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PEÇAS TEATRAIS



Matarás




























PERSONAGENS:

1) Pedro Henrique, pai
2) Luana, filha mais nova
3) Patrícia, filha mais velha
4) Marcos, o noivo
5) Evandro, amigo do noivo
6) Amigos e amigas do noivo
7) O Coro (7 pessoas)


PRIMEIRO ATO.

Cenário: Sala de uma casa moderna. Estilo futurista. Metais cintilantes. Móveis com desenhos de linhas curvas, vidros, muita luz e sobretudo um ambiente com imagens projetadas, algumas em movimento, outras não. A impressão é de um lugar sintonizado com a modernidade, prosperidade e tecnologia. Decoração narcisista com muitos espelhos.
__________Pedro Henrique --- consultor de empresas, bem sucedido, porte de galã do cinema americano --- anda para um lado e outro da sala de maneira apressada e nervosa. Senta, escreve algo no computador e levanta-se novamente. Está impaciente... Uma música de fundo bem tecno, firme, mas de fundo apenas..., algo não explícito.
__________Ele vai no centro do palco, com um papel na mão, e diz:

P.H.:
__________ Preciso terminar isto logo. Tem que ser bombástico, impetuoso, sonoro. Os clientes vão adorar. Ficar babando. Impressionados com os meus títulos e cursos. Preciso citar vários autores norte-americanos para agradar, algumas frases de filósofos . (P.H. olha para o relógio) E a Luana está para chegar. Este casamento vai dar o que falar... Mas primeiro preciso pensar nesta maldita palestra de ultima hora. Preciso fazer um leve treino. Deixar a voz solta, sonora, a máxima segurança do que digo. O importante é o começo!

P.H. pega o papel, faz pose e ensaia a palestra:
__________Senhores, senhoras, clientes, caros executivos aqui presentes, meus amigos em geral

__________Como serão as empresas do futuro? Todo mundo me faz esta pergunta, desde que fui escolhido pela revista “Negócios” um dos melhores manegers deste ano. Depois de muitos estudos, cheguei a conclusão de que a resposta é mais simples do que parece: o principal problema não é desenvolver estratégias globais, mas sim adquirir capacidade organizacional global para implementar estas estratégias.
__________No mundo moderno só as mentes matriciais (P.H. vai em frente a um espelho e arruma o seu colarinho e cabelo), repito só as mentes matriciais, percebem as complexidades que as novas revoluções tecnológicas trouxeram. Nossa identidade, língua e nossos conceitos de tempo, espaço e comunidade estão todos se transformando de forma paradigmática.

P.H. fala consigo mesmo:
__________ Esta ultima foi boa, mas está faltando alguma coisa. Preciso colocar algumas palavras em inglês para impressionar. Meu Deus... está na hora da Luana chegar, eu nem comecei ainda...

P.H. recomeça:
__________Isto nos confunde. Tantas mudanças, tantas sentenças, tantas soluções e muitas inseguranças. Será que estamos preparados para o tempo novo das organizações, um “time-based” em sintonia com as demandas da concorrência global? ( P. H. repete várias vezes para si “time-based”... “time-based... ). A matriz do pool das empresas ou “home-base” já contabilizou estas mudanças?
__________Pois bem, não nos desesperemos. A salvação está ao nosso alcance, bem na palma de nossa mão. São os 5 dados do sucesso: Um: Compromisso de gerenciamento. Dois: formação de equipe. Três: medição de qualidade. Quatro: ações corretivas. Cinco: reconhecimento do sucesso.

P.H. fala consigo mesmo:
__________ Agora, tenho que ser didático. Quanto mais infantil melhor...
__________ Cabe aos líderes e consultores ,como eu, explicar tudo isto. Cumpro a minha parte. Sugiro que examinemos o que é e como funciona esta reengenharia da melhoria da qualidade, comparando-a com a nossa vida familiar. Usarei o exemplo de um casal que constitui uma família. O paralelo entre a família e a empresa é igual em tudo. ”Os homens movem-se como um grande sistema num “full time” de maneira homogênea nas grandes Metrópoles” já afirmou um dos maiores pensadores destes tempos Philip Porter.
__________A primeira decisão do casal que se une é o compromisso, o compromisso gerencial, exatamente o primeiro dos 5 passos iniciais. O homem e a mulher prometem amar, honrar e proteger um ao outro. Este acordo deve ser reafirmado todos os dias, de muitas maneiras, exaustivamente. Deve ser demonstrado quando os dois chegam em casa todas as noites.
__________ Este núcleo deve ser o quartel-general de qualquer companhia. Aqui devem ser elaborados todos os planejamentos estratégicos, empreendimentos de campanha, setores de apoio e movimentos diversos da organização.
__________ Vejam bem, este núcleo inicial deve ter a “qualidade do helicóptero”, ou seja, capacidade de enxergar os fatos com uma visão abrangente. Visão eclética, panorâmica, holística, circular...Quando nascem os filhos, eles são envolvidos por este comprometimento.

P.H. para em silêncio, pensa... :
__________ Aqui tenho que por uma piadinha. Sei lá qual é... Fazer uma comparação entre o casal, o helicóptero e uma amante:? Não dá certo.... Não tem piada disto... Conclusão: Pode pegar mal...( olha novamente o relógio) Olha aí... fico pensando em bobagens e tenho que terminar logo esta merda! Este casamento não me deixa numa boa... Fico meio aéreo... Taí achei o fim da piada: com uma amante o helicóptero só sobe!... Bobagem... Ficou sem graça... não vai pegar bem...
P.H. volta a sua imaginária palestra:
__________ A formação da equipe é o segundo dos 5 passos. Os filhos tem que ser tratados como clientes num marketing de relacionamento: total proximidade, segmentação conforme a idade e sexo, ouvir suas sugestões, fornecer informações, estimular a concorrência. Enfim, garantir o sucesso de todos nos menores custos de insumos.
__________ O terceiro passo, a criação de formas de medição, pode não parecer, mas é uma das práticas mais comuns na vida de qualquer pessoa. A família se auto-avalia o tempo inteiro, com relação a tudo, da realização dos serviços domésticos ao volume de despesas de cada um. Hoje, a medição de qualidade para o bebê é o fato de abandonar as fraldas, amanhã vêm os trabalhos escolares dos adolescentes, depois é a procura do emprego.
__________ As principais dimensões da qualidade destes clientes, digo filhos (F.H. tem um ataque de tosse bravo, precisa de um copo d’água). Digo filhos que formam a mais verdadeira clientela e devem ser notados no seu ritmo de crescimento, sua fidelidade, seu custo-benefício e finalmente, seu poder de decisão sobre outras famílias.

P.H.:
__________ Agora é um dos momentos mais importantes. Será que consegui ser duro, firme, decisivo neste trecho? As pessoas precisam sentir a autoridade, pulso, sucesso . Ninguém consegue viver sem isto! ( P.H. arregaça a manga e insufla o peito).Vamos ver...
__________ Passo neste instante ao quarto passo. Os erros... O preço da não conformidade aos objetivos pode representar um fracasso total e destruir os passos anteriores. Quando a família ou algum componente dela comete erros tem que absorver a sanção correspondente. Comprar uma casa com goteiras, perder um objeto de valor, deixar de fazer a lição de casa, esquecer um aniversário são fatos que precisam de corretivos. Toda família comete erros, uns aprendem, outros não... Temos que pensar em padrão de desempenho: “zero-defeito”.
__________ Isto pode parecer um exagero, mas não é. A exclusão é necessária em qualquer empreendimento, pois nem todos se adaptam as novas novidades. É até natural um grau de resistência por parte de alguns porque tudo o que surge para mudar causa um incomodo, rompe o comodismo. Uns ficam, crescem; outros devem ser eliminados! Na verdade, as empresas de visão imitam a evolução biológica das espécies. Verificamos que os conceitos evolucionistas são mais úteis para ajudar a selecionar os acertos e excluir os erros. A nova concorrência exige uma postura mais agressiva de mercado, uma disputa sem quartel pela clientela, uma guerra de preços, uma estratégia de crescimento aliada a uma tática firme de “fricção” nos concorrentes. O aspecto crucial não é o conteúdo da ideologia de uma empresa, mas até que ponto a empresa acredita nesta ideologia, é fiel a si mesma e a expressa...
__________ Toca a campainha. F.H. vai abrir a porta e entra sua filha Luana cheia de sacolas de grifes. Mulher bonita, ar angelical, fala encantada e suave, porta-se com gestos moderados e veste-se numa roupa simples, mas de “marca”, óculos na última moda, calça acinturada, salto alto, sensual. Deve ter um rosto bem definido, tipo plástica.

Luana:
__________ Oi , papai. Tudo bem? O que você está fazendo? A Lúcia ligou? Voce pegou o carro que nos levará a igreja? E as passagens? O Marcos está super preocupado e me atormentando que eu sou muito lerda e não acelero...

P.H.:
__________ Calma...calma... está tudo sob controle... As passagens estarão aqui ainda hoje. O pior são estas palestras, clientes telefonando, carteira de investimentos..., estas coisas todas..., ainda mais na semana do casamento da minha filhinha querida. Eu preciso é parar e pensar só em você.
Luana fazendo beicinho beija o pai:
__________ Estou tão realizada. Minha agenda está um horror. Ainda não consegui distribuir todos os convites... meu cabelo está curto demais (vai até o espelho) e esta pele eu não agüento mais...(que é perfeita). Tudo bem... são ossos do ofício, mas já comprei todo o enxoval e o Marcos me disse que vai me dar muito mais. Estou cansadérrima... o shopping está cheio demais, muito popular com aquela gentalha toda... nem se compara com aquela nossa viagem até New York e aquele charme todo...

P.H.:
__________ Voce está maravilhosa e ,agora, não temos que pensar nisto. Esta tudo “ all right” e sair conforme imaginamos. Pena, que sua mãe não esteja mais conosco. Fico meio...

Luana:
__________ Ah... papai, sempre que o senhor lembra-se dela fica triste. Prometa-me que não vai ficar assim...justo neste hora que estou feliz... eu estou me saindo tão bem... tão top... tão igual classuda como ela.
P.H.:
__________ Não tem importância. São coisas só de momento. E o Marcos como é que está?
Luana:
__________ O senhor nem imagina. Ele só pensa em nossa viagem. Está tão romântico...
P.H.:
__________ Olha lá com a minha menininha... Não vai ser romântico demais...
Luana:
__________O que é isto? Ciúmes?
P.H. abraça o ombro da filha e caminham até a frente do palco:
__________ Brincadeira. Conheço o Marcos de longa data. Sujeito promissor, rápido, decidido, ambicioso, sabe o que quer.
Luana:
__________ Pudera. Foi o senhor que nos apresentou.
P.H.:
__________ Eu sei disto. Ele é o homem ideal para você. Sujeito responsável. Fiel. Tem um grande futuro em nossa empresa. Ultimamente aplicou corretamente uma carteira de investimentos no fundo de uma empresa que eu não botava fé e deu um tremendo lucro. Nossos acionistas vibraram. Por vezes, ele é melhor do que eu...
Luana:
__________ Melhor que o senhor eu não conheço.
P.H.:
__________ Não era o que a sua irmã pensava. Por falar nela, quando que ela chega?
Luana:
__________ Eu já pensei que ela já tivesse chegado. O senhor sabe: ela sempre aparece de surpresa. Ela não telefonou para o senhor?
P.H.:
__________ Você bem sabe que ela não costuma se dirigir a mim. Aquela tal da vida independente e tal, muito auto-suficiente, sempre irônica, agressiva, a gente não entende muito bem. Luana: Pai, por favor, nada de brigas com ela, tá? O senhor bem sabe que ela tem um gênio chato... aguenta só um pouquinho... a gente precisa ser mais altiva... um pouco de atenção e uma dose extra de paciência não fazem mal a ninguém.
P.H.:
__________ Você me entende bem. Não sou eu que começo as discussões. Fico quieto até não poder mais. Mas bobo que não sou. Não vou ficar só levando. E por falar nisto eu preciso combinar uma coisa com voce antes de sua irmã encrequeira chegar. É sobre algumas divisões de propriedades que preciso fazer e quero colocar em seu nome: a fazenda lá em Tiete, as terras que comprei lá em Mato Grosso e outros negócios mais. Quero ser pra voce bastante explícito: não quero sua irmã irresponsável no meio disto. Ele iria torrar tudo junto com estes modernosos que ela anda. Para todos os efeitos diga a ela que eu comprei aquele apartamento perto daqui para voce de casamento.
Luana:
__________ O senhor é que manda! Business are business, desde que eu possa continuar com meu padrão de vida... voce sabe: eu adoro uma festa, um carro, uma roupinha..., mas a Pat é tão despojada... tão desligada que nem ia se importar, mas se voce quer assim... O meu negócio é outro: viver..., viver..., viver... e mais nada. Mamãe me dizia: Aproveite...que o tempo passa rápido. Eu só quero viver em paz, esquecendo o que não presta. Brigas e brigas nunca mais. Eu com o Marcos somos do mesmo jeito: deixamos a tristeza de lado e nunca gostamos de discutir. Quero matar os outros de tanta bondade.
P.H.:
__________ Deixe comigo... ocupe sua cabecinha com coisas mais leves e deixe estes negócios comigo. Eu sei o que é...
__________Chega Patrícia de sopetão, a filha mais velha. Cabelo curto, colorido, esguia, traje bem moderno, tipo cluber, menos bonita que Luana, muitos colares e jeito mais descontraído, algo agressiva.
Patrícia:
__________ Tudo bem, gente.(cumprimenta a todos com um tchauzinho bem alegrinho) Estavam falando de mim? Brigas e brigas. A porta não estava fechada...
Luana:
__________ Que nada! Ë o papai e suas eternas discussões de negócios que não terminam nunca e a gente aqui sempre acalmando. Você sabe, ele não para.
Patrícia:
__________E vocês como estão?
P.H.:
__________Bem, muito bem. Tudo é festa. Estou contente pelo fato de te ver aqui. A sua irmã estava ansiosa pela sua presença, mas como sempre você não tinha confirmado e o casamento é daqui a dois dias.
Patrícia:
__________ Imagine faltar neste instante. É uma vez só, depois... Quem viu ótimo, quem não viu... passar bem...
P.H.:
__________ Bom, vou ter que sair e não sei que horas vou voltar. Esta maldita palestra que tenho que fazer. Fui estúpido de marcar nestes dias. Ainda hoje, também tenho que regularizar a compra do meu presente para a Luana. Então até mais...
__________P.H. sai, beija Luana e cumprimenta Patrícia de maneira mais formal.
Patrícia:
__________ Quê presente foi este que papai lhe deu?
Luana:
__________ Você precisa ver. Ele nos comprou um apartamento lá naquele prédio bonito da rua Roque Santoro, aqui perto, que é o máximo e me deu um colar que era da mamãe. Falou que eu era parecida com ela. E eu me considero mesmo: sou pra cima, extrovertida, amiga de todos, dada... de vez em quando ponho um decotinho a mais... me mostro, porque ninguém é de ferro, mas só isto.
Patrícia:
__________ Tá... vou fazer de conta que não sei o que ele tem. Qual a novidade? Você sempre foi a queridinha dele. Vai dizer que não é?
Luana:
__________ Eu não! Tivemos uma educação igual. Eu que não gosto de briga, nem o Marcos, discussão não é com a gente mesmo. Quero ser como nos anos 60: Paz e Amor.
Patrícia:
__________ Você está mais parecida com os anos 50, com cara de debutante
Luana:
__________ Mas eu gosto disto. Podem me chamar do que quiser... patricinha (Patricia faz uma cara de nojo), mimada, não-me-toque... de tudo. Eu estou de bem comigo. Se eu não me gostar...
Patrícia:
__________ Você sempre se amou.. Mas vamos ao que interessa: Como voce está? E os preparativos?
Luana:
__________ Voce não imagina... É uma loucura. Não paro há uma semana. Corro daqui, corro dali. Já estou exausta e ,voce sabe, ainda nada começou. Mas estou super contente. E o Marcos então? Não para de falar nos seus planos: viagens e negócios. De vez em quando é até um chato. Mas eu gosto dele mesmo assim. Voce precisa ver o meu vestido de noiva: está super simples... o Bob Baly caprichou. Ele quer que eu me pareça... como é mesmo?...diáfana... pode? E a igreja vai ficar linda com o arranjo do Rafa Gil: ele quer só algumas bromélias e afirma que isto já está no meu mapa super pessoal... Mas e voce o que tem feito? Patrícia: Tudo e nada, mas tenho uma baita novidadona para te contar.
Luana:
__________ Ai meu Deus! Conta, conta que eu já estou super-ansiosa. Deve ser quente... Voce nunca conta nada! Lembra quando conheceu aquele gato do Luis Guilherme e viajou para Buenos Aires sem ninguém saber. Mas e daí? Deixa eu até adivinhar. Hummmmmm (Luana faz cara de pensativa) está namorando um modelo, rico, olhos azuis, fortão e super legal, não é?
Patricia:
__________ Nada disto. Antes fosse...Não sei... Tenho vergonha de lhe falar, mas vou contar assim mesmo... Voce vai ser a primeira. Pois bem: estou grávida!
Luana assustada:
__________ Grávida? (reação de desconforto). Tá louca? Justo voce...e papai o que vai dizer? Meu Deus! Alguém mais já sabe?
Patrícia:
__________ Estou lhe dizendo: voce é a primeira pessoa.
Luana: Eu não acredito. Quantos meses?
Patricia:
__________ Deve ser quase três já.
Luana:
__________ Quem é o pai? Voces estão juntos? Vão casar? E como ele é?
Patricia:
__________ O pior é que eu não sei muito bem quem é o pai Creio que foi um garoto lá da faculdade do último ano de direito, mas não tenho certeza... acho que é porque fiquei um tempo com ele.
Luana:
__________ Mas voce não vai contar para ele?
Patricia:
__________ Já te disse que não tenho certeza, mas mesmo que tivesse não contaria. Não gosto de ter homem pegando no meu pé. Sou uma mulher independente e pronto. Saberei me virar sozinha...sempre me virei... vou acertar umas coisas com papai e me arrumo, pode deixar!
Luana:
__________ Que coisas? Dinheiro? Mas voce sempre me disse que detestaria ser mãe, colocar um filho no mundo, jamais seria uma burguesona...
Patricia:
__________ Dinheiro? É pode ser... (evasiva). Não quero esperar até ele morrer... Depois tenho meus direitos, quero apenas o que é meu: fift-fift. Agora este jeito de mãe.. (fica pensativa por alguns segundos e sentencia): mãe a gente não nasce, a gente desarruma pra ser.
Luana:
__________ Nossa ... que jeito chato de dizer uma coisa tão divina.
Patricia:
__________ É isto mesmo. Agora este papo de divino... não sei...Tô a fim de ter esta criança custe o que custar. Eu sou mais eu. O que voce acha que o papai vai pensar?
Luana:
__________ Ah ... eu não sei! Ele está com a cabeça nas nuvens por causa do meu casamento e dos negócios como sempre. Voce conhece...
Patricia:
__________ Eu quero mais que ele se foda...Se não gostar, azar...Na verdade, estou ainda meio tonta com isto. Durmo, mas não durmo e tive um sonho apavorante ontem. Nem consegui ficar legal depois.
Luana:
__________ Como?
Patricia:
__________ Estava sozinha num corredor comprido, creio que numa passarela de igreja e ninguém em volta. Estava meio escuro e apenas uma pequena luz bem fraquinha em cima de mim. Estava vestida de branco, não sei se era ou não de noiva ou de camisola. Parada, meio parada e na hora em que eu andei senti algo correr na minha perna e foi quando eu olhei para baixo: um sangue viscoso, nojento, grosso corria na minha perna. Era quente, parecia um bicho e manchava a parte de frente do vestido. E o pior é que quando eu mais andava, mais aquilo escorria. Eu queria gritar, mas não conseguia. Fiquei sufocada como se estivesse num poço e não era... Foi horrivel....
Luana acaricia a sua irmã:
__________ Voce está muito nervosa. Agora voce só deve pensar no bebe maravilhoso que vai nascer. Vai ser tudo lindo e maravilhoso, voce vai ver e esqueça este baixo astral, não tem a mínima importancia. Aproveite mesmo este momento tão feliz. Vamos... o jeito é ficar pra cima.... pra cima....como diz este autor meio filosofo, este papo de neuro... não sei quê: Jair Monteiro: Não existe a tristeza, existe a não alcançada beleza. Não é lindo?
Patrícia:
__________ Tudo bem... Voce tem razão. Vamos nos divertir e muito. E o todo poderoso? Te mimando muito? Super carinhoso com a filhinha queridinha dele?
Luana:
__________ Agitado como sempre. Tenta fazer tudo ao mesmo tempo. Para pouco aqui em casa, mas está super feliz. Está fazendo o casamento conforme eu queria: um conto de fadas, mas sem ser muito babaca. Tudo simples e chique, elegante. Nem reclama do preço, quer tudo perfeito.
Patricia disfarçadamente irônica:
__________ Também pudera: o rei está casando a sua filha, sua princesa, com toda a pompa que esta dinastia merece. Glória a Deus nas alturas e paz aqui na terra sobre os homens...seus súditos, sócios, servos dele, etc.. etc...
Luana:
__________ Você está é com ciúme, isto sim. Não está?
Patrícia (voz altiva, mas calma, compassada):
__________ Eu não fiquei por aqui. Não vivo com vocês. Não quero esta côrte real. Sou de outro mundo. Conheço muito gente diferente, mais ousada, não tem muita encanação, sabe o que quer e não importa o perigo. Não fica agasalhada nas costas de ninguém. Sou eu mesma, nunca olho no espelho, nem no meu nem dos outros. Sei bem o quê quero e o quê faço. Minha vida eu dirijo: se quero dormir, durmo; se quero comer, como; se quero ter prazer...

O coro entra pela primeira vez :
____________________ Prazer dos lábios
____________________ quente os caldos
____________________ a fisga dos bardos
____________________ os gemidos nos quartos.
____________________ Ela está pronta
____________________ solta aos sete ventos
____________________ embalada aos quatro cantos
____________________ redonda para toda a loucura
____________________ pulando na noite dura
____________________ nos picos junto as bocas
____________________ desatinada, feiticeira
____________________ escorrendo nos seios a frescura
____________________ nas dobras a brancura
____________________ a sede cachoeira sem fim
____________________ a febre alcalina
____________________ derramando onças pelas ventas
____________________ para seus dois, três, quatro esporar
____________________ que arcados estalam de prazer.

Luana (voz benevolente):
__________ Tá bom... Tá bom... Todos sabemos que voce é assim: mais moderna (falando com certa ironia), mas pelo amor de Deus! Não vamos começar tudo novamente. Você saiu daqui não foi porque quis. Teve que sair. Não dava pra aguentar, não é mesmo?...Teus acessos, suas explicações sem sentido, os pedidos de perdão e depois tudo de novo... não se soube com quem..., voltava machucada, quieta, depois explodia em cima da gente. Eu consolando papai, super-sòzinha, aguentando tudo, tentando dar explicações que não eram minhas, consolando de todos os lados sem saber como, no escuro mesmo. Mesmo o Marcos naquela época estava esquisito, não queria se intrometer. Eu nem sequer saia de casa. Hoje eu quero esquecer aquilo tudo. Não culpo o papai, penso muito nele e sempre estarei a seu lado. Todo mundo diz que eu sou boazinha como se isto fosse um defeito, mas eu acho legal ser boazinha. Aprendi isto lendo aquele livro do Jair Monteiro. Vou casar, mas não me separar dele. Vou me dedicar como mamãe fazia.

O coro entra:
____________________ Escorregar no azul
____________________ percorrer o lençol, sem tempo
____________________ de costas pular ondas
____________________ tecer redes sem pontas
____________________ enrolar o ontem e os montes
____________________ dançando descalça nas nuvens.
____________________ De manhã vestir folhas
____________________ a tarde, conchas
____________________ a noite servida como rainha
____________________ e quando dormir não somar
____________________ ficar leve como linha
____________________ ficar breve como vento
____________________ ficar neve, um conto
____________________ ficar noiva como poucas
____________________ ficar buscando nada
____________________ o sonho de um sonho.
Patricia:
__________ Eu sei que voce deve estar bem, mas eu vivo carregada de lembranças tão esquisitas. Carregadas mesmo. Voce tem que me ouvir. Lembra-se daquela vez que fomos juntas para o Rio de Janeiro com papai e depois a mamãe foi logo atrás?
Luana:
__________ Lembro-me. E daí?
Patricia:
__________ Nós estávamos voltando de avião e eu estava sentada lá nos fundos. Devia ter de 9 a 10 anos. Sei lá... por aí. Pois bem, papai foi conversar comigo. Eu estava sozinha e notei que ele estava diferente. Parecia que queria me confessar algo. Ele que era sempre tão distante, por vezes nervoso, angustiado. Parecia ter um segredo e daí me disse frases sem sentido, confusas, tipo assim: ---- “ Eu tenho as minhas preferencias... e não é ninguém... voce sabe de quem estou falando....”. Daí falou que eu não poderia contar pra ninguém... falou do vovô também...Uma frase lembro-me bem: “ Nunca se esqueça que papai tem medo de perder, enquanto a minha Pat é tristinha porque sabe que já perdeu”. Perdeu o quê? Alias o quê é que estou dizendo? Estou um trapo. Que bobeira....
Luana:
__________Patrícia, vamos esquecer tudo, tá? Vamos deixar de lado estas lembranças. Somos felizes assim. Eu quero que você me ajude a organizar meu chá de cozinha. Já conversei com minhas amigas e todas elas vem. Elas me disseram que podem me fazer uma surpresa. Estou super ansiosa e não quero que o Marcos apareça. Os homens... você sabe como são, super engraçados e aprontam... Mas não quero mesmo o Marcos aqui, fica com ciúme, chato... Também não quero aquele amigo dele, o Evandro... fica me dando umas olhadas... é confiado demais pro meu gosto.
Patrícia:
__________ Pode deixar, eu converso com o Marcos. Não deixo ele vir. Ele também deve estar preparando uma festa para despedida de solteiro em outro lugar. Faz tempo que eu não o vejo, ele também vai ter uma surpresa em me ver. Vou procurá-lo!

Cenário 2. Um galpão. Caixas empilhadas como num depósito. O ambiente é desarrumado e a luz é fraca. Patrícia está mais moça, de saia curta, sem soutien.
Marcos chega por detrás dos caixotes e segura nos seus seios. Ele é moreno, musculoso, camiseta bem justa no corpo, tem um jeito envolvente, algo insolente.
Marcos:
__________ Estava me procurando meu amor?
Patrícia:
__________ Sim. O que combinamos não vai dar certo. Tenho medo que minha irmã desconfie e meu pai descubra. Quero ter mais tempo com você...
Marcos:
__________ Tem tempo para tudo. E eu já estava com saudade. Me dou muito bem com você e eu quero mais. Sou um vampiro e quero te possuir até a última gota.
Patrícia:
__________ Está bem, mas hoje não. Fiquei de encontrar com ela e já está mais ou menos na hora. Preciso ir.
Marcos:
__________ Da ultima vez foi a mesma coisa e você ficou. Cheirou todas e eu te possui como ninguém. Você é minha. Você não me ouviu. Sou seu vampiro (Marcos levanta a saia de Patrícia e enfia o dedo do meio em riste dentro de sua calcinha. Ela segura o pulso de Marcos com as duas mãos, faz um movimento balanceado de prazer, mas logo para).
Patrícia:
__________ Eu sei que não me aguento. Quero fazer de tudo. Você tem ainda um pouco daquele pó? Se tiver, eu faço o que você quiser. Mas não hoje, estou preocupada. Papai está me achando estranha e andou dizendo coisas que não gostei.
Marcos:
__________ O quê? Ele desconfia de mim?
Patrícia:
__________ Não é isto. Falou coisas que eu não entendi bem. Minhas roupas, meu corte de cabelo, meu baton, até dos meus ombros e pernas. Acho que estava bêbado.
Marcos:
__________ Então não tem importância. Isto é bobagem. Está cheio de serviço e lá no gabinete ele pensa que é o tal. Grande bosta. Gosta daquelas suas frases modernosas... É o grande filósofo dos shoppings... O pastor da Nova Era...O “management”, o “new competitor”, “special management” desta tribo de tupiniquins.
Patrícia:
__________ Não fale assim dele. Você depende dele. Mas o que eu quero mesmo é que você me arrume mais algumas gramas.
Marcos:
__________ E eu o que ganho com isto? Você está se esquecendo do que eu lhe pedi? Vamos fazer uma farrinha com mais gente
Patrícia:
__________ Não esqueci não. Acontece que fiz isto poucas vezes e não sei se elas vão topar. Hoje cada uma delas tem namorado. Também são amigas da Luana e elas não querem trair ninguém. Aquilo foi mais curiosidade boba entre nós mesmas... Com voce junto não sei...
Marcos:
__________ Você quem sabe. Eu te conheço muito mais que sua irmã. Virgem você não é e eu não sei quem te furou. Pode não ter sido...
Patrícia:
__________ Olha lá! Vai com calma. Eu não sou putinha nem o que você está pensando. Só quero viver sem prejudicar ninguém. Você sim que é um carreirista, aproveitador, vampiro das coisas do meu pai. Quer ser riquinho e casar com aquela lerda...Vai tomar no cú! (Marcos desfere uma bofetada na cara de Patrícia que cai no chão, começa a chorar e responde com ódio). Eu vou embora desta porra. A sua porra. A porra do meu pai. Eu sem porra nenhuma. Minha irmã ... minha irmã ... eu sei qual porra ela quer...

O coro entra:
____________________Quebrado o cubo primeiro
____________________trincado o seu meio
____________________nasceu a disputa e o ladrão
____________________o amor e a traição
____________________a sentença da exclusão:
____________________Caim matou Abel
____________________jorrou o sangue sem perdão
____________________ninguém mais viu o céu.
____________________Nem a história se entendeu:
____________________grávidas sem atenção
____________________homens de sexo frágil
____________________rugidos de crianças sem mãe
____________________e todos trocam de lugar
____________________sem nada entender
____________________nem os deuses dão
____________________sequer no paraíso estão
____________________só o diabo ficou feliz
____________________ao ver a contradição
____________________homem e mulher num
____________________mundo por um triz..

Uma voz no escuro lê a seguinte notícia de jornal (voz pastosa e afetada):
__________ Acabei de receber o convite de casório de dois gatos da new generation: Luana Ferraz e Marcos de Almeida Pádua. Eles estão armando uma borbulhante party, evocando os bons fluidos que pairam no ar. Como o querer bem é uma terapia, desejo aos nubentes um beijinho para virar um beijão. Só para refrescar a memória a Lu é filha de um dos maiores hostess de Sampa, o meu amigo P. Henrique e irmã de uma das maiores clubbers da nossa tribo: a Pat Ferraz, uma “enfant terrible”.
__________ Também fiquei sabendo que estão convidados os pops Vivi Ribeiro, Mark Dois, o DJ Regis Bombom, Babinho Ferraz, o cybermano Mr. Pil, o incrível Bob Baly --- o anjo mais diabinho que conheço --- e o decorador de todos Jac Gobbi. Assim parece que todos irão chochar. O nosso mundinho vai virar um mundão.

Coluna Beauty por Ana Love

A iluminação fica mais clara. Patrícia está mais velha e Marcos de terno também. Os dois encontram-se no mesmo galpão.
Marcos:
__________ Porque você me telefonou depois de tanto tempo, sua louca?
Patrícia:
__________ Não está contente de me ver?
Marcos:
__________ É pra isto que me chamou? Vou me embora.
Patrícia:
__________ Desculpe. É que gosto de provocar... Tenho um recado da Luana para te dar. Ela hoje a noite vai dar o chá de cozinha e quer que você apareça só no final. Pode levar seus amigos que lá estarão muitas meninas. Vai ser super legal. Eu vou deixar todas muito animadas e daí vocês podem brincar super a vontade.
Marcos:
__________ Como assim? Patrícia: Sei lá! Vocês não vão fazer uma festa também. Ficar animados... Vamos juntar todo mundo. Meu pai não vai estar lá... Vai rolar um som quente e todo mundo está a fim de se divertir. Só não sei se você pode ficar mais doidão... algumas fantasias.... Nem todo mundo topa e sabe como é... tem muita gente careta.
Marcos:
__________ Eu vou pensar...Que horas devo chegar?
Patrícia:
__________ Você calcula...É só entrar e todos vamos para o céu de mãos dadas.
Marcos:
__________ Vagabunda! Fêmea de porra!

Cenário 3. Festa de mulheres na sala da casa de Luana. O som corre solto, musica tecno, destas que são enjoativas, mas indicam modernidade. Todas estão alegres e brincam muito com a noiva. Todas elas estão vestidas de homens.

Amiga l dirigindo-se para Luana:
__________Hoje você não escapa. Vai ter que beber todas.
Patrícia:
__________Hoje tudo vai girar. Bota mais som. (Patrícia está visilmente alcoolizada)
Luana:
__________Já tomei muita bebida... Não sei não... Estou meio alta...
Amiga 2:
__________ Não tem problema, não tem ninguém aqui. Ë só festa. Amanhã é o Marcos que vai deixar você mais zonza (Risinhos)
Amiga 3:
__________ (Esta fica sentada apenas observando Luana e constantemente olha para Luana. Tem um jeito mais fechada, observadora, calculista).
Patrícia:
__________ Não tem ninguém por aqui pra encher o meu saco, estou livre, quero muito vento, correr azulada nesta Metrópole, pulando..., pulando..., pulando na pole position de todas as mulheres e homens: lembrar do Eduardo, Fábio, aquele Fernando maravilhoso da faculdade, o João Paulo, até aquele viado do Egberto. Hoje tudo vai girar. É a noite das fêmeas. É a noite das cúpulas. É o grito das lobas. E eu vou ser mãe, mãe, mãe de merda?, mãe de santa? Mãe sem homem? Mãe de coisa nenhuma?
Todas ficam meio paradas, depois correm para perto de Patricia, menos Luana e a amiga 3 que sempre sentada no sofá fica dirigindo a noiva um olhar esquisito.
As amigas em torno de Patricia:
__________ Conta... conta... conta....
Patricia:
__________ Vou contar porra nenhuma. Só isto: Meti e pronto, nem me lembro muito bem, mas gozei... gozei... e gozei... e hoje também quero gozar e assim, assim estou com calor e vou tirar minha blusa. Tô muito zoeira...Isto aqui é uma festa de despedida ou não é? (Ela vai tirando a roupa ao poucos )
Amiga 1:
__________ É isso mesmo! Hoje vai tudo girar. Que bela noite para se perder o cabaço. E os homens do pedaço? (Ela também vai sempre perto de uma mesinha e dá uma cheirada) Tirem a roupa vocês
Amiga 2:
__________ Quem tem que tirar é a Luana. Ela tem que se preparar... Mostrar para nós a sua experiência. Vamos agarrá-la (As colegas despem-na bem rápido só de calcinha). Prepará-la para o grande momento de sua vida: sentir o que é bão... um cavalão nas costas da gente... Vamos ficar nuas. Esta noite é só da mulherada...
Amiga 2:
__________Eu não gosto de homem deste jeito dos dias de hoje: apressado, nervoso, parecendo um bicho de ansioso. Gosto de algo mais romântico, daqueles que beijam antes a gente toda... daí eu me solto... faço o que ele quer, mas com modos... tenho os meus segredinhos... alguns são infalíveis...
Amiga 3:
__________ (Esta permanece inalterada no sofá. Não tira a roupa e fica olhando magnetizada para os corpos das outras que também devem estar tirando a roupa mais devagar).
Amiga 2:
__________ Você é virgem Luana? Não tem nenhum Marcos aqui na sala que pode prepará-la? A Tão pura Luana conhece ou não o amor? Luana, depois da fuzarca, senta no sofá rindo, está meio exausta. Senta-se de pernas abertas, próxima da amiga 3.
Amiga 3 (dirigindo-se para Luana):
__________ Eu vou ensiná-la! (Esta também tira a roupa e um silencio se faz na sala. Todas observam seu jeito masculinizado de se despir. Dança insinuosamente como um striper na frente da noiva. Finalmente dão um assobiozinho: fiuuuuu! Fiuuuu!)

A amiga 3 fica nua. Puxa o corpo de Luana e as duas ajoelhadas começam a se roçar e a amiga 3 chupa o peito de Luana.

O palco fica as escuras enquanto é projetado um filme pornô com mulheres transando entre si por alguns segundos. A música deve ser “quente” também.

O coro, de repente, entra com um murmúrio contínuo: uuuummmmm...., a música fica mais baixa, enquanto uma voz feminina, forte, recita sozinha:

____________________ Cuidado ao matar as cabeleiras
____________________ ao acordar os javalis
____________________ ao se entregar como sereias
____________________ para o deus oposto, nosso rosto,
____________________ nos nervos, cúpulas e unhas
____________________ mulheres de sexo com muito sexo
____________________ os seus pelos enforcam
____________________ seus seios enroscam, enfernizam,
____________________ suas ancas espancam
____________________ estas mordidas em volts
____________________ desconcertando quarteirões.
____________________ Daí os homens ficam burros
____________________ nas suas bocas submarinas.
____________________ E o nosso ventre ardente e formigueiro?
____________________ Somos cadelas uivando em lua cheia
____________________ somos putas ambivalentes
____________________ somos as janelas dos motins
____________________ somos chupadas pelos vulcões
____________________ cariocas, cubanas e holandesas
__________ (Uma voz masculina começa a berrar: Para...para...para....)
____________________ nossos sucos de enchentes e sòzinhas
____________________ mulheres das sete espadas coxas
____________________ não provoquem os dardos
____________________ porque somos tarântulas falhas
__________________________________________ falhas
___________________________________________ falhas
____________________________________________ falhas....

__________ A luz volta a ficar mais clara, as mulheres estão dançando, a amiga 3 sai de cima da noiva. Mas de repente os homens invadem a festa em gargalhadas
__________ (os amigos de Marcos, todos, tem que estar carecas) e as mulheres são surpreendidas no seu ato e saem correndo apavoradas. (Neste instante um rock bem pesado, masculino, guerreiro, tipo batida do Rolling Stones deve soar bem alto).

FIM DO PRIMEIRO ATO.

As meninas aparecem vestidas no começo deste ato, menos Luana que se apresenta vestida com um penhoir, ainda sensual e Patricia que deve estar com um camisola branca. Os rapazes ficaram espantados e Marcos fica visivelmente nervoso diante da cena encontrada.
Marcos:
__________ O que aconteceu aqui? Porque você está vestido deste jeito? E aquela piranha perto (apontando para a amiga 3)?
Luana:
__________ O que você veio fazer aqui? Estragar a minha festa como sempre? Estúpido... E este bando de babacas o que estão fazendo na minha casa?
Marcos:
__________ Não fale desta maneira com os meus amigos. Responda a minha pergunta.
Luana visivelmente alcoolizada:
__________ Não interessa. Vá embora que eu quero me divertir à beça...
Marcos:
__________ Quero saber se algum homem passou por aqui.
Luana:
__________ Até agora não vi nenhum...(Olha ironicamente para todos os lados) Leve estes cafajestes daqui, senão vou chamar...
Marcos:
__________ Você não vai chamar ninguém. Vocês não teriam coragem de mostrar esta zorra para ninguém.
Amigo 1 (voz pastosa de descontrole):
__________ Eu quero é zoar. Vamos aproveitar esta zorra. Vamos dar uma divertida nesta zorra.
Evandro:
__________ Vamos embora, tá! Chegamos na hora errada!
Patrícia:
__________ Vocês estragaram o nosso divertimento. Vieram para se intrometer onde não eram chamados. Queremos ficar livres de vocês.
Marcos:
__________ Aposto que foi esta lésbica-putinha que aprontou tudo isto.(aponta para Patrícia). Onde você chega fede.
Evandro:
__________ Vamos embora, pelo amor de Deus... Isto não vai acabar bem.
Amigo 1 apontando para Patricia:
__________ Eu quero mesmo esta gostosinha. Ela vai ver como gosto de fêmeas.
Evandro:
__________ Isto não tem nada a ver.
Vamos sair Amigo 1:
__________ Que nada! A festa tem que continuar. Somos amorozinhos, super bonzinhos. Vamos colocar uma musiquinha terna e bonita para os noivos (Ele vai até o aparelho de som e coloca Smiles de Charles Chaplin e começa a dançar. Depois pega Patricia pelos cabelos, arrasta-a até o centro e tenta força-la a também dançar)
Luana (música continua, mas diminue alguns tons):
__________ Seus bunda-mole. Aqui tem mulher pra mais de metro. Vocês não são de nada. Mostro tudo e vocês continuam brochas...
Marcos:
__________ Desculpem-me... (tenta acalmar os amigos, apontando Luana) Ela não é deste jeito. Nunca foi assim... Tirem esta merda de música! (Mas a música continua a tocar)
Luana:
__________ Você que é outro palerma. (dirigindo-se a Marcos) Não sabe de nada e nunca ficou sabendo... Sou muito mais mulher que qualquer uma destas aqui.
Evandro:
__________ Isto não vai acabar bem... e eu não tenho nada a ver com isto Marcos tenta agarrar Luana e tira-la da sala. Ela se bate e dá um tapa no rosto de Marcos que lhe enche de porradas, enquanto o amigo1 dança ao som da musica e desfere safanões em Patricia Luana: Não ponha a sua mão nojenta em mim seu capacho de merda, consultor de merda, limpa sapato de meu pai.
Marcos:
__________ Vá pra puta quiu pariu! Você está assim, por causa daquela vaca que me mandou vir aqui... Eu nem sabia de nada.(Alguem desliga a música).
Patrícia:
__________ Sou uma vaca sim, fedida sim, mas daquela que você gosta e já comeu. Já se esqueceu? Você me chupava e pedia para que eu fizesse algumas coisas em você. Já se esqueceu? Batia em mim e depois falava que eu era muito melhor que minha irmã que você não tocava. Mas tocava uma boa punheta por mim, não?
Luana:
__________Quando aconteceu isto? Já sei... Já sei: há 3 anos atrás naquela crise fodida em que eu passei e você pouco aparecia. Era porque estava comendo a minha irmã. Achou ela mais gostosa? Fazia o seu tipo de mulher mais vulgar? Vinha toda arrebentada de tapas, cheirada..., cheirada mesmo como uma biscatinha qualquer
Marcos:
__________ Foi ela que me seduziu... Queria trepar comigo para te desafiar... provar que era melhor que você.
Patricia (dirigindo-se cinicamente para Marcos, mas olhando também para amigo 1 canta Garota de Ipanema):
__________ Olha que coisa mais linda/ mais cheia de graça/ são estes viados/ que chegam e que passam/ empinando o rabo/ cheios de amor
Marcos dirigindo-se para amigo 1:
__________ Pode aproveitar... De um beijinho nela
Amigo 1 pega no braço de Patricia e força ela a se ajoelhar:
__________ Lambe... lambe... a minha bota, puta!
Patricia:
__________ Seu viado, viado!
Amigo 1 começa a chutar no ventre de Patricia que diz:
__________ Eu estou gravida, gravida, vou ser mãe!
Amigo 1:
Eu detesto feto/feto é porra/feto é rato/feto é gosma/ feto fede/ feto encarde
Evandro e os outros:
__________ Eu não fico mais aqui.
Luana está enlouquecida:
__________Vai ficar sim! Porque naquele tempo eu era bem comida por você, por voce Não se lembra? Sempre fui muito gostosa para todos os homens. Menos para este corno. O que vocês pensam que eu sou? A mais purinha? Doce? Delicada? Vocês são uns bananas. Isto existe? Que mulher vocês homens querem? A santa medieval? Aquela que nunca bateu uma siririca e depois não chupou o seu próprio dedo? Isto nunca existiu... Sempre confundimos vocês...Mulher se mostra pra mulher. Sabe por quê? Vocês, machos, tarados, bigodudos, musculosos são todos uns brochas. A gente sempre teve que se virar. Vocês tem medo de serem decepados. Nós somos diferentes. Não temos compromisso com ninguém, a não ser enganar os trouxas, como você: rei dos cornos...
Marcos apontando para Evandro (voz meio melodramática):
__________Você me traiu. Comeu minha mulher e eu não sou corno que aceite tudo isto. O meu melhor amigo, quase sangue do meu sangue Você vai ter que pagar. Eu conheço esta casa. São todos doentes e sei onde encontrar o que quero. Sei de todos os podres, os negócios escusos daquela pilantra com pinta de Miami, desta biscate que já transou com outras e desta merda que eu só casaria pra subir em cima de todos vocês. Agora, você Evandro, que tanto eu confiava...isto eu não esperava!
Patrícia:Vão embora pelo amor de Deus!
__________Marcos procura pela sala algo que possa ferir alguém.
Patrícia:
__________ Luana, vamos chamar papai. Não podemos ficar aqui na mão deste monstro.
Luana:
__________ Agora, vejam só, a biscate pede para chamar o papaizinho porque não está aguentando. Você sempre teve uma alma de mulher numa cabeça de homem!
__________ Marcos procura algo e acha uma raquete de tênis para avançar em Evandro.
Marcos:
__________ Eu vou mostrar pra vocês quem eu sou. Sou muito macho. Tenho poder. Fico aceso quando eu quero. Comigo ninguém pode, nem Deus.
__________ As pessoas começam a correr pela sala. Evandro atarraca-se com Marcos, restabelece uma luta. Só Luana ri... Marcos desfere várias raquetas em Evandro que cai. As raquetadas, então, são dadas essencialmente na cabeça. Depois marcos pisa várias vezes na cabeça do amigo e diz:
__________ Eu não quero te matar. Isto é pouco. Agora voce vai ser uma mosca... mosca...mosca...

Surge o coro num tom festivo:

____________________ Salve o rei de sal
____________________ salve a pimenta do rei
____________________ salve o festival do punhal
____________________ salve o diabo solto
____________________ salve o deus nu
____________________ salve a picada na deusa vencida
____________________ quem mandou saborear do mal?
____________________ Cadê as pernas de estopim?
____________________ cadê os faróis que te guiam?
____________________ cadê a bica do luping?
____________________ Estas são as pedras da Metrópole
____________________ estas são as farpas do estopim
____________________ é a chupante partilha do vendaval
____________________ ancas em estúpido tropel
____________________ uma anomalia
__________ (Aqui todas as mulheres presentes, coro e artistas dizem juntas)
____________________ o destino está na anatomia
____________________ o destino está na anatomia
____________________ o destino está na anatomia

__________ Evandro está caido. Luana fica séria e estática, enquanto todos que permanecem agitados. Nas mão de Marcos sangue. Patricia caida também com sangue na roupa na altura do ventre. Os amigos fogem desesperadamente da sala, menos as amigas.

Luana, subitamente sóbria, põe um roupão sobre si mesma.

Luana apontando para Evandro caído:
__________ Agora, o que vamos fazer com isto aqui dentro?
Patrícia:
__________ Temos que chamar o papai. Eu não disse? Ai... Ai... minha barriga está doendo!
Marcos:
__________ O que é que eu vou falar? Tudo não passou de um desespero. Nós estávamos loucos.
Luana:
__________Temos que fazer alguma coisa. Esconder isto. Colocar num automóvel e talvez despejar num rio.
Marcos:
__________ É isto mesmo. Vocês não tem nenhum cobertor por aí?
Patrícia:
__________ Nada disto. Ele nem morto está. Mas como vamos tirar este corpo daqui? Nosso carro está na rua. Todos irão nos ver. Precisamos chamar o papai. Ele é bem mais racional, não é Luana? Tô meio tonta... (sempre com a mão na barriga) Luana: Você o conhece melhor do que eu? Mas o que vamos contar para ele? É melhor invertamos uma história.
Marcos:
__________Já sei! Vamos contar que ele estava brincando, escorregou neste pé de mesa e a bateu com a cabeça nesta quina.
Patrícia:
__________Deixa de ser criança. Vamos contar a verdade. Ele há de nos compreender.
Marcos:
__________ Meu Deus... meu emprego foi pro saco
Luana (dirigindo-se exclusivamente a Patrícia):
__________ Você é mais esperta de todos nós. Temos que inventar uma mentira para papai. Ele não vai aguentar...
Patrícia:
__________ Deixa comigo. Eu conheço ele melhor que todos vocês. Vamos falar tudo o que houve aqui. Ele já sabe dos meus podres... e desconfio que sabe muito mais do que vocês imaginam. Mas ele é forte, seguro, nestas situações deve ser um super-homem.
__________ Luana telefona para Pedro Henrique (enquanto isto as atrizes se vestem e tentam esconder o corpo morto, retirando-o de cena) que logo depois chega esbaforido.
Pedro Henrique:
__________ O que houve aqui? Porque vocês me telefonaram de maneira tão urgente?
Patrícia:
__________ Papai! Você tem que nos ajudar. A Luana estava fazendo sua despedida de solteira, quando os meninos chegaram e houve uma discussão entre todos e Marcos brigou com Evandro. Ele agora está tremendo e já embrulhamos num cobertor e está lá no quarto.
Pedro Henrique:
__________ Filhos da puta! É a desgraça da família. Nojentos. Ninguém tem mais limite. E a culpada de tudo isto é você (dirigindo-se para Patrícia), Luana jamais me aprontaria esta. Sua desgraçada. Você já estava querendo acabar com a festa de casamento. E seu merda ! (dirigindo-se para Marcos) caia fora daqui e nunca mais apareça.
Marcos numa voz mais compassiva:
__________ Eu não vou mais casar com ela! Eu não sou corno, não! (Marcos some da sala com um rato sendo espantando)!
P.H.dirigindo a voz para a porta:
__________ Vai casar sim. Onde já se viu desmarcar compromissos. O que irão dizer de nós? E você, sua fingida.. Sempre me prejudicou... Você nunca foi minha filha....
Patrícia fica quieta e curvada:
__________ Desculpe papai! Faço o que voce quiser de hoje em diante... Estou com dor (mão na barriga)
Pedro Henrique (dirigindo-se as amigas que saem):
__________ Voces vão se fudê! Fora daqui suas putas. Mulheres servem pra chupar nossa porra e ainda deixam vazar na boca. Vacas!
Pedro Henrique (dirigindo-se para Patrícia):
__________ Eu não quero saber o que aconteceu! Mas já tinha sacado que algo estava para acontecer...São eternos pesadelos, principalmente quando estou na sua presença. Espero sempre ser derrubado, roubado dentro de minha própria casa. E o pesadelo é voce: aqueles seus vestidos, seus decotes indecentes, sua boca sempre repetindo... repetindo... repetindo...
Luana:
__________ Repetindo o quê, papai?
Pedro Henrique:
__________ Não interessa, não interessa. Mas você sempre volta... Parece que nunca me quis, o seu próprio pai que desde quando você era criança te procurava. Mas você sempre foi ....é assim mesmo: um castigo, punição...
Patrícia:
__________ Desculpe, papai. Eu sei que nunca fui ...

O coro entra:

____________________ Desamparo
____________________ os números não formam par
____________________ a casa está úmida
____________________ o beijo partido, cortado
____________________ foi o cordão umbilical
____________________ o pão que o diabo amassou.

Luana:
__________ Papai, temos que resolver agora isto. Talvez encontrar uma desculpa, um jeito qualquer de nos livrarmos daquilo... Além do que ele é muito pesado para nós carregarmos...Ir para o hospital?
Pedro Henrique com uma fúria descomunal:
__________ Cale a boca sua burra, eternamente tapada. Puxou a sua mãe que não fazia nada, nada na vida. Imprestável. Como voce. Você viu (P.H. imita os trejeitos de uma mulher fútil ) o que comprei hoje... Ai você precisa saber o que houve entre os Cavalcanti... Dizem.... Porra, porra , porra! Eu sei o que eu faço e vou fazer.
Patrícia e Luana juntas:
__________ O quê?
Pedro Henrique senta no sofá e diz:
__________ Também não sei..., mas o casamento vai acontecer.
Pedro Henrique vai ao telefone:
__________ ---Alô! Pode me chamar o delegado, o Gabriel é claro!
__________ ---Tudo bem? Aconteceu um problema aqui em casa e gostaria que voce me quebrasse um galho. É sim... mais ou menos igual como da outra vez lá no parque.
__________ ---Sei lá...dá um jeito...não vai te prejudicar em nada. É um filhinho de papai que precisava de uma lição... Claro que eu também vou ligar... Eu dei dinheiro pra votação dele, é meu chapa... Tá bom... seja artista, cara, crie uma estória...
__________ ---Estou com pressa.... depois te conto, não interessa o quê aconteceu. Agora o negócio é como os outros devem acreditar. Lógico, como sempre... como sempre!

FIM DO II ATO.

__________Cenário 3. Um salão de festas. Luzes acendendo e apagando. Fumaça. Uma balada ligeira, bem movimentada, romântica anima a todos, que devem estar nos mesmos gestos dançantes, a mesma máscara em todos, com os braços levantados como uma Igreja evangélica, cantando (todos os participantes no palco):
____________________ O meu amor/ não vai parar de sonhar
____________________ chega para cima de mim
____________________ o meu amor /não vai acabar
____________________ porque vem /// do céu... do céu.... do céu... ///
____________________ Digo mil vezes/, insisto, sou assim:
____________________ quero cantar nos teus feitos
____________________ quero me enrolar nos seus cantos
____________________ quero beijar /// o Pai... o Pai... o Pai....///
____________________ Meu sonho... meu sonho... meu sonho
____________________ O meu amor não tem medo
____________________ ele vem num vento inteiro
____________________ o meu amor/só vai lançar
____________________ esta balada /// do céu... do céu... do céu...///
____________________ digo mil vezes/insisto, sou assim:
____________________ quero pular nos teus beijos
____________________ quero me enrolar nos seus cantos
____________________ quero abraçar /// o Pai... o Pai... o Pai... ///
____________________ Meu sonho... meu sonho... meu sonho
____________________ Nesta hora/ quando eu me jogar
____________________ e você vier/ com jeito sem fé
____________________ digo não tem importância
____________________ venha na onda /// do céu... do céu... do céu...///
____________________ digo mil vezes/insisto, sou feliz:
____________________ quero pular nos teu beijos
____________________ quero me enrolar nos seus cantos
____________________ quero me acabar de desejos
____________________ Só /// meu sonho.. meu sonho... meu sonho...///

Terminada a música, os atores deverão ficar numa atitude de super descontração. Alegres, risinhos soltos e variados, conversa animada, jovens e felizes da vida. Evandro encontra-se sentado numa cadeira de rodas com expressão de estar totalmente paralisado. Apenas os noivos encontram-se de costas para todos. A cerimonia é de casamento com o casal de mãos dadas. Surge Pedro Henrique que se encontra num tablado acima de todos e um aceno faz um gesto que deseja falar algumas palavrinhas...
P.H.:
__________ Com licença, com licença... Senhoras, senhores, meus amigos aqui presentes
__________ Como serão os relacionamentos do futuro? Todo mundo faz esta pergunta e eu como pai deste casal que ,agora irão se unir, também fico perguntando. Depois de algumas reflexões cheguei a conclusão que a resposta é mais simples do que parece: o principal problema não é desenvolver grandes questões teóricas sobre o amor, mas sim adquirir capacidade de deixar fluir esta competência para implementar as uniões.
__________ No mundo moderno, só as mentes matriciais percebem o movimento dinâmico da nova juventude que dia a dia se modifica. Nossa identidade, língua e nossos conceitos de moral, valores e sentimentos estão se transformando de maneira paradigmática.
__________ Os visionários percebem para o século XXI, nas grandes metrópoles, uma insanidade criadora fenomenal com constantes fins de ciclos de vida geniais, com turbos sensações impensáveis, reciclando constantemente as bioemoções, mais extâse nas interconexões, eliminado os subprodutos que possam importunar o “perfect world”. Digo para vocês, os vencedores corporativos do amanhã serão os canibais inventores de hoje!
__________ Isto nos confunde. Tantas mudanças, tantas sentenças, tantas soluções e muitas inseguranças. Será que estamos preparados para o novo tempo dos novos relacionamento em sintonia com as demandas de uma nova cultura?
__________ Pois bem, não nos desesperemos. A inovação está ao nosso alcance, bem na palma de nossa mão. São os 5 passos em busca de um aprimoramento individual e coletivo. Um: abertura incondicional aquilo que chamo “liberal self”. Dois: busca de parcerias. Três: medição da qualidade amorosa. Quatro: ações corretivas. Quinto: sucesso no divertimento. Sugiro que examinemos o que é e como funciona um relacionamento amoroso.
__________ (Surge numa tela projeções de várias fotografias de paisagens plácidas, calmas, identificando paz)
P.H. retoma o discurso:
__________ Usarei o exemplo de uma pessoa em busca de um conhecimento maior de si mesma. A primeira decisão é abrir-se para fora, sem preconceitos, para perceber o seu eu. Exatamente o primeiro passo: “liberal self”. Incentivar a concorrência das emoções, reavaliar as expectativas daquilo que é sobejamente conhecido, procurar novos projetos de qualidade de vida, comparando custos e benefícios são os objetivos desta primeira etapa.
__________ (As imagens e os sons da tela vão aumentando de intensidade, confundindo um pouco mais a platéia...)
__________ Vejam bem, este primeiro momento deve ter a qualidade de um porto. Deixar chegar naves, informações, embarcações de todo o exterior e na dificuldade desta novidade aparelhar-se para os novos tempos.
__________ Encontrar a companheira adequada é o segundo passo. Como ela deve ser? Uma busca de parcerias deve ser a busca dos mesmos interesses, mesmo padrão de ajuste nos diversos pontos, mesmo consenso, eliminando conflitos que podem desajustar as matrizes anteriormente elaboradas com tanto afinco. Neste momento o casal deve ter a qualidade de uma espaçonave que não consegue dar marcha a ré.

__________ O terceiro passo, a medição da qualidade amorosa é extraordinariamente simples. É analisar cada momento do seu dia a dia, buscando o chamado ’zero defeito”, o ponto máximo da concordância, da harmonia, da completude. Podemos neste novo milênio organizar a morte, a dor, a solidão, eliminando os produtos sombrios, os virus da desarmonia para longe. Estes aspectos indesejáveis são os “bugs” da metrópole.
__________ Assim podemos entender o sentido maior da frase do Criador: Não matarás! Não matarás!
__________ Neste instante, na tela, deve ser projetado um noticiário em que o repórter deve dizer: Já foi encontrado o jovem Evandro de Castro Monteiro. Filho de uma das famílias mais tradicionais da cidade este seqüestro chocou a todos. A polícia afirma que o crime foi feito por conhecida quadrilha que tem o seu ponto na favela do Beira Mar. Os responsáveis devem ser detidos a qualquer momento. Porém comenta-se que o jovem foi violentamente espancado e pode ter ficado com sérias lesões cerebrais. E agora todos estão perguntando: até quando as nossas autoridades irão esperar para tomar as devidas providencias contra estes monstros e marginais que estão atacando o nosso sossego?
__________ Neste final, o casal que estava de costas para público deve ficar de frente. É Marcos e Patrícia, vestida para o seu casamento com ares de uma hippie dos anos 60. Alguns atores vem para arrumar e aprumar a sua vestimenta. Novamente todos devem ficar numa atitude de risinhos soltos, trejeitos efeminados, descontraídos, mostrando que a vida é um eterno divertimento. A música tipo clubber deve ir aumentando intensamente de volume. Forma-se uma passarela para os noivos desfilarem. Evandro deve permanecer em lugar de destaque na sua cadeira de rodas. Os atores deve se preparar para jogar o arroz da prosperidade. É Patricia com um ar lívido que entra no corredor. Na medida em que seus passos são dados os atores perdem a voz, mas não os mesmos gestos, como num filme mudo. A música vai mudando para um sentido trágico. A roupa da noiva vai caindo lentamente e ela fica de camisola, sem calcinha e seu sexo tem que ficar bastante realçado. Uma luz chorosa recai apenas sobre ela. Esta deve caminhar até o lugar mais importante do palco e sua veste deve estar manchada do sangue viscoso, grosso. Os outros atores devem ficar gesticulando como se estivessem em uma festa, ao contrário dos passos lentos e penosos de Patricia. Daí deve recitar esta poesia de encerramento, na medida em que a luz tão intensa no começo vai se apagando lentamente:

____________________ Deixa
____________________ verter a larva
____________________ rubra: a pérola da minha face
____________________ queimar os pastos
____________________ inundar os rostos
____________________ com minha dor sem razão.
____________________ Deixa
____________________ expor o turpor
____________________ duro, a goma seca da minha mão
____________________ o corte transverso
____________________ o espinho que não sei
____________________ com minha ausencia e não sou.
____________________ Deixa
____________________ espantar a todos
____________________ os claros, eu tenho ódio deles
____________________ digo: Matarás, Matarás
____________________ são os inimigos que preciso
____________________ fisgar suas bondades
____________________ com minha bondade
____________________ e não sou.
____________________ Deixa
____________________ eu ficar só
____________________ encolhida na vergonha
____________________ em tudo que jogam fora
____________________ a desamada, a traída, corroída
____________________ voces precisam de minha ferida.
____________________ Deixa
____________________ eu abraçar a todos
____________________ com os destroços ocos
____________________ eles nascem no nada
____________________ sou pequena, somos pequenos
____________________ e assim podemos chorar juntos
____________________ o rubro do meu sangue:
____________________ Meu Deus! Meu Deus!
____________________ Toda paz é vermelha.

__________ O Coro em uníssimo: Toda paz é vermelha. Toda paz é vermelha.


__________ No final os atores devem ficar de frente para a platéia com mascaras iguais, gestos de festa novamente. Apenas Evandro, sentado na cadeira de rodas com um ar de paralisia, deve ser retirado de cena de uma maneira bastante compassada. Uma música americana, de festa, indicando viagem deve ser ouvida. Patricia , enquanto isto, vai sendo vestida alegremente pelos outros atores como se fosse viajar. Patricia permanece estática, Pedro Henrique e Marcos aproximam-se. Este ultimo dá a mão a Patricia, enquanto esta recebe do seu pai a passagem de avião.

Pedro Henrique:
__________ Aqui está o nosso presente. Esta é a sua passagem. Aproveite bem esta saída. Divirtam-se bastante. Nova Iorque é o máximo!























































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































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Atualizado em: 26/02/2000
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