Eu digo ao Jorge que se ele realmente quer tanto subir na torre, que suba. Digo que eu já encontrei um caminho pacífico no recinto do cruzeiro onde já estamos.
"Vou ficar aqui te olhando subir. Depois, se for o astral de subir e ver a paisagem lá de cima eu subo também. Só que agora eu quero dar um tempinho por aqui mesmo."
Jorge ainda tenta me convencer, mas eu não arredo pé do lugar. Ele joga os ombros para cima e para baixo e começa a subir. Antes, porém me diz, com ar enigmático:
"Aprecie o céu então, já que veio até aqui. É sempre bonito o céu noturno. As constelações."
A elasticidade dos movimentos dele é grande, surpreende mesmo dentro do estado de torpor e percepção em que me encontro. Ele vai subindo não muito rápido, como se curtisse os momentos de subida, a diferença no panorama lá embaixo na cidade a cada nível mais alto que alcança, como se curtisse a brisa gelada que passa por dentro da estrutura tubular da torre de transmissão celular enquanto ele sobe.
Volto os olhos para a cidade de Cambuquira e o bicho, raposa ou sei lá o que que ela parece formar com suas luzes de rua começa a se movimentar, como se corresse sem chegar a nenhum lugar em especial. Vejo que ao correr ele libera grande quantidade de energia, que uma vez liberada fica em ziguezague entre o céu e a cidade, caótica, sem paradeiro. Volto os olhos para a estrutura tubular da torre de transmissão celular e lá está o Jorge, cada vez mais alto, forma luminosa de gente que se agarra à estrutura.
Luzes se movimentam nos morros em volta do Alto de Santa Quitéria. Carros, vindo e indo para fazendas, voltando para a cidade, talvez lanternas daqueles que não querem se perder dentro da escuridão da noite. Porque em casa, a noite é simples: põe-se o gato ou cachorro para fora, acendem-se as luzes e nada mais de noite. Ali não, você tem a noite em toda a sua escuridão e mistério natural, noite que não se pode negar.
Me aproximo do cruzeiro; sua luminosidade e brilho que o Jorge não conseguiu ver vão lentamente decaindo à medida que me aproximo. Me sento na base do cruzeiro. Meu olhar agora se prende à rede de estrelas da Via-Láctea e é onde me fixo para contemplar. Escuto sons noturnos dos insetos e saparia distante, sons de uma música suave modulando, sem que exista por perto qualquer rádio ligado. A modulação é agradável; um pano de fundo ideal para introspecções de qualquer tipo.
Deste meu ponto de vista na base do cruzeiro, vejo que a rede de estrelas gira em torno de um eixo ideal. Perco tempo tentando precisar por onde passa o eixo. As estrelas em seu giro parecem agora entrar em um crescendo de velocidade, o que me faz desistir de precisar por onde passa o eixo. A rotação cresce cada vez mais em velocidade e eu desvio os meus olhos por um momento para saber se não são meus olhos girando na verdade. E não são. Volto à rede de estrelas e ela continua girando cada vez mais rápido.
Quando a rotação atinge o máximo, tudo pára: ouço um grito horroroso que parte da torre de transmissão celular e volto meus olhos para ela, ainda a tempo de ver o Jorge despencando de lá de cima, seu corpo astral luminoso deixando um rastro brilhante no ar em sua trajetória rumo ao chão.
Me levanto, assustado; silêncio mortal em volta da torre de transmissão celular, de tudo em torno. Somente os sons noturnos dos insetos e saparia distante na modulação característica do chaquinam podem ser ouvidos agora. Nada mais acontece. A rede de estrelas fixa no lugar de sempre em seus costumeiros lampejos e brilhos. Definitivamente, a idéia de subir na torre não seria o que se pode chamar de um caminho pacífico. Sento-me no chão novamente, um pouco zonzo, mas tranqüilo. A névoa começa mansa e vai se instalando por sobre a rede de estrelas e a base do cruzeiro onde estou, até que tudo desaparece em meio a ela.