A expressão do Jorge é estranha, talvez alguma mudança no estado de torpor e percepção em que nos encontramos; apesar disso ele não parece estar mentindo. Aliás, por que precisaria? Ele começa a falar um monte, coisa que identifico como sendo dele mesmo. É uma coisa que nem no estado de torpor e percepção alterados ele consegue mudar.
Nós seguimos o caminho espiralado que conduz até o Alto de Santa Quitéria, às vezes conversando, às vezes nos perdendo em longas pausas quando nosso olhar se perde em contemplar o céu estrelado e as luzes que Cambuquira mostra como pérolas num colar antigo que se espalha pelas ruas afora.
Aqui, eu chamo atenção para um número que as linhas das ruas ao todo parecem formar: 47.136. O Jorge pára e parece levar algum tempo para associar as ruas e seu traçado a esses algarismos, mas pelo movimento que ele faz, seguindo os traçados corretos, percebo que ele já entendeu. Ainda ficamos por algum tempo olhando para esses algarismos luminosos que se revestem de brilhos estranhos e inesperados pelos movimentos da atmosfera e do chaquinam.
Seguimos num passo de astronauta peculiar de quem pode passar algumas horas distante de seu corpo físico em repouso, mantendo um movimento constante. As luzes da cidade desaparecem de vez em quando, à medida que vamos subindo. À direita, cercas luminosas de arame farpado que limitam fazendas e pastos. Neste estado de torpor e percepção especial, este Alto de Santa Quitéria parece muito mais alto do que ele realmente é.
O Jorge é todo silêncio até chegarmos ao topo da cidade com aquele cruzeiro de concreto e a torre de transmissão celular. Jorge me diz alguma coisa, mas eu estou fixo na comtemplação do cruzeiro luminoso. Digo isso a ele e ele me diz que tudo está escuro e que de onde ele pode enxergar não lhe parece que o cruzeiro seja de modo nenhum luminoso. Mas eu vejo isso e vejo muito mais do isso: vejo a mudança do cruzeiro contornado pela luz para uma matriz da época colonial também contornada pela mesma luz, só que em forma de pequenas lâmpadas, como as igrejas que se vê no interior do Brasil. Prestando mais atenção, a matriz se dissolve num formato de coroa.
A coroa ia mudar para algo mais quando o Jorge interrompe a observação com a proposta de subirmos na torre de transmissão celular. Não acho difícil o trabalho de subir, até pela leveza desse estado de torpor e percepção em que me encontro. Nem estranho, porque os fatos mais estranhos podem acontecer nesse estado.
Sou novo no ramo, mas quer dizer que podemos encontrar um caminho pacífico só subindo nessa torre? Isso é bem interessante, porque as vezes a paz pode estar em algo nada a ver com ela, como em terra firme ou mesmo o alto dessa torre de transmissão celular. Jorge insiste que o caminho pacífico passa pelo alto da torre. Eu fico olhando para ela. Parece bem bonita daqui, cheia de brilhos e luzinhas que iam de lado a lado dela, num carnaval de luz que por uns momentos prende minha atenção.