Me lembro dos sapos minúsculos que me deram seus óculos para limpar e dou risada enquanto vou caminhando em direção da trilha da esquerda, que leva ao Vale do Sol. Atravesso o umbral da mata para dentro da escuridão e logo vem as infinitas luzes do chaquinam iluminar meu caminho, enchendo brilhos e cores luminosas estranhas cada ramo, cada galho, tronco dessas árvores do caminho.
A escuridão que "vê" ao fundo vai lenta e progressivamente se desmanchando à medida que me desloco, deixando ver apenas os brilhos. Esses mesmos que sem o chaquinam não estariam aqui, mantendo tudo em sua escuridão original e impenetrável. Na frente de uma árvore frondosa, uma barraquinha amarela na qual a árvore vendia pequenas mudas em vasos.
"Quer uma?", perguntou a árvore.
"Não, agora eu não tenho como levar. Mas você está certa. Todo mundo tem um lado para adiantar…"
Um telefone comunitário. Bem no meio da floresta. E ele toca. Vou atender. Do outro lado da linha, Romero me pede que eu não atenda a próxima ligação. Desligo e o telefone toca novamente. Cabreiro, pego uma pedra e me afasto do telefone. Atiro a pedra, acerto o fone que sai do gancho e o telefone explode em migalhas minúsculas, iluminando com um clarão de fogo toda a clareira. Assustado, acho melhor seguir caminho.
Fixo o olhar em certas direções do céu que a floresta revela quando há espaços suficientes entre as copas das árvores lá cima. Via-Láctea, nada mais. Nada mais? Isso era tudo o que eu queria! Poderia estar vendo tudo isso da Chapada dos Guimarães, mas e quanto ao astral? As companhias? Aqui, eu estou completamente só. Mas o que vejo me completa como se fosse uma turma de amigos leais. Eu não sinto falta de ninguém a meu lado. Mas o que vejo e vivencio me completa como se fosse uma turma de amigos leais. Eu não sinto falta de ninguém a meu lado nesse momento no tempo.
Ruído distante ao fundo, som que vem da amplidão mais à frente, som de algo que com toda a certeza irá passar por aqui. Paro em meio a uma revoada de discos voadores do Pixinguinha, passando velozmente rumo a um toca-discos possível daqui.
Presto atenção ao ruído. O som é um zumbido constante. Vem de longe, crescendo aos poucos. Motor? E motor de que? Alguém que segue rumo às fazendas da região, talvez. Brilho de farol mais adiante na floresta, me fazendo saber que aquilo que antes eu só podia ouvir agora posso ver. Mas não sei o que é. Um certo medo e uma certa ansiedade tomam conta. O que pode ser isso? Somente um carro? Ou somente algo mais?
Há uma pequena entrada de região de fazendas com um mata-burro à direita e ali eu paro, sem saber ao certo o que fazer em seguida. Minha própria intuição chaquinânica me diz que eu aposte num carro. Mas e se for um boitatá? A gente nunca sabe.