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A MENTE SOBRE A MATÉRIA
O
papel chave que desempenham as observações na física quântica leva
indubitavelmente a questões sobre a natureza da mente e a
consciência e suas relações com a matéria. O fato de que, uma vez
tendo levado uma observação sobre um sistema quântico, seu estado
(função de ondas) mudará em geral bruscamente, parece familiar à
idéia da "mente sobre a matéria". É como se o estado mental alterado
do experimentador, ao se conscientizar do resultado da medida, de
algum modo se reintroduzirá no aparelho do laboratório e, portanto,
no sistema quântico, alterando também seu estado. Brevemente, o
estado físico atua alterando o estado mental e o estado mental
retroatua sobre o estado físico.
Numa
seção anterior mencionou-se como von Neumann imaginava uma cadeia de
instrumentos de medidas aparentemente sem fim, no qual cada um deles
"observa" o precedente, mas nenhum leva jamais a cabo o "colapso" da
função de ondas. A cadeia pode então acabar quando se envolve um
observador consciente. Somente com a entrada do resultado da medida
na consciência de alguém, a pirâmide completa dos estados quânticos
"limbo" colapsará com uma realidade concreta.
Eugene
Wigner é um físico que tem propugnado firmemente esta versão dos
fatos. Segundo Wigner, a mente desempenha a parte fundamental na
realização da brusca troca irreversível no estado quântico que
caracteriza uma medida. Não é suficiente equipar o laboratório com
complicados instrumentos automáticos de registros, câmaras de vídeo
e outros parecidos. Salvo se alguém realmente olha para ver onde
marca a agulha no contador (ou realmente olhe o registro vídeo), o
estado quântico permanecerá no limbo.
Na
última seção vimos como Schrödinger empregou um gato em seu
experimento mental. Um gato é um sistema macroscópico
suficientemente complexo para que dois estados alternativos (vivo ou
morto) sejam dramaticamente distintos. Não obstante, um gato é o
bastante complexo para se contar como um observador e alterar
irreversivelmente o estado quântico ( isto é, "o colapso da função
de ondas"? E se o gato pode fá-lo, o que se passa com uma mosca? Ou
com uma pulga? Ou com uma ameba? Onde entra pela primeira vez a
consciência na elaboração da hierarquia da vida terrestre?
As
considerações precedentes estão intimamente conectadas com a
debatida questão do problema corpo-mente na filosofia. Durante muito
tempo, muita gente aderiu ao que o filósofo Gilbert Ryle chamava
"ponto de vista oficial" sobre a relação entre a mente e o corpo (ou
cérebro), que remonta pelo menos até Descartes. Segundo este ponto
de vista, a mente (ou alma) é um tipo de substância, um tipo
especial de substância efêmera e intangível, diferente do tipo muito
tangível de material do que são feitos nossos corpos, mas acoplada a
este material. A mente, então, é uma COISA que pode ter estados -
estados mentais - que podem alterar-se ( ao receber dados
sensoriais) como resultado de seu acoplamento ao cérebro. Mas isso
não é tudo. O eslabón que acopla cerebro e mente funciona em dois
sentidos, capacitando-nos a gravar nossa vontade sobre nossos
cérebro s e por ele sobre nossos corpos.
Hoje
em dia, entretanto, estas idéias dualísticas tem caído em desgraça
entre muitos cientistas que preferem considerar o cérebro como uma
máquina elétrica enormemente complexa, mas sem nenhum mistério a
parte, sujeita às leis da física como qualquer outra máquina. Os
estados internos do cérebro devem estar determinados, portanto, por
seus estados passados mais do que pelos efeitos de quaisquer dados
pessoais que entrem nele. Do mesmo modo , os sinais emitidos pelo
cérebro, que controlam o que chamamos "comportamento", estão
completamente determinados pelo estado interno do cérebro no
correspondente momento.
A
dificuldade com esta descrição materialista do cérebro é que parece
reduzir as pessoas a simples autômatos, não deixando lugar algum
para uma mente independente ou uma vontade livre. Se todo impulso
nervoso é regulado pelas leis da física, como pode a mente
introduzir-se em sua operação? Mas se a mente não se introduz, como
é que aparentemente controlamos nossos corpos segundo nossa vontade
pessoal?
Com o
descobrimento da mecânica quântica, um certo número de pessoas,
notadamente Artur Eddington, acreditaram que haviam superado este
impasse. Posto que os sistemas quânticos são inerentemente
indeterminísticos, a descrição mecânica de todos os sistemas
físicos, inclusive o cérebro, torna-se falsa. O princípio da
incerteza de Heisenberg permite usualmente uma gama de resultados
possíveis para qualquer estado físico dado e é fácil conjecturar que
a consciência, ou a mente, poderia ter voto ao decidir qual das
alternativas disponíveis se leva realmente a cabo.
Imagine-se então um elétron em alguma célula cerebral a ponto de
excitar-se. A mecânica quântica permite que o elétron vague por um
conjunto de trajetórias. Talvez, para que a célula se excite, basta
que a mente carregue um pouco o dado quântico e assim empurre o
elétron, favorecendo uma certa direção e iniciando desse modo uma
cascata de atividades elétricas que culmine, digamos no levantamento
de um braço.
Independentemente de seu atrativo, a idéia de que a mente acha a sua
expressão no mundo por deferência do princípio quântico de incerteza
não é tomada realmente muito a sério, em grande parte porque a
atividade elétrica do cérebro parece ser mais vigorosa que tudo
isso. Depois de tudo, se as células cerebrais operam a nível
quântico, a rede inteira é vulnerável às singulares flutuações
quânticas aleatórias de qualquer elétron dentre a miríade deles.
O
conceito de que a mente é uma entidade capaz de interagir com a
matéria tem sido criticado severamente como um erro categórico por
Ryle, que ridiculariza o "ponto de vista oficial" da mente,
qualificando-a como "o espirito na máquina". Ryle pontualiza que
quando falamos de cérebro empregamos conceitos apropriados para um
certo nível de descrição. Por outro lado, a discussão sobre a mente
faz referência a um nível de descrição completamente diferente e
mais abstrato. É algo assim como a diferença entre Governo e a
Constituição britânicos, onde o primeiro é um grupo concreto de
indivíduos e a última um conjunto abstrato de idéias. Ryle argumenta
que tem tão pouco sentido falar de comunicação entre Governo e
Constituição como falar de comunicação entre mente e cérebro.
Uma
analogia melhor, talvez mais adequada para a era moderna, pode-se
encontrar nos conceitos de hardware e software na informática. Num
computador, o hardware desempenha o papel do cérebro, embora o
software é análogo à mente. Podemos aceitar com agrado que o
resultado proporcionado por um computador está rigorosamente
determinado em sua totalidade pelas leis dos circuitos elétricos
mais os dados de entrada utilizados. Raramente perguntamos "como se
regula o programa para fazer que todos esses pequenos circuitos
disparem-se de acordo com a seqüência correta?" Não obstante,
sentimo-nos contentes em dar uma descrição equivalente em linguagem
de software, usando conceitos como input, output, cálculo, dados,
respostas, etc.
As
descrições gêmeas de hardware e software aplicadas à operação dos
computadores são mutuamente complementares, não contraditórias. A
situação tem, portanto, um estreito paralelismo com o princípio de
complementariedade de Bohr. Certamente, a analogia é muito estreita
quando consideramos a questão da dualidade onda-partícula. Como
temos visto, uma onda quântica é realmente uma descrição de nosso
CONHECIMENTO do sistema (quer dizer, um conceito de software),
embora uma partícula é uma peça de hardware. O paradoxo da mecânica
quântica é que, de certo modo, os níveis de descrição de hardware e
software tem chegado a entrelaçar-se inextrincavelmente. Parece que
não entendemos o espírito no átomo até que cheguemos a entender o
espírito na máquina
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