Obesidade, cultura & comportamento

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    Bulimia - Conceito e Teste   de investigação

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           Compreendendo a obesidade

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Introdução

Esse artigo contou com a preciosa revisão e colaboração  da
Drª Damiana Pereira de Miranda, Médica, Ph.D., Pronegro- UFBA - [email protected]

 

Transtornos alimentares são encontrados em, virtualmente, todas as sociedades. Por isso mesmo, pesquisadores têm discutido a importância dos fatores sócio-culturais na sua origem, bem como o significado cultural dos transtornos alimentares para as sociedades.

Na maioria dos casos de sobrepeso um desequilíbrio na relação entre ingestão de alimentos e dispêndio de energia em atividades do organismo é o principal fator responsável. Nesse artigo procuramos delimitar as possíveis motivações e/ou determinação cultural para tal comportamento.

A obesidade, ou melhor, um certo sobrepeso já foi visto como um ideal estético, um símbolo da fertilidade e saúde. A simples comparação de imagens de momentos distintos de nossa civilização da pré-história e nos últimos 500 anos, nos mostra como tem sido moldado socialmente (na expressão de artistas consagrados e profissionais do mundo da moda) o nosso ideal estético.

Não queremos dizer que esse "ideal" não tem uma função psíquica individual como por exemplo: ser um mecanismo de autocontrole e repressão sexual, como supôs Sigmund Freud (1905). Contudo não podemos deixar de verificar as "marcas" que a cultura impõe na aparência física e mesmo na regulação do organismo (padrões de apetite e dieta), seriam inúmeros exemplos de adornos, tatuagens chegando à mutilações cicatrizes e deformações (crânio, vértebras cervicais) etc. a serem citados.

 

 

Os conceitos populares, mitos e crenças devem ser revistos numa perspectiva histórica transcultural, fazem parte de um conjunto de regras e comportamentos que não devem ser desprezados numa perspectiva de intervenção terapêutica. Indígenas do grupo tupi, uma referência brasileira, associam a "bulimia" com a possessão por um ser sobrenatural que chamam de Jurupari, a quem também se atribui a criação do vegetal "Fumo", Nicotina Tabacum, ao deixar cair o esperma no solo em um ato de masturbação.

Para os jesuítas, Jurupari era uma espécie de demônio; contudo, numerosos estudos de sobrevivências míticas e relatos históricos nos permite situá-lo como um "herói civilizador". Apesar do seu nome (Iuru - boca, pari - cerca, fecha) ser uma referência ao controle do apetite, seus rituais estão associados mais às regras de identidade étnica - relação intertribal (combate aos que não seguem suas leis) e organização social (inclusive a instituição do patriarcado) do que ao ato isolado de exorcismo ou manifestação de um espírito maligno.

Analisando-se cada uma das intrincadas redes de associações simbólicas (historicamente construídas) em possíveis determinantes coletivos dos usos e costumes em cada cultura pode - se perceber a complexidade da tarefa de modificar hábitos individuais. Os adeptos da engenharia de comportamentos, a escola de psicologia denominada behaviorismo radical, chegam a dizer que é inútil deter-se na análise de tais associações e recomendam a prática de programas de realização (criação / aquisição) de novos comportamentos.

Há, porém, certo consenso de que um importante fator determinante da formação de hábitos individuais é a "aderência" do indivíduo às suas crenças, sobretudo em regiões onde convivem muitas etnias, a exemplo do Brasil e Bahia, onde as tradições cristãs foram assimiladas junto com crenças africanas e ameríndias.

A contribuição do behaviorismo por sua vez, é essencial, considerando-se, sobretudo, que modificar crenças é algo mais que modificar palavras. Decerto não podemos nos limitar a uma discussão de modelos mentais e de conceitos quando estamos diante de "sintomas", "estilos de vida" que conduzem a patologias graves e ao óbito. Se a intervenção envolver mudanças de conceitos (o que se pensa ou diz) e hábitos (o que se pratica repetidas vezes) sem dúvidas o sucesso é garantido. O segredo parece ser: encontrar a informação ou símbolo capaz de iniciar uma re-estruturação cognitiva de ou a motivação (reforço/afeto) com tal poder desencadeador de transformações.

Por outro lado, no mínimo as análises etno-simbólicas, são válidas como estratégia para situar o indivíduo diante da relação entre os antecedentes e conseqüentes de seu comportamento, sobretudo porque ao identificarmos uma crença, identificamos um conjunto de regras - associadas a uma comunidade moral (religião na concepção de Durkhein) vivida no momento presente ou não, os efeitos da aceitação (reconhecimento) e rejeição (negação) por um grupo social deixam marcas quase indeléveis.

Bulimia nervosa

O acesso incontrolável da ingestão de alimentos ou bulimia tem sido reconhecido como entidade psiquiátrica nas últimas décadas analisando-se essa particularidade do comportamento de comedores compulsivos. Distingue-se do processo de obesidade instalado sem a impulsividade e compulsão que caracteriza a bulimia embora esteja associado a essa síndrome que confunde-se, em nossa cultura, com o que popularmente é denominado por Gula, cuja conceituação por sua vez nos remetem à crenças judaico-cristãs.

Independente da preocupação exagerada com o controle do peso no mundo ocidental, o "comer compulsivo" é uma manifestação significativa do comportamento alimentar, sendo expresso pelo elevado índice de indivíduos obesos que se multiplicam tanto no ocidente como nos países em desenvolvimento, neste início de século. Sabe-se que o número alarmante de pessoas obesas no mundo transcende a barreira racial/étnica e socioeconômica.

Os homens e as mulheres modernos (pobres e ricos) têm ficado patologicamente obesos, quer habitem na Europa, África, América do Sul, Austrália, Oriente Médio ou mesmo, mais recentemente, na Ásia. Um dado significativo é que mesmo nas nações mais pobres do planeta, onde a indigência faz parte da vida cotidiana dos cidadãos, os índices de obesidade têm-se elevado.

Nossa proposição é que os conceitos populares, mitos e crenças devem ser revistos numa perspectiva histórica transcultural, considerando que fazem parte de um conjunto de regras e comportamentos que não devem ser desprezados e sim evidenciados, são os fundamentos dos distintos estilos de vida de um povo (sua cultura), cujas determinações também podem ser compreendidas e utilizadas na comunicação e intervenção em um processo terapêutico.

Tratando-se das referências etno-médicas (sistemas de cuidado e manutenção da saúde) deve-se identificar o sistema que cada indivíduo traz por sua formação e história pessoal, sobretudo se pretende modificá-lo no processo de construção de um sistema de promoção da saúde.

Conforme a carta de Ottawa - a primeira Conferência Internacional sobre a Promoção da Saúde (Canadá - 1986) "Las estrategias y programas de promoción de la salud deben adaptarse a las necesidades locales y a las posibilidades específicas de cada país y región y tener en cuenta los diversos sistemas sociales, culturales y económicos" .

Em uma recente publicação da OMS e OPAS, o Relatório sobre a saúde do mundo 2001, dedicado à saúde mental reconhece-se que embora seja operativamente conveniente a ciência moderna está descobrindo que a distinção entre saúde física e mental é um artifício criado pela linguagem ..." a maioria das doenças "mentais" e "físicas" são influenciadas por um conjunto de fatores biológicos psicológicos e sociais "...

Sobre as recentes pesquisas da interdependência entre saúde física e mental recentes pesquisas indicam dois caminhos: 1. o direto, através dos sistemas fisiológicos com funcionamento neuroendócrino e imunitário e 2. o caminho que acompanha o comportamento para saúde (medicina comportamental).

Sobre esse último, chama atenção às dificuldades de adesão às recomendações médicas. Por exemplo, em alguns casos de tratamento farmacológico de longa duração e mudança de regime alimentar a aderência é inferior a 50%. Vale a pena ressaltar que o comportamento saudável inclui entre outras atividades: comer com sensatez, praticar exercícios regularmente, dormir adequadamente, evitar o fumo, ter práticas sexuais sadias, usar cinto de segurança e seguir a risca o tratamento médico. Assinalando, porém que estas atividades dependem da saúde mental de cada pessoa e que são aprendidas por crianças e adolescentes durante o processo de socialização, ou seja: através da experiência direta, informação e observação dos outros.

Observe-se que tanto a disponibilidade de informações adequadas como os modelos e regras comportamentais dependem diretamente do processo coletivo de construção da cultura, relativamente bem estudados por sociólogos e antropólogos a exemplo dos folkways, mores, modas, fanatismos e carisma dos líderes sociais.

O processo de veiculação e repetição de informações nos meios de comunicação de massa, do qual esse artigo faz parte, ainda é pouco conhecido. Numa perspectiva irônica e otimista de Andy Wharol, um dos criadores da pop arte, todos nós temos direito a 15 minutos de sucesso individual.

O sucesso ou hegemonia de crenças, entretanto, parece ser uma estratégia bélica deliberada, ridicularizando outras crenças e em alguns casos de razias e guerras étnicas destruindo indivíduos maquiavelicamente.

No Brasil, convive-se com um passado de escravidão dos negros, revoltas e guerras indígenas. A dinâmica das mitologias afro-brasileiras, ameríndias, ibero, judaico - cristãs é um importante fator na eficácia das crenças; o poder do sagrado e das tradições se associa ao poder social na determinação da conduta individual


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Crenças judáico - cristãs, gula e bulimia

Os antigos gregos e romanos tinham uma atitude bastante complexa em relação ao peso e forma do corpo: De um lado, as pessoas mais volumosas, especialmente as mulheres, eram consideradas mais férteis; por outro lado, desde os tempos hipocráticos, os médicos já consideravam obesidade como um problema de saúde. Além disso, desde o início da era Cristã, a obesidade era considerada um problema, tanto que a gula foi incluída entre os sete pecados capitais. É interessante notar que nas pinturas medievais, os pecadores apareciam obesos, enquanto os seguidores cristãos eram esbeltos.

Para entender o que popularmente é denominado por Gula, devemos nos situar no conjunto das crenças judaico-cristãs das quais faz parte, destacando, por exemplo, as noções de pecado, vício e virtude. Segundo definições medievais reafirmadas pelo Concílio Ecumênico Vaticano II (1962), os pecados são considerados capitais em função da sua possibilidade ou tendência de reproduzir-se "gerando vícios e outros pecados (S. João Cassiano; S. Gregório Magno).

Os vícios por sua vez opõem-se à virtude. O objetivo da vida virtuosa é tornar-se semelhante a Deus (S Gregório de Nissa /Concílio Ecumênico Vaticano II). Nessa concepção poderia se entender uma oposição, mas não há uma correspondência exata entre essas definições. Além do que, talvez não seja possível estabelecermos regras e leis que expliquem a multiplicidade de palavras e determinantes causais de tais padrões de comportamento, se é que podemos chamar assim esse sistema de classificação das ações humanas.

Pecados Capitais

Virtudes


Orgulho
Prudência
Avareza
Justiça
Inveja
Firmeza (constância)
Ira
Moderação (sobriedade)
Luxúria
Preguiça
Esperança
Gula
Caridade

Sem pretender deter-se em discussões teológicas, é interessante observarmos que na explicação comportamental, o autocontrole é função da evitação do estímulo (ao qual está associado) ou da expressão (emissão) de uma resposta (controladora) que substitui resposta habitual (controlada ou a controlar) numa seqüência de estímulo e resposta (e-r).

Aproximar as noções de gula à avareza, moderação e sobriedade (temperança) ou mesmo com a generosidade da caridade ou com respectivas associações com o altruísmo e regras da etiqueta (moderação), estabelecidas culturalmente e, ainda, relacionar as definições de preguiça (sedentarismo) à depressão, desespero (falta de esperança), podem atender as perspectivas de análise psicanalítica, como orientação de trabalho para compreensão do uso individual de símbolos, constituindo-se às vezes como meio de insight de momento de autodeterminação, formação ou modificação de conduta.

Sabendo-se, porém, que sempre serão associações idiossincráticas individuais e assim como podem ser elementos de uma re-organização de hábitos podem aumentar a freqüência do comportamento não desejado (agravamento do sintoma), dado ao seu poder ansiogênico.

Contudo, numa perspectiva comportamental não podemos deixar de constatar a semelhança desta associação a pecado e de outras produções culturais da etiqueta como uma "administração de estímulos aversivos" que como se sabe, nem sempre é a melhor forma de conduzir-se para inibir uma resposta indesejável.

gula - estimulação aversiva

A Gula Pieter Bruegel, Antuérpia. 1558


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Crenças afro-brasileiras

Como acontece em outras tradições religiosas, no universo afro-brasileiro, a comida ocupa um lugar bastante importante: através dos sacrifícios e oferendas é um veículo de comunicação com os orixás, e um elemento de integração entre os participantes dos rituais religiosos.

Nas crenças afro-brasileiras a "fome-canina" (ou leonina) é uma conseqüência de perturbações com uma forma de Exu - a entidade que guarda os limites entre o mundo dos vivos ilé e o espaço sobrenatural orun.

Diz o oriki Lucumi/yorubá: Exu, aquele que come sem parar. O mito que descreveremos a seguir também pode ser analisado como uma estrutura que organiza diversos símbolos, que se referem tanto à descrição do ambiente físico, como das reações de parentesco e do indivíduo consigo mesmo, considerando-se que nas crenças africanas o "Orixá" e o "Exu" fazem parte, integram o indivíduo com as suas contradições.

Descrevemos, em anexo, um mito recolhido por Elbein dos Santos e deixamos que o leitor tire suas próprias conclusões do ressoar dessa historia que se repete nas tradições de milhares e milhares de anos ( ler o mito ). Observe a dimensão com que são representados a fome e o apetite/sede de vida, na cultura africana.

Exu é o guardião das encruzilhadas e limite entre a terra (ilé) e o (orum) mundo sobrenatural onde residem as formas superiores do ser (os orixás e o próprio Olorum - senhor do destino). Estar em paz com esse guardião é essencial para penetrar no Orum. (atrevo-me a observar a semelhança desta com a terapia Jungniana - ou individuação que busca a unidade do ser e superação dos conflitos).

Para concluir

A perspectiva de análise transcultural nos revela que múltiplas intervenções são possíveis. Desenvolver a temperança e sobriedade - a sensatez no comer pode muito bem ser caracterizado como uma intervenção comportamental, ver os horrores da gula também embora a punição nessa teoria é conhecida por seus efeitos colaterais. Ver na entidade mítica a representação de um instinto ou força inconsciente que determina as nossas ações aproxima-se da visão psicanalítica que inclusive usou esse referencial mítico a exemplo de Tanatos -o instinto de Morte e Eros -o instinto de Vida.

Impossível parece ser decidir se a construção de dualidades não é uma característica de todas (ou algumas) culturas ou se está, apenas nos olhos lógicos da ciência, seguindo as oposições binárias. Por sua complexidade  merece um artigo separado; de qualquer forma é uma particularidade que faz parte da identidade cultural, o modo como cada etnia  seleciona seus signos ou a oposição entre eles. A exemplo do que analisamos aqui: o vício e a virtude, bem e mal, pureza e perigo; estar em paz ou estar em guerra com o exu e orixás (aprendi em um candomblé nagô que o  "castigo de orixá" - como se diz na Bahia é o seu afastamento).

Além do que, é bom lembrar que o indivíduo constrói o seu lugar dentro da linguagem (e da cultura) e somente o indivíduo pode dispor e vivenciar os símbolos que lhe oferecem a(s) cultura(s) para moldar seu corpo e seu comportamento. Tratando-se de obesidade pode ser  o buda esquelético em jejum ou o buda obeso entregue aos prazeres desenfreados até o dia em que por um caminho ou por outro compreender o que é "não desejar".


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O NASCIMENTO DE ÈSÙ

Olòdumaré e Òrisànlá estavam começando a criar o ser humano. Assim criaram Èsù, que ficou mais forte que seus criadores "Èsù si le ju àwon mejeji lo" . Olòdumaré enviou Èsù para viver com Òrisànlá; este colocou-o à entrada de sua morada, e o enviava como seu representante para efetuar todos os trabalhos necessários.

Foi então que Òrúmilà desejoso de ter um filho foi pedir um a Òrisànlá. Este lhe diz que ainda não tinha acabado de criar os seres e que deveria voltar um mês mais tarde.

Òrúmilà insistiu, impacientou-se querendo a qualquer preço levar um filho consigo. Òrisànlá repetiu que ainda não tinha nenhum,

  • Então perguntou: Quem é aquele que vi na entrada de sua casa ?
  • É aquele mesmo que quero, disse ele.

Òrisànlá lhe explicou que Èsù estava ficando muito forte e difícil e que não era precisamente alguém que pudesse ser criado no àiyé. Mas Òrúmilà insistiu tanto que Òsalá acabou por aquiescer. Òrúmilà deveria colocar suas mãos em Èsù e, de volta ao àiyé, manter relações com sua mulher Yebìíru que conceberia um filho.

Doze meses mais tarde, ele deu a luz a um filho homem e, porque Òsalá dissera que a criança seria Alágbára, Senhor do Poder, Òrúmilà decidiu chamá-lo Elégbára (aquele que não para). Assim, desde que Òrúmilà pronunciou seu nome, a criança Èsù mesmo, respondeu e disse.

  • Iyá Iuá ( mãe, mãe )
  • Ng o jr Eku ( Eu quero comer preás.)

A mãe respondeu:

  • Omo naa jeé ( Filho, come, come )
  • Omo naa jeé ( Filho, come, come )
  • Omo lókùn  (Um filho é como contas de coral vermelho)
  • Omo ni jíngìndìnríngín ( Um filho é como alegria inextinguível )
  • A um se yì, mú sòrun ( Uma honra apresentável, que nos )
  • Ara eni    (representará depois da morte.)

Então Òrúnmilá trouxe todas as preás que pode encontrar. Èsù acabou com todas elas. No dia seguinte, a cena se repetiu com Èsù pedindo e devorando todos os peixes frescos, defumados secos etc. que existiam na cidade. No terceiro dia Èsù quis comer todas as aves. Gritou e comeu até acabar com todas as espécies de aves. E sua mãe cantava todos os dias os versos e ainda acrescentava:

  • Mo r’omo ná ( Visto que consegui ter um filho )
  • Aj’logba  aso ( o que acorda e usa duzentas  vestimentas diferentes, )
  • Omo máa  ( Filho, continue a comer )

No quarto dia, Èsú disse que queria comer carne. Sua mãe cantou como de hábito, e Órúnmìlà trouxe-lhe todos os animais quadrúpedes que pôde achar: cachorros, porcos, cabras, ovelhas, touros, cavalos etc.; até que não ficou um só quadrúpede, Èsú não parou de chorar.

No quinto dia, Èsú disse:

  • Ìyá, Ìyá ( Mãe mãe )

  • Ng ó je ó ! ( Eu quero comê – la )

A mãe repetiu sua canção: Filho come, come, filho come, come e foi assim que Èsú engoliu sua própria mãe.

Òrúnmìlà, alarmado, correu a consultar os Babaláwo, que lhe recomendaram fazer a oferenda de uma espada, de um bode e de quatorze mil cauris. Òrúnmìlà fez a oferenda.

No sexto dia depois de seu nascimento, Èsú disse: 

  • Bàbá, Bàbá, ( Pai, pai, )
  • Ng ó je ó ó! ( Eu quero comê-lo! )

Órúnmìlà cantou a canção da mãe de Èsú e quando este se aproximou, Òrúnmìlà lançou-se em sua perseguição com a espada e Èsú fugiu. Quando Òrúnmìlà o reapanhou, começou a seccionar pedaços de seu corpo, a espalhá-los, e cada pedaço transformou-se em um Yangí.

Òrúnmìlà cortou e espalhou duzentos pedaços e eles se transformaram em duzentos Yangí. Quando Òrúnmìlà se deteve, o que restou de Èsú ergueu-se e continuou fugindo. Òrúnmìlà só pôde reapanhá-lo no segundo òrun e lá Ésú estava inteiro de novo. Òrúnmìlà voltou a cortar duzentos pedaços que se transformaram em duzentos Yangí. Isto repetiu-se nos noves Òrun que ficaram assim povoados de Yangí. No último òrun, depois de Ter sido talhado, Èsú decidiu pactuar com Òrúnmìlà: este não devia mais persegui-lo todos os Yangí seriam representantes e Òrúnmìlà poderia consultá-los cada vez que fosse necessário enviá-los a executar os trabalhos que ele lhes ordenasse fazer, como se fossem seus verdadeiros filhos. Èsú assegurou-lhe que seria ele mesmo quem responderia por meio dos Yangí (pedaços de laterita) cada vez que o chamasse.

Òrúnmìlà perguntou-lhe sobre sua mãe que havia sido devorada.

Èsú devolveu sua mãe a Òrúnmìlà e acrescentou:

  1. Òrúnmìlà ki o maa hési oun
  2. Bi ó bá féé gba gbogbo àwon nkan
  3. Bi eran ati eye
  4. Ti òunje ti àiyé
  5. Pé òun ó máá ràn án lówó
  6. Láti gbà padà fún láti owo àwon omo aràiyé.
  1. Òrúnmìlà deveria chamá-lo
  2. Se ele queria recuperar a todos e
  3. Cada um dos animais e das aves
  4. Que ele tinha comido sobre a terra;
  5. Ele (Èsù) os assistiria para
  6. Reavê-los das mãos da humanidade.

Òrúnmìlà e Yéìírú reinstalaram-se na cidade de Iworo, e a partir desse momento ela começou a dar à luz muitos filhos de ambos os sexos. A história continua com o translado para Kétu, a invocação de Èsú para os proteger da guerra, a vinda de Èsú do òrun para os defender, a volta a iworo, ensinando-lhes Èsú como preparar e sangrar seu "assento", transferindo-lhe seu agbára que executaria todos os "trabalhos" que lhe fossem solicitados e acaba por uma saudação, um oríkì alusivo a suas características:

  • Bara nyan gbégí gbégí gbégí  ( Bara anda senhorialmente, balançando)
  • Èsú j’òkó, jélédè   (Èsú come cachorros, come porcos, para a direita e para a esquerda.)
  • Ogun gbo gbo nlo (Todos os atacantes se afastam)
  • Kóró, kóró-kóró (Quando ele vem chegando senhoril e sutilmente.)

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Mito Yorubá recolhido por Elbein dos Santos APUD Costa, Rodrigues Elizabeth. Etnografia de dança afro-Brasileira.
Relatorio do Projeto de Aperfeiçoamento de atividade científica nº 120 180/ 92-2 UFBa, 1995


Bibliografia

Cabrera, Lidia, El Monte, Ewe Orixá

Dean, Waren. A ferro e fogo : história da devastação da Mata Atlântica brasileira. SP, Companhia das letras, 1996

Freud, Sigmund. Tres ensaios sobre a sexualidade. RJ Ed. Sandard das Obras Completas, (1905)

Kroeber, A. O superorgânico in Donald Pierson (org.) Estudos de organização social. SP Livraria Martins Ed. 1949

Laraia, R. B. Cultura um conceito antropológico. RJ. Ed. Zahar, 1986

Kroeber, A. Antropology. Scientific American, vol 83, 1950

Millenson, J.R. Princípios de análise do comportamento.

Metraux, A. A religião dos Tupinambás e suas relações com as demais tribos Tupi-guaranis. 2ª ed. SP, Cia Ed. Nacional / EDUSP, 1979

OMS. Carta de Ottawa para la promoción de la salud, Canadá 1986 Disponível em  -http://www.paho.org/

OMS. Relatório sobre a saúde no mundo 2001: Saúde mental, nova concepção nova esperança. Genève, Suiça, WHO, 2001 

Skiner, B. F. Ciência e Comportamento Humano. Martins Fontes, 1978


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