Texto de Refer�ncia n� 1

Cidadania Digital: Hiperm�dia e Democracia na Sociedade da Informa��o

Paulo C. Cunha Filho & R�mulo C�sar Pinto

"Se houvesse um povo de deuses, esse povo se governaria democraticamente"
Jean-Jacques Rousseau
"A popular government without popular information, or the means of acquiring it, is but a prologue to a farce or a tragedy, or perhaps both. Knowledge will forever govern ignorance, and a people who mean to be their own governors must arm themselves with the power which knowledge gives."
James Madison

Resumo

Este artigo prop�e uma analise da supera��o da comunica��o interativa restrita (ponto a ponto, oral, interpessoal) e da comunica��o de massa (poucos pontos de difus�o e m�ltiplos pontos de recep��o, n�o interativa) e a transi��o para um novo ambiente comunicacional reunindo os avan�os da telefonia e da inform�tica – o ciberespa�o. � observada, especificamente, a possibilidade de organiza��o de comunidades virtuais e de novas oportunidades de modelagem das rela��es Estado-Sociedade e seus reflexos nas negocia��es entre governos e indiv�duos. A hip�tese central � que a m�dia tradicional pratica um discurso unificado e n�o plural, enquanto a instala��o do ciberespa�o aponta novas oportunidades democr�ticas para os grupos conectados e para novas responsabilidades do Estado e da Sociedade Civil.


1 Introdu��o: o Estado e a instala��o do ciberespa�o


As profundas transforma��es que as novas tecnologias da informa��o v�m produzindo nas sociedades contempor�neas afetam tamb�m, e particularmente, o Estado e as suas rela��es efetivas com os cidad�os. A organiza��o de comunidades virtuais, observadas a partir da instala��o social do espa�o cibern�tico das redes de computadores, oferece, no presente momento hist�rico, novas oportunidades na modelagem das rela��es Estado-Sociedade - privilegiando seus reflexos nas negocia��es entre governos e indiv�duos. O que se pretende com esse artigo � fazer uma an�lise algumas dessas oportunidades a partir de alguns par�metros da Ci�ncia Pol�tica e da Comunica��o Social.

A id�ia de Democracia remete, obviamente, � participa��o dos indiv�duos no processo pol�tico que determina a forma��o das estruturas de Estado. Nas democracias contempor�neas, os cidad�os se fazem representar por seus eleitos a quem delegam poderes de decis�o sobre os rumos de uma na��o. Apesar de sua concep��o remontar � Gr�cia antiga, esse modelo de democracia sobreviveu na sociedade industrial gra�as ao suporte que lhe foi dado pelos instrumentos tecnol�gicos, alguns deles respons�veis pela circula��o de informa��es, isto �, os media. Jornais, r�dios e mais recentemente as TVs cansaram de "eleger" e "derrubar" governos ao redor do mundo no s�culo XX.

Conhecidos como meios de comunica��o de massa, esses media caracterizam-se por seu modo linear e vertical de fazer circular as informa��es, com pouqu�ssimas oportunidades de feed-back para a grande maioria dos indiv�duos, aos quais foi retirado o poder de narrar, de emitir um ju�zo ou, sob um outro ponto de vista, de abordar um representante eleito ou o mandat�rio de um cargo p�blico. N�o se trata de negar aqui os benef�cios que eventualmente os media ofere�am � sociedade, mas de ressaltar dois aspectos fundamentais:

o monop�lio da narrativa
a intermedia��o das informa��es

Estes dois aspectos s�o exercidos pelos media a partir de sua complexidade estrutural, fato que adquire aspectos de "naturalidade" a partir de um processo de reifica��o. Em outras palavras: j� estamos t�o acostumados (alienados) com o papel de receptores que n�o conseguimos enxergar o qu�o artificial � essa forma de fazer circular informa��es.

Os homens p�blicos falam para a m�dia que, por sua vez, filtra o discurso, elaborando uma vers�o do fato (que para muitos cidad�os nem existe), distribuindo-o atrav�s de seus canais. Isso � t�o "natural" que n�o � questionado - pelo contr�rio: n�o s�o poucos os argumentos que pressup�em a liberdade de comunica��o (na forma sob a qual a concebemos atualmente) como condi��o sine qua non da pr�pria experi�ncia democr�tica, num processo de idealiza��o que fica bem explicitado nesta declara��o do jornalista sul-africano Donald Woods:

"N�o podemos ter um Jornalismo verdadeiro sem uma Democracia verdadeira e vice-versa. Os dois t�m de ser desenvolvidos e conquistados juntos. Estou falando, � claro, de um Estado ideal, no qual existam a liberdade e a imprensa ideais. At� onde sei, n�o h� tal Estado no mundo. Mas estamos chegando l�. Sem d�vida alguma, estamos progredindo na dire��o desse ideal."

O problema � que o discurso da m�dia � unificado e, em geral, n�o � representativo da pluralidade social. Estamos aqui diante de um problema de racionalidade e de legitima��o (na acep��o de Habermas), posto que a m�dia faz parte de um sistema de ajuste permanente do discurso do poder em fun��o de valores nem sempre concili�veis e de justifica��o de iniciativas contradit�rias diante do eleitorado. Al�m disso, no processo de elabora��o da m�dia tradicional, a unifica��o e a aus�ncia de representatividade ocorre basicamente por tr�s raz�es:

uma de natureza econ�mica, isto �, o custo para produzir e veicular informa��es nesses media � extremamente alto;
outra de natureza ideol�gica, ou seja, as corpora��es de profissionais (sindicatos, academias, etc) que trabalham com a intermedia��o de informa��es (como por exemplo, jornalistas, bibliotec�rios ou advogados) exigem e obt�m do Estado uma reserva de mercado para seus "iniciados";
por �ltimo, uma raz�o de natureza cultural, que inocula na maioria dos indiv�duos a no��o de incompet�ncia, cobrando-lhes o dom�nio dos c�digos formais (oral ou escrito) e t�cnicas narrativas espec�ficas para que possa se manifestar nos ve�culos de comunica��o de massa ou nos f�runs p�blicos de discuss�o.

Desse modo, a m�dia exerce o papel de institui��o-suporte do processo da democracia (ali�s, da mediacracia) que configura-se em muitos aspectos como uma farsa, j� que � baseada num modelo tecnol�gico de circula��o de informa��es autorit�rio, restritivo e monopolista.

2 Sociedade da informa��o: a globaliza��o e os media

Vivemos hoje um momento de transi��o. E a falta de perspectiva hist�rica pode acarretar em ilus�es conceituais graves. H� exemplos significativos: "carruagens sem cavalo" - assim eram conhecidos os autom�veis que come�aram a circular no final do s�culo XIX. Apesar de parecer estranho, hoje, que os primeiros autom�veis tenham sido observados apenas como carruagens onde os cavalos haviam sido substitu�dos por pe�as mec�nicas, adota-se o mesmo princ�pio ao se referir a novos objetos de m�dia como "revista digital", "livro eletr�nico" ou "jornal on-line". E n�o se tratam apenas de quest�es de nomenclatura.

Em primeiro lugar, o problema afeta diretamente o conjunto da Sociedade (isto �, a ampla base material onde os cidad�os atuam). Assim, o fen�meno econ�mico da globaliza��o, interligando o planeta, produz nos pa�ses perif�ricos faixas de consumo com padr�es equivalentes aos das na��es industrializadas. Paradoxalmente, o fen�meno pode estar determinando a decad�ncia da sociedade que o gerou, a dita civiliza��o industrial. N�o � o caso, entretanto, de decretar o fim das industrias, mas percebe-se claramente que produ��o industrial pode aumentar sem a outrora conseq�ente gera��o de empregos. Criam-se novas oportunidades no setor de servi�os para os indiv�duos mais qualificados ao mesmo tempo em que grandes contigentes das popula��es s�o exclu�dos das benesses da nova sociedade. Profiss�es nascem e morrem em tempo real, enquanto outras agonizam sem querer se dar conta do que est� por vir.

Algumas industrias, isoladamente, podem at� estar prosperando, e assim v�o poder continuar, mas o que est� esgotado - por diversas raz�es, entre as quais a pr�pria tecnologia gerada em seu processo - � o modelo conceitual gerador de poder e riqueza para uns e empregos para outros. A industria continuar� produzindo, mas j� � poss�vel observar um deslocamento do centro do poder (at� ent�o localizado na esfera industrial). Tal como ocorreu com a Revolu��o Industrial, as transforma��es est�o virando o mundo. A diferen�a est� na velocidade com que as consequ�ncias das novas tecnologias se espalham pelo planeta.

O impacto desse processo nos media � enorme. No centro da articula��o dessa nova sociedade est� o transforma��o conceitual (e a distribui��o) da informa��o. O paradigma de valor dos produtos e servi�os da sociedade industrial, ou seja, a quantidade de trabalho investida nesses elementos, passa a ser, na sociedade p�s-industrial, a quantidade de informa��o e conhecimento que esses produtos e servi�os conseguem agregar. O topos dessa agrega��o � o ciberespa�o, que definimos como sendo o ambiente acessado atrav�s de qualquer computador conectado a um sistema de rede (do tipo World Wide Web) e configura-se como um lugar sem limites f�sicos, uma geografia mental constituindo consensos e disensos simult�neos e superpostos - algo, portanto, em muta��o permanente. E, como argumenta L�vy em artigo recente, o que vivemos n�o � apenas a globaliza��o econ�mica mas a "globaliza��o dos significados":

"O ciberespa�o dissolve a pragm�tica da comunica��o que, desde a inven��o da escrita, havia conjugado o universal e a totalidade. Ele nos reconduz, de fato, � situa��o anterior � escrita - mas numa outra escala e numa outra �rbita -, na medida em que a interconex�o e o dinamismo em tempo real das mem�rias em rede faz com que o mesmo contexto, o imenso hipertexto vivo, seja compartilhado pelos integrantes da comunica��o."


O Capital come�a a "compartilhar" seu poder com o Conhecimento e mais uma vez o mundo se divide. Agora, os deserdados da tecnologia, os "sem-telas" ou exclu�dos, ocupantes do espa�o p�blico convencional (as ruas), contrap�em-se aos conectados, que s�o tamb�m aqueles que trabalham, v�o ao m�dico, ao banco e compram pizza sem sair de casa; cidad�os urbanos que simulam conviv�ncias em suas m�quinas e acessam a nova mola-mestra: a informa��o.

3 A supera��o dos media e a instala��o do ambiente cibern�tico


O que uma perspectiva hist�rica mais longa permite entender � que, inicialmente, nos comunic�vamos essencialmente atrav�s de estruturas dia-l�gicas, baseadas em gestos e sons, formando um processo "vivo", interativo e din�mico que evoluia por caminhos n�o lineares, nem pr�-estabelecidos. S� alguns milhares de anos depois, adotamos objetos para registrar nossos "saberes", passando daqueles baseados em media isolados (pinturas, escritos, fotografias, etc.) e alcan�ando estruturas multim�dicas (o teatro, o cinema, a televis�o, etc). A materializa��o da informa��o tornou poss�vel aos cidad�os a transmiss�o de suas experi�ncias com acrescida liberdade temporal e espacial. No entanto, � preciso considerar o sacrif�cio que esta condi��o imp�s � caracter�stica "viva", interativa e din�mica da informa��o. Do ponto de vista ideol�gico, a materializa��o da informa��o levou, no per�odo da comunica��o de massa, ao que Rubim chama de cis�o entre as logot�cnicas de emiss�o e as massas receptoras:

"Os media surgem como aparatos s�cio-tecnologicamente configurados na expropia�ao social dos ‘falantes’ e pela centralidade e concentra��o em um lugar social de emiss�o, agora super-potencializada. No p�lo inverso, tornado oposto, condenado � mera repeti��o, produzem-se as massas, no espec�fico viver hist�rico-social da comunica��o."

Atualmente, quando se fala em hiperm�dia (uma m�dia al�m dos media conhecidos), refere-se a um novo momento hist�rico do processo de comunica��o entre cidad�os, onde o registro de experi�ncias sociais em meios imateriais (o espa�o cibern�tico) pode levar a uma situa��o em que finalmente agrega-se a liberdade cronocosmol�gica ao dinamismo dia-l�gico. N�o h� previs�o, mas constata��o de que as altera��es tecnol�gicas geradas pela pesquisa em inform�tica j� repercutem na produ��o de informa��es em todos os seus n�veis (capta��o, tratamento, difus�o, recep��o) e que esta situa��o de mudan�a tende a se acelerar e se aprofundar.

No ciberespa�o, a m�dia n�o funciona, necessariamente, do mesmo modo que no espa�o anal�gico. Na verdade, a internet tem muito mais caracter�sticas de um ambiente de comunica��o do que propriamente um meio. As listas de discuss�o, os f�runs on-line, as "salas" de bate-papo e o correio eletr�nico s�o ferramentas de comunica��o de fato interativas, baseadas em estruturas n�o verticais onde os p�los de emiss�o e recep��o tem flexibilidade suficiente para se alternarem de modo semelhante � conversa��o oral. Como explica Andr� Lemos,

"os novos media, como Internet por exemplo, permitem a comunica��o individualizada, personalizada e, al�m do mais, bidirecional e em tempo real. Com os novos media a ‘edi��o’ n�o � mais uma norma, e todos podem participar na produ��o e circula��o da informa��o. O argumento, ou o discurso, da ‘comunica��o interativa’ pode ser dificilmente contornado com um discurso da ‘informa��o centralizada distribu�da’, que caracterizou a cultura de massa e do espet�culo do s�culo XX. Isso sem falar nas mudan�as estruturais de produ��o e distribui��o da informa��o causadas pela tecnologia digital nos jornais, nas emissoras de televis�o, no radio, nas revistas, etc. A tecnologia digital proporciona assim uma dupla ruptura: no modo de conceber a informa��o (produ��o por processos micro-eletr�nicos) e no modo de difundir as informa��es (modelo ‘Todos-Todos’)."


Cada computador conectado torna-se um emissor em potencial de informa��o, de vers�es e pontos de vista. E � justamente na manifesta��o do ser que o indiv�duo torna-se sujeito na sociedade: um cidad�o. Aparentemente, o ciberespa�o torna-se dessa forma um lugar onde projetamos um peda�o de n�s mesmos, e onde podemos simular uma conviv�ncia produtiva, participativa e democr�tica. Nele, nossa presen�a ativa pode ser obtida a um custo bem inferior em rela��o aos media convencionais. Mesmo sem levar em considera��o os poss�veis investimentos dos governos na facilita��o do acesso p�blico, � muito mais vi�vel o indiv�duo obter, por seus pr�prios meios, um computador e uma linha telef�nica, do que comprar ou ter acesso a uma emissora de TV, uma editora ou mesmo uma r�dio para potencializar a sua comunica��o ou exercer sua cidadania, a despeito de necess�rios ajustes sobre quest�es fundamentais, como a percep��o da nacionalidade, que � amea�ada por novas defini��es distanciadas da no��o de Estado soberano, como explica Karine Douplitzky:

"A ciberpol�tica � muito diferente de uma grande missa midi�tica, de uma proposta politizada. O mecanismo de representa��o pol�tica, sistema hier�rquico que justifica a exist�ncia de nossas institui��es estatais, est� ausente da rede que elimina os intermedi�rios (representantes), em proveito de liga��es diretas, de cibercidad�os aos ciberorganismos, do local ao global."


Mas � justamente aqui que surge a primeira oportunidade do Estado (evidentemente for�ado pela din�mica social) para gerar um modelo diferenciado de conviv�ncia com o cidad�o. A situa��o tecnol�gica que se apresenta permite que as ferramentas de interatividade sejam usadas para garantir o acesso dos indiv�duos aos homens p�blicos, apesar da advert�ncia de Douplitzky, j� que sobram raz�es para justificar os pap�is de intermedia��o entre cidad�os (e mesmo cibercidad�os) e as estruturas do Estado. Um exemplo concreto: temas importantes para a na��o j� podem ser discutidos on-line, atrav�s de f�runs e listas, antes de serem tomadas as decis�es que afetar�o o conjunto social. A id�ia antes irrealista de "parlamento virtual" (e de fato interativo, acess�vel de qualquer terminal conectado) j� tem condi��es tecnol�gicas (embora talvez ainda n�o sociol�gicas) de ser uma ferramenta da constru��o da cidadania na era digital.

Por outro lado, entendendo a WEB como um dep�sito universal de informa��es, s� a garantia do acesso p�blico � rede pode possibilitar mais din�mica no processo social, assim como vantagens competitivas para os indiv�duos desenvolverem atividades no mercado de trabalho que ora se delineia. Obviamente, n�o basta ter o acesso para garantir as oportunidades, mas existe a possibilidade de que em poucos anos o acesso seja uma condi��o sine qua non trabalho. Da� a urg�ncia da interven��o estatal na distribui��o estrat�gica de m�quinas conectadas em comunidades mais ou menos carentes do pa�s.

4 As novas responsabilidades do Estado


No que diz respeito � administra��o dos servi�os que o Estado presta � Sociedade, existe uma gama de aplica��es dessas novas tecnologias no sentido de reduzir custos e satisfazer o cliente-cidad�o atrav�s de um atendimento mais r�pido e eficaz. Sabe-se, por exemplo, que o simples armazenamento de dados em suportes digitais evita o preenchimento, a manipula��o e a estocagem desnecess�ria de formul�rios impressos e repetitivos. J� encontram-se na rede diversos estudos visando aperfei�oar a id�ia de centrais �nicas de atendimento p�blico, nas quais, numa �nica reparti��o virtual, o indiv�duo poder� solicitar os mais diversos servi�os.

Para que isso aconte�a, ser� preciso antes que os �rg�os do Estado deixem muito claro, em p�ginas inteiramente acess�veis na Internet, as suas compet�ncias; depois, e a partir dessas tecnologias, pode se estreitar a comunica��o entre institui��es do Estado, facilitando a troca de informa��es sobre servi�os e usu�rios, dinamizando o atendimento que passaria a ser feito ainda de forma mais transparente.

Mas sabe-se que, para viabilizar essas oportunidades, ser� preciso percorrer um longo caminho. Primeiro, ser� preciso vencer dificuldades econ�micas, tecnol�gicas e psicol�gicas. Mais uma vez fica claro a necessidade de uma interven��o direta do Estado na estrat�gia de distribui��o de pontos de acesso. � tamb�m de fundamental import�ncia o engajamento das entidades culturais nesse processo com o objetivo de decidir pela preserva��o (ou n�o) das caracter�sticas das micro-culturas comunit�rias que certamente v�o poder emergir, fazendo-se representar no ambiente ciberespacial. Sem a interven��o estatal para regular o acesso, a sociedade da informa��o corre o s�rio risco de tornar-se um regime altamente excludente, um tecno-apartheid capaz de gerar as situa��es sociol�gicas imaginadas por George Orwel ou Aldous Huxley.

Mais uma vez, neste caso, a situa��o p�s-industrial afasta o problema das solu��es da comunica��o de massa, que desqualificam a representa��o democr�tica formal. O caso da interfer�ncia da televis�o nas democracias ocidentais j� foi bem estudado e aponta para um novo "exibicionismo" do poder e para a "espetaculariza��o" da coisa p�blica. Como analisa Debray:

"A onipresen�a da imagem aparece como um fator de desregula��o dos mecanismos de delega��o democr�tica. N�o somente porque valoriza o contato mais do que o conte�do, mas tamb�m sacrifica a argumenta��o articulada � frase de efeito (garantia de reprise na imprensa no dia seguinte). Curto-circuitando as media��es do espa�o jur�dico-institucional, ela desvitaliza os corpos reguladores da Rep�blica - Parlamento, Justi�a, Escola, Imprensa escrita. Em vez de prolongar o Parlamento, o est�dio de televis�o acaba por ocupar o seu lugar."

De certa forma, essa avalia��o dos media tradicionais baseia a maioria dos recentes diagn�sticos sobre o papel da comunica��o na democracia assim como as sugest�es que come�am a surgir com a hiperm�dia. O Livro Verde Para a Sociedade da Informa��o, documento do Minist�rio da Ci�ncia e Tecnologia de Portugal, defende, entre outras propostas, a cria��o de um estatuto da informa��o, distinguindo-as entre:

informa��o de cidadania, de acesso universal e gratuito;
informa��o para o desenvolvimento, destinada aos agentes econ�micos e sociais e distribu�da a custo de suporte ou a pre�os simb�licos;
e as informa��es de valor acrescentado, cedidas mediante pre�os de mercado.

A id�ia de um estatuto tem como objetivo atender a preceitos constitucionais que visam o resguardo de institui��es como "direitos autorais" e "propriedade intelectual". Tais conceitos, comuns e �ticos a qualquer sociedade industrial, existem porque o processo de cria��o intelectual tem sua natureza coletiva escamoteada a partir da apropria��o de um patrim�nio cultural que deveria, pela sua natureza, pertencer a coletividade. O que os ajuda a tornarem-se "l�gicos" � a complexidade na a��o de formatar e distribuir os conte�dos informacionais. O autor � assim reconhecido como tal muito mais pelo esfor�o da publica��o do que, necessariamente, pela autoria da informa��o; esta, na verdade, � fruto de um empenho coletivo cuja origem tende a desaparecer sob a nossa perspectiva linear da Hist�ria.

Com efeito, quando a nova sociedade estiver mais consolidada poderemos esperar a aplica��o de algo semelhante ao estatuto portugu�s aqui no Brasil. A quest�o que se coloca � quanto aos crit�rios de classifica��o das informa��es. Quem decidir� que tipo de informa��o ser� paga? De que modo se dar� a escolha? Os crit�rios adotados pelos pa�ses industrializados dever�o ser os mesmos aplicados a em na��es como o Brasil? At� onde vai a informa��o p�blica? S�o perguntas que devem ser respondidas por um Estado pressionado pela sociedade civil organizada e bem informada sobre os diversos aspectos e potenciais de um Estado aberto e transparente, na forma de uma cidade telem�tica imaginada por Fred Forest:

"Permitindo o acesso �s informa��es p�blicas e administrativas procedentes do governo e das organiza��es comunit�rias, a cidade telem�tica participa no desenvolvimento de novas redes de comunica��o. Seu dispositivo tem por miss�o coletar e difundir informa��es, mas tamb�m de tornar-se o lugar de troca privilegiada entre sugest�es e cr�ticas. Lugar de debates p�blicos, onde cada cidad�o membro desta ‘comunidade virtual’ participa na ‘�gora’ telem�tica e na vida da cidade."

Trata-se, portanto do processo de constru��o de um novo tipo de cidadania. Um novo modelo de rela��es mediado (e n�o determinado) pelas caracter�sticas das novas tecnologias. Como toda constru��o, exige esfor�o, idas e vindas, at� que se alcance um determinado status que come�ar� a ser superado por uma nova ordem. Nada est� definido. O que existe s�o tend�ncias e oportunidades que devem ser aproveitadas no sentido de otimizar as rela��es do Estado com o Cidad�o garantindo uma melhor qualidade de vida n�o apenas para esta, mas tamb�m para as pr�ximas gera��es. O processo tecnol�gico � irrevers�vel e n�o deve ser visto como algo que veio, necessariamente, para resolver nossos graves problemas sociais. Mas ignorar o imenso potencial que as redes de computadores oferecem em termos de aplica��o para os mais diversos setores da sociedade � uma atitude, no m�nimo, irrespons�vel. Al�m de ser o caminho mais r�pido para a exclus�o.

Vale lembrar que o conceito de "computadores pessoais" interligados n�o surgiu nas grandes corpora��es high-tech. Ele � fruto de um movimento popular conhecido como "contra-cultura", cujas express�es mais c�lebres foram os hippies californianos dos anos 60 e 70. E foi justamente na Calif�rnia e nessa �poca que surgiu o primeiro computador pessoal, o Apple 1, criado por um grupo de jovens universit�rios que catavam pe�as no lixo de industrias como a IBM para montar uma m�quina que n�o servia para absolutamente nada, a n�o ser se retro-alimentar, mas que tinha, na vis�o daqueles garotos, um imenso potencial.

5 Tr�s modelos em implanta��o


S�o freq�entes as an�lises p�s ou neo-frankfurtianas que tendem a demonstrar o impasse do Estado contempor�neo. Em geral, este impasse tem sido vinculado � expans�o da m�dia e sua instrumentaliza��o pelo poder pol�tico. As pesquisas de opini�o se transformaram na principal ferramenta da racionaliza��o; os meios de comunica��o de massa se constituem, neste quadro, no teatro da legitima��o. No seu ataque contra as "mito-ironias da era do virtual e da imagem", Baudrillard (que, ali�s, n�o aceita nenhuma distin��o entre media tradicionais e digitais) destaca:

"Vivemos numa realidade pol�tica perfeitamente dissociada. De um lado, a classe pol�tica, microssociedade paralela, secretamente em desemprego t�cnico, evoluindo impunemente e fadada ao que parece � tarefa exclusiva de reproduzir-se, numa confus�o end�gama de todas as tend�ncias – essa alian�a incestuosa da direita e da esquerda n�o deixando de provocar patologia e degeneresc�ncia caracter�sticas da consag�inidade. Do outro lado, a sociedade ‘real’ cada vez mais desconectada da esfera pol�tica. Ambas, afastando-se uma da outra � velocidade V mai�sculo, parecem mais ou menos destinadas a desagregar-se cada uma em seu canto – sob perfus�o gra�as ao cord�o umbilical da m�dia e das sondagens. A virtualidade, no sentido pelo qual a vontade pol�tica s� opera atrav�s das telas mentais da televis�o e da intermedia��o das sondagens, transformou a fun��o e a representa��o pol�ticas em vest�gios quase in�teis. Nenhuma dial�tica, mesmo conflitual, mant�m os dois p�los em intera��o."

O ciberespa�o desmente Baudrillard. Uma busca na WEB, a partir da equa��o booleana ("democracy" and "information") and ("internet" and "politics") resultava, em dezembro de 1997, em cerca de 19.968 documentos. A maioria deles pode ser classificada em tr�s modelos de intera��o entre o Estado, o poder pol�tico e a sociedade civil – um dirigido do Estado em dire��o � sociedade civil, o segundo buscando o caminho inverso e o terceiro voltado para a dissemina��o, na rede, de estruturas de press�o comunit�ria:

Um exemplo do primeiro modelo seria o UK Citizens On-line Democracy visa transformar-se a curto prazo numa grande iniciativa governamental do Reino Unido. O seu site na Internet j� est� operando e desenvolve, por exemplo, experimentos de democracia eletr�nica do Brents Council. O projeto tem discutido temas com a sociedade civil, como o or�amento e o planejamento do Estado.
No segundo modelo h� casos com o Democracy Network que objetiva promover debates de temas locais, estaduais e nacionais entre cidad�os, servidores p�blicos e candidatos pol�ticos norte-americanos. Candidatos e representantes eleitos podem disponibilizar e atualizar permanentemente suas posi��es e os cidad�os podem acessar, questionar e propor alternativas. A base local � Santa Monica, na California, e tornou-se poss�vel atrav�s da doa��o dos usu�rios.
Finalmente, como exemplo do terceiro modelo, encontramos sites como o Workshop Outline, conduzido pelo Departamento de Habita��o e Desenvolvimento Urbano do governo americano, desenvolve e mant�m redes cibern�ticas comunit�rias. Funciona sobretudo com base num semin�rio permanente onde s�o discutidos pontos como: o que s�o redes comunit�rias e por que a sociedade necessita delas? Por que os cidad�os desejariam usar uma rede comunit�ria? Como civilizar o ciberespa�o? Como as comunidades efetivamente se comunicam? Qual a infraestrutura tecnol�gica para o estabelecimento e manuten��o de uma rede comunit�ria?

Estes tr�s exemplos s�o provas contudentes de que, enquanto o poder de transmitir informa��es, nos media tradicionais, � concentrado social e geograficamente, as redes cibern�ticas s�o radicalmente diferentes do ponto de vista tecnol�gico: qualquer n� no rizoma pode enviar e receber textos, sons, imagens, programas. Plugado na rede telef�nica o computador torna-se editora, esta��o de TV ou r�dio, correio. Obviamente, nenhum objeto t�cnico tem, em si, a capacidade de resolver as crises do Estado. No entanto, h� evidentemente novas aberturas para a pesquisa de informa��es em rede (alt�ssima capacidade de coletar e confrontar informa��es), de elabora��o visual (recursos de computa��o gr�fica), de digitaliza��o de textos e imagens (editores de texto, tradutores autom�ticos, programas de fotografia digital, edi��o n�o linear), de recupera��o de informa��es passadas (arquivos din�micos), de interliga��o entre v�rias fontes informativas (links). Muitas destas aberturas j� s�o autom�ticas, produzidas por m�quinas.

6 Conclus�o: ambiente estruturador da nova sociabilidade


As quest�es da m�dia sempre foram: O que informar? De que forma comunicar a informa��o? Como facilitar a transforma��o das informa��es comunicadas em conhecimento? Qual o objetivo da comunica��o da informa��o? Talvez possam ser, agora: Como permitir o contato direto entre a sociedade civil e a representa��o pol�tica? Como promover discuss�es abertas sobre as quest�es e raz�es do Estado? Como interferir nas transi��es legais (legisla��o, regulamentos e informa��es governamentais)? Como estabelecer de forma aberta as prioridades econ�micas (emprego, regras trabalhistas, investimentos �ticos, desenvolvimento comunit�rio, f�runs de trabalhadores)? Como acelerar o acesso � informa��es alternativas? Como criar programas de comunica��o para popula��es marginalizadas (grupos �tnicos, analfabetos, exclu�dos)?

Estas s�o as quest�es da hiperm�dia, acrescidas sobretudo dos seguintes fatos tecno-l�gicos:

a digitaliza��o (alta capacidade de transmiss�o e de armazenagem)
a intera��o (em tempo real, em condi��es de equil�brio entre os p�los)

Os suportes f�sicos, como o papel impresso, apesar de um apelo cultural estabelecido h� s�culos, tendem a ser cada vez menos utilizados. A quantidade de informa��o digital acess�vel em qualquer parte do planeta j� �, hoje, muitas vezes superior � informa��o disponibilizada na forma de �tomos - e esta diferen�a s� tende a crescer, at� por raz�es ecol�gicas.

Do ponto de vista tecnol�gico, os mais recentes desenvolvimentos nos levam a aplica��es de busca e consulta off-line e on-line personalizada, de trabalho remoto e/ou monitorado, aos hardwares de agrega��o de media (uni�o de TV, fax, telefone, computador), aos sistemas classificat�rios ontol�gicos e de filtragem de informa��o e de contra-informa��o, aos programas de m�dia informal e/ou comunit�ria (fim da separa��o emissor/receptor). Na base dessas aplica��es t�cnicas, aparecem novos problemas te�ricos: o isolamento cognitivo (nichos de tend�ncias pessoais), a sobrecarga cognitiva (cacofonia, excesso de informa��es), a depend�ncia de informa��es (v�cio), a luta entre novos monop�lios e as redes alternativas. Por outro lado, alteram-se as quest�es de ordem �tica, advindas da alta possibilidade de manipula��o da informa��o (sobretudo das imagens) e a conseq�ente perda de capacidade de verifica��o (por conta da infla��o e velocidade informacional). Tamb�m reduzem-se as fronteiras entre informa��o e entretenimento (ou melhor, entre a encena��o da fic��o como realidade e a encena��o da realidade como fic��o).

Sabemos que a tecnologia n�o � neutra. Pode ser empregada como ferramenta (para a constru��o do mundo), como arma (para a destrui��o do mundo) ou como instrumento (para a percep��o do mundo), como afirma Laymert Garcia dos Santos. Al�m disso, ao desabarem as fronteiras tradicionais da circula��o da informa��o (distribui��o de jornais impressos, ondas de r�dio e de televis�o, �reas de cobertura de sat�lites), alteram-se as rela��es entre o global e o local. Observa-se um movimento de internacionaliza��o da informa��o e, paradoxalmente, de possibilidade de acesso global de tend�ncias locais. As novas estruturas da hiperm�dia s�o, ao mesmo tempo, aglutinadoras e desterritorializantes.

Uma das conseq��ncias mais dram�ticas da implanta��o da hiperm�dia atinge a pr�pria forma��o de profissionais de informa��o e de comunica��o. Jornalistas, radialistas, publicit�rios, designers, bibliotec�rios dever�o dar lugar a um novo artes�o: o infodesigner, capaz a um s� tempo de operar mat�rias como o texto, a imagem (est�ticas e em movimento), o som. Al�m disso dever�o ser capazes de conceber e aplicar interfaces l�gicas e gr�ficas, imaginar novas classifica��es e modelos de arquivo e produzir conex�es din�micas entre fontes diversas de informa��o.

O ciberespa�o � um dispositivo de comunica��o e informa��o interativo e estruturador de uma nova sociabilidade, assim como se constitui um dos mais importantes instrumentos da intelig�ncia coletiva. Do ponto de vista tecnol�gico, a hiperm�dia implica na transnacionalidade, na multipolaridade dos servi�os. Fica claro que passamos da fase da comunica��o interativa restrita (ponto a ponto, oral, interpessoal) e da fase da comunica��o de massa (poucos pontos de difus�o e m�ltiplos pontos de recep��o, n�o interativa) e chegamos a uma nova etapa, reunindo os avan�os da telefonia (interativa) e da inform�tica (Internet). Temos agora uma informa��o ponto a ponto, interativa, mas tamb�m em rede. Quem det�m a tecnologia tem o poder de prospectar e controlar o ciberespa�o, criar a extinguir mercados, atuar sobre as popula��es. Este � o desafio da hiperm�dia.

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Originalmente publicado em www.cac.ufpe.br

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