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Sul

Decido contornar o morro, ainda lembrando do encontro com os sapos minúsculos que me pediram para limpar seus óculos ainda mais minúsculos. Quero subir neste astral até o Alto de Santa Quitéria para ver como é o morro no estado de torpor e percepção em que me encontro e ver o que encontro pelo caminho.

Há um casario que vem perseguindo os viajantes que tomam esse caminho. Ele segue mais ou menos até onde o pavimento fica diferente, subida que conduz até as estruturas tubulares da subestação de força desta cidade de Cambuquira. Lá em cima, a estrutura metendo medo em qualquer um. Grossas camadas de elétrons podem ser vistas circulando pelos cabos e criando corrente, tensão elétrica. Eu fico parado por alguns instantes olhando tudo aquilo circulando de um lado para o outro., me fazendo lembrar o sistema circulatório do corpo humano.

Volto o olhar para o caminho que segue morro acima e vejo um mata-burros bem em frente, cercado por dois postes de cerca de arame farpado. Não sei porque, mas me dá vontade de saltar aquilo. E, no momento em que eu pulo, o mata-burros é como uma dentadura enorme se fechando. Aterriso do outro lado, sem conseguir acreditar, encharcado de um gelado suor astral. Fico ali por alguns instantes olhando o mata-burros sem nada entender, apenas tomando fôlego para prosseguir em meu caminho. Me levanto e recomeço a caminhada. O caminho em torno está recoberto de flores musicais se abrindo e se fechando num ritmo suave e lento, enchendo a atmosfera do lugar com sons delicados e astrais. De repente paro e me lembro do mata-burros e acho assustador.


Paro outra vez. Meu corpo é só formigamento, não pára. Sento à margem da estrada que sobe e fico quieto enquanto meu corpo parece manteiga no fogo de tão mole. Estamparias caleidoscópicas vão se formando e tomando conta do meu campo de visão girando para todos os lados ao mesmo tempo. Fico inquieto e percebo que as flores musicais estão imóveis como eu, uma coisa amorfa que vai escorrendo pela borda da estrada de terra. Respiro fundo. Tento conter minha imaginação. Relaxar, que isso, seja lá o que for, é passageiro. Começo a fixar o céu estrelado e os infinitos tons de cores das estrelas, meteoros ocasionais que passam por aqui. Este processo surte algum efeito em me reanimar e me acalmar e agradeço pela idéia, não importa de onde tivesse vindo.

Continuando o caminho, um vulto negro à margem da estrada. Desconfiado já por causa do mata-burros eu me aproximo do vulto devagar. Ao passar em frente, vejo que é um mexicano. Isso, um mexicano de poncho e roupas típicas coloridas. A cabeça ou o rosto não se viam escondidos debaixo de um típico e enorme sombreiro. Assim que eu paro para ver o que é, o mexicano ergue a cabeça, como se acordasse de uma longa sesta. E acontece que o mexicano é o Jorge!

Ele então salta de dentro das roupas típicas de um modo tão espetacular que o seu sombreiro voa para longe, originando antigas lendas sobre discos voadores na região. Jorge percebe o meu susto e ri bastante. Resolvo rir em coro com ele, feliz por sua companhia nestas regiões astrais de Cambuquira.

"Você vai adorar o alto da colina. E de quebra, ainda descobri que é lá em cima que a gente pode encontrar um caminho pacífico como o Romero falou."
"Você já esteve lá em cima hoje?"
"Já e é por isso que estou dizendo que a gente pode se dar bem indo até lá. O que me diz?"

Bem, subimos. Olhando o correr de luzes das ruas lá embaixo. Ruas como veios sulcados no relevo da cidade, manchas escuras sugerindo matas, bosques e praças. Revoadas de morcegos brilhantes e pretos passando com incrível velocidade por nós. Dava um puta medo, mas nós sabíamos que nenhum deles iria encostar em nós. Eu paro por alguns instantes, indeciso se devo ir até o topo da cidade com o Jorge. Tudo é tão estranho por aqui. Jorge pára também e abre os braços como a me cobrar uma atitude melhor do que ficar ali parado.


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