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O POTENCIAL QUÂNTICO
Um
tratamento inteiramente diferente tem-se desenvolvido a partir das
tentativas de se construir uma teoria de variáveis ocultas da
mecânica quântica. Como se discutiu na página 17, a mecânica
quântica prediz que a desigualdade de Bell viola-se. Se isto é
correto, é necessário renunciar a uma das hipóteses físicas que se
fizeram para prová-la. Uma delas é "realidade". Como temos visto, a
interpretação de Copenhagem de Bohr adota esta postura. A outra
hipótese é a de "localidade": em termos não muito precisos,
inexistência de propagação de efeitos físicos a velocidade maior que
a da luz.
Se se
abandona a localidade, resulta possível reinventar uma descrição do
micromundo muito semelhante à do mundo cotidiano, com objetos que
gozam de uma existência independente em estados bem definidos e
possuem conjuntos completos de atributos físicos. Não há necessidade
de borrosidade nesse caso.
O
preço a pagar é, desde logo, que os efeitos não locais aportam sua
própria colheita de dificuldades; especificamente, a capacidade para
que certos sinais viajem até o passado. Isto abriria o caminho a
todo tipo de paradoxos causais.
Apesar
destas dificuldades, alguns pesquisadores, David Bohm e Basil Hiley
de modo muito notável (veja os capítulos 8 e 9), prosseguiram com a
idéia de uma teoria de variáveis ocultas não locais, inventando o
que eles chamaram de "potencial quântico". Este é semelhante aos
potenciais mais familiares associados com campos de força tais como
a gravidade ou o eletromagnetismo, mas difere deles em que a
atividade do potencial quântico depende da estrutura holística do
sistema. Isto é leva informação acerca do aparelho de medida, de
observadores distantes e assim sucessivamente. Em conseqüência, a
situação física completa em uma região ampla do espaço (em princípio
o universo em sua totalidade) fica englobada neste potencial.
Apesar
dos extenuadores esforços para dar sentido à física quântica, não há
ainda acordo entre os físicos acerca do método que deva se adotar.
Certamente o breve resumo exposto mais acima não esgota de nenhuma
maneira o espectro completo das diferentes interpretações que tem
sido discutidas em anos recentes. É verdadeiramente notável que uma
teoria que de outro modo era mais ou menos completa em seus detalhes
essenciais faça meio século e que resultou espetacularmente cheia de
êxito em aplicações práticas, permaneça, entretanto, sem acabar.
Este estado de coisas é devido em grande parte a que as discussões
sobre os fundamentos da mecânica quântica são mormente teóricos. No
máximo tendem a envolver "experimento ideais". A região de interesse
é tão difícil de explorar que resulta muito raro que possam ser
realizados experimentos práticos para verificar os fundamentos da
teoria. Por esta razão, o teste experimental da desigualdade de Bell
efetuado por Aspect e colaboradores foi recebido com um interesse
científico enorme.
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