Deives Ferreira Castilho
Licenciatura em Física
Universidade Federal de Uberlândia - UFU


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A INTERPRETAÇÃO DOS MUITO-UNIVERSOS

Tanto quanto se trata com um sistema finito resulta possível ignorar os problemas associados com o processo de medida quântica. Pode-se sempre contar com a interação com o meio para colapsar a função de onda. Esta linha de raciocínio falha completamente, entretanto, quando consideramos o tema da cosmologia quântica. Se aplicamos a mecânica quântica ao universo em sua totalidade, a noção de um aparelho de medida externo não tem sentido. Salvo que se envolve de algum modo à mente, o físico que deseja dar sentido à cosmologia quântica parece ser forçado a encontrar um significado ao ato de medida a partir dos próprios estados quânticos, pois não é neste caso possível que um instrumento de medida externo realize o colapso irreversível das funções de onda.

O interesse na cosmologia quântica cresceu nos anos 60, com o descobrimento de um certo número de teoremas em relação com as singularidades espaço-temporais. Estas são como fronteiras ou bordas do espaço-tempo nas quais se extingue a física conhecida. As singularidades se formam a partir de campos gravitacionais intensos e se supõe que existam dentro de buracos negros. Acredita-se também que o universo começou com uma singularidade. Posto que as singularidades representam o colapso total da física, alguns físicos as consideram patologias desagradáveis. Suspeitam que as singularidades podem ser um artifício de nosso incompleto estado de conhecimento acerca da gravidade, que na atualidade é incapaz de incorporar os efeitos quânticos satisfatoriamente. Tem-se argumentado que se os efeitos quânticos pudessem ser tomados em conta as singularidades desapareceriam. Para suprimir a singularidade big-bang temos de dar sentido à cosmologia quântica.

Em 1957 Hugh Everett propôs uma interpretação da mecânica quântica radicalmente distinta que elimina os obstáculos conceituais da cosmologia quântica. Recorde-se que a essência do problema quântico da medida radica em compreender como um sistema quântico que se encontra em uma superposição de, digamos, dois ou mais estados salta bruscamente a um estado particular com um observável bem definido como resultado de uma medida (Fig 10). Um bom exemplo é o experimento do gato de Schrödinger discutido na página 45. Nesse caso o sistema quântico pode desenvolver-se em dois estados muito diferentes: gato vivo e gato morto. Em conseqüência, as idéias mecânico - quânticas não logram explicar como a superposição gato vivo - gato morto se converte na alternativa ora morto ora vivo.

Segundo Everett a transição tem lugar porque o universo se divide em duas cópias, uma que contém um gato vivo e a outra um gato morto. Ambos universos contém também uma cópia do experimentador, cada um dos quais acredita que é o único. Em geral, se um sistema quântico encontra-se em uma superposição de, digamos, n estados quânticos, então após a medida o universo se dividirá em n cópias. Na maioria dos casos, n é infinito. Daí que devemos aceitar que há realmente uma infinidade de "mundos paralelos" coexistindo com o que vemos em cada instante. Ademais, há uma infinidade de indivíduos mais ou menos idênticos a nós habitando esses mundos. É uma idéia certamente rara.

Na versão original da teoria supunha-se que o universo se bifurca cada vez que tem lugar uma medida, ainda que permanecia sempre vago o que constituía exatamente uma medida. Algumas vezes usava-se o termo "interação tipo-medida", e parece como se a bifurcação pudesse ocorrer inclusive a partir dos "saltos" normais de átomos observados. Um proponente da interpretação dos muitos universos, Bryce De Witt, a descreve do modo seguinte:

Qualquer transição quântica que tenha lugar em qualquer estrela, em qualquer galáxia, em qualquer esquina remota do universo, divide nosso mundo local terrestre em miríades de cópias de si mesmo....Eis aqui esquizofrenia a vontade.

Mais recentemente David Deutsch (veja o capítulo 6) modificou ligeiramente a teoria, de modo que o número de universos permanece fixo, não há bifurcação. No lugar dele , a maioria dos universos são em princípio completamente idênticos.

Quando tem lugar uma medida, aparece a diferenciação. Assim, no experimento do gato de Schrödinger dois universos idênticos previamente diferenciam-se, de modo que num deles o gato permanece vivo embora no outro morre. Uma vantagem desta nova imagem é que evita a enganosa impressão de que acontece algo mecânico como parecia ser o caso se o universo se bifurcasse realmente.

Duas importantes críticas tem-se levantado contra a teoria dos muitos universos. A primeira é que introduz uma quantidade absurda de "equipamento metafísico em excesso" na nossa descrição do mundo físico. Somente experimentamos nosso universo, assim que introduzir uma infinidade de outros simplesmente para explicar uma sutileza técnica (o colapso da função de onda) que ocorre no nosso parece ser a antítese da Navalha de Occam.

Em sua defesa, os proponentes da teoria argumentam que o "hardware" teórico é menos relevante numa teoria que o número de suposições fundamentais que se fazem ao formulá-la. O resto das interpretações da mecânica quântica introduz alguma classe de hipótese epistemológica para dar sentido ao que a primeira vista é uma teoria sem sentido. Entretanto, a teoria dos muitos universos não tem necessidade disto. A interpretação, assegura-se, surge automaticamente das regras formais da mecânica quântica, sem necessidade de nenhum tipo de suposição acerca do que a teoria significa. Não é necessária a introdução de um postulado aparte segundo o qual, após uma medida, a função de onda colapsa. Por definição, cada universo alternativo contém uma de cada das possíveis funções de onda colapsadas.

A segunda objeção à teoria é que se a considera inverificável. Se nossa consciência está confinada num universo em cada momento, como poderíamos sequer confirmar ou refutar a existência dos demais? Como veremos, resulta notável que a teoria possa, depois de tudo, ser comprovada, se estivermos disposto a aceitar a possibilidade de computadores inteligentes.

Um argumento final a favor da existência de um conjunto completo de universos é que isto proporcionaria uma explicação fácil a uma grande quantidade de "coincidências" misteriosas e "acidentes da natureza" que se encontram na física, na biologia e na cosmologia. Por exemplo resulta que, a grande escala, o universo está ordenado de um modo notável, com a matéria e a energia distribuída de forma altamente improvável. É difícil explicar como tão fortuita disposição tenha podido surgir do caos aleatório do big-bang. Se a teoria dos muitos universos for, entretanto, correta, a aparente pré-fabricada organização do cosmo não seria um mistério. Poderíamos supor sem risco que todas as disposições possíveis de matéria e energia acham-se representadas em algum lugar dentre os infinitos universos. Somente em uma proporção diminuta do total as coisas se disporiam do modo preciso para que aparecessem organismos vivos e, em conseqüência, observadores. Assim, pois, somente é essa fração atípica a que se observa em qualquer caso. Em breve, nosso universo é destacável porque o temos selecionado a causa de nossa própria existência!!

O Potencial Quântico

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