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BARROCO BRASILEIRO
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“ É a solução brasileira da
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colônia.
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É o místico, e logicamente a
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independência”.
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Mário de Andrade
__________ Paraíso, purgatório e inferno.
Era com este paradigma religioso que se formava o imaginário dos nossos
colonizadores que ocuparam o Brasil. O pais era um misto de abundância,
águas caudalosas, frutos grandes e fartos, clima ensolarado e constante
(Paraíso). De outro lado era também uma terra de penitencia a cumprir,
espaço de degredados com penas datadas de sofrimento e contrição (Purgatório)
e finalmente um lugar pavoroso habitado por homens de duas cabeças, monstros
que praticavam o canibalismo, vivendo ao lado de insetos enormes, aves
perigosas e gigantescas que causavam pavor (Inferno).
__________ Brasil, colônia portuguesa, nascia
no capitulo do universo burguês, capitalista, humanista-materialista em
sua conquista, mas ao mesmo tempo impregnado de uma religiosidade medieval,
onde o homem era uma presa disputada entre Deus e o Diabo. Ganância rimando
com um espirito salvacionista. Exploração que gerava mais orações e portanto
mais angustias. Mais pecados que podiam ser pagos com ouro e prata. Para
atingir o objetivo de progresso e enriquecimento metropolitano era preciso
combater o principal mal: o homens e seus instintos endiabrados. Enquanto
a natureza era vista como criação divina, sem máculas, os habitantes deviam
ser vigiados nos seus costumes torpes, principalmente os indígenas, os
escravos negros e os homens livres sem ocupação definida.
__________ Esta miscigenação de raças, credos
e culturas que aqui se mesclou representava o caldeirão do Diabo.Bárbaros,
atrevidos, crueis, sensuais, grosseiros, etc. foram adjetivos usados na
grande maioria dos documentos colônias referentes a estas “gentes bestiais”.E
quais eram os pecados? “Vícios da carne --- o incesto com lugar de destaque,
além da poligamia e dos concubinatos --- nudez, preguiça, cobiça, paganismo,
canibalismo...”apontou a historiadora Laura de Mello e Souza.
__________ Durante os dois primeiros séculos
da colonização foram montadas estruturas políticas e mentais que tinham
como função fiscalizar a desordem do Novo Mundo, tendo como paradigma
a civilização européia. O cristianismo como princípio, a obediência como
ideal, o mercantilismo colonial como prática foram moldados por um terreno
tropical, mestiço, informal e escravocrata. Tentou-se uma transplantação
de civilização.
__________ Assim sendo, a cultura tinha por
objetivo consolidar o domínio português combatendo os desvios irracionais,
a revolta dos espíritos, a paixão dos olhares, o excesso de fantasia e,
portanto gerou uma arte conformista, apagada, sem originalidade, calcada
numa religiosidade repressiva, não inventiva, pálida arte daquilo que
se fazia na metrópole. O “jesuitismo” até a primeira metade do século
XVII gerou nos vários campos da atividade artística um ambiente, com raras
exceções, de inexpressivas obras de arte, desde a literatura, passando
pela quase inexistentes pintura das capelas ou pelo imobiliário rústico
indo até a confusa arquitetura urbana de Salvador alheia a princípios
renascentistas.
__________ No entanto, se as expressões dos
colonizadores não foram expressões contundentes da América Portuguesa
a realidade cotidiana, por outro lado, gerava imperceptivelmente uma nova
gente mestiça com uma originalidade própria. Isto já era percebido no
século XVIII quando da famosa frase escrita pelo jesuíta João Antônio
Antonil em sua obra Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas:
“o Brasil é um inferno para os negros, um purgatório para os brancos e
um paraíso para os mulatos”.Isto é, estava nascendo de dentro da hierarquia
colonial de brancos e negros um extrato intermediário que não se moldava
ao mundo do trabalho institucionalizado, escapava pelas laterais da vigilância
e dos costumes impostos.
__________ Estes mulatos, frutos das intimidades
dos brancos explorando sexualmente a negra escrava, compunham uma camada
intermediária que pelo fato de ficar no meio das contradições permitia
ao mesmo tempo a associação e a negação dos antagonismos. Aquilo que deveria
permanecer um abismo entre as classes sociais gerou um extrato de mulatos
ambíguos quanto a obediência. Da exclusão brotava um talvez...
__________ É de se notar que Antonil que
era um jesuíta, um representante da mais eficiente instituicão de vigilância
cultural da colônia: a Companhia de Jesus foi aquele que soube justamente
perceber o novo que irrompia das barbas da ordem existente. Das entranhas
brotava o estranho.
__________ Darci Ribeiro analisou o aparecimento
desta camada intermediária de homens livres e mulatos com muita propriedade:
“Evidencia-se na perplexidade do missionário que, em vez de famílias compostas
de acordo com o padrão europeu, depara no Brasil com verdadeiros criatórios
de mestiços, gerados pelo pai branco em suas múltiplas mulheres Índias...É
bem provável que o brasileiro comece a surgir e a reconhecer-se a si próprio
mais pela percepção de estranheza que provocava no lusitano, do que por
sua identificação como membro das comunidades culturais novas, porventura
também desejoso de remarcar sua diferença e superioridade frente aos indígenas”
__________ Foi no século XVIII que este grupo
explodiu nas Minas Gerais. Civilização urbana decorrente da descoberta
do ouro. Admite-se que em 1776 na região aurífera haviam 196.995 negros,
70.604 brancos, enquanto os mestiços somavam 82.110 almas. Daí proliferavam-se
ocupações manuais --- que não eram bem vistas na ordem escravocrata ---
como biscateiros ambulantes, garimpeiros, artesãos, serventes, músicos
e artistas escultores, arquitetos e pintores.
__________ Estes criadores tentavam se afirmar
na rígida-hierarquia colonial através do oficio de construtores. O interessante
é notar que era proibida em Minas Gerais a existência de monastérios ---
frade que se enriquecia normalmente davam mau exemplo ---e assim não existiu
uma arquitetura monástica como no Rio de Janeiro e Salvador.Desta maneira
abriu um espaço na ordem dominante para a afirmação de novos elementos
dotados de grande espírito de improvisação.
__________ É justamente deste extrato confuso
que procurava a sua identidade que começou a brotar uma originalidade
cultural em meio a alienação de um gosto artístico requentado da metrópole.
Da suntuosidade imitativa de um maneirismo extravagante surgiu o barroco
mineiro aberto a um sincretismo de tendências estilísticas. Da soberba
a pluralidade. Das branquitudes as misturas.
__________ Foi através das irmandades religiosas
que se deu o acesso ao processo de criação. Estas não eram somente confrarias
de devotos apegados a determinados ritos de adoração, mas eram também
organizações corporativas que atraiam donativos de pessoas desejosas de
afirmação do peso social do grupo a que perteciam. Os mais ricos associavam-se
na Ordem Terceira de São Francisco ou na Ordem Terceira do Carmo. Os negros
crioulos,isto é, naturais da terra agregavam-se sob a invocação de Nossa
Senhora das Merces, ao passo que os negros africanos tinham por emblema
Nossa Senhora do Rosário e finalmente os mulatos irmanavam-se na Irmandade
de S. José ou de Nossa Senhora da Boa Morte.
__________ É de se notar que numa sociedade
com pouquíssima mobilidade estas irmandades funcionavam como pólos de
aglutinação social de diversos grupos antagônicos que tentavam legitimar
sua disputa através da formação destas confrarias. A Igreja funcionava
como um grande teatro público, desaguadouro de manifestações de consensos
e disputas, onde no desfile das procissões, roupas de ornamentação, oratória
eclesiástica, pinturas, esculturas, construções os homens conseguiam demonstrar
até que ponto conseguiam conciliar os valores dominantes com suas rebeldias.
Pois bem, foi nesta confluência tão difícil de destrinchar que o barroco
mineiro mostrou sua originalidade.
Barroco
Brasileiro
__________ É muito difícil conceituar uma
definição completa do barroco europeu que atingiu o seu auge no século
XVII. Não existiu no Velho Mundo um conjunto de características uniformes
deste estilo. Escreveu Arnould Hauser: “... o barroco compreende, pelo
contrário, esforços artísticos tão diversificados, os quais surgem em
formas tão variadas nos distintos países e esferas culturais que parece
duvidosa a possibilidade de reduzir a um denominador comum.”Existiu um
barroco católico diferente do protestante, outro barroco de estilo mais
clássico diverso do mais sensual, e ainda outro de preocupações mais naturalistas
diferente do mais conceitual.
__________ No entanto, foi nos países católicos
que este estilo ficou mais exacerbado, extravagante e confuso. Ali se
criou uma produção que tentava diluir a forma linear em algo móvel, palpitante
e inapreensível, buscando o ilimitado, o incomensurável e o infinito.
Tentava se alcançar a quebra do rígido em um constante devenir. Uma resistência
contra o permanente. O meio preferível de ir contra o delimitado e o lógico
era buscar um ilusionismo que desse a idéia de um eterno movimento. A
fé passava a ser vista não como um “único olhar”, mas como uma busca permanente
conforme o “olhar” no curso da caminho. Enfim, o absoluto pelo relativo,
o mais estreito pelo mais livre.
__________ Em Portugal e na Espanha, entretanto,
este estilo sofreu as limitações da presença severa da Inquisição católica.
Os curias desejavam criar uma propaganda para a fé católica, porém limitando
seu caráter popular, tentando isolar possíveis influencias de um paganismo.
Era preciso evitar qualquer caráter plebeu da expressão. As obras de arte
tinham que ganhar, convencer, conquistar, porém ao mesmo tempo tinham
que fazer numa linguagem “elevada”.
__________ Em Portugal o barroco tentou ser
uma arte dos salões partindo para as ruas. Porém esta mentalidade quando
aqui chegou na metade do século XVII teve, pouco a pouco, que misturar
as suas decorações a uma outra informalidade dos extratos mais humildes.
A animação mestiça impregnou o ornamental. A rusticidade e o paganismo
dos nativos absorveu a severidade dos dominantes.
__________ O mais notável foi que a arte
barroca com seus transbordamentos, seus excessos, sua aparente ilogicidade
casou-se muito bem com o comportamento emocional local. Escreveu Nicolau
Sevcenko: “Ao contrário da cultura renascentista centrada no intelecto,
o Barroco reside na imaginação. Não é uma arte para uma elite ilustrada,
mas um empenho em ampla escala para arrebatar coletividades, exaltando
espíritos pela miríade dos estímulos sensoriais e choques de emoções.
Nenhuma obra barroca pode ser apreciada isoladamente, desprendida desse
contexto místico que tudo abrange. Sua natureza é essencialmente aglutinadora,
envolvente e sintética. Concebida para articular as contradições, a arte
barroca encarna sacrifício e salvação, dor e êxtase, ignomínia e gloria.
Na sociedade colonial submetida a extremos de brutalidade e privação,
ela restitui a dimensão dos impulsos afetivos. Apontando para as desigualdades
e os privilégios espúrios, ela suscita estados de harmonia senhorial que
recompõem os fragmentos de um mundo sob tensões tão lancinantes que o
ameaçam desintegrar”.
__________ “...É nas festas e celebrações,
portanto, que o Barroco realiza plenamente sua mágica aglutinada. Então
toda a cidade se move. As imagens desfilam solenes, refletindo as cores
de suas tintas, vernizes, pedrarias e tecidos luxuosos, entre massas de
velas e rolos de névoas perfumada exalada dos turíbulos. A multidão adquire
forma, organizada na hierarquia de suas funções, lustre e condição social...”.
__________ É frequente em Minas o uso de
um barroco inspirado na paisagem, na cena mitológica ou tirada da vida
cotidiana, conjuntamente com motivos africanos através da estilização
nas esculturas de conchas, pedras, búzios, santos pretos e etc.. Também
não se pode esquecer das influencias muçulmanas como o balcão saliente
sustentado por cães de pedra, as rótulas, as janelas vazadas, as treliças,
o grafito inscrito na massa fresca das paredes. Tudo isto trouxe um amalgama
criativo na medida que a própria profusão dos ouros, dos torsos, das folhas
exóticas, por vezes, faziam esquecer que se tratava de uma arte cristã
num mundo marcado por um volátil paganismo.
__________ Não se pode deixar de mencionar
ainda um tópico muito curioso: a influencia também da arte chinesa. Já
mostrou Gilberto Freire que na malha da arte colonial infiltrou-se elementos
notáveis do Oriente através do palanquim como meio de transporte, as louças
da China, os fogos de artifício. E principalmente --- e como isto é bonito!
--- as chinesices pintadas nos lambris dos cadeirais da Sé de Mariana.
São alegres painéis de fundo vermelho, sendo as figuras traçadas a ouro,
onde se destaca a figura de um elefante cuja tromba sai da barriga ao
invés de ser o prolongamento do nariz. Na verdade, o decorador nunca havia
visto um daqueles paquidermes e compôs o desenho do seu próprio imaginário,
misturando alhos e bugalhos numa composição original e irreal.
__________ Este último exemplo ilustra muito
bem que o barroco mineiro é algo insólito, mundano, extravagante, cheio
de improvisação, enfim, uma perfeita simbiose de tolerância contrapondo-se
a moda metropolitana. Afirmou neste sentido Pietro M. Bardi: “...Quero
todavia avançar uma observação: o barroco brasileiro é otimista, florescente,
opulento de vida, o prazer de construir e de congratular-se pela descoberta
e encontros de horizontes sem angústia. Os nossos decoradores fugiam do
macabro”.
Mestre Aleijadinho
__________ Boa parte dos autores quando analisam
a vida e a obra de Aleijadinho são unanimes em afirmar a carência enorme
de documentos a respeito deste artista e a incrível ausência, ainda hoje,
de uma verdadeira sistematização de suas obras principalmente no que tange
a sua real autoria e ao complexo estilo de suas inumares influencias.
__________ A maior parte dos escritores ainda
se baseia na primeira biografia feita sobre o artista em 1858 por Rodrigo
José Ferreira Bretas, publicado nos números 169 e 170 do Correio Oficial
de Minas (de Ouro Preto) baseado em interrogar testemunhas e em particular
a nora do escultor.
__________ As informações são precárias.
Nascido a 29 de agosto de 1730 (ou, conforme outros, em 1733) em Ouro
Preto e falecido a 18 de novembro de 1814. Era pardo --- uma característica
importante já assinalada --- filho de Manuel Francisco Lisboa, português
e importante carpinteiro-arquiteto e de uma escrava africana ou crioula
de nome Isabel. Aprendeu apenas as primeiras letras, embora alguns achem
que sabia o latim. O conhecimento da arquitetura e escultura foi obtido
na prática com o seu pai. Alredor dos seus 47 anos, em 1777, foi infectado
por uma moléstia grave que distorcia os seus membros.
__________ Tinha um “gênio agastado”. Quando
da deformidade trabalhava as ocultas debaixo de uma tolda, mesmo dentro
dos templos. Possuia para o seu ofício a ajuda de um escravo africano
de nome Mauricio que trabalhava meeiro nos salários, sendo entretanto
algumas vezes severamente castigado pelo mestre. Alem de Maurício tinha
ainda Aleijadinho outros dois escravos: Agostinho e Januário.
__________ Sua oficina atuou em várias cidades
mineiras e se cre que em algumas vezes atuou simultaneamente em várias
delas. Suas obras encontram-se em Ouro Preto, Congonhas do Campo, Diamantina,
Tiradentes, S. João Del Rei, Mariana, Sabará, Caeté, Nova Lima, Catas
Altas, Barão dos Cocais, Santa Rita Durão e Campanha.
__________ Como se percebe não existem mesmo
muitos dados a respeito da vida do artista. Suas obras também não estão
inteiramente catalogadas e suficientemente estudadas. Assim é necessário
para comprovar a importância do mestre reconstituir o universo mental
de determinados grupos urbanos de Minas e sua relação com as obras artísticas
deste período, buscando o entrelaçamento sempre complexo entre meio ambiente
e produção cultural.
__________ Na segunda metade do século XVIII
Vila Rica estava as vésperas de novo surto artístico, verdadeiro renascimento,
decorrente ainda do impulso econômico anterior. Para lá confluíam imensas
levas de gentes lusitanas, funcionários da Coroa, militares, padres, mulatos,
artesãos diversos, aventureiros do além-mar, escravos, mães solteiras
(boa parte das famílias dessa cidade eram chefiadas por mulheres abandonadas
pelos maridos) criando uma sociedade febril, sem organização estável,
vivendo de ofícios diversos onde a ostentação, o luxo, o exagero das vestes
de veludos, damascos e outras sedas, o pavonismo das festas não só marcava
um teatro das vaidades, mas também revelava que os distintos grupos sociais
diferenciavam-se na unidade da busca da ostentação e riqueza.
__________ De outro lado, Portugal estava
num período de acelerado declínio econômico e procurava de todas as maneiras
tirar vantagens da colônia brasileira, principalmente através de um controle
rígido da vida minerada abusando na arrecadação dos impostos e no controle
burocrático sobre a extração e circulação aurífera. Corria a solta a corrupção
e o contrabando, gerando um terreno propício para o descontentamento e
a contestação dos valores existentes.
__________ É neste intercurso de fantasia
e realidade, de êxtase a contenção, do excesso e regras para cumprir que
nasce um pensamento político iluminista dos inconfidentes buscando a independência
do país. Este pensamento calou fundo num extrato médio de funcionários
do próprio governo que eram mais ilustrados, contando também com a participação
de padres e pessoas mais humildes como o próprio Tiradentes. De dentro
do velho surgia o novo, do arcaico surgia uma mescla original.
__________ Evidentemente, que na obra de
Antônio Francisco Lisboa também encontramos esta nova identidade. Não
de maneira puramente reflexa, nem como uma mera conseqüência de um pensamento
político explicito. Isto não existiu. Nada confirma que tivesse vocações
polemicas ou revoltadas contra o pensamento político dominante. Na verdade
foi daquele entrechoque de correntezas, do luxo e do lixo, da febre e
da aridez dos limites, da eloquência do que era e da parcimônia do que
deveria ser que brotou uma colheita original.
__________ As suas principais obras foram
o risco geral da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto iniciada
em 1776 numa fachada belíssima onde aboliu a forma quadrada do barroco
antigo pela forma circular tendo ao centro um portal ladeado por duas
colunas e acima o famoso medalhão esculpido em pedra sabão retratando
a figura do famoso santo. Também esculpiu o altar mor da Santíssima Trindade,
as imagens lavradas nos púlpitos, anjos do altar mor, os lavabos, etc..
E também em Congonhas do Campo no adro da igreja Bom Jesus de Matosinhos
a escultura dos doze profetas, tendo logo abaixo na ladeira a encenação
de imagens de corpo inteiro dos Passos da Paixão. Outras imagens encontram-se
também em inúmeras outras cidades já apontadas.
__________ É deste universo de arte com fé,
de graça com veemência que podemos pontilhar algumas características de
sua produção artística. Sua obra é uma incrível manifestação de diversos
estilos: do expressionismo em que o artista sem escola buscava captar
o natural até ir ao impressionismo de suas imagens que jogam com o caricatural.
De elementos renascentes de fundamento racionalista as contribuições do
rococó. Do clássico contido ao desmembramento trágico de um anti-classiccismo.
Aleijadinho é um grande artista das combinações, mas antes de tudo um
gênio do barroco, pois é justamente nesta escola onde se tenta apagar
as diferenças estéticas na história da arte, no afirmar de Arnould Hauser.
__________ A originalidade de Aleijadinho
é a sua precisão no confluir destas tendências. Ele resume, funde, reexprime
diversos vocabulários para impor a sua temática que é trágica, uma grande
festa ainda que melancólica e eivada de tristeza. A sua severidade nos
transmite doçura e pena. Em Congonhas adotou uma pomposidade nos vestir
dos seus profetas ao lado de uma gesticulação dramática que se equilibra
com o conjunto das estátuas que olhadas de qualquer ponto dão a impressão
que os profetas comunicam-se entre si numa mútua repercussão de linhas
em movimento e volumes animados.
__________ A segunda característica que chama
a atenção é a utilização nos seus vultos de coisas do cotidiano: o pendurar
brincos nas orelhas das samaritanas, Jeremias tem o pé presos no grilhão
tal como os escravos fujões, os anjos são robustos como os meninos subindo
e descendo ladeiras, santos carecas assemelhando-se aos condenados que
iam para a forca e até o uso decorativo de elementos como rosas, folhas
de acácias e girassóis que eram encontrados nas Gerais. Do particular
buscava-se o universal. Do comum do dia a dia ia-se ao genuíno. Esta característica
também podemos encontrar em outros artistas da época, desde alguns anônimos
que faziam santos usando botas até também se deliciar com as pinturas
de mestre Athaíde que fez de seus anjos mulatos um belíssimo painel da
terra pintado em cores tão alegres nas igrejas da região.
__________ A terceira característica do fabuloso
artista mineiro é precisamente ter sabido traduzir com tanta originalidade
e eficiência o sentimento do seu povo e sua gente. Mulato na confluência
de tantas raças, protagonista de um momento tão ,febril soube traduzir
uma das facetas mais marcantes do brasileiro: ser um povo trágico que
gosta de falar da vida de maneira tão vibrante. Na convivência das disparidades
surge o caldeirão dos sentidos. Afirmou Nicolau Sevcenko: “Aqui o Barroco
não foi um estilo passageiro, mas a substancia básica de toda uma nova
síntese cultural. Se há um traço que perpassa as diferentes manifestações
da cultura brasileira é justamente este barroquismo latente com as vibrações
e ressonâncias que lhe são típicas: extremos da Fe’, cupidez de poder,
anseios messiânicos, ilusão de grandeza, êxtases de festa, convivência
das disparidades, atração das vertigens, mágica das palavras, sonhos de
gloria, pendor para o exuberante e o monumental, gosto da tragédia, horror
da miséria e compulsão da esperança”.
__________ Portanto a estética do barroco
transmitida ou herdada de Portugal encontrou no Brasil um campo fértil
a imaginação para reinventar-se numa nova humanidade em terras do Novo
Mundo. Não é nossa vegetação tropical, luminosa, colorida uma atmosfera
propícia ao barroco? E nossa gente faceira na arte do improviso, com seu
jeitinho flexível, no seu drible diário das adversidades, na sua intuição
tão criativa, na sua informalidade e falta de seriedade sendo tão séria
e dolorida não comportaria um olhar barroconosso futebol tão cheio de
sinuosidades não é barroco como nossos cômicos comentaristas tão cheios
de retórica? E o que dizer do carnaval brasileiro misturando indigenas
com pierrôs? Não seria Joãzinho Trinta o nosso novo Aleijadinho?
Bibliografia:
Bardi, Pietro M.- História da Arte Brasileira, Edições Melhoramentos,
São Paulo, 1977
Hauser, Arnould - Historia Social de la Literatura y el Arte, Ediciones
Guadarrama, Madrid, 1969
Machado, Lourival G - Barroco Mineiro, Editora Perspectiva, São
Paulo, 1969
Pianzola, Maurice - O Brasil Barroco, Distribuidora Record, Rio
de Janeiro, 1975
Sevcenko, Nicolau - Barroco: A Arte da Fantasia in O Universo Mágico
do Barroco Brasileiro, vários autores, Publicação Sesi, São Paulo, 1988.
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