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Sul

Eu fico olhando para o Jorge enquanto ele fala e de algum modo não consigo reconhecer o meu amigo. Acho que falta alguma coisa nele, algo me incomoda e eu não seio que é. O modo dele olhar talvez, palavras que ele não usaria, qualquer coisa assim. Eu eu penso que é melhor dar alguma desculpa, ou até dizer o que penso, mas acabando escolhendo a desculpa.

"Jorge. Me espera aqui."
"Aonde é que você vai?"
"Eu deixei cair alguma coisa no caminho."
"Pois eu vou procurar com você e depois a gente volta."

Fico nervoso, procuro disfarçar.

"Não, não. Fica. Eu não demoro nadinha."

Ele concorda dando de ombros e eu começo a descer do Alto de Santa Quitéria. Eu acredito que definitivamente só pode ser uma dessas pequenas armadilhas que os caminhos do chaquinam têm para oferecer junto com todas as grandes maravilhas que ele revela para mim.

Céu de brigadeiro, como se dizia antigamente, céu de estrelas infinito em todas as partes, seguindo o caminho da Via-Láctea, olhando para trás de vez em quando para ver se não estava sendo seguido. Não, ninguém atrás de mim. A subestação agora não está longe daqui.

O caminho de estrelas vai girando junto com as espirais da estrada de terra que desce do Alto de Santa Quitéria, aparecendo por entre as árvores mais altas, touceiras de mato e postes de alta tensão do caminho. Sons de insetos noturnos que o chaquinam modifica para um zumbido sinuoso e diferente, som ao qual procuro não prestar muita atenção, já que ele pode encher o estado de torpor e percepção do ambiente, esvaziando todo o resto de sentido e o que é pior, provocar sérias vertigens.

Flores no caminho, campânulas noturnas que se abrem quando eu passo por elas emitindo suaves notas musicais em seqüências interessantes e diferentes de todas as músicas que já ouvi e que suavizam ainda mais a já suave caminhada dentro daquela noite inesquecível nesta cidade de Cambuquira, como eu hesitei em vir, como eu estaria errado em não estar aqui. Estou sozinho mas não solitário; tenho as estrelas para me guiar. Com elas, penso, não há como se perder nessas noites escuras de Cambuquira. Nesses pensamentos é que vou aos poucos me aproximando da encruzilhada.


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