que a institucionaliza��o de
uma desor-
dem fundamental nas rela��es da Justi�a".
Diante de tal estilo de- conv�vio humano sei
bem de vossa indig-
na��o moral.
Entretanto, n�o seria eu veraz se vos deixasse
partir com pala-
vras de otimismo circunstancial e convencional, e n�o repetisse,
uma
vez mais, para muitos, que a indigna��o moral n�o � substituto
da compet�ncia.
N�o h� pior companheiro do reformador do que
o despreparo.
N�o h� pior contradi��o da verdadeira reforma do que a reforma
inepta. A s�de de justi�a � um impulso, n�o um instrumento.
Entre
o impulso generoso e o resultado eficaz h� um enorme espa�o
reser-
vado � media��o cient�fica, sem a qual, n�o s� pouco ser�
feito mas
ainda corre-se o risco de, por in�pcia ou insensatez,
comprometer.
em algumas decis�es equivocadas, d�cadas de avan�o social. �
por
isto que, n�o apenas como professOres e pesquisadores, mas igual-
mente como l�deres sociais, n�o vos julgueis dispensados do
dever
fundamental da compet�ncia.
N�o vos enganeis. A ignor�ncia bem
intencionada � t�o ou mais
nociva do que o conformismo. N�o se transforma um pa�s repetindo
indefinidamente siogans emotivos, meias verdades ou esquemas de
importa��o n�o criticados. N�o se solucionam problemas.
simplifi-
cando lhes a natureza. N�o e modifica uma realidade que de fato
se
desconhece ou se conhece insuficientemente. N�o se faz a��o
social
eficaz alimentada apenas pelo verbalismo das declara��es vazias.
Em
suma, n�o se reforma uma sociedade apenas com frases sonoras.
Se quiserdes realmente estar � altura do
desafio que se vos faz,
n�o s� como graduados mas tamb�m como cidad�os, n�o vejo
outro
rumo que o da forma��o de quadros realmente capazes de enfrentar
a tarefa que est� adiante. E isto s� se obt�m atrav�s de um
caminho:
o do estudo, o da seriedade, intelectual e moral, o da disciplina
inte-
rior, o do trabalho �rduo, paciente, muitas v�zes obscuro.
N�o vos desejo tecnocratas frios,
manipuladores de f�rmulas ou
planos, num bovarismo intelectual que mutila tantas voca��es
promis-
soras. Por�m, n�o deixando diminuir vossa s�de de justi�a,
lembrai-
vos que uma das marcas de mediocridade � a sua insol�ncia, mas
que ela � apenas insolente enquanto poderosa; festejada ou in-
disputada.
No dia em que o monop�lio da clarivid�ncia
for contestado pela
afirma��o da vossa compet�ncia e seriedade ent�o nada vos
poder�
deter na realiza��o de vossos ideais.
�ste o �nico e derradeiro conselho que ousa
dar vosso Paraninfo.
Guardai vosso entusiasmo e vossa flama
interior; n�o vos deixeis
fascinar pelo imediatismo; n�o vos acomodeis � tenta��o do
sucesso;
s�de fi�is a v�s pr�prios e � vossa consci�ncia; s�de
dignos do grau
que hoje recebeis, honrando vosso juramento. S�de �ntegros. E,
acima
de tudo s�de bons. E s�de felizes.
(Transcrito
do Correio do Povo de 7-1-67)
