Acabo achando melhor seguir minha intuição e ir em frente. Os faróis surgem numa outra curva do caminho em meio ao mato, rasgando a escuridão, o rastro de luz varre o chão, iluminando as plantas rasteiras que lançam sombras alongadas em minha direção. O som do motor vem num crescendo e me traz agora um temor natural que vem da quebra do silêncio e quietude do lugar. Paro e espero à margem da estrada. Expectativa. O som do motor agora pode ser ouvido claramente.
Me pego pensando se não deveria ter virado mais atrás. Um arrepio me percorre a espinha, a luz agora está em cima, o som do motor também. Quando o carro faz a curva e eu fixo o olhar nele, é um Ford bigode luminoso, de um azul que tinge toda a floresta em sua passagem. As árvores se inclinam ao ver esse carro antigo passar e o cumprimentam com uma chuva de flores noturnas e folhas fluorescentes. O meu olhar fica preso naquela bela cena. O Ford passa por mim e sou inundado pela mesma chuva de flores noturnas e folhas fluorescentes.
"Ali, ali!", diz uma placa colocada num pequeno recanto de uma clareira mais à frente. Ela me apontava insistentemente a direção. Fui atrás de suas indicações e, atravessando um mata-burros, saí numa região de fazendas. Daí me pareceu que era só sentir a Via-Láctea e ela me mostraria um caminho equilibrado e pacífico. Parei num ponto onde o caminho se separava em dois. Uma árvore dançava à beira da estrada, uma dança imóvel com morcegos prateados que volteavam loops de velocidade incrível em torno dela. Esses morcegos desviavam-se de meu rosto, deixando um rastro prateado de estrelas em sua passagem, com tal rapidez que não sentiam o peso da inércia.
Uma outra placa pendurada naquela árvore que dançava, com o nome do bairro Congonhal, perguntou-me pela irmã que ficava no pequeno recanto da clareira pela qual eu tinha acabado de passar. Respondi que ela ia bem, sempre indicando o caminho a seguir e a irmã lamentou as saudades que sentia por não poder visitá-la.
"Aprecie o céu então, já que veio até aqui", ela disse enfim. "É sempre bonito o céu noturno. As constelações."
Concordo e me sento sobre as raízes da árvore que dança. De onde estou, posso ver os desenhos que as constelações formam no céu como se eles fossem feitos a giz. Um pedaço de giz do tamanho de Minas Gerais riscando o céu. Penso nos homens que deram a esses desenhos tão retos, nomes tão cheios de imaginação, como Máquina Pneumática, Oficina Tipográfica, Cabeleira de Berenice, Peixe Austral, Cruzeiro do Sul… Nem noto a princípio a névoa que vai se chegando, aos poucos encobrindo a minha visão até escurecer tudo.