| Principal | Biografia | Livros de Pesias | Artigos | Peças Tetrais | Link's | Email |

Pedra da Vigia


AZUL
O MAR

O CÉU
VEGETAL
A CARROCINHA
COMUM
A PEDRA DA VIGIA
A MATA
HOJE
MANHÃ
A LÃ
ESCOLHA
A ÁGUA
BOM-DIA!
PASSAGEM
MENDIGO
MOMENTO
SONHO


IMAGEM
ADEUS!
OS DOIS
MEDO DE MÃE

ROSA FRÁGIL
PASTEL
A FOTO!
VELA
CANTO
PRESENTE
GENTE SIMPLES
SUSTOS
SALDO ATUAL
NINGUÉM
SEXTA FEIRA SANTA
O ESCULTOR
RESPOSTA






PRAZER
SEXO FRÁGIL
MEU AMOR DE VERÃO
O FERREIRO
TOQUE
GLACÉ
ENCONTRO
MENINAS
MARÍLIA
ERÓTICO



























AZUL

Azul às vezes azul
mas tão azul
que o céu é banal.
A calma da vaca
e a asa calada, azul.
A maçã é mansa
e o caldo sobe ao alto
no azul da lã, do cílio
um deslize de Deus
que deve ser azul
morando naquela casinha.

[topo]

















O CÉU

O olho contou
6000 estrelas
e o telescópio
fez o meu cardápio
perceber 1000 cardumes
lá perto de Saturno
no limite psicológico
do meu enguiço
roçando as galáxias
tão áridas uma das outras
ostras que vivem
nas barbas de Deus.

[topo]





























A CARROCINHA

Latiu
_____não tinha osso
era cartilagem de gente
_____banido do mundo
fantasma sem dono.
_____Feito de taquara
não tinha lembrança.
_____Criança de rabo abanando
pontuava os postes
_____uivava pra lua
manchando a rua.
_____foi preso
e virou sabão.

[topo]














A PEDRA DE VIGIA

Nas encostas da pupila
__repousa
____escondida
__a Pedra da Vigia
poeira de milágrima colhida
no lago calado dos amantes
_____eco dos pedintes
onde manso brilha o cristal primeiro:
_____a relva, a tarde, a ovelha e seu pastor
_____os rabos enluarados de gatos
_____e o poeta na janela.
O branco é o seu veio.
Fonte lenta ... lenta ... dos miúdos e filhotes
Ela amamenta o pulsar do mar
e dilui o anel de tantas mágoas
numa garoa de farta magia:

_____a Pedra da Vigia

[topo]





















O NOME

Vagalume

liga
a vela
quando
o Vago
une
o leme
ao lago
legado:
Mar rio
Ser cio
______do dilema.

[topo]
















MANHÃ

Clareia
o marfim na vidraça
sua gema dormente
onde meus cílios passeiam
numa lã dançante
e no sono da louça tão simples
espero um dia de graça:
______o caldo matinal
______o colo aconchegante
______o pão amanhecido
e vago como anjo camponês
numa alma de linho
nesta sala - poço de cristal
onde o reflexo desmaiou
o pólen da manhã.

[topo]

























ESCOLHA

Pra que droga?
_____Rego a Gama
___________numa mijada
_________________esparramada
rogada pro Céu.

[topo]





































BOM - DIA !

Bom-dia!
Eu quero olhar . . . olhar . . . olhar . . .
o rasteiro pé de abacate
________ a prenhe cachorra
a quietude da vaca
________ o molejo da rua vazia
Bom-dia!
Rir ao ar . . .
Assobio. Nem fui, nem vou.
E Dona Custódia, como vai?
________Costurando . . .
Ah! este ar tão igual a semente. Esta água
a mesma água que Jesus bebeu.
Toda manhã vive em manha:
com sol tão fogo
________amor/na
com chuva tão triste
________esclarece
que nada muda, eu mudo
o nervo num verso
e a névoa num novo:
________bom-dia!

[topo]





































MENDIGO

- Dona, dá uma caneca d'água?
Vago numa falha, à mingua
à cata duma casa minha
meu caminho de hortelã
uma chuva nua, um pote nu
onde tenha um sonho de palha.
Cisco como cabra
e o casco é de burro
mudo, suspenso, à tona
na carga funda da areia.
Mas as léguas são línguas
onde o absurdo: um verso
e a boca um acorde
________ ____em desacordo
Assim, mendigo o silêncio duma moringa
o colo duma palmeira
ou um estalo num tempo de vácuo.
Não temo. Tudo espero
de tanto que sou véspera.
Sou o que visto:
esta sede de cupim.

[topo]























SONHO

Se não fosse o estranho dos tempos
aquela mortalha pendendo
e o dente preso caído no chão
destes bancos de pedra
vendo vindo a cada instante
no amarelo do sonho. O que seria?
Se não fosse o ventre danado
de um incorporado veneno
de dragões e diabos
a embriagar a monotonia deste ouvido
absolvido ou condenado
montando no relâmpago de um cavalo.
______ ______________ O que seria?
Se não fosse o hálito do lago
daquele nume, aberta a noite
onde deslizam os obscuros, os caolhos, os lisos
entupindo aquerla arcade preces
onde desce o manto do silêncio.
______ ______________ O que seria?
Se não fosse estas redomas
_ de chamas esquálidas
_ _ de chuvas atormentadas
_ _ _ de telhas pingadas
_ _ _ _ de lupas herdadas. Uns óculos de aro fino
_ _ _ _ um relógio parado, uma letra florida
______ ______________ O que seria?
Se não fosse aquele véu
uma perna deserta, as dunas gêmeas
o pessego no sossêgo, luas empinadas
ou o eco de tetas lobas
nos quartos que tombam a romã.
______ ______________ O que seria?
Se não fosse rompedor
e o rarefeito agonizante
sempre uma gema esperança
ao trincar a couraça
de um tempo falsa mudança
ao nutrir a obliqua cama.
Assim não sei se era meia noite
ou o amanhecer.
______ ______________ O que serei?

[topo]


















ADEUS !

Seu Bueno foi embora
abandonou seu pé de bananeira.
______ ___ E agora?
______ ___ Onde mora?
Junto de um carrinho de feira?
_ ou numa casca de laranja?
Virou pio de coruja?
Latido sem destino?
Suspiro da espera?
Carpia o que ninguém via:
a ausência do dia
______ ___ o paradal da tarde
______ _____ o encosto da noite.
Dormia numa mancha de onça.
Bebia, porque não? Não havia lobisomem?
Deixou seu canivete
_ um arreio de charrete
um fiado do armazém. O último!
Decerto . . .
______ ___ encontrou a Rosária
______ ___ e esqueceu-me de dar adeus!
Que Deus te acompanhe!

[topo]

































MEDO DE MÃE

Assombração
desfia na sombra
a escondida capa da lua
____ seu escombro de ossos
_____ ___ o zumbido das pontas
a úmida escama da noite.
É lá longe . . . no fundo das plantas
perto do morro da Caixa D' Àgua
onde vão os casais
sumir no relâmpago dos ventos
___ descida dos lobos
esfriar as pedras, esquentar as frestas
perder-se nos uivos.
Eu nunca fui lá
___ sou temeroso aos restos
___ gemidos de ferros do Vale.
Minha mãe sempre reza para os sumidos
este deserto de gentes
os seus salmos de palha
___ coração de lenha
fiando em seu novelo velho.
___ - Tudo é pequeno
_____ser sereno vale a pena,
_____ ____diz ela
____ existindo com medo.
Eu vou sumindo
como rocha, muda,
como ela.

[topo]





































PASTEL

Eu gosto de pastel de feira
banal, à toa
remendado
_ disperso
____quieto
nem frio, nem tanto
_____ desfeito
de um pastel despercebido para despercebidos.
Pastel fútil com garapa
num gosto de pobre domingo.
Cisco de vagabundo
dado às moscas
nas cascas de um extinto mundo.
São migalhas que invisto, investigo
se sou instinto ou tingido
na boca de um amor doméstico.
É o pastel de Dona Zaíra, vizinha,
que só era vizinha, nem visitante, sozinha
aos seus gatos, folhagens, molho de chaves
indo à novena em passos miúdos
calhas de culpas
vindo para merenda com clara sentença:
vai descansar numa alma pastel!

[topo]
























VELA

Entristece
um toco de vela
parado
lá no caldo da janela.
Ela dilui o aço em tarde
convidando a luz magoada
a um sopro de sono:
____água rolante
________ marfim contente
_____ _______ serenidade dos santos
a viver o esquecido
no vôo ileso dos mansos.
Penso, então, tenho chances
na minha poesia puída . . .
___ Mas
alguém, agora, tritura o ar
irrompe sobre a crista, prédios roucos
rasga as crostas, brigas nas fisgas
apaga a luz, cheira cinzas, sobe lucros.
Tudo é mais-valia, a fera
quando ficar obscurecido vale mais, a vela.

[topo]































PRESENTE

Este presente de Natal? Eu não tenho.
Foi invento de fantasma,
rangendo as porteiras,
zumbindo no silêncio
e carinhando o menino.
Não havia carro. Não havia TV.
Não havia o peso do estanho
nem um vácuo nas almas.
Sobravam clarões no dia,
esquecimento das horas,
fogo na palha
e o susto sem pressa
de úmidas cavernas.
_____ __Tinha o azul das prosas
_____ __no rebuliço dos domingos;
_____ __tinha o amarelo das 19 horas
_____ __no abandono livre de um cansaço;
_____ __tinha o marrom da pobreza
_____ __esta atração de incertezas
_____ __e um nó que desatava;
_____ __Tinha o verde dos mangueirais
_____ __o equilibrio em cima dos muros
_____ __e a sujeira doce dos amigos.
_____ __Tinha um ar de não dar importância.
_____ __O que corria não se perdia.
_____ __
Sobram hoje apenas os mesmos nomes:
_____ __Rosário, Mesquita, Nicanor, Quatro Cantos
_____ __uma cômoda muda e um pé de chinelo,
_____ __mas a rua ficou nua
_____ __e o fantasma fugiu de medo, velho demais!
_____ __Neste natal existem vídeo games
_____ __computadores, recados de plásticos,
_____ __vozes desossadas e uma parede pichada:
_____ ______O sonho ficou cromado?
_____ _______ _____
NÃO !
_____ __Então o presente é um pedaço
_____ __onde vendo o novo me refaço
_____ __este mutirão, parto de aço
_____ __a lavandeira lustrando o quartzo
_____ __
o dia a dia, ARROZ COM FEIÇÃO
_____ __
e uma foto extinta na parede . . .
_____ __
Agora tenho uma nova sede.

[topo]


















































SUSTOS

Como foi?
- Um coice de vidro
_
num ombro de curva.
_____ _
Mais um!
Este estranho serrado por estanhos.
Este susto no meio da luta.
Mas o passado
_____
somado
_____
e, agora, certo: quieto.
Como assim?
- É o parto do acidente:
_
saltar ao poente.

[topo]




































NINGUÉM

Nem eu
______ao lado
nem eu
______vi
nem eu
______boato
nem eu
______reparti
nem eu
______morte
nem eu
______marrom
nem eu
______chão
nem eu
______com
nem eu
______alguém. Qualquer um . . .
nem eu
______usei
Nem eu
______não usei
nem eu
______nada
nem eu
______dúvida
nem eu
______em vias
nem eu
______cruz
nem eu
______opus
nem eu
______leve
nem eu
______eu devo
nem eu
______levo
nem eu
______nem, nenhum
nem eu
______o médio
______a média
______a mercadoria
______o meio dia
______o medo
entretanto eu . . .
mas o tanto já passou.

[topo]











































O ESCULTOR
_____Para Lúcio Bittencourt

Solta a venda, o passo e a armadura
ao lado do corte e a ferramenta
na ruga que o ferro levanta
e faz os espinhos e sonhos a sua pele.
Como o seu Dom Quixote, cravado,
de lâminas, espetos, abismos
armado num cavalo ferrugem
sonda e cria num olhar selvagem
de quem passa a idéia semente
que lutas inglórias são moinhos
da procura - a loucura arte.

[topo]

































PRAZER
____Para Eliane
___ que perdura como água
___ e adoro como aço

Escargot
esta púpila de antílope
e a dilata além do galope
na manada da palavra
num escarcéu azul tão boquiaberto
que no verso estala como fogaréu,
crepitando estrelas, estrondos e grilos
derretendo o tempo no instantâneo.
É aveluz que sai como não quis.
Escorregar é esfarelar o verbo?
Escrever é ver sem ter visto?
Por isto, forforeço o que sinto:
se pedra, brilha
se musgo, assusto
se cinza, brinca
se triste, invisto
numa cascata que desacata e agasalha
o redemoinho deste deleite,
amamentando o meu amor.

[topo]






























MEU AMOR DE VERÃO

Sover
os 42.° graus
no fundo das selvas
de uma seiva úmida
que me impregna
pela outra metade
e sigo um jogo oposto
de uma aposta que não escolhi
e ao seguir sou
o meu desconforto
atravessado
por ela mais do que eu,
____um pulso quebrado,
____um triângulo trincado,
____um vértice aberto,
na fome absoluta
daquela pegada
no momento ponto exato
antes da versão do fato
em que me ocultarei.
Então me reinvento
tudo o que foi o sol e o mel
e arrebenta o sul e o mar
no signo daquelas curvas
cheias de bocas nuas
saídos de um sonho
de regiões de vinho
onde se bebe,
mas não se sabe
e quando se sabe
mais sabido fica
não sabendo nada
de um ignorante
que em mim é habitante
quando novo fico, novamente.

[topo]




































TOQUE

Especiarias do Oriente
em pratos de porcelana
____________inglesa
a pérola, o marfin da África
_________o danúbio
_________a rosa dormente na tela
no gosto da pera aberta, amarela,
___(chave que inibe o mar)
entendo o pulso da fêmea matinal
____ púrpura bela
____ no ponto intocável
____ deitado no seio dela.

[topo]






















ENCONTRO

________rio
_____ arre Lia
______arrepia
_______um
_______sim.

[topo]
















MARÍLIA

________Esta saia
___ _______fia
_________desvia
__________sai
_ ______ventania.

[topo]

























O MAR

Maior olhar
não abarca todo o mar
clareia o navegante
aberto ao que vier.
Azul nuvem na espuma igual
e a asa espairada por Deus.
Agora, a água deságua
______sutil
__________imperceptível:
- Tanto mais se ama
_ ainda mais há tanto amar.

[topo]


















VEGETAL

Jesus abacateiro
espera o resto que vem
conta, reconta, desconta
a quietude do ar
o pouso numa cesta de vime
e o sossego de uma luz magoada
Ao longe . . . longe . . . o grilo.

Espia a parede branca descascada
__________o guarda noturno e seu cachorro
a água laminada, descalça
__________a dona da janela e a pedra transparente
_______________O vento está no meio
Agora reza para a louça quebradiça
e agradece: foi galho, foi feixe
__________ foi turba, foi risco
__________ agora ronda. . . ronda. . . ronda. . .
__________ atrás do cavalo prateado.
Jesus abacateiro está no colo
indo embora
enquanto o chão chora,
____________________chove . . .

[topo]





















COMUM

banana nanica
gole de pote
sono de pano
assim abano
um teco do mundo.

[topo]

























A MATA

Sopro Gêmeo, entre lilás,
na vaza serena dos corais
desliza ventre as pétalas e os gamos
os ramos das cores íris:
___________as bicas linguas do sol
___________os picos cios da mesa Rosa
___________onde os lábios sózias pousam
_____o anel de avelã e cordeiro
_____no coração da mãe seu nicho
___________pingo e fonte
___________pupila e pérola
onde Deus nasceu, siamês, súbito
_____na mata
_____que ama seu lar e filhos.

[topo]





















HOJE

Novo
_____olho
Velho
_____ovo
Gosto
_____DO TOSCO
_____O QUE TOCA
TENTO SER ÔCO

[topo]























A LÃ

Lenta e sonolenta
a lã da manhã flutua
nua no canto da sala
só no sorriso luz
e na sua dança leve
não percebe a hora
que vê-la eleva
lã alva, silente, pequena
sem arranhão ou sexo
sem sentença, perene,
sonhando no colo materno.
E o poeta que nota, clareia:
- que lã tão boba, rosa morta,
_____monótona
_ uma virgem oca
_____suja
- Agora, que a lã vire pó
_ e pouse em mim, dupla.

[topo]












A ÁGUA

A àgua flui . . .
Não tem nome
_____ fome
_____ cor.
Sem destino ou porquê.
Mansa e diluída
______ é transparente
______ ao medo, solidão ou morte.
______ Feliz. Não para ser feliz.
Sono em movimento
movimento sem tempo.
Balança___ lança
seu lado___lava
qualha a luz,
______ O Silêncio.
A água bebeu que céu?
No seu fundo afloram:
______ plantas odaliscas
escamas de prata
______ espelhos de Narciso
aparências de piratas
______ poesias de carência.
Porém não te invejo, sou outro.
Você vida. Eu dúvida.
Você quimera. Eu quero.
Você dura. Eu luto.
Você onde. Eu aonde.
Você alma e eu entusiasmo
______ e como é bom . . .

[topo]






























PASSAGEM

Tudo esta suspenso
menos este suspiro
que espia o tempo.
Este segundo é calado
________ ____ausente
apagado e claro como o passado
também disperso e senhor de si
como uma fecunda solidão.
Não traz cansaço
__ s é sobressalto
do espanto que acua
__ s do ontem em fonte
e a fonte do murmúrio
este vozeiro das laterais
________ ____frestas
________ ____uivos dos pedintes
que tateiam o fio perdido
esquecido o silêncio
________ ____o ponteiro
________ ______a boca
por não ter amanhecido a hora.
Ser no instante entregue
é não se saber acabado
________ ____imóvel
farejando o quando
________ ____despertado
ao que está perto . . . muito perto
e não saber a resposta
por detrás daquela porta.


[topo]





























MOMENTO

A lua
esburaca a noite
deserto
______________ dó.
A boca
arca a noite
açoite
______________ .
O quarto
escurece a noite
verte
______________ pó.
A poesia
sua noite
aquieta eu só.

[topo]


















































IMAGEM

Ser exposto
ser imposto
superposto
fosco
ser oposto
eis o rosto
da lasca
do esgoto.

[topo]































OS DOIS
__Para Francisca Martins de Campos

Naquela lágrima estopa
desfiam almas suspensas:
a espiriteira, a lenha e o véu de missa.
E dona Francisca escolhe sua colheita
ervilha prata
____ ervilha de roça
_____ ___ ervilha volta
sonhando com seu velho de palha
que o zinco da noite escondeu
dentro de um silêncio de peixe
para lá longe . . . lá longe . . .
bricar de pega-pega.
Ele todo dia assobiava piruetas vadias
espanando poeiras de pessêgo
na bagunça calcificada dos jornais.
_____ ___ Seu vinco puído.
_____ ___ Seu nariz sem dono.
_____ ___ Orgulho que como bolha sumiu.
Mas a cristaleira espera por ele.
_____ ___ A rede tem sede dele.
A novela só quer a novidade dele.
Francisca quer o assobio de Olímpio.
____ Quantos suspiros ainda restam
____ neste amor sem dívidas?

[topo]





































ROSA FRÁGIL

Todos juntos
como a Santa Ceia
a mãe, domingo, pedia.
____ A casa numa asa de pata
____ e a lã dançando na linha.
Tia Jacira na moldura ria
ria do caiado penhoar
que voava como fantasma
alma que ninguém aposentava.
Era assim: uma gente de louça
vivendo num bigode de bode.
Ainda o Genésio foi pescar
na água benta sua prosa
de lugar nenhum.
____Comia cuscuz
____feliz como giz.
Ele tinha a MARCA:
____a ROSA COR DE ROSA
____a Rosa frágil
pelas vozes franzinas:
do sisco que dorme
__o pio que ora
___ pingo sem som
_____sombra sem ombro
a Rosa que chora
pelas pedras porosas
que os irmão comungam aos domingos.

[topo]































A FOTO

De lá eles olham
não sabem para quem
mas enganaram o tempo
_____ ___ _____ __satisfeitos
Não estão felizes, nem tristes
estão neutros, gente de papel.
Alguns têm alma de louça,
tijela oculta no quintal,
outros são de metal
risos blindados a erosão
- são fortes porque fracos -
e eu , ali, penso em existir,
_____ ___ _____ ___resistindo
porque, de fato, não sei
o que sou: foto ou fato.

[topo]






























CANTO
_ Para Manoel Bandeira

Quero a reza triste
do silêncio de quem chora
amansa a alma
aquieta a morte
_____ ______ e a desordem.
A vela é amarela, língua amarela,
e Deus é pequeno, pio da Lua,
que vela pelos carentes
ou deveria carregá-los por instantes
estes solitários das margens
os pedintes da paz, das pombas
dos remansos de um canto
onde possam se esconder
e ter o som, o cheiro de um bambuzal
lambendo a dança dos cabelos.
Estarão esparsos, passos da garça,
cochilando com os amadurecidos
os sedentos da transparência
que vivem à toa . . . à toa . . .
desbotando o desencanto
destes becos de friezas, tão tristes.

[topo]



















































GENTE SIMPLES

Pobreza palavra áspera
que aspiro docemente.
Quando trinco
sou esquecido
e de comum me visto
no que estes abandonados vestem:
este desejo despejo
a garganta de contas
o medo da rua, caras, jornais.
Não entendo. . . e qual o dado deste lado?
No entanto, dançam
_____ _____dissolvem-se
_____ _____reencarnan-se
no silêncio das capelas
__nos cantos da cozinha
no varal de roupas
__e em qualquer lugar
onde houver o pouco
__aquele terço recolhido
e não ser mais um.
NINGUÉM É APENAS UM
O UM É O QUE BASTA
PARA LUZIR TANTO ASSIM.
E portanto ouço
muito mais do que falo
sobre a paciência dos horizontes
os simples sem simplificação
os restantes de antes:
o bilheteiro da central
__a louca do Caçununga
a puta Carmen
____ o passarinheiro do Mercado
_____ ___ a espiriteira e o coador
tudo aquilo que me aquilato
se sou de casco ou de seda
na foto destas fotos desbotadas
que pinto com meus cascos de fagulha
porque eles decerto
passarão pelo modo inverso:
_____ ______ o buraco da agulha.

[topo]























SALDO ATUAL

Não é tempo de poesia
é tempo de maresia
fruto oco brotando da boca
Cara de cavalo e dente encravado.
É tempo de pulsos cortados
calo o marginal
suspendendo o país. Susto
de um peito fosco.
Areia num corte rouco
Cacos de comboios
atolando o peixe morto.
Estes cheirosos, gordos de açougues
serão dissecados, devem ser
o que buscam ter: pedras sequiosas
pedras de sal, pedras farinhadas de cal.
É tempo de água falsa
salobra, babente e purgada.
Não é tempo de se rezar. Não há mais tempo
nem de plantio ou colheita
é tempo de cheia, vazante pelos quarteirões
anões e nãos de espuma.
Fora o empate, a empáfia
dos discursos e veias ocultas.
É tempo de não se ter mais tempo
ou, no mínimo,
é preciso sonhar.

[topo]


























































SEXTA FEIRA SANTA

Cabisbaixo o silêncio____________________prostado
e a matraca faz-se lenta, mais lenta _________maldito
no fundo dos restos, os cegos
______________calado
das restias das nuvens, cinzas,
____________ desesperado
das hóstias trincadas
_____________________medroso
dos rostos sem sonhos, rasgados,
__________irado
dos anjos de rabo, a procissão
_____________confesso
um a um passam
_________________________suplicante
arrastando os terços
______________________ sério
enquanto cantam uma canção amarela, a vela,_a dúvida

que a todos purifica____________________ anjo
e a ninguém absolve____________________dissolvido
de ser apenas parecido, prematuro,_____ preto
o rascunho de uma forma_______________morto
que molda o barro______________________atormentado
daquelas vielas puídas__________________a renuncia
onde o beco é um eco _________________tremulo
e o eco ressoa o oco___________________coxo
no costado do último dia _______________cortado
na negritude da verônica _____________ _a única
e dos irmão de São Benedito ___________bendito nome
- os benzidos franzinos - ____________ _ faminto
e as virgens de Maria ________________ _a caipira
- desnudas da carne - _______________ _a rugada
e todas as beatas das encostas________a casta
aquelas da perdida esperança _________ a criança
que esperam a sentença_______________ pedinte
desta cidade que cresce_______________crente
quanto mais emudece__________________tensa
onde cato pedaços____________________ pedreiro
o chão deste Vale queimado ___________diabos
dos vivos mais que os mortos__________ esquecidos
onde sepultura minha culpa____________ a última.

[topo]






















RESPOSTA

Poeto
porque careço.
Procuro
o que brota
____________pedaços
lá do começo.
Retrato
porque não gosto
do que gostam
____________o punho
______________o gelo
________________o preço.
Traço
_____o médio
o rosto fosco
_________castanho
______________o mesmo
ora susto, lasca
ora sumo, cisco.
Poeto
porque farejo
o desejo ou o dejeto
de ser comum.

[topo]
































SEXO FRÁGIL

Lagoa esta gota marinha
e a despe num suspiro
no beijo atrás da porta
quando cai a senha, tira a lâmpada
encosta a vertebra e amassa a corda.
Nu seus pergaminhos exala
esmalte de avelã
e o moleque assalta como jubi
a pele permeável da emergência:
ela veneza, ela vaca, ela gaia.
Derrama aquela maçã de guerra
que no sumo soma:
os pingos fecundos, o bago aboca
o fiapo afiado, o creme rima
a casca cortando aço
Rendido . . . nesta acuada greta
____________ nesta noite de vapor
onde o menino colheu o flagrante
na fragilidade do autor:
o corpo escreve certo
por linhas tortas.

[topo]













































O FERREIRO

Cabelos amarrados
de espessos cipós
retorcidas raizes de nós
brejo da selvagem ferrugem
____________quero sua cascata que ruge
Espessa ramagem quente
bicas de pelos fluentes
castanhas grutas de frutas
____________quero sua sede bruxa
Raspa, raspa esta fosca penugem
esta palha de aço, revoltada,
nos meus cílios
________no meu pé
_____________na palavra crespa, trêmula
onde amarro meu rosto de homem.
Amarra
____ inunda
_________retorce
nossos contornos de dentes
nossos estampidos de sustos
nossos comboios de múltiplos
____________à frente e atrás
____________à frente e atrás
neste espeto que molda
o ferreiro e sua brasa
numa soma perfeita.

[topo]





















GLACÉ

Souffle
teu corpo de mousse
numa banana split
banhe e leve ao fogo baixo, lento
polvilha os cantos
________em caldo leitoso
e passe no canto da boca, tudo.
________Caramelizar
no lado do pudim, na nuca
esta abobada terrena onde peco
perco a lá coque que nego . . .
Não sou de carne ou purê
quero ser salvo: glacé.

[topo]















MENINAS

O quê
domina
_____mina
e libera
_____gotas
de imãs.

[topo]















ERóTICO

Desodorante eu vou adiante
Num cinemascorpo de verdade
Lendo legendas de por-no coração.
Bolando bombos, fados e fellatios no flamboyant
Derretendo camadas de marshmellow no Sweet Motel
Lambendo o clítoris do amanhã.
Esta delicatesse de amor-angos ancas chupadas
São salivas úmidas de pontas ardentes e amadas
E-já-colando nas águas lascivas do ventre
Marcas taras de molhadas tardes.
Onde dulcoram decór cócoras cores e cheiros
Numa gelaterias de ais! eis! etas!
Sabor de doce de-leite em mordidas bucetas. NHOC!
Toques, tontos pontos de sutilezas e delongas
Alaskando batons, curvas, apertos e pequenos pulsos finos
Sem soutien salcinhas calcinhas de nuzinhas penugens douradas
.
Só o spray de odores suores fortes, fodas, fogo na pele.
Ali banham o mars-turbado de ondas, ondas, ondas
Que bezuntam de creme o Pão de Acúcar.
Trepando os picos Corcovados para ganidos raios de prazer.
São bambolês de auroras que namoram
Amores amorais que moram em mim.
Dando sêmem prá sempre.

[topo]



 

Para melhor visualização usar Explorer 4.0 ou superior resolução 800x600 16 bits cores.
Atualizado em: 01/05/2000
Copyright © 2000 - Direitos autorais reservado ao autor


 
Hosted by www.Geocities.ws

1