Eu disse quase no ato que iria subir, sem nenhum problema. Que ele me dissesse por onde era. O Jorge riu e me olhou.
"Do que você está falando, por onde é? Subimos isso brincando meu irmão. Fica só olhando e você vai ver por onde. Não é nem um pouco difícil de se subir."
Ele disse isso e numa seqüência de saltos fantásticos, já estava agarrado à torre. Eu saltei, procurando refazer todo o percurso e a torre que parecia tão longe agora me tinha agarrado a ela também. Jorge já ia lá em cima, mas não encontrei dificuldade de segui-lo pelo rastro de orvalho luminoso e amassado que ele deixava. O vento passava suavemente por entre os vãos da estrutura metálica da torre de transmissão celular do Alto de Santa Quitéria, fazendo a estrutura balançar de um modo que chegava a assustar, já que estávamos quase no topo. Jorge me esperava lá em cima. Me parece diferente o modo dele me olhar.
"Venha me ver como eu sou."
Parei, a meio caminho do topo. Olhei em volta e a cidade de Cambuquira iluminada lá embaixo parecia uma raposa, as luzes tremendo devido aos movimentos da atmosfera e coloridas do efeito do chaquinam. Toda a paisagem era como que de sonho em volta. Luzes que sobrevoavam a cidade, luzes que não eram satélites, aviões, balões ou helicópteros, talvez nem mesmo discos voadores, nada disso. Porque mesmo disco voador se sabe o que é, é disco voador. Eu retomo a subida. Ouço lá em cima a voz do Jorge:
"Venha me ver como eu sou."
O pedido insistente me irrita. Sim, Jorge, eu vou ver como você é. Eu…
Quando eu olho o rosto do Jorge, solto um grito, mas é tarde demais para se fazer algo a respeito e ele abre uma boca horrível de milhares de dentes encavalados uns nos outros, formando uma sinistra armação de telhado que avança em minha direção e arranca selvagemente a minha perna esquerda, fazendo o sangue flutuar de dentro do rombo que ficou. Faço um movimento de fuga tarde demais e nesse movimento o meu corpo mutilado se projeta para fora da estrutura, minhas unhas se arrebentam quanto tento me agarrar à torre mais uma vez. Não era o Jorge afinal, mas isso também não importa mais. Só o que importa agora é o impacto do meu corpo contra o chão batido.
Fico ainda muito tempo olhando para a torre de celular e mesmo na escuridão posso ver que não há na verdade ninguém ou nada no topo da torre, ninguém ou nada descendo da torre. Talvez não houvesse mesmo ninguém por perto todo o tempo, o que me leva a pensar no que eu realmente tinha seguido até lá cima. O que há é apenas a névoa que chega como fumaça do topo do morro, encobrindo minha visão astral até tudo escurecer de vez.